Vida querida, de Alice Munro

Uma literatura de mulheres, feita por mulheres, para mulheres. Quando li essas reivindicações pela primeira vez, fiquei na dúvida. Claro, temos um número desproporcional de escritores homens e seus personagens de ficção masculinos. Às mulheres, na literatura e fora dela, sempre foram destinados os papéis mais secundários. A minha dúvida é se seria possível sentir a diferença entre bons personagens femininos construídos por homens de bons personagens femininos escritos por mulheres. Logo nos primeiros contos do Vida Querida, de Alice Munro, a resposta é um sonoro SIM.

Ler Munro é o prazer de ler uma literatura feminina, mesmo sem saber que diferença de sabor é essa. Talvez possamos pensar na diferença entre as duas literaturas analisando os personagens masculinos da própria Munro. Dos quatorze contos, em apenas dois os personagens principais são homens. Um deles, Trem, começa com um ex-soldado que pula de um trem para fugir não sabemos do quê, e o desenvolvimento da história é desinteressante. Ao contrário dos outros contos, achei que nesse a autora não conseguiu nos envolver e acreditar nas  motivações do personagem. O outro conto, Orgulho, parte do ponto de vista de um homem que nasceu com lábio leporino. Pelos seus questionamentos e, principalmente, pelas coisas que omite, percebemos que por conta dessa característica ele foi relegado, desde sempre, a um papel menor e assexuado. A maneira correta e pouco ambiciosa que ele leva a vida, sua amizade intensa e pura com uma mulher, seu envelhecimento muito anterior ao físico – tudo nele remete ao feminino. Em quantas mulheres não reconhecemos essas características, mulheres que foram criadas para pouco, limites em que a mulher é reduzida a um horizonte muito estreito? Me pareceu muito significativo que o único protagonista homem realmente interessante do livro seja uma outra forma de mulher, ou a forma machista como se vê uma mulher: um homem limitado, com defeito.

Meu pai, que era muito mais estimado que a minha  mãe, era um homem que acreditava em aceitar as cartas que lhe caíssem nas mãos. Minha mãe, não. Ela tinha ascendido da sua vida de menina de fazenda para se tornar professora, mas isso não era o bastante, não havia lhe dado a posição de que ela gostaria de ter na cidade. Ela estava morando no lugar errado e não tinha dinheiro, mas de qualquer maneira não estava preparada. Ela sabia jogar euchre, mas não bridge. Ficava ofendida pela visão de uma mulher fumando. Tenho a impressão de que as pessoas a achavam intrometida e excessivamente gramatical. Ela dizia coisas como “independente disso” e “deveras”. Ela soava como se tivesse nascido numa família esquisita que sempre falava dessa maneira. E não tinha. Eles não falavam assim. Lá na fazenda, as minhas tias e tios falavam como todo mundo. E eles não gostavam muito de minha mãe também. (Vozes, p.286)

Alguns contos tem momentos tão belos que chegam a doer, incompreensões e estratégias de sobrevivência tão femininas. Parece que o olhar mais familiar da autora é o infantil, que permite assistir a realidade e ao mesmo tempo entender tão pouco sobre ela. O olhar de menina nos permite conhecer mães que querem mais do que a sua classe social permite, que abandonam maridos por amores ou que se deixam dominar por eles, que se conformam com amizades e das ilusões que se engole para ter um homem; quem mais, além de uma mulher, poderia falar de mães que insistem em fazer cachinhos fora de moda, de amigas mais velhas que admiramos e só querem  ir pro baile pra dançar, da dor sem reação de ser abandonada por um homem que até ontem dizia que nos amava? A maior parte das histórias é de longa duração e mostra o efeito do tempo sobre cidades, relacionamentos e opiniões. Como todo livro de contos, uns são melhores do que os outros e notamos a persistência de certas abordagens. Mas Alice Munro vale muito a pena e faz jus à fama.

Os resíduos do dia, de Kazuo Ishiguro (e um tico de Que horas ela volta?)

Ler Os resíduos do dia tem tudo a ver com o momento atual, em que o filme Que horas ela volta? será representante do Brasil no Oscar e tem constrangido os brasileiros no exterior, ao mostrarem para os estrangeiros o quanto ainda somos escravocratas. Essencialmente, ambos expõem a crueldade das relações com empregados “quase da família”. No caso do livro, na Inglaterra do século XX. Há um filme sobre esse livro, de 1993, com Anthony Hopkins no papel principal.

Durante um ou dois minutos, não fiz ideia do que meu patrão estava dizendo. Então percebi que estava fazendo alguma piada e me esforcei para sorrir como era devido, embora desconfie que algum resto de confusão, para não dizer choque, deva ter continuado visível na minha expressão.

Ao longo dos dias seguintes, porém, aprendi a não mais me surpreender com tais observações de meu patrão, e sorria do jeito certo sempre que detectava aquele tom de brincadeira em sua voz. Mesmo assim, nunca tenho muita certeza do que ele espera de mim nessas ocasiões. Talvez eu devesse rir com gosto, ou até responder com alguma observação minha. Esta última possibilidade tem me ocupado durante estes meses, e é algo que ainda me deixa indeciso. (p.24)

O livro, todo escrito em primeira pessoa, é um diário de viagem do mordomo Stevens. Estimulado pelo seu novo patrão, um americano, ele, pela primeira vez, viaja para Inglaterra sozinho de carro, e vai à busca da antiga governanta da casa, Miss Kenton. Enquanto viaja, ele reflete sobre a sua profissão, as mudanças políticas que assistiu nos salões, deixa adivinhar sua paixão por Miss Keaton e, principalmente, sobre a maneira como ser mordomo e os valores associados a essa profissão lhe são caros.

Certa tarde, para sua própria tristeza e vergonha, Mr. Charles permitiu-se ficar bêbado na companhia de dois outros hóspedes, cavalheiros que chamarei apenas de Mr. Smith e Mr. Jones, uma vez que é possível que ainda sejam lembrados em certos círculos. Depois de uma hora e tanto bebendo, os dois cavalheiros resolveram dar um passeio de carro por algumas aldeias vizinhas. O automóvel ainda era uma espécie de curiosidade à época. Convenceram Mr. Charles a acompanhá-los e, como seu chofer estava de folga naquele momento, convocaram meu pai para dirigir o carro. (….)

Porém, a atenção de Mr. Smith e Mr. Jones havia se voltado então para meu pai e, sem dúvida, entediados pela vista que o local tinha a oferecer, passaram a se divertir gritando observações desagradáveis sobre o “erro” do motorista. Mr. Charles ficou deslumbrado com a maneira como meu pai não demonstrou nenhum indício de raiva ou desconforto, continuando a dirigir com uma expressão em perfeito equilíbrio entre a dignidade pessoal e a prontidão para obsequiar. (p.48-49)

Essa é parte difícil e a maestria do livro. Na própria linguagem do mordomo e nas suas observações, percebemos seu enrijecimento pessoal, sua adesão a um papel onde a noção de “dignidade” se confunde com a capacidade de sofrer grandes humilhações sem demonstrar. Sofremos com relatos que ele mesmo não coloca como sofrimento, e sim como exemplo de grande profissionalismo. A governanta Miss Kenton, para o leitor, atua como um sopro de vida, alguém consegue olhar com crítica e afeto o que acontece à sua volta. O mordomo Stevens, tal como na empregada “parte da família” vivida pela Regina Casé, é a personificação de um sistema bem azeitado, onde os dominados compram o discurso e os valores dos seus dominadores, o que naturaliza a relação entre patrões e empregados como se fosse uma diferença de humanidade. São personagens que nos deixam sem saber se amamos ou odiamos na sua adesão; ora sofremos por eles, ora nos enraivecemos por atuarem contra seus próprios interesses. Mas, ao mesmo tempo, seu próprio descompasso com o que acontece à sua volta – “mordomos menores abandonam seus seres profissionais em prol da vida pessoal à menor oportunidade” (p.54) – sinalizam a mudança. Ainda bem. Que o desconforto de leitores e espectadores diante de antigos papéis seja o início de uma nova atitude.

Caçando carneiros, de Murakami

O problema de escrever sobre um autor consagrado, especialmente um contemporâneo, é que parece que a gente precisa se posicionar sobre ele. “Amo Murakami, acho um gênio”, ou “Murakami é um lixo, não merece o destaque que recebe”. Eu não poderia fazer nenhuma dessas afirmações depois de ler apenas um livro dele. E, torcidas à parte, não dá pra simplesmente gostar (ou desgostar) de um livro e pronto?

Eu gostei muito de Caçando Carneiros. Achei o começo meio fraco e foi num crescente de interesse. A mania de Murakami de usar metáforas me pareceu muito cansativa, como se ele não conhecesse a fluidez da própria escrita. Dá aquela sensação de – será que vou suportar centenas de páginas de metáforas? (Antes que o leitor pare, ele para). O cenário todo montado, a gente curioso para saber o que vem a seguir e “seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa” (p.11), “como se minha mão esbarrasse de repente numa parede invisível que flutua no espaço” (p. 15). Aí você fica sem saber se se detém pensando no que significa ou simplesmente passa por cima. Mas são sempre descrições bonitas e nada óbvias, é preciso reconhecer.

Agora, na cama com uma nova namorada e correndo os dedos por seus cabelos, pensei na baleia por um longo tempo.

No aquário das minhas lembranças, é sempre fim de outono. O vidro do tanque está gelado e eu visto uma malha grossa. Do outro lado da janela panorâmica da sala de exposição, o mar é escuro, cor de chumbo, as incontáveis ondas de espumante crista branca lembrando golas de renda em vestidos de meninas.

– Em que está pensando? – perguntou-me.

– Em algo muito antigo – respondi.

p.33

Como explicar? A história é conduzida de uma maneira que ela modifica o ponto de interesse a cada capítulo. Começa com uma ida ao funeral, depois vai para lembranças, um casamento desfeito, e é como se cada resposta e abrisse caminho para outra pergunta. As informações se acrescem e, ao mesmo tempo, não são suficientes. Eu lia e me perguntava até onde o autor conseguiria ir, que em algum ponto ele não conseguiria levantar questões sem revelar e ia acabar perdendo a mão (leitor metido a escritor é um saco). Mas Murakami consegue sim. O personagem principal, cujo nome nem sabemos, cria identificação com o leitor logo no início pela maneira como confessa sua banalidade. A história segue e, a cada detalhe, a banalidade é abandonada e os acontecimentos se tornam imprevisíveis. É como se o “caçar carneiros”, descoberto pela terça parte do livro, dividisse o romance em dois: na primeira parte um livro sensível, na segunda uma história de detetive bastante imaginativa. Não sei se o estranhamento é causado pela distância cultural ou o quê, sei que Murakami descreve situações que jamais passariam pela minha cabeça. Os personagens têm momentos marcantes, os fatos são engraçados, a narrativa é fluida, a gente fica com vontade de comentar com o sujeito da mesa ao lado. Li por aí que foi com Caçando carneiros que Murakami começou a chamar atenção do mundo. Deixo registrada minha concordância e entusiasmo.

Um certo probleminha com a ficção científica

Eu me animo com as minhas próprias indicações, e desde que publiquei textos a respeito, continuo lendo Nietzsche e ficção científica. Estou no 3001. Depois do 2001, li o excelente 2010. Só que, se me permitem comentar rapidamente a continuação, foi como terminar Matrix e ver Matrix 2 – já vou adiantando que não detesto Matrix 2, como parece ser o caso da maioria dos fãs. Enquanto 2001 é um livro que se arrasta no início e depois nos abre a mente e nos faz sonhar, 2010 é um livro que começa emocionante e cheio de aventuras desde o início. Mas ele é mais isso, um livro de aventuras. Parece que as continuações têm esse problema, que quebrarem a mágica dos livros/filmes que lhe deram origem. Minha teoria é que as continuações dão respostas, e interessantes mesmo são as perguntas. Depois de 2010 vem o 2061 que, conforme meu amigo Bruno que leu toda série e é fã de ficção científica me explicou, teve a data inspirada na segunda passagem do cometa Halley, que agitou tanto os anos 80 e nem deu pra ver. Foi graças ao Bruno que não parei a série ao não encontrar com 2061 na biblioteca. Parti logo para o 3001, que ignora completamente o livro anterior.

Essa introdução toda foi só pra dizer que estou no 3001. Lembram dos dois astronautas da Discovery, Poole e Bowman? HAL acerta uma nave em Poole e ele flutua pelo espaço, enquanto Bowman se vira para completar a missão, encontra o monolito e etc? Em 3001 descobrimos que Poole não morreu! Ele é reencontrado e reanimado mil anos depois. Ele encontra uma sociedade muito diferente daquela onde vivia e precisa se readaptar. Aí começa aquele enorme risco que é quando um autores de ficção científica jogam as coisas muito para o futuro. Uma coisa é falar de uma estação espacial e de uma nova, outra é imaginar a organização social. O mundo do ano 3000 imaginado por Clarke tem grandes estações espaciais, combustíveis a vácuo, naves conduzindo cometas, capacetes que leem as informações direto do nosso cérebro. Mas também há um armazenador de informações pessoais tão pequeno que tem “o tamanho de um disquete, só que mais grosso” ou comunicações unilaterais via rádio, que levam horas pra chegar.

Só que não é isso o que mais chama atenção e realmente me incomoda. São projeções do futuro que pecam pelo excesso de racionalidade. Para usar com mais conforto o tal capacete que lê informações cerebrais, todos – homens e mulheres – fazem uma depilação definitiva no couro cabeludo e usam peruca. Como várias religiões davam muitas brigas, a sociedade decidiu abandonar tudo e são apenas teístas (“acreditam não existir mais que um só deus”) ou deístas (acreditam “não haver menos que um só deus”). O consumo de carne é abandonado porque despende muitos recursos naturais e passa a ser considerado uma coisa bárbara. Acho que nem preciso mencionar que existe apenas uma única língua universal, que mistura inglês, francês, mandarim e germanismos. Muito melhor. Tão fácil fazer isso, é só juntar os maiores linguistas de mundo, criar uma língua e ensinar todo mundo, certo?

Nessas visões a humanidade consegue olhar para si mesma, abandonar suas irracionalidades sozinha e entrar em acordos que facilitem a vida de todos. Eu não consigo acreditar nisso. Não vejo acontecendo nem em confraternização de fim de ano, quanto mais em escalas mundiais. Não acredito nesse homem tão racional, não acredito no avanço tecnológico acompanhado de um “crescimento” na parte emocional e instintiva. Ao invés de me ver parecida com a humanidade de 3001, sinto um parentesco muito maior com qualquer romance do século XVI. Pega Cervantes, Balzac, Machado, Faulkner e outros e diz se aquilo não diz a verdade. O entorno pode ser diferente mas a humanidade está toda lá: paixão, ciúme, inveja, ira, vaidade, desejo de poder. A racionalidade é apenas um pedaço, e dos pequenos. O monolito ficaria decepcionado.

A odisséia de 2001 ou Somos tão pequenos

Comecei em dezembro do ano passado o livro 2001: uma odisseia no espaço, conforme o post que publiquei. Eu não vi o filme. Tentei ver três vezes, três noites seguidas. Eu lembro da nave flutuando suavemente no espaço, ao som de Danúbio Azul, e isso teve sobre mim um efeito sonífero imediato, de maneira que pulava dessa cena direto pra cama e nunca vi o que havia em seguida. A leitura ignorante me fez levar um susto quando Hal (spoiler alert vale pra um filme tão velho?) mata o astronauta. Ei, não ria! Eu tinha ouvido falar que o original da história era ter um computador mentiroso, mas eu não sabia do que ele era capaz…

Demorei tanto pra terminar o livro porque até Hal animar as coisas, achei a história bastante parada. Agora que já li tudo, vejo que não poderia ser diferente. O autor quis nos fazer entrar no universo futurista, onde tudo é tão claro, automático e, principalmente, solitário. São longas descrições de plataformas que deslizam suavemente, objetos flutuando sem peso, superfícies perfeitamente homogêneas e ações calculadas. Quase como se fosse necessário o homem se libertar da sociedade para alcançar verdades maiores. Não posso deixar de falar: apenas mesmo o machismo da época que o livro foi escrito (1968) para explicar uma estação espacial ter dois homens solitários, que tinham namoradas na Terra e conversas íntimas com elas no início da missão e que foram rareando até acabar. Por que não imaginar mulheres tão competentes quanto os homens e uma população mista de astronautas? Como disse, só com o machismo da época…

Embora as ações de Hal (até onde eu saiba) sejam a parte mais famosa do filme, o livro cresce ainda mais depois que supera esse conflito. Aqui, entra a pergunta de quem não viu o filme: será possível que imagens tenham podido transmitir o deslumbre que Clarke nos passa?  Um homem representando toda a humanidade, tendo acesso ao que apenas vislumbramos teoricamente, fazendo parte da própria Criação. É muito bonito! Me disseram que ler o livro ajuda a entender coisas que não ficaram muito claras no filme. Eu vi mais de uma referência do quanto Júlio Verne fez os leitores que lhe eram contemporâneos serem transportados para outro mundo. As pessoas ainda andavam de trem quando Verne antecipou viagens pelo céu e pelo mar. 2001 é um livro com ambição (e efeito) semelhante.

Não sei se direi alguma besteira aqui, mas acredito que toda boa ficção científica seja assim, muito mais do que apenas falar do que pretendemos que um dia exista. Há uma mística, não sei até que ponto verdadeira, em torno de todos os olhares direcionados às estrelas: a capacidade de perceber o gigantesco que nos cerca e, com isso, perceber a transitoriedade do humano. É por este caminho que o livro 2001 nos leva. Somos um acaso ou uma criação ou uma conjunção de fatores inesperada, rica, belíssima – ou, de outro ponto de vista, violenta e incontrolável. Mas, ainda assim, apenas poeira diante do universo.

Para terminar, deixo aqui um insight maravilhoso que um astrofísico nos proporciona, muito dentro do espírito do livro. É uma aula do professor Neil deGrasse (vídeo que apareceu no meu FB graças a outro professor, o Farinatti).

Imagem de Amostra do You Tube

Coisas frágeis, de Neil Gaiman

Fico dividida em escrever sobre Coisas frágeis. Peguei por causa do autor, que dispensa apresentações quando o assunto é HQ. Uma amiga havia me enviado a versão dele do conto da Bela Adormecida, que é tão terrível quanto definitiva, a melhor versão que eu já li. Então, a minha expectativa era alta ao pegar esse livro. São, como definiu o próprio autor, uma reunião de contos bastante diferentes. Mudam a forma de narrar, os personagens e os temas.

Ela tem o sonho de novo naquela noite.

No sonho, ela está de pé, com seus irmãos e sua irmã, à margem do campo de batalha. É verão, e a grama tem um tom peculiarmente viçoso de verdade: um verde saudável, como um campo de críquete ou a encosta convidativa dos South Downs, para o norte, vindo do litoral. Há cadáveres na grama. Nenhum deles é humano: ela pode ver um centauro, com a garganta cortada, no chão, ali perto. A metade cavalo é de um castanho vivo. Sua pele humana está torrada pelo sol. Ela olha fixamente para o pênis do cavalo, pensando nos centauros se acasalando, e imagina um beijo daquele rosto barbado. Seus olhos correm para a garganta cortada e a poça vermelho-escura ao redor, e ela sente um calafrio.

Moscas voam em volta dos corpos.

As flores silvestres misturam-se à grama. Desabrocharam de ontem pela primeira vez em… quanto tempo? Cem anos? Mil? Cem mil? Ela não sabe.

Tudo isto era neve, ela pensa, olhando para o campo de batalha.

Ontem, tudo isso era neve. Sempre inverno e nunca Natal.

O problema de Susan, p.96

Como dizer? Por ser um autor bastante badalado numa área que não é propriamente a dele, dizer que o livro é ruim parece ser o prazer de ser do contra, de fustigar os fãs e demonstrar uma certa mágoa do espaço e publicidade pelo nome famoso. É dizer: se fosse desconhecido, quem sabe nem fosse publicado, e se publicado, certamente não seria um sucesso. Não serei radical a ponto de dizer que o livro é ruim, porque não é. Ao mesmo tempo, realmente não consigo compartilhar do entusiasmo dos fãs. As histórias são imaginativas, bastante visuais, com uma dose de fantasia meio terror, omissões e interrupções bruscas que deixam as conclusões no ar. Mas pra qualquer um dos recursos utilizados, consigo pensar meia dúzia de autores que fazem ou fizeram muito melhor. Há histórias mais bem acabadas, há surpresas mais surpreendentes, há interrupções, etc. Enfim, é bem feito mas não me conquistou. Mas acho que seria um bom livro para leitores não-aficionados.

Gabriela, cravo e canela

gabriela-cravo-e-canela-jorge-amadoEu não vi nenhuma das três novelas e não vi o filme. Muito menos me interessei pela  minissérie, com Juliana Paes no papel título e Humberto Martins como Nacib. Mas eu achava que sabia tudo sobre Gabriela. Ela era Sonia Braga pendurada no telhado pra pegar uma pipa, despreocupada com a calcinha à mostra e os homens babando embaixo. Era um livro sobre uma mulher que enlouquecia os homens na machista Ilhéus. Se quisesse saber mais detalhes, bastava assistir o filme na íntegra no youtube.

Assisti uma palestra em que uma tradutora se queixava de que as pessoas não se davam mais ao trabalho de ler alguns clássicos infantis no original por causa dos desenhos da Disney. Se há uma adaptação Disney, supõe-se que já está tudo lá e a história está esgotada. E nem sempre – e ela alertou com exemplos muito interessantes do Pinóquio – o espírito da obra se mantém, tamanhas adaptações. Tenho a impressão de que Jorge Amado sofre do mesmo mal.

Muita coisa recordava ainda o velho Ilhéus de antes. Não o do tempo dos engenhos, das pobres plantações de café, dos senhores nobres, dos negros escravos, da casa ilustre dos Ávilas. Desse passado remoto sobravam apenas vagas lembranças, só mesmo o Doutor se preocupava com ele. Eram os aspectos de um passado recente, do tempo das grandes lutas pela conquista da terra. Depois que os padres jesuítas haviam trazido as primeiras mudas de cacau. Quando os homens, chegados em busca de fortuna, atiraram-se para as matas e disputaram, na boca das repetições e dos parabéluns, a posse de cada palmo de terra. Quando os Badarós, os Oliveiras, os Braz Damásio, os Teodoros das Baraúnas, outros muitos, atravessaram os caminhos, abriam picadas, à frente dos jagunços, nos encontros mortais. Quando as matas foram derrubadas e os pés de cacau plantados sobre cadáveres e sangue. Quando o caxixe reinou, a justiça posta a serviço dos interesses dos conquistadores de terra, quando cada grande árvore escondia um atirador na tocaia, esperando sua vítima. Era esse passado que ainda estava presente em detalhes da vida da cidade e nos hábitos do povo. Desaparecendo aos poucos, cedendo lugar às inovações, a recentes costumes. Mas não sem resistência, sobretudo no que se referia a hábitos, transformados pelo tempo quase em leis.

p.25

Tive com Jorge Amado o mesmo problema que tive com Virginia Woolf, após ler Orlando. Orlando para mim era um livro tão perfeito, que durante muitos anos me recusei a ler qualquer outra coisa de Woolf, acreditando que a decepção era inevitável. No caso de Jorge Amado, o livro que me deixou assim foi Dona Flor e seus dois maridos. Também demorei a ler esse livro por causa das imagens conhecidas, da Sonia Braga, da mão na bunda na saída da igreja, acompanhada de Zé Wilker nu. Eu me surpreendi, em Dona Flor, com um livro sensível, sobre amor e casamento, sobre o que é necessário e a busca pela felicidade. Um livro com uma personagem feminina forte, doce e séria, ao mesmo tempo que sensual e apaixonada. Temi encontrar em outra obra de Jorge Amado apenas uma repetição dos mesmos temas. O que eu não poderia imaginar é o quanto Gabriela vai além da sensibilidade de Dona Flor. Gabriela tem muitas tramas paralelas, todas interessantes. Além disso, nos faz conhecer até um pouco da história do Brasil, ao descrever mentalidades e costumes da época (será que apenas daquela época?)

, claro, o amor de Nacib e Gabriela. Há ali uma história de amor, a busca de um encaixe de indivíduos e expectativas diferentes. Gabriela é toda instinto, felicidade e prazer, alguém difícil de se identificar. Já Nacib é um personagem adorável; é a personificação do homem que vive e sofre as exigências da masculinidade. Como estrangeiro, e simbolicamente podemos pensar que um estrangeiro é sempre alguém fora do lugar, que não pertence por inteiro aos valores de onde está. Um lado de Nacib atende ao que se espera de um homem, com sua ambição, suas paixões e seu horror à infidelidade feminina. Por outro, o apego que ele tem às coisas simples da vida, ao comer bem e dormir, as fofocas do bar, o carinho dos amigos e, sobretudo, ao seu imenso coração, fazem de Nacib um crítico. Mesmo que não diga, ele reconhece o direito à busca da felicidade, mesmo às mulheres, e se compadece de todo aquele que sofre nessa busca. Nacib é um homem que tenta ser como se espera dele e nem sempre consegue. E é justamente esse desajuste que faz de Nacib querido e acertado. Ele consegue resolver sua situação de forma muito melhor que Jesuíno, o fazendeiro que que mata sua esposa Sinhazinha e seu amante, Osmundo, logo no início da trama.

É com essa morte que o livro começa e termina, como se a história de Jesuíno e Sinhazinha fosse madrinha do amor de Nacib e Gabriela. O contraste entre as duas histórias e a maneira como seus protagonistas as resolvem, representa um processo maior, que de certa forma é também o tema do livro: o progresso de Ilhéus. No agitado ano de 1925, de safra recorde, Ilhéus vive intensamente a mudança. Na política, ela motivada pelo embate de Mudinho Falcão e Ramiro Bastos; o primeiro buscando o progresso e o outro, pioneiro na construção de Ilhéus que luta pela manutenção do status quo. Vemos uma cidade que quer expandir seu porto, abre clubes, funda jornais, recebe artistas, realiza saraus e, ao mesmo tempo, ainda resolve as coisas com jagunços, ameaças, tiros, surras. Nas relações entre os gêneros, Malvina, a filha do coronel Melk, representa a mudança feminina, que quer mais do que os papéis que lhe são tradicionalmente reservados: esposa, que tem seus direitos e deveres ligados ao lar; concubina, sustentada por homens ricos e também devedoras a eles; e as livres e marginalizadas prostitutas. Malvina, escolarizada e inteligente, quer ser livre num sentido profundo, e não apenas à serviço do homem que a sustenta. Para resolver esse conflito, ela é obrigada a se retirar. Mas os que ficam, como Josué e Glória e o próprio casal Nacib e Gabriela, mostram que a ainda há espaço para negociação; eles se tornam pioneiros de uma maneira nova (e um pouco mais aberta) de se relacionar.

A maior riqueza do livro está, a meu ver, na maneira como somos conduzidos a acompanhar mudanças sociais profundas do ponto de vista no seu dia a dia. São personagens, pessoas comuns, que na busca pelos seus interesses, modificam o lugar onde vivem e o influenciam. Eles agem conforme suas bases culturais e os costumes que os cercam, ora cedendo, ora negociando. No fim daquele ano – ano de Gabriela, ano de Mudinho Falcão, ano do porto de Ilhéus, um ano definitivo – muitas coisas acontecem. E mesmo as que aparentemente voltaram pro seu lugar estão diferentes, mais modernas.

O longo adeus

chandlerO gênero policial, de cara, não me interessou. Eu li muita Agatha Christie na minha adolescência, até cansar. O nome Philip Marlowe não me era estranho, por causa do Ernani Ssó. O fato de ser uma edição de bolso ajudava. Peguei porque a contracapa informava que O longo adeus era um dos maiores romances da literatura americana de todos os tempos. O superlativo, por mais que não fosse merecido, indicava um clássico. E clássicos sempre valem a pena, nem que seja para dizer que não gostou.

Se eu nunca havia lido Chandler ou Marlowe, como é que antecipadamente eu sabia que, por ser detetive, ele era um sujeito durão, solitário, um certo charme, cigarro no canto da boca, que apanha mas não se dobra, bebida alcoólica a qualquer hora do dia? E que ele tem suas conexões, uma relação pouco harmoniosa tanta com a polícia quanto com os bandidos, um escritório vazio e meio abandonado, não trabalha por dinheiro e sim por um sentido de honra bastante particular? Mais: como eu poderia antecipar as comparações interessantes, o humor e até mesmo a loira sedutora com culpa no cartório e que procura nosso herói para ajudar a encontrar seu marido desaparecido? Pior ainda: pra que ler Chandler e não os muitos que vieram depois, como Columbus ou até mesmo Ed Mort, depois de perceber tudo isso? Porque Chandler não é qualquer porcaria, ele não é qualquer um. Ele é o pai do gênero. Todos detetives particulares pé rapados são tributários a Marlowe. E tanta gente teve vontade de escrever detetives assim porque Chandler o faz com baita estilo:

Existem loiras e loiras, e isto é quase uma piada hoje em dia. Todas as loiras têm pontos em comum, exceto talvez as loiras metálicas que são tão loiras quanto um zulu embranquecido e com uma disposição tão macia quanto uma calçada. Há a loira pequena e engraçadinha, que anda perto do chão e ri agitada, a loira grande como uma estátua, que nos abraça com um simples olhar azul-gelado. Há a loira que nos dá uma olhada de alto a baixo e cheira bem que é uma beleza, brilha e se dependura no seu braço e está sempre muito, muito cansada quando você a leva pra casa. Ela fez um gesto desamparado e tem uma dor de cabeça danada e você tem vontade de bater nela e só não bate porque no fundo está satisfeito de ter descoberto da dor de cabeça antes de investir tempo, dinheiro e esperanças demais nela. Porque esta dor de cabeça via sempre existir, uma arma que nunca falha e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia.

Existe a macia e alcóolica loira que está a fim e não se importa com a roupas que veste desde que seja mink, ou para onde vai desde que seja para o Starlight Roof, onde tem champanha seco à beça. Existe a pequena e viva loira, que faz questão de pagar sua parte e vive cheia de raios de sol, bom senso, e sabe lutar judô, e pode puxar um chofer de caminhão por cima do ombro sem perder mais que uma linha do editorial do Saturday Review. Há a loira pálida com anemia de algum tipo não fatal mas incurável. É bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, você não está a fim, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard – ou então está estudando provençal. Ela adora música e quando a Filarmônica de Nova Iorque toca Hindemith é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto compasso depois. Ouvi falar que Toscanini também consegue fazer isso. São dois, portanto.

E por último existe aquela maravilha que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns milionários, um milhão por cabeça, e termina a vida com uma villa rosa-pálido em Cap d´Antibes, um Alfa-Romeo equipado com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo.

Essa é outra vantagem de se ler os clássicos: chegar na fonte, entender como e porquê tudo começou.

Expectativas, rejeição e sabedoria em Tyrion, um Lannister com defeito

Ser o que se espera – só não digo que é uma sensação deliciosa porque só nos apercebemos dela quando perdemos. Um exemplo muito simples é a experiência de estar usando uma roupa inadequada numa festa. Ficamos subitamente cônscios dos nossos gestos, das nossas diferenças, dos olhares. Estar errado em algum momento é um desconforto simples, e ele nos ocorre muitas vezes durante a vida. Fazemos de tudo para evitá-lo: procuramos saber quais são as roupas, quem estará lá, o que se faz naquela situação, que pessoas estarão. Sondamos o terreno, procuramos conhecer as regras. Há graus diferentes de desconforto – se estar com o traje de festa errado é ruim, imagine qual a sensação de ter nascido no sexualidade “errada”, ou no corpo errado. Essas coisas são possíveis porque sentimos que existe uma distância entre quem somos e o que os outros buscam ao nos olhar. Todos julgamos e somos julgados, atuamos o tempo todo, de maneira consciente e inconsciente. O descompasso entre o que somos e o que deveríamos ser nos obriga a buscar soluções. É normal tentar se encaixar; nem sempre é possível. Mais: nem sempre é desejável.

(Contém spoilers da primeira temporada de Game of Thrones)

lannistersA casa Lannister de Game of Thrones tem como símbolo o leão dourado, e o lema: Ouça-me rugir. Além disso, todos sabem que “um Lannister sempre paga suas dívidas”, o que pode tanto significar subornos como retaliações. No início da trama, onde fica difícil guardar quem é quem, a que casa cada um pertence e o que faz, uma coisa fica muito clara: os Lannisters são os vilões. Eles são tão ricos, loiros e bonitos quanto ambiciosos, frios e inescrupulosos. O patriarca da família, Twyin Lannister, é tão frio e calculista que nem ao menos sorri. Todas suas atitudes visam apenas aumentar o poder e honra de sua casa. A Rainha Cersei, sua filha, segue pelo mesmo caminho. A diferença entre pai e filha é apenas nas armas usadas. Como mulher, Cersei precisa agir nos bastidores, com informantes e chantagens. Seu irmão gêmeo e amante, Jaime, é conhecido como Regicida, por ter como função proteger o rei e ter abusado dela ao assassinar o rei Aerys Targaryen. Para manter em segredo o seu caso com a irmã, Jaime não hesita em jogar Bran Stark pela janela. Um dos frutos dessa relação incestuosa, o Rei Joffrey, revela-se vaidoso, mentiroso e sádico desde o início.

Com Tyrion, o filho mais novo de Lorde Twyin, as coisas dão errado. Ele é um anão e sua Tyrion_Lannistermãe morre durante o parto. Game of Thrones descreve um mundo medieval, então os personagens não têm para com Tyrion os pudores e gentilezas que hoje consideraríamos corretos. Ele é claramente acusado, por parte da sua irmã, de ter matado sua mãe. As pessoas não se cansam de chamá-lo de anão, duende, meio-homem, etc. Mais de uma vez, ele diz que se não fosse seu elevado nascimento, teria sido jogado fora, transformado em bobo ou atração de algum circo de aberrações. Ser o Lannister “defeituoso” faz com que ele viva a situação de não pertencer inteiramente à sua família, àquele mundo.

(Tyrion) Deixe-me dar alguns conselhos, bastardo. Nunca esqueça o que você é. O resto do mundo nunca se esquecerá. Use isso como uma armadura e isso nunca poderá usado para machucar você.
(Jon) O que diabos você sabe sobre ser um bastardo?
(Tyrion) Todos os anões são bastardos aos olhos dos seus pais.
(retirado daqui)

O sentimento de estar desencaixado no mundo é comum àqueles que, por um motivo ou outro, não podem ou não conseguem se enquadrar. Tyrion, com seu nanismo, se enquadra no conceito de estigma. Estigma é quando o sujeito possui um atributo considerado extremamente negativo por aqueles que o cercam. Esse atributo, de tão marcante, faz com que todas as suas relações sociais sejam dominadas por ele. Ser anão – assim como ser loiro ou moreno, olhos azuis ou negros – não determina qualquer déficit de caráter, capacidade ou inteligência. Mas ser tratado de maneira diferente, ser julgado e desconsiderado a todo instante, sim. Quem possui um estigma físico não consegue se esconder e é desqualificado sempre que se apresenta. A Tyrion, por seu nascimento, estava reservado um lugar nobre; seu nanismo o condena a ser um outsider. Isso cria nele uma sensibilidade e uma identificação com os mais fracos, que nunca seria possível atribuir a um Lannister: “Eu tenho um lugar sensível no meu coração para aleijados, bastardos e coisas quebradas.”

tyrion jesus

Se por um lado a rejeição e o sentimento de desencaixe são dolorosos, eles permitem ao estigmatizado um olhar crítico sobre sua realidade. Um estigmatizado não pode, devido à sua própria condição, alimentar ilusões sobre a maneira como o mundo funciona. Nunca pertencer inteiramente aos seus e estar sempre fora das expectativas pode ser uma experiência enriquecedora, uma forma de sabedoria. Tyrion é uma prova disso. A sua inegável inteligência, o reconhecimento de suas limitações e o senso de humor, faz com que Tyrion consiga transitar entre todos, tire vantagem das situações e seja um dos personagens mais interessantes da série. São deles os momentos mais espirituosos e engraçados, os desejos e as dores mais humanas, as reviravoltas mais surpreendentes. Em meio à luta desmedida pelo poder de sua família, ele se mostra capaz de se colocar à parte da disputa e olhar para os envolvidos tais como eles são. Ao mesmo tempo, ele é hábil o suficiente para jogar o jogo e não se deixar manipular. Quando tem algum poder em mãos, Tyrion sempre procura a solução mais justa dentro das possibilidades. Sua ação não busca o Bem acima de tudo, como fazia Eddard Stark; ele procura equilibrar o que é possível fazer sem perder sua posição. Por isso mesmo, Tyrion consegue sobreviver e é muito mais eficiente. Em resumo, é impossível não amar Tyrion Lannister. A popularidade desse personagem é tamanha que chegou até o ator que o vive, Peter Dinklage. Popular, adorado e sexy, Dinklage ganhou um Emmy (20011) e Golden Globe (2012) graças a Tyrion.

peter dinklage

(Contém spoilers da terceira temporada de Game of Thrones)

A série reservou reviravoltas interessantes, e uma delas é o destino de Jaime Lannister. Enquanto Tyrion era o irmão feio e indesejado, Jaime sempre foi tudo o que se esperava de um Lannister. Sua beleza, sua habilidade como cavaleiro, seus modos arrogantes, seu caso incestuoso com a irmã – tudo nele apontava para um vilão. Logo no início da série ele se mostra debochado, desrespeitoso e sem qualquer empatia com o sofrimento alheio. Dá para perceber que Jaime se sente muito bem dentro da sua própria pele, ele vê o mundo de cima. Tudo isso desmorona, pouco a pouco, quando ele é capturado e posteriormente levado por Brienne para ser trocado por Sansa e Arya. Nesse longo caminho de volta para casa, Jaime aprende a admirar Brienne, é torturado e tem sua mão direita cortada. Jaime se vê destituído da segurança que sempre teve por ser um Lannister, e da admiração que sua beleza e perfeição física sempre lhe deram. O homem que surge (Atenção: situação ainda não explicitada na terceira temporada, apenas no livro) em meio a Jaime Lannisteresse sofrimento busca o amor de sua família, especialmente da irmã, e quer viver de maneira coerente aos seus sentimentos. Jaime aprende a ver por detrás das aparências e a se importar com o sofrimento alheio, sendo capaz de grandes gestos de heroísmo. Ou seja, à sua maneira, ele se aproxima de Tyrion, em quem pensa constantemente depois que tem sua mão cortada. Agora Tyrion e Jaime possuem um novo laço: o problema físico, o estigma. Jaime é a prova de quem somos é um frágil reflexo das alternativas que a realidade nos oferece.

Eddark Stark e a ética no jogo de tronos

Chega a ser irônico pensar que sou acusada – com justiça – de escrever sobre livros velhos e quando finalmente estou lendo algo bem atual, hesito em colocar por escrito. A net me ofereceu, há menos de um mês, a primeira e segunda temporadas completas da série Game Of Thrones, da qual já tinha ouvido falar. Fui assistir e o primeiro episódio da primeira temporada levou cerca de cinco minutos para me hipnotizar. Cada temporada tem dez episódios e vi as duas temporadas em duas semanas; só não foi mais rápido porque não vi sozinha. Não satisfeita, decidi ler os livros. A série de George R. R. Martin é best seller mundial e os cinco primeiros livros são encontrados em qualquer livraria. Ele conta a história de Westeros, uma região dividida em norte e sul, governada por diversos nobres e protegida há séculos de seres mitológicos. Cada casa nobre tem história, personagens com passado e personalidade, descrições físicas, relacionamentos, histórias paralelas, etc. Cada capítulo mostra o ponto de vista de alguém, sua versão e influência no desenrolar dos fatos. São várias histórias paralelas. Personagens apenas citados e sem importância podem crescer ao longo da trama. Outros, fascinantes e essenciais, podem morrem como moscas –  nunca vi um autor tão corajoso (e mau!) na hora de matar personagens. A trama de Senhos dos Anéis parece simples diante do mundo de Game of Thrones. Cada livro tem mais de seiscentas páginas, todas consistêntes e interessantes. A leitura deles é um verdadeiro mergulho.

(Agora eu começam spoilers da primeira temporada e primeiro livro da série – As crônicas de gelo e fogo)

Como eu já disse, eu vi a série antes de ler o livro. Então, eu li o primeiro livro inteiro já sabendo que Eddard Stark morreria. A maneira como entramos em contato com uma história faz toda diferença na maneira como vemos. Meu amigo fez o caminho inverso, ele leu os livros primeiro – nem tenho certeza de se ele continuou com a série. Para ele a morte do Stark foi um verdadeiro choque, ele se disse traumatizado e demorou para se recuperar da perda de um personagem tão querido. Já eu li o livro inteiro passando raiva, torcendo para o Stark morrer logo. Na série, eu simpatizava com Stark, com sua maneira correta, com a família ética e amorosa que ele criou. Ele era um respiro de bondade em meio à todo jogo de poder e ambição da corte. No livro, sabendo de antemão o que aconteceria, vi claramente todas as oportunidades que surgiram para que ele não tivesse o fim que teve. Uma a uma, Eddard se negou a fazê-las em nome de uma ética, de um princípio que parecia tão acima de seus próprios interesses e de todos os envolvidos, que era quase inevitável que ele pagasse com a vida. Como disse a Rainha Cersei, num momento que define a própria série: Quando você joga o jogo de tronos, ou você ganha ou você morre.

Stark me parece o exemplo perfeito do exagero da ética da convicção weberiana. Para Weber, existem dois princípios éticos fundamentais: na ética da convicção, o sujeito age de acordo com princípios morais, que independem das circunstâncias e de seus resultados. Existe um Bem e ele deve ser buscado, sem quaisquer negociações. É uma ética absoluta e imperativa, que exige que as circunstâncias se adaptem a ela. Na ética do esclarecimento, o sujeito orienta sua ação de acordo com as circunstâncias. Não há um princípio ético maior, e sim o cálculos dos riscos e a idéia de adequação. É uma ética totalmente dependente das circunstâncias e do resultado a ser buscado. Weber aponta que as duas éticas, quando tomadas de forma absoluta, oferecem riscos: na primeira, as exigências podem ser fora da realidade; na segunda, o uso de fins para justificar os meios. No livro, Ed Stark era o exemplo extremado da ética da convicção; Petyr Baelish (Mindinho), da ética do esclarecimento.

A própria trajetória de Eddard Stark ilustra o desastre de seguir apenas a ética da convicção. Ele sabia que a Rainha Cersei não era de confiança, e teve a oportunidade de afastá-la do poder quando descobriu seu segredo e quando Renly Baratheon o procura logo após a morte do rei. Só que regido pela misericórdia, ele a poupa e espera pelas circunstâncias. Como disse Varys, a misericórdia dele que matou o rei. Antes disso, quando Gregor Clegane atacou as terras fluviais a mando de Tywin Lannister, Stark teve a oportunidade de mandar o Cavaleiro das Flores liquidar o assunto. Porque isso seria “vingança e não justiça”, ele enviou outros homens; tal atitude deixou o próprio Stark mais desprotegido, impediu de ter a Casa Tyrell contra os Lannisters e ainda fez com que Sor Ilyn, Magistrado do Rei, se sentisse insultado por outros homens terem sido enviados para fazer o seu trabalho. Antes de deixar de ser a Mão do Rei, Petyr Baelish propôs que Eddard governasse e esperasse Joffrey crescer; ele alertou que entragar a coroa a Stannis Baratheon causaria uma guerra. Stark recusou a isso em nome da uma linha sucessória consanguínea, independente de todos os outros fatores. Até mesmo o risco de uma guerra lhe parecia justificável. No fim, sua atitude sempre correta colocou no poder um rei cruel, dividiu o reino e fez com que ele mesmo perdesse a cabeça.

O erro de Stark foi pensar sempre como um homem justo e nunca como um político. Ele obedeceu princípios elevados na esfera pública e ignorou seus efeitos na esfera política. Eddard Stark destoou tanto da corte que foi eliminado rápido demais, antes que pudesse fazer qualquer diferença. Até seus inimigos o admiravam e o reconheciam como um homem bom – uma admiração que em nada o ajudou. Podemos dizer que ele foi um crente, ele achou que o Certo era medida suficiente para tudo. Não foi para si e nem para o reino. Ele não soube jogar o jogo de tronos, não soube adaptar-se ao papel que lhe foi exigido. Entre conselheiros e nobres que agem apenas conforme seus interesses, numa ética do esclarecimento bastante mesquinha; um soldado, como Stark, que agia apenas em nome de princípios elevados, vemos a dificuldade de atingir o equilíbrio ético. O livro aponta um caminho com outro personagem, ainda mais fascinante: Tyrion Lannister.