A vontade de beleza, por Darcy Ribeiro

“Outra vertente do meu encantamento pelos índios vinha de meu assombro diante do exercício da vontade de beleza que eu via expressar-se infinitas vezes, de mil modos e formas. Aos poucos fui percebendo que as sociedades singelas guardam, entre outras características que perdemos, a de não ter despersonalizado nem mercantilizado sua produção, o que lhes permite exercer a criatividade como um ato natural da vida diária. Cada índio é um fazedor que encontra enorme prazer em fazer bem tudo o que faz. É também um usador, com plena consciência das qualidades singulares dos objetos que usa.

Quero dizer com isso, tão-somente, que a índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade. Esse trabalho a mais e esse zelo prodigioso só se explicam com o atendimento a uma necessidade imperativa, pelo cumprimento de uma determinação tão assentada na vida indígena que é inimaginável que alguém descuide dela. Aquela cesteira, que põe tanto empenho no fazimento do seu cesto, sabe que ela própria se retrata inteiramente nele. Uma vez feito, ele é seu retrato reconhecível por qualquer outra mulher na aldeia que, olhando, lerá nele, imediatamente, pela caligrafia cestária que exibe, a autoria de quem o fez.

Não havendo para os índios fronteiras entre uma categoria de coisas tidas como artísticas e outras, vistas como vulgares, eles ficam livres para criar o belo. Lá uma pessoa, ao pintar seu corpo, ao modelar um vaso, ou ao trançar um cesto, põe no seu trabalho o máximo de vontade de perfeição e um sentido de beleza só comparável com o de nossos artistas quando criam. Um índio que ganha de outro um utensílio ou adorno ganha, com ele, a expressão do ser de quem o fez. O presente estará ali, recordando sempre que aquele bom amigo existe e é capaz de fazer coisas tão lindas.

Essa compreensão importa na conclusão de que a verdadeira função que os índios esperam de tudo o que fazem é a beleza. Incidentalmente, suas belas flechas, sua preciosa cerâmica têm um valor de utilidade. Mas sua função real, vale dizer, sua forma de contribuir para a harmonia da vida coletiva e para a expressão de sua cultura, é criar beleza.”

Confissões, p. 150-160

Madonna, Tina Turner e o envelhecimento

No último dia 2 de maio, Madonna compareceu a um tapete vermelho com um modelo Givenchy e recebeu muitas críticas. Basicamente, ela foi acusada de ser velha demais para expor o seu corpo desta maneira:

E rebateu as críticas com o seguinte texto (disponibilizado por Denise Arcoverde, no Facebook):

Nós sempre lutamos e continuaremos lutando por direitos civis e gays ao redor do mundo. Quanto aos direitos das mulheres, nós ainda estamos na era das trevas. Meu vestido no MET Gala foi uma manifestação política, assim como uma manifestação fashion. O fato de algumas pessoas ainda acreditarem que uma mulher não pode expressar sua sexualidade e ser aventureira após uma certa idade é a prova de que ainda vivemos em uma sociedade etarista e sexista. Eu nunca pensei de uma forma limitada, e não vou começar agora. Nós nunca estaremos provocando mudanças, a menos que aceitemos os riscos de sermos destemidos e passarmos a percorrer a estrada menos percorrida. É assim que mudaremos a história. Se você tem algum problema com a forma como eu me vesti, isso é apenas uma reflexão do seu próprio preconceito. Eu não tenho medo de abrir caminhos para as garotas que vêm depois de mim. Assim como Nina Simone disse uma vez, a definição de liberdade é ser destemido. Se junte à minha luta pelo gênero. Igualdade!

Em primeiro lugar, quero deixar claro que endosso tudo o que está escrito acima. Madonna tem toda razão no que diz respeito ao preconceito e reivindicar, através da sua roupa, uma igualdade de gênero. Basta lembrar que ela tem a mesma idade que Brad Pitt, que nunca vi citado em lugar nenhum como homem velho e sim como sexy.

Ao mesmo tempo, tenho dificuldade de repassar e aplaudir esse texto. Um lado meu concorda e o outro se sente incomodado. Ao mesmo tempo que me parece justo, a sua preocupação fala de um caminho que temos seguido, de uma eleição de prioridades. Madonna ousa se vestir dessa forma porque ainda está “gostosa”, “com tudo em cima”. Ela discute o direito à sexualidade e beleza femininos, mas vejo também uma questão anterior e mais profunda, acima de questões de gênero. Mais profunda e mais cercada de tabus, praticamente sem defensores: o direito ao envelhecimento.

Existem, por toda internet, muitas fotos de Antes e Depois, que comparam as celebridades consigo mesmas nas versões jovens e velhas. E, quase sempre, essas comparações concluem que a pessoa está péssima, feia, velha, uma sombra do que um dia foi. Felizmente, essas comparações tem gerado revolta e é fácil concordar que não faz sentido acusar a pessoa de ser uma versão feia de si mesma vinte anos depois. Então proponho o contrário, pensar em quando um Antes e Depois é elogioso. Tina Turner é um desses casos raros:

Essencialmente, o que esse elogio quer dizer, por que Tina Turner sai “vitoriosa” no seu Antes e Depois? Um Antes e Depois elogioso nada mais é do que comemorar que a pessoa mudou pouco. Que mesmo muito mais velha, ela ainda parece com quem ela foi na juventude. Seja através de exercícios, plásticas ou genética, a passagem do tempo deixou poucas marcas visíveis na sua aparência. Digo na aparência e não no corpo porque, ao olhar essas fotos, ninguém se pergunta do preço, das dores ou da saúde. Menos ainda em mudanças de personalidade ou expressão artística. Estamos falando apenas da fachada.

Gosto de pensar que homens e mulheres têm direito à sexualidade e beleza, em qualquer idade. Mas não gosto que sexualidade e beleza estejam ligados sempre à manutenção da juventude. Ou que sexualidade e beleza tenham primazia sobre todas as outras facetas da vida. O tempo nos afasta de quem somos quando temos vinte anos, no corpo e na alma. E essa mudança só é ruim porque atualmente classificamos assim. Não discutirmos a biografia por detrás do Antes e Depois é muito revelador – não importa se o artista melhorou ou sumiu, se foi preso ou lançou disco novo, o chamariz é a feiura. Perdemos o respeito pela experiência e vemos na velhice apenas decadência. As características associadas à idade – paciência, experiência, parcimônia, sabedoria – estão desvalorizadas, então não é à toa que não queremos e não sabemos envelhecer. Em nome do ideal de aparência dos vinte anos, estamos nos encaminhando para uma cobrança de desempenho e luta constantes contra o próprio corpo. Negar a passagem do tempo é negar justamente o que há de mais básico e infalível da vida orgânica.

Belo ou não, o corpo cansa. Enruga, cai, fica mais lento, dói, demora para se recuperar. Há uma fase da vida em que os anos atrás são muito mais vastos do que os que estão pela frente, em que há muito mais o que ser relembrado do que ser sonhado. Mesmo num corpo rejuvenescido e emplasticado, quem está dentro da pele sabe que não é mais o mesmo. Que se tenha o direito de cansar, de diminuir, de envelhecer por dentro e por fora, de ser apenas o que se é. Madonna, Brad Pitt, Tina Turner, eu, você – não somos os mesmos. Eu acho bom, estranho seria se ainda fôssemos. Que os meus vinte anos não sejam meu molde físico, tal como não é o meu molde psicológico.

Achados de uma geração perdida, de Suzanne Rodriguez-Hunter

Nem todos – na verdade, apenas ele – nasceram para serem Borges. Para quem gosta de escrever, constatar isso costuma ser doloroso. Mas, ao mesmo tempo, que bom que não somos Borges, que bom que existe Kafka, Rosa, Woolf e tantas outras vozes, tantas maneiras diferentes de descrever o mundo, e cada uma interessante à sua maneira. Mais do que isso: às vezes nem é necessário ser um grande escritor para produzir um livro que valha a pena, basta a execução correta de uma boa ideia. O Achados de uma geração perdida: receitas e anedotas da Paris dos anos 20 é exatamente assim.

Eles se rebelaram contra seus pais, dançavam a som de músicas estridentes e chocantes, eram desiludidos pela guerra, flertavam com cocaína, abriram as fronteiras da liberdade sexual, cortavam os cabelos geometricamente e os pintavam com henna, adoravam arte abstrata, participavam de seitas, voavam em aviões num mundo que se tornava pequeno, dirigiam carros velozes, discutiam suas motivações inconscientes, rejeitavam o conformismo e muitos entre eles bebiam ou se drogavam em excesso.

À falta de maiores informações, poder-se-ia pensar serem eles frutos de uma explosão de natalidade, a exemplo do que ocorreu nos anos 60, mas estaríamos enganados. Na verdade, eles eram os Modernos – a primeira geração moderna. Nascidos perto da virada deste século, eles ficaram conhecidos hoje em cia para nós como a “geração perdida”. (p.18)

A proposta é muito simples: a autora pega alguém da geração perdida – nomes nada desinteressantes como Picasso, James Joyce, Ernest Hemingway, Josephine Baker, Cole Porter, entre outros -, traça um rápido perfil e conta um episódio culinário envolvendo essa pessoa. Depois, oferece a receita dos pratos citados. O resultado é uma delícia. Através de histórias prosaicas – John dos Passos de licença durante a guerra, Robert McAlmon conhece os sogros do seu casamento de fachada, o jovem Hemingway se presenteia com cerveja, salada de batata e salsinha nos tempos de dureza, Brancusi canta e dança músicas folclóricas romenas para seus convidados – conhecemos grandes nomes da geração de 20, nossos ídolos se mostram como pessoas comuns e entendemos um pouco de uma época.

Quando a chuva começou a cair pesado, alugaram um quarto de hotel, metendo-se dentro de pijamas enquanto suas roupas secavam perto da lareira. Fitzgerald, que era hipocondríaco, mesmo quando em plena forma, convenceu-se de que estava morrendo de uma congestão pulmonar. Rastejou para a cama onde ficou tomado de desespero, bebendo limonada quente e uísque. Quem, ele se perguntava preocupado, irá cuidar de Zelda e sua filha Scotty quando partisse? Começou, então, a contar a Hemingway detalhes íntimos do caso de amor de Zelda com um piloto francês. Esse tipo de descrição enojou Hemingway que, agora, arrependia-se amargamente de toda aquela viagem.

De alguma forma, Fitzgerald recuperou-se quando as roupas secaram e concordou com Hemingway de que um jantar poderia ajudá-lo em seu estado delicado. Vestiram-se e desceram as escadas. Fitzgerald pediu uma ligação telefônica para Zelda em Paris. Enquanto esperavam, os dois homens seguiram para o restaurante. Mesmo inquieto, Fitzgerald conseguiu saborear uns escargots e uma garrafa de vinho branco, antes que a ligação fosse completada. Ele sumira por quase uma hora. Hemingway comeu o resto dos escargots. (p.169-170)

Isso sem falar nas receitas. Até eu, que detesto cozinhar, fiquei com vontade de fazer a Sopa de Cebola Les Halles, um prato popular entre os boêmios, porque sustentava e era uma poucas coisas que se servia de madrugada. Tem o drink afrodisíaco de Jimmy, o barman, que “nas mulheres, tinha o efeito de fazer com que tirassem a roupa em público”. Você fica sabendo sobre o que Alice, companheira de Gertrude Stein, servia nas disputadas reuniões na casa de ambas, pode tentar repetir o que James Joyce e Silvia Beach – editora da Shakespeare e Company, futura responsável pela publicação de Ulisses – comeram assim que se conheceram… Enfim, o livro é maravilhoso. Tem em sebos. Não percam.

Uma opinião e uma história sobre arte

Os cânones artísticos estão continuamente mudando, mas na nossa época quase todas as formas de arte entraram na regra de não ter regra. É possível misturar várias referências, sem a necessidade de ser fiel a um estilo, local ou época. Não existe mais a preocupação de representar a realidade objetiva, que está cada vez mais fácil de ser capturada por celulares, filmes, videos caseiros. O artista tem liberdade total, de usar todas as formas, meios e materiais para dizer o que quer dizer. Isso, que à primeira vista parece tornar as coisas mais fáceis, levou a arte a outros desafios. Sem ter em nada pra se apoiar, cabe ao artista a decisão de cada etapa – terá nome, terá cor, terá rosto? O resultado imediato dessa aparente democracia é muita coisa que só precisa de cara de pau para se declarar arte. Coisas que não têm significado e que reivindicam um significado posterior; ou coisas que possuem apenas significado, cuja apresentação não diz absolutamente nada ao outro. Por isso muitos simplesmente desistiram de desfrutar da arte, de ir a exposições, e dizem que não entendem e não gostam. Ter feito parte dessa tentativa – a que muitos chamados de ser artista – me fez compreender que muita coisa é simplesmente ruim mesmo. Que chamar o público de burro não deixa de ser uma forma de se proteger. Pouca coisa do que está sendo produzida hoje conseguirá romper a barreira da bobagem e dirá alguma coisa ao futuro.

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O atelier funcionava de terça a sexta, em horário comercial. Por causa disso, a frequencia das pessoas era limitada àqueles que podiam pagar sem trabalhar o dia inteiro. Havia aposentados, donas de casa, pessoas que vínculos artísticos ou simplesmente recém-surtados sem saber o que fazer da vida (meu caso). Dentre essas pessoas com vários perfis, a que tinha mais dinheiro era uma senhora a quem chamarei de B.Michelin. O marido dela era muito rico, vivia viajando e a filha dele já era adulta. Sem maiores obrigações na vida, B. Michelin decidiu colocar a sua sensibilidade artística em objetos coloridos, femininos e de cores vibrantes, tais como ela mesma.
Ela não era muito boa na escultura propriamente dita, na realidade. Esculpir é um trabalho pesado. Ela não tinha noção de desenho ou de anatomia, e pra piorar tinha graves problemas de coluna. Havia, no atelier, um funcionário treinado pelo nosso professor durante anos. Esse funcionário conhecia todos os segredos da escultura e, por causa disso, fazia toda parte pesada das encomendas que nosso professor recebia. Foi o professor mesmo que nos disse, falando sobre a história da escultura, que os grandes escultores do passado não faziam tudo sozinhos. Que seria humanamente impossível produzir aqueles mármores maravilhosos da Antiguidade Clássica se não tivessem muitos escravos à disposição. Baseada nessas informações, B. Michelin se despreocupou com a parte pesada do trabalho. Ela idealizava peças e pagava o funcionário para fazer.
Um dia ela nos contou que havia contratado uma Crítica para avaliar o trabalho dela. Ela ia pagar quase mil reais (e isso foi há uns dez anos). Achamos que ela estava fazendo papel de trouxa. A Crítica foi no apartamento (no Batel, um apartamento por andar, 400m² de área privativa) de B.Michelin, e “gritava a cada peça”, achando tudo lindo e maravilhoso. Ela classificou o trabalho como Art Noveau Pop, informação essa que foi adotada para todo sempre. Dias depois, apareceu uma coluna de página inteira no Caderno de Cultura da Gazeta do Povo, descrevendo B. Michelin com a mais nova revelação artística da cidade. Quando B. Michelin participou de duas exposições de designers como destaque, uma com o prazo de inscrição já vencido, começamos a desconfiar que os trouxas éramos nós.
Na versão original desse texto, a história terminava contando que com a troca de governo essa Crítica acabou caindo, e o investimento de B. Michelin não alcançou todas as suas possibilidades. Mas aí pesquisei o site da artista, depois de tantos anos, e vi que ela tem participado de exposições em São Paulo, Londres e Nova York. Caro leitor, a trouxa sempre fui eu.

Talento

Ah, o talento! Questão que atormenta todos os que se dedicam a uma arte. Quem não se sentiu um pouquinho que seja como Salieri, o invejoso personagem de Amadeus, ao ver alguém fazer melhor e com mais facilidade alguma coisa que você ama? Existem muitas discussões sobre o talento ser algo que o indivíduo carrega puro dentro de si, ou se é conquistado. Sobre o que ninguém tem dúvida, é que o talento existe. E ele possui algumas características, que tentarei desvendar.

 

(Eu deveria ter colocado exemplos de várias expressões artísticas, mas acabei privilegiando a dança. Além de ser a forma de arte na qual estou mais envolvida, achei que ficou mais interessante assistir videos do que clicar em fotos)

Talento é diferente de técnica

… mas se beneficia com ela. É importante ressaltar isso porque já vi mais de uma pessoa que faz questão de não estudar, de não ler sobre o assunto, não ver o que os melhores da sua área fizeram com medo de que isso estrague a pureza do seu talento. Nada mais errado. De nada adianta ter uma certa facilidade e não aprimorá-la. Sem a técnica, a arte se enche de ruído, de equivocos, de coisas que precisam ser relevadas pelo expectador. Quando há muitos erros em torno, o talento fica misturado em meio às imperfeições. Um talento verdadeiro encontra na técnica um instrumento de ajuda. A perfeição técnica permite alcançar a liberdade; a única preocupação, depois disso, é conseguir se expressar.

 

 

Escolhi um video do Baryshnikov porque ele é muito técnico, com eixo e acabamentos incríveis (oito giros seguidos e termina com perfeição todas as vezes), mas também um grande intérprete. No final do video mostra dois bailarinos que estavam no palco, fazendo figuração, impressionados com o espetáculo. Mas Baryshnikov também é muito expressivo, passa uma força e masculinidade no palco que dá vontade de… ir abraçá-lo. Ele tem apenas 1,68, o que para um bailarino é uma desvantagem. Nos pas de deux, o bailarino deve ser pelo menos na altura da bailarina, que fica cerca de 10 cm maior nas pontas. Mas técnico e talentoso desse jeito, não tinha como não colocar Baryshnikov como primeiro bailarino.

Talento pode ser perdido ou estragado

Infelizmente. Talento não é algo tão abstrato assim. Ele não está imune à exagero de sexo, drogas e rock´n roll. Ele é sensível a separações, crises existenciais, tragédias pessoais. Nem todos que são talentosos quando criança conseguem crescer e se manter à altura. O talento pode sumir, pode voltar, pode nunca mais voltar. Algumas vezes o talento parece ser só um momento, como aquelas bandas de apenas um sucesso. Dá pra considerar perda de talento quando o artista vive de um sucesso passado, uma fórmula que um dia funcionou e agora é apenas repetição. De certa forma, esperamos que o artista sempre se renove, pesquise, mantenha um olhar diferente sobre o mundo e nos comunique.

Escolhi Camille Claudel por ser um dos artistas que mais me toca. Sua história trágica, cuja culpa muitos atribuem (injustamente) apenas a Rodin, tornou Camille uma dessas artistas famosas por reforçarem a idéia de artista como incompreendido. A força dessa história nos a duvidar do seu talento, se ela não é famosa apenas por causa da biografia. Mas quando olhamos os trabalhos de Camille Claudel, é impossível não se sentir comovido. Um dos meus sonhos é poder ver as peças dela pessoalmente. Nunca canso de olhar para esta peça, La Valse – a maneira como a mulher foge e se entrega, como o homem a puxa para si com força e delicadeza, o movimento envolvente de ambos. É uma pena pensar que alguém com um talento desses não encontrou todas as possibilidades que podia e que sucumbiu à própria doença.

Talento é pessoal e intransferível

Imitar alguém talentoso ou ser filho de alguém talentoso não nos torna talentosos; às vezes nem ao menos uma inspiração é possível. Em outras palavras, é como se cada obra tivesse uma personalidade, e a personalidade dos talentosos fosse inconfundível. Você pode não gostar, você pode até mesmo achar horrível e dizer que não é arte, mas você nunca será indiferente. Dentre tantas coisas que existem no campo artístico, todas tentando seu espaço e querendo dizer algo novo, a capacidade de ser inconfundível é um grande mérito. O olhar, o gesto, a forma de tratar um tema, de certa forma, nascem e morrem com a mesma pessoa.

Eu vi o quadro Jardim das Delícias de perto. Passei o dia inteiro no Museo del Prado, fiquei umas seis horas lá dentro. Saí zonza. Com o tempo, tudo vai ficando bastante parecido – óleos bem feitos, detalhes, anjos, naturezas mortas, etc. Até que eu entrei numa sala e uma tela amarela brilhava no meio dela. Me senti renovada na vontade de olhar. Era ele, o Jardim das Delícias. Com meus poucos conhecimentos de pintura, tentei analisar a estrutura do quadro, o que era centro, que recursos usou, quais as simetrias, e o quadro resistiu à tudo. Tudo nele é único. Não precisa de muito pra olhar um Bosch e saber que é um Bosch.


Talento se revela nos primeiros segundos

É como se o encanto chegasse antes mesmo da obra. Enquanto o comum precisa de muito tempo, de muita análise e que prestem atenção na dificuldade do que ele faz e no valor da proposta, o trabalho cheio de talento agrada de primeira. Ele nem ao menos precisa que o público saiba o que ele fez, tecnicamente falando. É um trabalho que agrada, que toca, que mexe com alguma coisa, mesmo que não saibamos explicar o que aconteceu.

 

Eu já vi esse video do Antonio Gades tantas vezes que já perdi a conta e verei outras tantas ao longo da minha vida. Não dura nem dois minutos. Começa com ele erguendo os braços, uma coisa tão simples que qualquer um pode imitar. Mas não com a mesma solenidade que ele. A gente o vê erguendo os braços e fica na expectativa. Existe tanta personalidade nesse gesto que ele nada tem de banal. E quando Gades começa a dançar, ele faz o que quer com a nossa atenção. Nos perdemos quando ele é rápido, ficamos hipnotizados com a precisão dos braços, um simples mover de mão parece importante.


Talento se impõe

É sempre a mesma briga: pelos melhores papéis, pelo melhor lugar no palco, pela melhor coreografia, por mais tempo no video, pelo melhor lugar da galeria. Porque existem essas divisões, coisas estratégicas que aumentam a visibilidade. Ao mesmo tempo, todos sabem que isso, por si só, não garante nada. Fazendo uma ponta, falando pouco ou nada, num cantinho, alguém com talento é capaz de se destacar. Por mais simples que seja o tema, o gesto, a proposta, uma pessoa de talento fará aquilo com uma qualidade, com uma personalidade, que chamará atenção. Ou o contrário – fará algo complicado parecer muito simples, tamanho o apuro no que faz.

 

 

Muita gente não gosta de ópera. Pra essas pessoas, é um dramalhão exagerado, comprido, com atores gritando no palco. Mesmo que você seja um desses, dê play neste video. É Maria Callas cantando Carmen. Mesmo quem não sabe o enredo da ópera, e não faça a menor idéia de quem é Maria Callas, que tipo de voz ou amplitude vocal ela tem, do porquê ela ser considerada uma das grandes, é capaz de perceber que ela é ótima. A gente ouve Callas cantar e se sente interessado, comovido. Isso é talento.

Talento é surpreendente

O talento renova. E pode renovar de duas maneiras diferentes, até mesmo opostas: uma, pela capacidade de fazer algo que ninguém jamais teria pensado. É o caso das rupturas artísticas radicais, nos novos movimento, novos temas e novas cores. Outra maneira de surpreender é dentro das próprias convenções, renovando-as. O talentoso olha para o que todos conhecem e consegue extrair um sentimento novo. Algo que era engessado, apenas uma convenção, consegue voltar ao princípio e transmitir o mesmo da primeira vez.

 

Este video virou febre na internet. Eu acompanho o programa e vi no dia em que foi passado. As razões do sucesso dele não são difíceis de entender, o video é um conto de fadas moderno: o rapaz pobre é desacreditado pelas pessoas, mas ele se mostra tão talentoso que todos são obrigados a se render diante de sua grandeza. Quando vi o John Lennon dançando, não fiquei plenamente convencida. Achei que foi um golpe de sorte, que ele só sabe fazer braço de cisne e nunca mais apresentaria algo tão bom. Depois vi ele dançando outras coreografias, nas outras etapas do programa, e me rendi. Ele tem muito talento sim e tem a capacidade de renovar o que quer que ele se proponha a dançar.

Elogio à técnica

Texto publicado em 18 de setembro de 2006, no Caminhante Diurno

Ninguém espera que uma pessoa que adora matemática redescubra tudo que existe de matemática. E também não se espera que alguém que adora curar os outros faça isso sem passar por uma faculdade de medicina. Assim como alguém que dança muito bem não se ofende quando recomendam uma escola de dança para aprimorar seus conhecimentos. Óbvio, né?

Mas quando se trata de arte, a coisa deixa de ser óbvia. As pessoas querem ser artistas geniais, espontâneos, sem nunca terem lido um livro ou feito um curso. Acham que têm um talento natural; se conhecerem as técnicas, as escolas, a história e o conhecimento que foi acumulado sobre o assunto, a “pureza” do seu talento vai se perder. Elas não querem tirar a prova, ver o quanto seu trabalho evoluiría ou não se estivessem a par do que existe – “Ah, não! Se for pra ter que procurar um curso eu deixo de fazer!”

Assim é a minha vizinha, que acha que canta Imortal igualzinho a Sandy (ugh!). Assim são várias pessoas espalhadas por comunidades de artistas no orkut, nas lojas de artesanato, nos natais em família, na academia. Eu sou uma vítima especialmente vulnerável a isso, porque sou escultora e as pessoas me procuram pra mostrar seus trabalhos. Esses dias uma amiga me mostrou suas telas, que ela fez sem entender de tintas, cor ou composição. Pra piorar, ela ainda desenha mal pra cacete. Eu juro que tentei muito, mas não consegui soltar um elogio. Nem ao menos tinha algum tom de azul bonito pra eu dizer – nossa, que tom de azul bonito.

Técnica nunca atrapalha, só ajuda. Com técnica, não é preciso redescobrir a roda. Se há um grande talento natural, ele só será aumentado com a técnica. As coisas são mais rápidas, mais fáceis, mais diretas, logo, muito mais espontâneas quando se domina a técnica. A inabilidade faz com que coisas simples sejam dificeis, com que a expressividade do trabalho fique tolhida. Aí a gente vê por aí escultores que só fazem dorso porque são incapazes de esculpir mão e cabeça. Se a pessoa realmente ama aquilo, o que custa conhecer um pouco? Na realidade, eu acho que essas pessoas têm medo de descobrir que não são assim tão geniais – o que fatalmente ocorre quando você descobre o que os outros artistas fazem por aí.