A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

handmaid- esperma extra

Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

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A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

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* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Inveja e escolaridade na Série Napolitana, Elena Ferrante

Spoilers: sim, tem. Até o terceiro livro.

Até agora, julho de 2017, a Série Napolitana, é formada pelos seguintes livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida.

Vou me sentir produzindo um post caça níqueis, daqueles que colocam algo polêmico só para provocar a ira das pessoas, mas quem leu os livros sabe que eu tenho razão: a série napolitana é a história de uma amizade, sim, mas de uma amizade baseada em inveja e rivalidade mútuas, principalmente da parte da protagonista Lenu com relação à sua amiga Lila. Lenu diz logo no começo do primeiro livro, com todas as letras, que se aproximar de Lila foi a forma como ela conseguiu lidar com a inveja, ela se conformou com o papel secundário numa competição que estava destinada a perder. Por um lado, a inveja é explicável pelo fato de Lila ser acima da média. A facilidade de aprendizagem e as análises que faz do que lhe cai em mãos mostram que Lila tinha um QI elevado; como pessoa, é independente, corajosa, intensa, verdadeira, criativa, apta a quaisquer atividades físicas. Para completar o quadro, como se já tivesse qualidades o suficiente, quando se torna uma mulher, Lila fica linda. Outro motivo, que para mim é um dos grandes atrativos da história, é perceber que o Destino, num sadismo brincalhão, misturou os sonhos de ambas e fez com que cada visse a outra obter com facilidade o que desejava para si: a que ama estudar e se destaca por suas ideias não pode prosseguir os estudos; a romântica que adora crianças se vê sozinha por muito mais tempo do que gostaria.

Talvez por isso, ao contrário da maioria dos leitores da série, tenho no primeiro o meu livro preferido. Gosto de quando está tudo começando, quando elas são crianças com dramas pequenos num bairro violento. Gosto de torcer pela Lila menina destemida, que vence competição, que estuda sozinha e supera o conteúdo do colégio, enfrenta os meninos e parece ser capaz de qualquer coisa. Era óbvio que ela estava destinada a perder, que por mais que lesse jamais conseguiria suprir a falta de uma educação formal. Lila dizer a Lenu que ela é a sua amiga genial, que deve estudar pelas duas, foi como um plot twist pra mim. O primeiro livro tem pra mim o valor utópico do antes: antes de escolaridade, antes de papéis de gênero, antes das diferenças econômicas , enfim, antes dos papéis sociais as esmagassem – porque era apenas uma questão de tempo até que esmagassem. Se a proibição de estudar já não fosse o suficiente, ficou claro que o que aguardava Lila não era tão bom quanto ela prometia quando criança quando ela começa a chamar atenção dos homens. Excesso de beleza e inteligência numa mulher é quase como maldição rogada por bruxa. Vista como troféu pelos homens ricos do bairro e possível saída para melhorar de vida pela família, Lila se casa cedo e mal.

“Vamos, me ajude, ou vou me atrasar.”

Jamais a havia visto nua, me envergonhei. Hoje, posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar sobre seu corpo, de ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes de que Stefano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a. Naquele momento foi apenas uma tumultuosa sensação de um inconveniente necessário, uma situação em que não se pode virar o rosto para o outro lado, não se pode afastar a mão sem dar a reconhecer o próprio desconcerto, sem o declarar justo ao se retrair, sem portanto entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem está nos perturbando, sem exprimir precisamente com a recusa a violenta expressão que nos abala, de modo que você se obrigar a continuar ali, a deixar o olhar sobre os ombros de menino, sobre os seios de mamilos crispados, sobre os quadris estreitos e as nádegas rijas, sobre o sexo escuríssimo, sobre as pernas compridas, sobre os joelhos tenros, sobre os tornozelos arredondados, sobre os pés elegantes; e você finge como se não fosse nada, quando na verdade tudo está em ato, presente, ali no quarto pobre e um tanto escuro, a mobília miserável ao redor, sobre o piso irregular e manchado de água, e o coração se agita, e suas veias se inflamam.

A amiga genial/ A história do sapato, 57.

O primeiro livro da série é essencial para se apegar aos personagens, que são sempre os mesmos, como se as mudanças fossem apenas uma troca de cadeiras, onde quem ontem era vizinho, amanhã é namorado e depois se torna cunhado. O bairro, uma periferia napolitana, é mais um personagem: a vizinha que enlouquece quando se apaixona pelo marido de outra, o agiota temido por todos, a briga de fogos de artifício, os pequenos comerciantes, etc. O bairro é o berço, amado e detestado, lugar de onde se quer fugir e não se consegue, origem do dialeto que eles falam sabendo que os define e empobrece diante do (idioma) italiano. Num meio ignorante, Lenu à princípio não percebe o que a educação pode fazer por ela e sente que a vida de estudante lhe deixa em suspenso enquanto todos à sua volta estão trabalhando e casando. Mas o caminho que se abre diante dela, diferente de todos à sua volta, transforma Lenu numa arrivista e é de grande sensibilidade a maneira como ela descreve as diferenças culturais e a superação exigente de quem tenta migrar para uma classe acima daquela de onde nasceu:

Estava entre os que se esforçavam dia e noite, que obtinham ótimos resultados, que eram até tratados com simpatia e estima, mas que nunca sustentariam com postura adequada a alta qualidade daqueles estudos. Eu sempre teria medo: medo de dizer uma frase errada, de usar um tom excessivo, de estar vestida inadequadamente, de revelar sentimentos mesquinhos, de não ter pensamentos interessantes.

História do novo sobrenome/ Juventude, 106.

Entre os seus, todos que encontram Lila se dão conta de seu magnetismo, e em qualquer tarefa que se proponha – desenhar sapatos, administrar uma loja – tem um toque especial. Mas sempre numa escala pequena, doméstica, porque o mundo desprovido de educação acessível à Lila é pequeno. Por mais que se torne capaz de revolucionar e dar a volta por cima, a falta da educação formal torna Lila sempre uma pessoa “e se”.

A sinceridade é um ponto chave na série, uma sinceridade que não poupa nem a própria narradora. Ela nos mostra uma violência sem fim da periferia napolitana – que resolve os assuntos com surras e mortes, que leva uma criança a ser jogada pela janela pelo seu próprio pai, que faz com que apanhar do marido seja tão comum a ponto de ser demonstração de ombridade. Ela nos fala de um machismo profundo, arraigado em homens e mulheres, onde a própria Lila que era capaz de enfrentar um homem com o dobro do tamanho dela aceite com naturalidade ser violentada e espancada pelo marido; ou nos episódios que Lenu é bolinada por homens mais velhos, apenas porque a situação se mostrou propícia para eles. Principalmente, o livro é claro no tratamento da inveja, nos momentos que Lenu está sempre se comparando com Lila como se – nas palavras da própria Lenu – a vida de ambas fossem os dois pratos de uma balança e que para uma estar por cima a outra precisa estar por baixo. Na maior parte do tempo, Lenu se queixa dos sucessos de Lila, que está bem enquanto ela está mal; aí, quando Lenu está bem, ela vai ter com Lila ou vê algo de Lila e imediatamente se descobre não tão bem assim, porque o que Lila tem é mais intenso, ou superior, ou até mesmo é a base do aparente sucesso de Lenu. O momento mais forte desse processo, para mim, é o final do segundo livro, quando Lenu ao invés de ficar feliz com o seu primeiro romance, o compara com uma história que Lila escreveu na infância. Aí ela decide procurar Lila, que está numa situação de pobreza e subemprego assustadora. Ao interromper o trabalho da amiga com as mãos machucadas num ambiente totalmente insalubre, Lenu só consegue dizer: “Aconteceu uma coisa maravilhosa, escrevi um livro!”. E como se tudo aquilo não fosse suficiente, ao perceber que Lila se desfaz do tal livro de infância assim que fica sozinha, Lenu se reduz de novo à sua inveja – que Lila sim entendia das coisas, era superior a tudo aquilo, etc.

Há momentos que o leitor se pergunta se Lila é tão interessante ou é tudo fruto de uma mente paranoicamente invejosa. Como quando o marido de Lenu diz que achou Lila uma pessoa horrível, e ela começa a achar que ele falou aquilo para se defender do fascínio que sentiu. Quando finalmente consegue dormir com Nino, lá vai a outra perguntar se o desempenho na cama era melhor do que o da amiga. A vida adulta faz com que cada uma siga sua vida e o contato entre elas – e a consequente comparação  – perde cada vez mais o sentido. Lila passa a ser uma amiga de telefonemas esporádicos e notícias distantes. Quando Lenu passa a ter o foco da história mais para si, somos obrigados a dar razão ao que ela disse o tempo todo, ao que todos os personagens diziam: Lila é muito mais interessante, mostra mais Lila porque isto está muito comum.

Eu sou Malala, com Christina Lamb

De uma maneira ou de outra, a gente sabe que existe uma Malala antes de ler o livro e sabe que foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que ela é muçulmana e luta pela educação de meninas. Quem lê o livro quer conhecer essa história e as autoras do livro – a própria Malala e Christina Lamb – parecem ter uma profunda compreensão do que essa menina representa. Eu sou Malala oferece ao leitor uma descrição sincera e ampla, que contempla Malala no contexto da família, dos amigos e da política. De forma inteligente e interessante, Malala é colocada com uma menina por um lado comum, que gosta de arrumar o cabelo e brincar com as amigas, e por outro bastante estimulada por um pai educador, idealista e muito atuante, que oferece a sua filha muito mais do que seria esperado – ao que ela corresponde amplamente, e pai e filha se tornam representantes da mesma luta. O livro nos oferece o ponto de vista paquistanês dos ataques de onze de setembro, o crescimento do Talibã, a ambiguidade interna com os EUA e o que leva uma adolescente a  “merecer” um tiro na cabeça.

Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas da descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas no meu berço, algo reservado somente aos meninos. (p.21-22)

Também eu não queria me render. Mas nos aproximávamos do prazo determinado pelo Talibã para que as meninas deixasse de ir à escola. Como impedir 50 mil meninas de ir à escola em pleno século XXI? Eu não parava de pensar – ou desejar – que algo mudaria e que as escolas permaneceriam abertas. Mas nosso prazo estava se esgotando. Tínhamos determinado que  sinal da Khushal seria o último a parar de tocar. A sra. Maryam até mesmo se casara, para poder ficar no Swat. Sua família havia se mudado para Karachi por causa do conflito e ela não podia morar sozinha. (p. 168)

Todos recitamos surahs do Corão e uma oração especial para proteger nossos queridos lares e nossa querida escola. Então o pai de Safina colocou o pé no acelerador e lá fomos nós, do pequeno mundo de nossas rua, casa e escola rumo ao desconhecido. Não sabíamos se algum dia voltaríamos a nossa cidade. Tínhamos visto fotos de como o Exército acabara com Bajaur, numa operação contra os talibãs, e pensamos que tudo aquilo que conhecíamos seria destruído.

As ruas estavam repletas. Eu nunca as vira tão movimentadas. Havia carros por toda parte, bem como riquixás, carroças puxadas por mulas e caminhões, todos lotados de pessoas com seus pertences. Havia até mesmo motos com famílias inteiras balançando-se sobre elas. Milhares de pessoas caminhavam apenas com a roupa do corpo. Parecia que todo vale estava em fuga. Diz-se que os pachtuns descendem de uma das tribos perdidas de Israel, e meu pai comentou: “É como se fôssemos israelistas fugindo do Egito, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar”. Poucas pessoas sabiam para onde ir; a maioria apenas sabia que tinha de partir. Foi o maior êxodo da história pachtum. (p. 188-189)

Numa perspectiva mais literária, eu diria que Malala é um livro sobre perder e reconstruir o próprio lar; a perda de Malala, das outras meninas e dos paquistaneses em geral é tão profunda que é preciso construir um mundo novo, porque o lugar que amavam foi destruído pela violência, ignorância e disputas pelo poder. A história é tocante por ser muito próxima: os Yousafzai são uma família que querem nada mais do que o direito à felicidade e oferecer do melhor aos seus. Ao conhecer o contexto político, vemos os acontecimentos exteriores se avolumarem lá fora enquanto eles, pessoas comuns, nada podem fazer a respeito. Quando a violência se torna generalizada, Malala e os outros são engolidos, sua forma de viver é colocada em risco e preservar o mínimo de dignidade passa a ser um posicionamento político. Vemos as fotos da família no meio do livro, sabemos que agora eles vivem na Inglaterra, e para surpresa e choque etnocêntrico do leitor, sair do campo para ter acesso ao ápice da civilização não foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Malala já famosa e ganhadora de prêmios fala do tédio na Inglaterra, de um pai longe do que construiu, de uma mãe sem as amigas, uma escola onde não se sente amada. Há sim conforto e segurança, mas falta a cultura acolhedora, as montanhas e as flores, o pertencimento. Ser inglês ou ocidental não é o mundo ideal, o mundo ideal é um Paquistão mais justo. Como ela mesma conclui no fim do livro: “Eu sou Malala. Meu mundo mudou, eu não.”

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Amada, de Toni Morrison

Cheguei a esse livro por recomendação do Paraísos de Papel. Toni Morrison é uma escritora pouco conhecida aqui, mas ganhadora do Nobel de Literatura em 1993 e o livro Amada ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção de melhor ficção e foi considerada “a melhor obra da ficção americana dos últimos 25 anos” pelo The New York Times. Só isso já seria motivos suficiente para lê-la, e quero acrescentar outro: é mais uma dessas escritoras incríveis que mostram a força e a originalidade de uma narrativa feminina.

Antes uma introdução meio desagradável: normalmente eu não gosto de nenhum tipo de spoiler e não leio as orelhas e nem as contracapas do livros. Críticas, nem pensar. Mas eu me vi consultando a orelha logo depois do primeiro capítulo, porque não estava entendendo nada. Nunca tive dislexia, mas os nomes da mãe e filha serem curtos e com E (Sethe e Denver) me confundiram o tempo todo. É um grande livro e essa dificuldade passageira faz parte da construção dele e merece ser superada. A história gira em torno de Sethe, uma ex-escrava, que vive com sua filha numa casal mal assombrada. Os personagens que surgem na sua história – Denver, Baby Suggs, Paul D, Halle – têm em comum um passado ligado à escravidão. A pós-escravidão, a solidão e o desamparo, as tragédias pessoais – para eles a normalidade é uma necessidade nem sempre alcançada, ou que repousa numa base muito frágil. Apesar da tentativa generalizada de enterrar o passado, ele ressurge, cobra as consequências e mostra, para o leitor, o sentido mais humano do que é aparentemente inexplicável. É um livro cresce durante a leitura. Apesar da história ser sobre Sethe, sua família e o aparecimento da misteriosa personagem Amada, a grande protagonista é a Escravidão:

Paul D não responde porque ela não esperava, nem queria que ela respondesse, mas ele sabia do que ela estava falando. Ouvir aqueles pombos em Alfred, Georgia, e não ter nem o direito nem a permissão de fruir aquilo porque naquele lugar a neblina, os pombos, a luz do sol, a terra cor de cobre, a lua – tudo pertencia aos homens que tinham armas. Homens pequenos alguns, homens grandes também, todos ele era capaz de quebrar em dois como um graveto se quisesse. Homens que ele sabia que tinham a virilidade era nas armas e nem tinham vergonha de admitir que sem armas até a raposa ria deles. E esses “homens” que faziam até as raposas darem risada podiam, se você deixasse, impedir você de ouvir os pombos ou gostar do luar. Então você se protegia e amava pequeno. Escolhia as menores estrelas do céu para serem suas; deitava com a cabeça virada para ver a amada por cima da beira do fosso antes de dormir. Roubava tímidos olhares dela entre as árvores durante o acorrentamento. Hastes de grama, salamandras, aranhas, pica-paus, besouros, um reino de formigas. Qualquer coisa maior não servia. Uma mulher, um filho, um irmão – amor grande como esses arrebentava com você em Alfred, Georgia. Ele sabia exatamente do que ela estava falando: chegar a um lugar onde você podia amar qualquer coisa que quisesse – sem precisar de permissão para desejar – , bom, ora, isso era liberdade. (p. 220-221)

Esse é o ponto onde a voz feminina faz toda diferença. Muito já se escreveu sobre racismo e escravidão, sua opressão e violência, mas nunca li relatos que trazem essa escravidão tão próxima à carne. A escravidão determinando uma maneira de ser, que pinta o mundo com perspectivas pequenas e cruéis, um encolhimento pessoal que visa a diminuição de um sofrimento que sempre chega. As marcas de chicotadas nas costas, que as tornam insensíveis e desenhadas; a necessidade de não se apegar a ninguém, nem aos filhos, porque eles podem lhe ser tirados; ser visto como um objeto, mesmo quando se pertence a donos benevolentes – e ser brutalizado pelos cruéis. São descrições pungentes de dores tão grandes, dores que não pedem licença e não se preocupam com a medida da justiça. A própria Sethe pergunta: Por que não havia nada que seu cérebro se recuasse? Nenhuma miséria, nenhuma imagem odiosa detestável demais de se aceitar? Uma vez só não poderia dizer não, obrigada? Detestei e não quero mais, não? (p.103). É um livro forte, lindo e triste.

Vida querida, de Alice Munro

Uma literatura de mulheres, feita por mulheres, para mulheres. Quando li essas reivindicações pela primeira vez, fiquei na dúvida. Claro, temos um número desproporcional de escritores homens e seus personagens de ficção masculinos. Às mulheres, na literatura e fora dela, sempre foram destinados os papéis mais secundários. A minha dúvida é se seria possível sentir a diferença entre bons personagens femininos construídos por homens de bons personagens femininos escritos por mulheres. Logo nos primeiros contos do Vida Querida, de Alice Munro, a resposta é um sonoro SIM.

Ler Munro é o prazer de ler uma literatura feminina, mesmo sem saber que diferença de sabor é essa. Talvez possamos pensar na diferença entre as duas literaturas analisando os personagens masculinos da própria Munro. Dos quatorze contos, em apenas dois os personagens principais são homens. Um deles, Trem, começa com um ex-soldado que pula de um trem para fugir não sabemos do quê, e o desenvolvimento da história é desinteressante. Ao contrário dos outros contos, achei que nesse a autora não conseguiu nos envolver e acreditar nas  motivações do personagem. O outro conto, Orgulho, parte do ponto de vista de um homem que nasceu com lábio leporino. Pelos seus questionamentos e, principalmente, pelas coisas que omite, percebemos que por conta dessa característica ele foi relegado, desde sempre, a um papel menor e assexuado. A maneira correta e pouco ambiciosa que ele leva a vida, sua amizade intensa e pura com uma mulher, seu envelhecimento muito anterior ao físico – tudo nele remete ao feminino. Em quantas mulheres não reconhecemos essas características, mulheres que foram criadas para pouco, limites em que a mulher é reduzida a um horizonte muito estreito? Me pareceu muito significativo que o único protagonista homem realmente interessante do livro seja uma outra forma de mulher, ou a forma machista como se vê uma mulher: um homem limitado, com defeito.

Meu pai, que era muito mais estimado que a minha  mãe, era um homem que acreditava em aceitar as cartas que lhe caíssem nas mãos. Minha mãe, não. Ela tinha ascendido da sua vida de menina de fazenda para se tornar professora, mas isso não era o bastante, não havia lhe dado a posição de que ela gostaria de ter na cidade. Ela estava morando no lugar errado e não tinha dinheiro, mas de qualquer maneira não estava preparada. Ela sabia jogar euchre, mas não bridge. Ficava ofendida pela visão de uma mulher fumando. Tenho a impressão de que as pessoas a achavam intrometida e excessivamente gramatical. Ela dizia coisas como “independente disso” e “deveras”. Ela soava como se tivesse nascido numa família esquisita que sempre falava dessa maneira. E não tinha. Eles não falavam assim. Lá na fazenda, as minhas tias e tios falavam como todo mundo. E eles não gostavam muito de minha mãe também. (Vozes, p.286)

Alguns contos tem momentos tão belos que chegam a doer, incompreensões e estratégias de sobrevivência tão femininas. Parece que o olhar mais familiar da autora é o infantil, que permite assistir a realidade e ao mesmo tempo entender tão pouco sobre ela. O olhar de menina nos permite conhecer mães que querem mais do que a sua classe social permite, que abandonam maridos por amores ou que se deixam dominar por eles, que se conformam com amizades e das ilusões que se engole para ter um homem; quem mais, além de uma mulher, poderia falar de mães que insistem em fazer cachinhos fora de moda, de amigas mais velhas que admiramos e só querem  ir pro baile pra dançar, da dor sem reação de ser abandonada por um homem que até ontem dizia que nos amava? A maior parte das histórias é de longa duração e mostra o efeito do tempo sobre cidades, relacionamentos e opiniões. Como todo livro de contos, uns são melhores do que os outros e notamos a persistência de certas abordagens. Mas Alice Munro vale muito a pena e faz jus à fama.

Os resíduos do dia, de Kazuo Ishiguro (e um tico de Que horas ela volta?)

Ler Os resíduos do dia tem tudo a ver com o momento atual, em que o filme Que horas ela volta? será representante do Brasil no Oscar e tem constrangido os brasileiros no exterior, ao mostrarem para os estrangeiros o quanto ainda somos escravocratas. Essencialmente, ambos expõem a crueldade das relações com empregados “quase da família”. No caso do livro, na Inglaterra do século XX. Há um filme sobre esse livro, de 1993, com Anthony Hopkins no papel principal.

Durante um ou dois minutos, não fiz ideia do que meu patrão estava dizendo. Então percebi que estava fazendo alguma piada e me esforcei para sorrir como era devido, embora desconfie que algum resto de confusão, para não dizer choque, deva ter continuado visível na minha expressão.

Ao longo dos dias seguintes, porém, aprendi a não mais me surpreender com tais observações de meu patrão, e sorria do jeito certo sempre que detectava aquele tom de brincadeira em sua voz. Mesmo assim, nunca tenho muita certeza do que ele espera de mim nessas ocasiões. Talvez eu devesse rir com gosto, ou até responder com alguma observação minha. Esta última possibilidade tem me ocupado durante estes meses, e é algo que ainda me deixa indeciso. (p.24)

O livro, todo escrito em primeira pessoa, é um diário de viagem do mordomo Stevens. Estimulado pelo seu novo patrão, um americano, ele, pela primeira vez, viaja para Inglaterra sozinho de carro, e vai à busca da antiga governanta da casa, Miss Kenton. Enquanto viaja, ele reflete sobre a sua profissão, as mudanças políticas que assistiu nos salões, deixa adivinhar sua paixão por Miss Keaton e, principalmente, sobre a maneira como ser mordomo e os valores associados a essa profissão lhe são caros.

Certa tarde, para sua própria tristeza e vergonha, Mr. Charles permitiu-se ficar bêbado na companhia de dois outros hóspedes, cavalheiros que chamarei apenas de Mr. Smith e Mr. Jones, uma vez que é possível que ainda sejam lembrados em certos círculos. Depois de uma hora e tanto bebendo, os dois cavalheiros resolveram dar um passeio de carro por algumas aldeias vizinhas. O automóvel ainda era uma espécie de curiosidade à época. Convenceram Mr. Charles a acompanhá-los e, como seu chofer estava de folga naquele momento, convocaram meu pai para dirigir o carro. (….)

Porém, a atenção de Mr. Smith e Mr. Jones havia se voltado então para meu pai e, sem dúvida, entediados pela vista que o local tinha a oferecer, passaram a se divertir gritando observações desagradáveis sobre o “erro” do motorista. Mr. Charles ficou deslumbrado com a maneira como meu pai não demonstrou nenhum indício de raiva ou desconforto, continuando a dirigir com uma expressão em perfeito equilíbrio entre a dignidade pessoal e a prontidão para obsequiar. (p.48-49)

Essa é parte difícil e a maestria do livro. Na própria linguagem do mordomo e nas suas observações, percebemos seu enrijecimento pessoal, sua adesão a um papel onde a noção de “dignidade” se confunde com a capacidade de sofrer grandes humilhações sem demonstrar. Sofremos com relatos que ele mesmo não coloca como sofrimento, e sim como exemplo de grande profissionalismo. A governanta Miss Kenton, para o leitor, atua como um sopro de vida, alguém consegue olhar com crítica e afeto o que acontece à sua volta. O mordomo Stevens, tal como na empregada “parte da família” vivida pela Regina Casé, é a personificação de um sistema bem azeitado, onde os dominados compram o discurso e os valores dos seus dominadores, o que naturaliza a relação entre patrões e empregados como se fosse uma diferença de humanidade. São personagens que nos deixam sem saber se amamos ou odiamos na sua adesão; ora sofremos por eles, ora nos enraivecemos por atuarem contra seus próprios interesses. Mas, ao mesmo tempo, seu próprio descompasso com o que acontece à sua volta – “mordomos menores abandonam seus seres profissionais em prol da vida pessoal à menor oportunidade” (p.54) – sinalizam a mudança. Ainda bem. Que o desconforto de leitores e espectadores diante de antigos papéis seja o início de uma nova atitude.

Caçando carneiros, de Murakami

O problema de escrever sobre um autor consagrado, especialmente um contemporâneo, é que parece que a gente precisa se posicionar sobre ele. “Amo Murakami, acho um gênio”, ou “Murakami é um lixo, não merece o destaque que recebe”. Eu não poderia fazer nenhuma dessas afirmações depois de ler apenas um livro dele. E, torcidas à parte, não dá pra simplesmente gostar (ou desgostar) de um livro e pronto?

Eu gostei muito de Caçando Carneiros. Achei o começo meio fraco e foi num crescente de interesse. A mania de Murakami de usar metáforas me pareceu muito cansativa, como se ele não conhecesse a fluidez da própria escrita. Dá aquela sensação de – será que vou suportar centenas de páginas de metáforas? (Antes que o leitor pare, ele para). O cenário todo montado, a gente curioso para saber o que vem a seguir e “seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa” (p.11), “como se minha mão esbarrasse de repente numa parede invisível que flutua no espaço” (p. 15). Aí você fica sem saber se se detém pensando no que significa ou simplesmente passa por cima. Mas são sempre descrições bonitas e nada óbvias, é preciso reconhecer.

Agora, na cama com uma nova namorada e correndo os dedos por seus cabelos, pensei na baleia por um longo tempo.

No aquário das minhas lembranças, é sempre fim de outono. O vidro do tanque está gelado e eu visto uma malha grossa. Do outro lado da janela panorâmica da sala de exposição, o mar é escuro, cor de chumbo, as incontáveis ondas de espumante crista branca lembrando golas de renda em vestidos de meninas.

– Em que está pensando? – perguntou-me.

– Em algo muito antigo – respondi.

p.33

Como explicar? A história é conduzida de uma maneira que ela modifica o ponto de interesse a cada capítulo. Começa com uma ida ao funeral, depois vai para lembranças, um casamento desfeito, e é como se cada resposta e abrisse caminho para outra pergunta. As informações se acrescem e, ao mesmo tempo, não são suficientes. Eu lia e me perguntava até onde o autor conseguiria ir, que em algum ponto ele não conseguiria levantar questões sem revelar e ia acabar perdendo a mão (leitor metido a escritor é um saco). Mas Murakami consegue sim. O personagem principal, cujo nome nem sabemos, cria identificação com o leitor logo no início pela maneira como confessa sua banalidade. A história segue e, a cada detalhe, a banalidade é abandonada e os acontecimentos se tornam imprevisíveis. É como se o “caçar carneiros”, descoberto pela terça parte do livro, dividisse o romance em dois: na primeira parte um livro sensível, na segunda uma história de detetive bastante imaginativa. Não sei se o estranhamento é causado pela distância cultural ou o quê, sei que Murakami descreve situações que jamais passariam pela minha cabeça. Os personagens têm momentos marcantes, os fatos são engraçados, a narrativa é fluida, a gente fica com vontade de comentar com o sujeito da mesa ao lado. Li por aí que foi com Caçando carneiros que Murakami começou a chamar atenção do mundo. Deixo registrada minha concordância e entusiasmo.

Um certo probleminha com a ficção científica

Eu me animo com as minhas próprias indicações, e desde que publiquei textos a respeito, continuo lendo Nietzsche e ficção científica. Estou no 3001. Depois do 2001, li o excelente 2010. Só que, se me permitem comentar rapidamente a continuação, foi como terminar Matrix e ver Matrix 2 – já vou adiantando que não detesto Matrix 2, como parece ser o caso da maioria dos fãs. Enquanto 2001 é um livro que se arrasta no início e depois nos abre a mente e nos faz sonhar, 2010 é um livro que começa emocionante e cheio de aventuras desde o início. Mas ele é mais isso, um livro de aventuras. Parece que as continuações têm esse problema, que quebrarem a mágica dos livros/filmes que lhe deram origem. Minha teoria é que as continuações dão respostas, e interessantes mesmo são as perguntas. Depois de 2010 vem o 2061 que, conforme meu amigo Bruno que leu toda série e é fã de ficção científica me explicou, teve a data inspirada na segunda passagem do cometa Halley, que agitou tanto os anos 80 e nem deu pra ver. Foi graças ao Bruno que não parei a série ao não encontrar com 2061 na biblioteca. Parti logo para o 3001, que ignora completamente o livro anterior.

Essa introdução toda foi só pra dizer que estou no 3001. Lembram dos dois astronautas da Discovery, Poole e Bowman? HAL acerta uma nave em Poole e ele flutua pelo espaço, enquanto Bowman se vira para completar a missão, encontra o monolito e etc? Em 3001 descobrimos que Poole não morreu! Ele é reencontrado e reanimado mil anos depois. Ele encontra uma sociedade muito diferente daquela onde vivia e precisa se readaptar. Aí começa aquele enorme risco que é quando um autores de ficção científica jogam as coisas muito para o futuro. Uma coisa é falar de uma estação espacial e de uma nova, outra é imaginar a organização social. O mundo do ano 3000 imaginado por Clarke tem grandes estações espaciais, combustíveis a vácuo, naves conduzindo cometas, capacetes que leem as informações direto do nosso cérebro. Mas também há um armazenador de informações pessoais tão pequeno que tem “o tamanho de um disquete, só que mais grosso” ou comunicações unilaterais via rádio, que levam horas pra chegar.

Só que não é isso o que mais chama atenção e realmente me incomoda. São projeções do futuro que pecam pelo excesso de racionalidade. Para usar com mais conforto o tal capacete que lê informações cerebrais, todos – homens e mulheres – fazem uma depilação definitiva no couro cabeludo e usam peruca. Como várias religiões davam muitas brigas, a sociedade decidiu abandonar tudo e são apenas teístas (“acreditam não existir mais que um só deus”) ou deístas (acreditam “não haver menos que um só deus”). O consumo de carne é abandonado porque despende muitos recursos naturais e passa a ser considerado uma coisa bárbara. Acho que nem preciso mencionar que existe apenas uma única língua universal, que mistura inglês, francês, mandarim e germanismos. Muito melhor. Tão fácil fazer isso, é só juntar os maiores linguistas de mundo, criar uma língua e ensinar todo mundo, certo?

Nessas visões a humanidade consegue olhar para si mesma, abandonar suas irracionalidades sozinha e entrar em acordos que facilitem a vida de todos. Eu não consigo acreditar nisso. Não vejo acontecendo nem em confraternização de fim de ano, quanto mais em escalas mundiais. Não acredito nesse homem tão racional, não acredito no avanço tecnológico acompanhado de um “crescimento” na parte emocional e instintiva. Ao invés de me ver parecida com a humanidade de 3001, sinto um parentesco muito maior com qualquer romance do século XVI. Pega Cervantes, Balzac, Machado, Faulkner e outros e diz se aquilo não diz a verdade. O entorno pode ser diferente mas a humanidade está toda lá: paixão, ciúme, inveja, ira, vaidade, desejo de poder. A racionalidade é apenas um pedaço, e dos pequenos. O monolito ficaria decepcionado.

A odisséia de 2001 ou Somos tão pequenos

Comecei em dezembro do ano passado o livro 2001: uma odisseia no espaço, conforme o post que publiquei. Eu não vi o filme. Tentei ver três vezes, três noites seguidas. Eu lembro da nave flutuando suavemente no espaço, ao som de Danúbio Azul, e isso teve sobre mim um efeito sonífero imediato, de maneira que pulava dessa cena direto pra cama e nunca vi o que havia em seguida. A leitura ignorante me fez levar um susto quando Hal (spoiler alert vale pra um filme tão velho?) mata o astronauta. Ei, não ria! Eu tinha ouvido falar que o original da história era ter um computador mentiroso, mas eu não sabia do que ele era capaz…

Demorei tanto pra terminar o livro porque até Hal animar as coisas, achei a história bastante parada. Agora que já li tudo, vejo que não poderia ser diferente. O autor quis nos fazer entrar no universo futurista, onde tudo é tão claro, automático e, principalmente, solitário. São longas descrições de plataformas que deslizam suavemente, objetos flutuando sem peso, superfícies perfeitamente homogêneas e ações calculadas. Quase como se fosse necessário o homem se libertar da sociedade para alcançar verdades maiores. Não posso deixar de falar: apenas mesmo o machismo da época que o livro foi escrito (1968) para explicar uma estação espacial ter dois homens solitários, que tinham namoradas na Terra e conversas íntimas com elas no início da missão e que foram rareando até acabar. Por que não imaginar mulheres tão competentes quanto os homens e uma população mista de astronautas? Como disse, só com o machismo da época…

Embora as ações de Hal (até onde eu saiba) sejam a parte mais famosa do filme, o livro cresce ainda mais depois que supera esse conflito. Aqui, entra a pergunta de quem não viu o filme: será possível que imagens tenham podido transmitir o deslumbre que Clarke nos passa?  Um homem representando toda a humanidade, tendo acesso ao que apenas vislumbramos teoricamente, fazendo parte da própria Criação. É muito bonito! Me disseram que ler o livro ajuda a entender coisas que não ficaram muito claras no filme. Eu vi mais de uma referência do quanto Júlio Verne fez os leitores que lhe eram contemporâneos serem transportados para outro mundo. As pessoas ainda andavam de trem quando Verne antecipou viagens pelo céu e pelo mar. 2001 é um livro com ambição (e efeito) semelhante.

Não sei se direi alguma besteira aqui, mas acredito que toda boa ficção científica seja assim, muito mais do que apenas falar do que pretendemos que um dia exista. Há uma mística, não sei até que ponto verdadeira, em torno de todos os olhares direcionados às estrelas: a capacidade de perceber o gigantesco que nos cerca e, com isso, perceber a transitoriedade do humano. É por este caminho que o livro 2001 nos leva. Somos um acaso ou uma criação ou uma conjunção de fatores inesperada, rica, belíssima – ou, de outro ponto de vista, violenta e incontrolável. Mas, ainda assim, apenas poeira diante do universo.

Para terminar, deixo aqui um insight maravilhoso que um astrofísico nos proporciona, muito dentro do espírito do livro. É uma aula do professor Neil deGrasse (vídeo que apareceu no meu FB graças a outro professor, o Farinatti).

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