Cisne Negro – parte 2

O controle, a determinação e a ambição levam à conquista de muitas coisas, mas matam a expressividade. É justamente a dedicação extremada que faz de Nina uma bailarina técnica. Ela vive para o ballet e ao mesmo tempo, não dança – não sente prazer, não se expressa. A arte tem essa característica de exigir a essência. Como muitas, Nina começou a dançar ballet por causa do sonho da mãe dela. Mesmo quando é a criança que pede, dançar ballet é principalmente um projeto dos pais. No ballet, assim como em outras modalidades artísticas, é necessário começar muito cedo. Os pais precisam se dispor a isso, a pagar escolas de ballet durante mais de dez anos. É um grande investimento de tempo e dinheiro. Até a filha crescer o suficiente, alguém precisa leva-la às aulas, aos ensaios, cuidar de suas sapatilhas. Os figurinos são caros e, dependendo do formato do pé, é preciso comprar pontas novas todo mês. A filha, por sua vez, se acostumará com a disciplina, tentará se manter sempre magra, usará roupas cor de rosa, assistirá videos e desejará representar as muitas princesas clássicas.

No caso da Nina, isso é especialmente forte porque sua mãe (Barbara Hershey) foi uma bailarina profissional. No filme, não fica claro o quanto sua mãe conseguiu com o ballet ou apenas fantasiou. O fato é que ela ainda se vê como uma bailarina e se veste como uma bailarina madura. Ela claramente joga na filha a culpa pelo fim da carreira. Nina foi (e talvez ainda seja) uma criança programada para amar o ballet. Ao tentar se realizar através de sua filha, Erica nutre por ela sentimentos ambíguos. Há momentos em que é difícil separar a mãe superprotetora da rival. A mãe controla Nina, que por sua vez se controla para fingir que não nota os choros escondidos, as reações exageradas, o preço caro que paga para manter a paz entre as duas. A mãe é toda família que ela tem, a única pessoa com quem ela realmente se relaciona. Ela, o ballet e a mãe se misturam num mundo de espelhos, pelúcias e sapatilhas, um mundo que a cerceia e infantiliza.

Diante de tudo isso, Thomas tem a difícil missão de transformar uma menina no Cisne Negro – um dos personagens mais interessantes dos ballets românticos. O Cisne Negro é sensual, sedutor, malvado, egoísta, traiçoeiro. Ironicamente, é a necessidade de estar à altura desse papel que desperta o lado negro de Nina. Beth e os outros bailarinos insinuam o tempo todo que Thomas torna as solistas suas amantes (posso dizer que isso também acontece na vida real? Ops!). Quando ela vai pedir o papel a Thomas, de cabelos soltos e batom (que pertencia a Beth), é possível pensar que ela estava disposta a pagar esse preço, se fosse preciso. Mas ela é tão tímida e passiva que a sedução é apenas adivinhada. Ela é claramente uma princesa a ser conquistada, não uma sedutora. Thomas percebe tudo isso e, seja por ser hábito ou pelas circunstâncias, ele seduz Nina e desperta seus desejos. Ele puxa – como diretor artístico e como homem – Nina para um doloroso processo de auto-descoberta.

É dentro desse grande rompimento interno que a história se desenvolve. Externamente, ela se machuca, sangra, se coça, quase arranca a pele do dedo, das unhas, das costas. É troca de pele – como vemos na textura que a pele adquire no dia do espetáculo. Em meio a esse turbilhão, surge a figura de Lily (Mila Kunis). Nina projeta em Lily toda a liberdade e expressividade que não consegue ter; ela a admira, a deseja e a teme. As cenas de ballet diminuem e os delírios aumentam. Nina aparece cada vez mais pálida e cansada, totalmente mergulhada na crise. Ela joga suas bonecas fora, briga com a mãe, fantasia com Lily. Até sua imagem no espelho se desloca, ela não sabe mais o que verá. Nas poucas cenas de ensaios, vemos ela procurar ansiosa o olhar do Thomas, que a cada dia se dirige menos a ela. Alguma coisa está acontecendo por fora, mas ela ainda não sabe o quê. Quando, durante o ensaio da morte do Cisne, Thomas descreve a perda de todos os referenciais e o sentimento de desesperança, percebemos que Nina está vivendo o mesmo sofrimento do Cisne. Assim como a estréia é o ponto alto de toda preparação dos ensaios, na noite anterior os delírios atingem seu auge. Nesse ponto, (exagerado, na minha opinião) ela vive momentos de puro terror.

Nas últimas cenas, ela e os cisnes já são um só. Ela surge frágil e temerosa quando cisne branco; já de cisne negro, mata a rival que tenta tomar o seu lugar. Depois entende que a única a morrer em todo essa história foi ela mesma, e essa dor vai ao palco e se transforma em arte. A cena dos deboulés do cisne negro, que a transformam gradualmente, é maravilhosa. Ela finalmente se tornou uma solista.


Pas de deux do cisne negro- La Scala Ballet, com Polina Semionova e Roberto Bolle.

Cisne negro – parte I

Uma companhia de ballet seleciona seus membros pra garantir uma qualidade mínima. Quando mais prestigiosa e quanto mais ela puder oferecer aos seus bailarinos, mais exigente ela pode ser. Existem coisas que toda bailarina profissional deve ter: o físico magérrimo, um alongamento bastante acima da média, uma boa ponta e saber executar os pouco mais de duzentos passos principais que, em conjunto, formam as coreografias de ballet. Mas, mais do que isso, uma companhia de ballet precisa de bailarinos talentosos formam o seu primeiro time, os solistas. Os solistas precisam ser superiores aos outros bailarinos em todos os aspectos. Eles representam a companhia, têm seus nomes reconhecidos e muitas pessoas vão a um espetáculo especialmente para vê-los.

A pessoa que está à frente no palco acaba puxando todas as outras. Se ela erra, os outros também errarão. Estar no lugar mais importante do palco, cara a cara com o público, requer muita segurança. Quem já subiu num palco sabe: pode ser inebriante, pode ser aterrorizante, pode ser as duas coisas juntas. É preciso técnica e algo além da técnica. Dizer a um artista que ele é bastante técnico pode soar como elogio ou xingamento. Porque técnica é algo que tem a ver com esforço, com horas trabalhadas, com bons professores, com a capacidade do corpo em responder o que é exigido dele. Mas não tem, necessariamente, a ver com o talento. Alguém com excelente técnica pode fazer a passagem mais difícil ou mais emocionante e o público bocejará. Existe uma comunicação invisível entre artista e platéia que não depende da quantidade de horas trabalhadas. É algo que faz parte da essência do artista, do que ele é o que consegue transmitir. A única coisa que ele pode fazer pra tentar crescer nesse aspecto é viver, porque para transmitir é preciso ter muito dentro de si.

Por tudo isso, dá pra imaginar o quanto é problemático substituir uma solista. Muita gente boa larga o ballet todos os anos, porque todos querem ser solistas e não existe solo pra todos. Não ser solista significa dançar pelo coletivo, jamais ter as luzes apenas para si. Isso é especialmente cruel no ballet clássico, onde as coreografias mais tradicionais colocam quase todo corpo de baile com roupas iguais e pelos cantos. Existem mais pessoas desejosas do que merecedoras desse destaque. Uma nova solista dá uma nova cara a companhia; é um momento de mudança e, como tal, um momento de crise. E é assim que se inicia Cisne Negro, num momento de crise. A aposentadoria de Beth (Winona Rider) inicia uma crise na companhia, que por sua vez desencadeia uma crise pessoal naquela que foi escolhida para o posto: Nina (Natalie Portman, simplesmente maravilhosa).

Podemos dizer que numa companhia de ballet todo mundo tem um pouco de diretor artístico. Todos se conhecem, fazem aulas juntos e ensaiam diariamente. O público pode ter ilusão de uniformidade, de que cada um no palco é excelente; mas para quem está lá dentro existe uma escala silenciosa. Cada pessoa lá dentro têm seus favoritos, sua própria opinião sobre quem merece estar em que papel. Em outras áreas, é possível conseguir um emprego e enganar as pessoas sobre sua real capacidade durante muito tempo; basta ter um bom currículo e impressionar no processo de seleção. Na dança, todo o processo é feito com base em audições. Não importa de onde você veio, se de uma escola de bairro ou do Bolshoi – quando a música toca e você começa a fazer a coreografia, não há o que esconder. Seus movimentos denunciarão a sua precisão, o seu domínio e a sua interpretação. Para olhos treinados, tudo isso se revela em poucos minutos. Não é apenas Thomas (Vincent Cassel) que sabe que Nina é apenas um Cisne Branco – toda companhia sabe.

Para a nova solista, Thomas escolheu sua melhor opção – mas ser a melhor opção não é sinônimo de ser o ideal. Por fazer parte da companhia há muito tempo, todos sabem o que esperar de Nina: técnica. O ballet exige muita técnica, mas todos eram profissionais; ela certamente não era muito melhor que as outras que participaram da audição. Em outras palavras, Nina não é convincente o suficiente para ser solista. E estar numa posição desejada por todos sem ser claramente merecedor não é confortável pra ninguém. As pessoas ficam insatisfeitas, se sentem injustiçadas e questionam os critérios de escolha. Quando é uma mulher, sempre existe a suspeita de que ela dormiu com o chefe… Surgem os boatos, as especulações, as hostilidades. A credibilidade do diretor artístico é colocada em dúvida e a escolhida sente que a qualquer momento pode perder seu papel. Qualquer atraso num ensaio ou um momento de fraqueza podem colocar tudo a perder. Nina percebe isso e se sente perseguida. Aí começa a surtar. Ela precisa provar para sua própria companhia que merece ser a Rainha Cisne. Essa pressão faz desmoronar o que a levou ao topo e que, ao mesmo tempo, a impede de ser uma artista completa: o controle.

Leia também a Parte II

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Pas de Deux do cisne branco – Bolshoi, Anastasia Volochkova e Evgeny Ivanchenko