Bradbury e Murakami: dois livros e dois processos de escrita

Uma vez eu estava conversando no MSN com um psicólogo. Era o tempo do orkut e tínhamos conhecidos em comum. Foi a nossa primeira e última conversa. Eu estava falando do tempo que fui escultora. Disse a ele que o meu processo de trabalho era bastante infantil. Logo em seguida ele me deu uma patada – por isso que as pessoas não gostam de você, psicólogos – dizendo que eu me diminuía, que eu não tinha auto-estima, etc. Levei muito tempo tentando entender de onde ele havia tirado aquilo, até descobrir que foi a palavra infantil. Eu não estava me diminuindo, muito pelo contrário. Quem já tentou um trabalho criativo sabe como é duro ser adulto: racionalizar antes mesmo de começar, ter plena consciência das dificuldades, saber que não há nada sob o céu que já não tenha virado tema, enfim, colocar tanta ansiedade antes mesmo de começar que fica difícil sair do lugar.

Ray Bradbury, no seu O Zen e a arte da escrita, mostra que ele tem o processo infantil. Os seus artigos são todos apaixonados e num determinado momento ele fala que insistiram demais em dizer que o processo de escrever é difícil e é preciso ter prazer. No começo, achei que o tom grandiloquente dele fosse estilo, uma maneira de imprimir otimismo no leitor; depois, à medida que ele contou como escreve, eu me convenci que para ele é fácil mesmo. Na disciplina que ele se impôs, um conto sai em uma semana: segunda ele escreve, terça e quarta revisa, etc. Domingo as ideias fermentam. Nós os conhecemos como o sujeito que escreveu o livro que se tornou o filme Farenheit 451, mas a produção dele é enorme e inclui traduções, teatro, quadrinhos e até mesmo a construção do Epcot Center. Ele se propõe uma pergunta absurda (“e se ao invés de apagar incêndios os bombeiros o provocassem?”) e à partir daí a imaginação voa. Diante da vivacidade e imaginação incríveis desse sujeito, eu só conseguia pensar numa coisa enquanto lia: Bradbury, acho que te odeio.

Não seria maravilhoso, por exemplo, jogar longe um exemplar da Harper´s Bazaar que você folheava no dentista e se lançar sobre sua máquina de escrever com uma fúria hilária para atacar a esnobação tonta e às vezes chocante dessa revista? Há alguns anos, fiz exatamente isso. Deparei com um artigo em que os fotógrafos da Bazaar, com seu pervertido senso de igualdade, mais uma vez utilizaram nativos do bairro de Porto Rico ao lado de modelos esquálidas que posavam em benefício de mulheres ainda mais esquálidas dos melhores salões do país. As fotografias me irritaram tanto que corri, não andei, para minha máquina de escrever e escrevi Sol e sombra, a história de um velho porto-riquenho que acaba com uma tarde de trabalho de um fotógrafo da Bazaar ao se intrometer em cada foto dele de calças arriadas.

Acredito que alguns de vocês gostariam de ter feito esse trabalho. Eu me diverti muito fazendo; era o efeito redentor da vaia, do berro e da intensa gargalhada. Provavelmente, os editores da Bazaar nem ouviram falar, mas vários leitores leram e gritaram:” Da-lhe, Bazaar! Da-lhe, Bradbury!”. Não proclamo vitória, mas havia sangue em minhas luvas quando liguei para eles.

A alegria da escrita (1973)

Algumas vezes as pessoas viram pra mim e dizem que vão escrever um livro. Que com todo material que só elas têm, o livro está ali e será muito interessante. Como sabem o quanto eu amo escrever e que, mesmo assim, o desejado livro nunca sai, eu noto que há algo diferente no olhar delas quando me dizem isso. Talvez temam que eu sinta inveja ou me sinta desafiada de alguma forma. Mas é justamente o contrário: escrevam, escrevam mesmo. Porque só se as pessoas realmente sentarem e levarem a sério o processo de escrever, vão entender o que eu passo.

O Do que eu falo quando eu falo de corrida, do Murakami, à princípio pode não parecer um livro sobre escrita e acho que a maioria dos leitores o busca para ler um livro de corrida. E é, é um excelente livro de corrida; mas caso além de gostar de praticar esportes, a pessoa também goste de escrever, esse livro será um prazer duplo. Sobre Murakami, só conseguia pensar: somos o mesmo tipo de gente. Não sei ao certo o que isso significa, apenas que nós somos. Para ele, escrever e correr são uma coisa só. Primeiro, porque ele passou a correr quando decidiu virar um autor. Antes ele era dono de um bar de jazz (!) e escreveu seu primeiro livro impulsivamente e ele fez sucesso. Quando decidiu escrever, passaria a ser mais sedentário e para se manter ativo passou a correr. Escrever e correr são seu estilo de vida; as duas atividades exigem o mesmo tipo de temperamento e disciplina. As três características fundamentais do escritor seriam talento e concentração. Embora o talento seja inato, ele pondera, aqueles que persistem – tal como ele que não tinha físico de atleta e começou a correr aos trinta – podem acabar encontrando águas profundas de tanto escavarem. E as duas atividades, embora não pareça, são exaustivas:

Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro inteiro está mais próximo do trabalho braçal. Não envolve levantar peso, correr ou pular. A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que você arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo quanto parece. O processo todo – sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo fluxo da história nos trilhos – exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para o outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo o seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto da estafa.

Quatro: A maior parte do que sei sobre escrever ficção aprendi correndo todos os dias

Vida querida, de Alice Munro

Uma literatura de mulheres, feita por mulheres, para mulheres. Quando li essas reivindicações pela primeira vez, fiquei na dúvida. Claro, temos um número desproporcional de escritores homens e seus personagens de ficção masculinos. Às mulheres, na literatura e fora dela, sempre foram destinados os papéis mais secundários. A minha dúvida é se seria possível sentir a diferença entre bons personagens femininos construídos por homens de bons personagens femininos escritos por mulheres. Logo nos primeiros contos do Vida Querida, de Alice Munro, a resposta é um sonoro SIM.

Ler Munro é o prazer de ler uma literatura feminina, mesmo sem saber que diferença de sabor é essa. Talvez possamos pensar na diferença entre as duas literaturas analisando os personagens masculinos da própria Munro. Dos quatorze contos, em apenas dois os personagens principais são homens. Um deles, Trem, começa com um ex-soldado que pula de um trem para fugir não sabemos do quê, e o desenvolvimento da história é desinteressante. Ao contrário dos outros contos, achei que nesse a autora não conseguiu nos envolver e acreditar nas  motivações do personagem. O outro conto, Orgulho, parte do ponto de vista de um homem que nasceu com lábio leporino. Pelos seus questionamentos e, principalmente, pelas coisas que omite, percebemos que por conta dessa característica ele foi relegado, desde sempre, a um papel menor e assexuado. A maneira correta e pouco ambiciosa que ele leva a vida, sua amizade intensa e pura com uma mulher, seu envelhecimento muito anterior ao físico – tudo nele remete ao feminino. Em quantas mulheres não reconhecemos essas características, mulheres que foram criadas para pouco, limites em que a mulher é reduzida a um horizonte muito estreito? Me pareceu muito significativo que o único protagonista homem realmente interessante do livro seja uma outra forma de mulher, ou a forma machista como se vê uma mulher: um homem limitado, com defeito.

Meu pai, que era muito mais estimado que a minha  mãe, era um homem que acreditava em aceitar as cartas que lhe caíssem nas mãos. Minha mãe, não. Ela tinha ascendido da sua vida de menina de fazenda para se tornar professora, mas isso não era o bastante, não havia lhe dado a posição de que ela gostaria de ter na cidade. Ela estava morando no lugar errado e não tinha dinheiro, mas de qualquer maneira não estava preparada. Ela sabia jogar euchre, mas não bridge. Ficava ofendida pela visão de uma mulher fumando. Tenho a impressão de que as pessoas a achavam intrometida e excessivamente gramatical. Ela dizia coisas como “independente disso” e “deveras”. Ela soava como se tivesse nascido numa família esquisita que sempre falava dessa maneira. E não tinha. Eles não falavam assim. Lá na fazenda, as minhas tias e tios falavam como todo mundo. E eles não gostavam muito de minha mãe também. (Vozes, p.286)

Alguns contos tem momentos tão belos que chegam a doer, incompreensões e estratégias de sobrevivência tão femininas. Parece que o olhar mais familiar da autora é o infantil, que permite assistir a realidade e ao mesmo tempo entender tão pouco sobre ela. O olhar de menina nos permite conhecer mães que querem mais do que a sua classe social permite, que abandonam maridos por amores ou que se deixam dominar por eles, que se conformam com amizades e das ilusões que se engole para ter um homem; quem mais, além de uma mulher, poderia falar de mães que insistem em fazer cachinhos fora de moda, de amigas mais velhas que admiramos e só querem  ir pro baile pra dançar, da dor sem reação de ser abandonada por um homem que até ontem dizia que nos amava? A maior parte das histórias é de longa duração e mostra o efeito do tempo sobre cidades, relacionamentos e opiniões. Como todo livro de contos, uns são melhores do que os outros e notamos a persistência de certas abordagens. Mas Alice Munro vale muito a pena e faz jus à fama.

A verdadeira vida de Sebastião Knight, de Nabokov

É uma pena que Nabokov seja conhecido apenas como o autor de Lolita. Não é à toa que Humbert Humbert é um personagem delicioso, apesar de tudo; Nabokov parece ter a capacidade de deliciar o leitor no que quer que se proponha. Cumprida essa obrigação, de querer salvar Nabokov de seu mais famoso livro, que muitos nunca lerão por causa do tema, quero falar de Sebastião Knight, o livro da vez.

Ela entrou em sua vida sem bater, como se pode entrar num quarto errado devido à sua semelhança com o nosso. E lá ficou, esquecendo-se de sair e habituando-se tranquilamente às estranhas criaturas que encontrou e que passou a estimar, apesar de seu aspecto surpreendente. Não tinha nenhuma intenção especial de ser feliz ou de fazer Sebastião feliz, como tampouco tinha a menor apreensão quanto ao que poderia depois acontecer; era apenas uma questão de aceitar naturalmente a vida com Sebastião, pois a vida sem ele era muito menos imaginável do que um acampamento telúrico numa montanha lunar. É muitíssimo provável que, se ela lhe tivesse dado um filho, houvessem deslizado para o casamento, já que essa seria a maneira mais simples para os três; mas não sendo esse o caso, não lhes passou pela cabeça a ideia de se submeterem a essa branca e saudável formalidade, que talvez lhes houvesse causado satisfação, se tivessem pensado detidamente no assunto. Não havia em Sebastião nada dessa atitude preconcebida de mandar às favas os preconceitos sociais. Bem sabia ele que alardear desdém por um código moral não era senão uma espécie de presunção contrabandeada e de preconceito virado às avessas. Escolhia, habitualmente, o caminha ético mais fácil (assim como escolhia o caminho estético mais espinhoso) simplesmente porque acontecia ser esse o atalho mais curto para o fim que tinha em mente; era demasiado preguiçoso na vida cotidiana (e infatigável trabalhador em sua vida artística) para que se preocupasse com problemas criados e resolvidos por outros. (p.56-57)

A verdadeira vida de Sebastião Knight é um daqueles livros que eu, numa classificação muito pessoal, chamo de Livros sobre nada. Mas ao contrário do que possa parecer, isso é um tremendo elogio. Um livro sobre nada é aquele que, quando vamos descrever a alguém, ele pode ser resumido em poucas sentenças. Nada de grandes dramas ou viradas. No caso do A verdadeira vida, o Sebastião era um escritor que morreu jovem e seu meio irmão vai atrás de informações para escrever sua biografia. Ele tem uma surpresinha aqui e outra acolá, entra em contato com pessoas interessantes, etc. A ficção dentro da biografia fictícia torna a busca mais interessante do que os fatos. Podemos imaginar que Nabokov fala de si mesmo quando fala da dificuldade de um russo escrever em inglês, e de projetos de livros interessantes que nunca chegaremos a conhecer, porque são de Sebastião. Nos livros sobre nada, a graça está nos caminhos do autor, no talento da sua forma peculiar de escrever. Nabokov descreve de maneira deliciosa as lembranças de infância, as relações de exílio, o temperamento artístico, a escrita, o amor. Mais do que conhecer Sebastião Knight, ficamos com vontade de ser Sebastião Knight. A história se desenrola de uma maneira tão natural e cada parágrafo é tão bem escrito que – pra quem tem o hábito de colecionar citações – dá vontade de copiar o livro inteiro.

A consciência de Zeno

zenoTenho que começar A consciência de Zeno com o prefácio de outro livro (que ainda não li) de Italo Svevo, Senilidade. Nele o autor conta que seu primeiro livro, Uma vida, recebeu uma acolhida positiva de alguns críticos. Já o seu segundo livro, Senilidade, lançado seis anos depois, foi totalmente ignorado pela crítica. Como resultado, “resignei-me diante de um juízo tão unânime (não existe unanimidade mais perfeita que a do silêncio), e por vinte e cinco anos abstive-me de escrever”. Depois Svevo conta que foi o apoio de alguns poucos críticos e amigos, dentre eles James Joyce, que conseguiu trazê-lo de volta ao mundo da literatura. Quando começamos a ler Svevo, é impossível não lamentar que as coisas tenham acontecido dessa forma, pensar nos livros geniais a humanidade não perdeu por causa desses vinte e cinco anos de descrédito. Svevo é tão bom, tão deliciosamente irônico, sua forma de escrever é tão atual que… talvez tenha sido esse seu problema. Senilidade foi publicado pela primeira vez em 1848*.

Prefácio

Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica.

Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu suponha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a ideia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias.

Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!…

Doutor S.

1848 é o mesmo ano de publicação de A dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Perto de Zeno, a história de uma cortesã apaixonada nada tem de tão ousado. Com exceção do prefácio, A consciência de Zeno é todo na primeira pessoa, numa tentativa de Zeno destrinchar o próprio passado. Já começa aí a ousadia da narrativa, que como rememória não segue um rigor cronológico. Outra questão é o problema de credibilidade que se cria logo no início com o leitor: Zeno se mostra tão mentiroso e exagerado, confessando suas mentiras e nos fazendo entender que podem existir muitas outras, que se é levado a pensar que nada do que está descrito pode ter acontecido daquela forma. O mundo de Zeno gira em torno de algumas poucas figuras – Guido, Ada, Augusta, Carmen – e com nenhuma delas ele é capaz de agir conforme o que pensa. Talvez nem com o leitor. Dele só temos certeza do cinismo. Como se tudo isso não bastasse, o livro tem um grande senso de humor, pela ironia que aparece em quase todos os momentos, pelas passagens onde Zeno diz coisas que para outros seriam impensáveis. Ao mesmo tempo, nenhum desses exageros serve como desculpa ou tornam Zeno um daqueles vilões adoráveis. O leitor não entende, não aprova, lê o livro inteiro se perguntando quem é esse homem e do que ele é capaz, o que o motiva. Quando o livro chega ao fim, há uma certa forma de resposta ou de explicação. E ela não é nem um pouco edificante, ninguém se sacrifica em prol da família burguesa.

Da minha parte, tenho para comigo que ele, Svevo, era um gênio. James Joyce, independente do que escreveu, já mereceria meu respeito apenas por ter lutado para não deixar Svevo morrer no esquecimento.

* ERRATA: Como bem observou Ernani Ssó nos comentários, errei a data. Com isso errei toda comparação posterior com A Dama das Camélias… Deixarei o texto como está. É um livro extraordinário, relevem meu erro e leiam-no.

Meu primeiro Borges

Tenho um certo problema com alguns livros, geralmente os muito bons e de autores consagrados: não tenho a menor vontade de escrever sobre eles. De um lado porque não gosto da idéia de bater na mesma tecla, de me juntar à fileira dos muitos elogios. De outro, fico com receio de falar besteira. Na internet tem muita crítica profunda, inteligente e abalizada – e esse número à enésima potência de besteiras. Minha humilde contribuição para uma internet menos pior é tentar não aumentar esse número tão grande. Parafraseando Romário, eu sem publicar nada seria uma poeta.

Desse modo, eu estava determinada a fingir que não terminei o meu primeiro Borges – O aleph. Não era para ser o primeiro. Tenho na minha diminuta (por opção) biblioteca pessoal Ficções, que ensaiei ler algumas vezes. Antes de escrever isso aqui, peguei o livro para ver onde tinha parado e foi no fim do Prefácio. Veja que complicada a obra, nem passei do prefácio. E o prefácio não é nem tão longo. Lembro que esse prefácio me cansou tanto, me deixou tão confusa e tão reverente à obra de Borges que fiquei desestimulada a atacar o livro propriamente dito. Em todos os lugares é assim: análises complicadas e reverentes, elogios rasgados, invejas e comparações onde outros autores sempre saem perdendo quando comparados com Borges. Já que tinha que vestir e me armar com as armas de São Jorge antes de ler um simples livro, deixava sempre para depois.

Encontrar sem querer uma edição novinha na biblioteca me fez decidir enfrentar a fera, e fiquei totalmente encantada pela primeira história do AlephO imortal. Não era possível que tão poucas páginas pudessem conter uma reflexão tão profunda sobre o que significa a morte e o tempo. Terminei O imortal com a impressão de que não precisaria ler mais nada. Aí avancei mais no livro e começaram a aparecer citações escolásticas, lendas, guerras, geografias e detalhes. Resultado: travei. Lembrei dos muitos Borges que citaram no meu caminho, senti aflorar meu complexo de inferioridade. Eu não sou a leitora que deveria ser. Em algum lugar do caminho intelectual a qual eu estava destinada, eu falhei. Sim, eu falhei. Sou experimentada demais pra me deixar seduzir por Cinquenta tons, mas não tenho a avidez e a paciência para ler Ulisses. Gosto de ler, mas também gosto de ver vídeos de gatinhos, acompanhar séries americanas e comer pão com manteiga; se eu começo um livro e a coisa se repete, ou não sei quem está falando, porque e pra onde a coisa está indo, bocejo até lacrimejar e o abandono sem dó. Desde que comecei a abandonar livros, virei abandonadora compulsiva: conquista-me ou abandono-te. Tô nem aí se o livro é famoso.

Confessei ao Milton, meu guru literario-espiritual, que não me sentia culta o suficiente para ler Borges, que ele citava umas coisas e eu não entendi lhufas. Aí o Milton me esclareceu que é assim mesmo, que Borges cita muitas coisas, inventa outras, passa por cultíssimo e nunca sabemos direito o que é verdade ou não. Ahhhh! Então, amigo leitor, aqui está a mensagem essencial deste texto: leia Borges mesmo sem ser culto porque pode ser mentirinha dele. Leia com o mesmo desprendimento de uma criança, que não se importa de conhecer tudo, desde que seja bem contado. E é.

Sobre o livro em si, cada história é um universo. Tem desde momentos deliciosos como “manejava com fluidez e ignorância várias línguas”, como detalhes pitorescos, viagens fantásticas, reflexões profundas sobre o homem, seu sentido e o universo. Achei a narrativa econômica, mas não à maneira de um Dalton Trevisan; é que cada história diz coisas demais num espaço pequeno, coisas que outro autor levaria um livro inteiro para dizer. Finalmente entendi porquê tantos elogios, fiquei pequena diante da genialidade de O aleph. E nada mais direi, porque a minha intenção é justamente querer torná-lo mais próximo.

Ler era mais simples

Posso dizer que ano passado me converti ao calvinismo – não o calvinismo religião, e sim que passei a ser fã de Ítalo Calvino. Depois das Cosmicômicas e Cidades Invisíveis decidi deixar o blog em paz e parar de escrever sempre sobre ele – o que não significa que deixei de ler. Li Barão entre as árvores, Visconde partido ao meio e estou nas Fábulas Italianas. Teria pouco a dizer sobre esses livros sem ser repetitiva: que Ítalo Calvino é genial, que cada livro dele é um deleite, que sua imaginação parece não ter limites e que tudo é muito dinâmico e prazeroso. A leitura dele me faz sentir algo que há muito não sentia, que é o entusiasmo e a certeza de que o próximo livro será bom. Porque ser leitor não é fácil. A cada livro que eu termino um problema se inicia.

Eu lembro a maravilha que era na minha época de Coleção Vagalume, quando todos os livros valiam a pena. Uns valiam mais do que outros, mas eu sempre os terminava. O que me chamava atenção eram as histórias. Se eram imaginativas, o livro era bom. Mesmo quando ruins, quaisquer livros valiam a pena e garantiam muitas horas de privacidade e de prazer. Isso sem falar do conforto de uma série inteira para vasculhar e não ter que me preocupar de não ter o que ler. Eu pensava que leria a série toda e foi justamente quando seus livros não me agradaram mais é que o problema começou: qual o meu próximo livro? Passei a precisar vasculhar estantes, ir atrás de obras e autores clássicos, descobrir gêneros, estar atenta à indicações e tantos outros segredos para farejar um bom livro que uso até hoje.

Ao contrário da maioria, não condeno que lê Paulo Coelho ou os tons de cinza. Acho que é a semelhante à condenação que antigamente havia com quem lia quadrinhos. Hoje há todo uma cultura HQ e alguns quadrinhos são verdadeiras obras de arte; quando eu era pequena, entendia-se que quem lia quadrinho nunca conseguia evoluir como leitor, que aquilo era subcultura. Bobagem, coisa de quem não acredita no prazer de ler. Tem até a história de um amigo, que tinha um pai que era contra histórias em quadrinhos. Então quando a gente começa a citar Recruta Zero, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Riquinho e outros, ele não sabe de nada. O que meu amigo leu na infância foi A vida dos grandes estadistas, isso sim leitura que forma o caráter de uma criança.

Italo Calvino me dá essa segurança do livro bom. Esse recurso de gostar de um autor e ler tudo dele nem sempre funciona. Depois do Insustentável leveza do ser, achei que me tornaria fã do Milan Kundera. Li mais uns dois livros dele, também bem escritos, mas nada marcante. Também tentei seguir Isabel Allende, por causa do indiscutível Casa dos Espíritos. Ela realmente sabe contar histórias, mas ler dois livros seguidos sobre a família dela (O plano infinito e Paula) me deixou meio decepcionada e me perguntei se não era melhor ela abandonar essa prática de publicar um livro por ano. E por aí vai. No geral, não suporto ler muitos livros seguidos do mesmo autor. Começa a ficar repetitivo e perdemos a dimensão da sua grandeza. Por isso eu deixei um pouco de lado alguns grandes autores, cuja obra ainda quero devorar – Capote, Faulkner, Garcia Marquez, Bellow, Woolf – apenas para retomá-los sem a interferência da obra anterior.

Ler demais nos torna gourmets, nos torna chatos, nos torna exigentes. É a diferença entre provar um doce pela primeira vez e já conhecer todos os doces do mundo. Se um dia meu critério foi que a história fosse imaginativa, hoje quero personagens bens construídos, narrativa coerente, estilo próprio, ritmo, imprevisibilidade, contexto histórico… Pra piorar, além de ler, eu escrevo. Não o suficiente pra ter escrito qualquer coisa que sobreviva à sua postagem, mas o suficiente para apontar o dedo para a lua e achar que posso alguma coisa. Fico feliz em ter o Ítalo Calvino para saciar um pouco o meu vício. Ele resolveu o meu problema, por enquanto.

Experiência bolañesca

Li Noturno do Chile em dois dias, na casa do Milton. O parágrafo não tinha pausas (mas não parece Saramago) e não dava vontade de parar de ler. Terminei o livro com a certeza de que não seria capaz de falar sobre ele, quase como se fosse um segredo. Eu poderia dizer o quê, que li e não conseguia largar? O máximo que consegui pensar foi criticar a orelha do livro, da edição da Companhia das Letras, que resume e organiza o livro inteiro, ou seja, entrega com facilidade o que o leitor precisaria descobrir. Mas talvez isso não tenha importância, porque muito mais interessante do que a história é a maneira como ela se desenvolve: num turbilhão, com eventos sobrepostos, passagens do tempo ora rápidas, ora muito lentas, mas sempre muito interessante. Decidi que precisaria de um pouco mais de know how para ser capaz de escrever sobre Bolaño.

Agora estou lendo Os detetives selvagens, também da biblioteca do Milton. É um calhamaço de mais de quinhentas páginas. Esse livro tem parágrafos e as coisas acontecem de modo mais claro; por outro lado, permanece a sensação de vertigem, de que tudo pode acontecer (mas não é realismo fantástico). De onde Bolaño tirava todas essas coisas? Como é possível que esses livros sejam tão diferentes e tão parecidos? É como se a imaginação e a capacidade de Bolaño em criar e desenrolar histórias não tivesse limites. Ou seja, mais uma vez me vejo incapaz de falar sobre esse autor.

Como me falta capacidade e ao Milton sobra, só me resta indicar as críticas que ele fez a respeito de Bolaño.