Algo está muito errado. Ou muito certo.

Quando Bauman fala da liquidez das relações atuais, eu me vejo nelas. Quando a internet ainda começava a se popularizar, eu já estava aqui. Já deixei de lado muitas amizades virtuais com um simples apertar de botão, porque de alguma forma eles disseram algo que eu não gostei. Fiz sem o menor medo, e essas pessoas foram enterradas pelas muitas outras pessoas com conheci depois. Não conheço meus vizinhos, não tenho intimidade com muitas das pessoas que me encontram e sabem o meu nome. Chego no computador e me torno a Caminhante, e aqui me comporto diferente. Aqui, sou mais aberta e extrovertida do que no mundo real. Os que me lêem pela internet sabem mais da minha vida que minha própria família.

Mas o que dizer das amizades verdadeiras que fiz aqui? Das viagens com o único objetivo de conhecer amigos virtuais, pessoas de quem eu já gostava muito antes de olhar nos olhos. Acompanho virtualmente a vida desses amigos há anos, estou a par de suas mudanças sem que eles tenham que me dizer nada. Graças à internet, me relaciono com pessoas que jamais fariam parte do meu mundo, pessoas com estilos de vida tão diferentes que provavelmente não trocaríamos uma única palavra no mundo real. Quando ninguém à minha volta compartilhava dos meus gostos, na internet eu sempre encontrei quem pudesse trocar idéias comigo. Coisas que eu achava que me tornavam única ou que me pareciam incompartilháveis passaram a ser comuns. Aqui, deixei muitos complexos de lado, aprendi coisas novas e encontro calor.

As relações humanas nunca mais serão as mesmas. Bauman está certo em dizer que perdemos em constância, que as infinitas opções nos confundem, que perdemos a capacidade de nos relacionar com o que está próximo. Mas no meio de tudo isso – estranhamente – há constância, escolhas e relacionamentos.