O anão e os santos

Uma amiga tinha curiosidade e uma noite foi num ritual de umbanda. Ela estava no meio de outros, numa roda, assistindo a ação dos médiuns, o batuque, as danças. Até que num determinado momento o médium recebeu uma entidade, que depois das devidas apresentações a avistou e foi até ela. Quando chegou bem perto dela, se acercou e propôs:

– Me diga quem você quer prejudicar. Me diga um nome, qualquer nome, que eu vou lá e faço isso por você.

Ela ficou paralisada e não respondeu nada. Durante muito tempo ela se perguntou que ligação teria com aquela entidade, por que ela lhe propôs fazer mal a alguém e, principalmente, se ela era uma pessoa tão ruim assim que no fundo deseja prejudicar os outros.

Foi mais ou menos isso que eu senti ao ler e gostar tanto das maldades do livro O Anão. Sua certeza de pertencer a uma estirpe, muito embora ele também odeie todos os outros anões; a maneira como busca apenas o seu bem, nem que para isso destrua tudo a sua volta; o seu isolamento voluntário, muito mais importante do que qualquer outra vida; o desprezo que sente por todos que serve; a maneira como tende a procurar nas pessoas o seu pior aspecto; a crueza e desilusão com que fala de poetas, artistas e filósofos, tornam o Anão um personagem irresistível. A única coisa que ele ama são a si mesmo e a guerra. Se sei de sua maldade e a abomino, talvez não devesse ter sido um deleite lê-la…

Toda essa maldade me fez pensar no oposto, a bondade. Puxei da memória um costume que está tão fora de moda que parece que faz séculos que foi abandonado, e não faz mais do que algumas décadas: as pessoas liam sobre a vida dos santos. Esses livros podiam tanto ser organizados em ordem alfabética como de acordo com o calendário, porque todo dia tem o seu santo. Ao invés de ler maldades, as pessoas procuravam ler sobre aqueles que lhes pareciam ser os melhores exemplos; ao invés de ficarem confusas sobre os maus sentimentos que têm dentro de si, elas visualizavam um ideal a ser alcançado. A personalidade, tal como os músculos, podia ser exercitada num sentido bom – por isso o valor dos santos exemplos.

Ainda existe quem se empenhe nesse sentido, as religiões estão aí pra isso. Da minha parte, posso dizer que eu não sei o que é ser santo. Eu não sei como alguém santo se sente, não sei o que come, não sei o que faria no meu lugar. Nas poucas vezes que acreditei ter encontrado alguém mais próximo da santidade, me vi decepcionada, tal como o Anão com mestre Bernardo:

Modesto, ele! Enganei-me quando supus. Pelo contrário, é o homem mais orgulhoso que eu já conheci. A presunção constitui a própria essência do seu ser. O seu pensamento gostaria de reinar soberano num mundo que não lhe pertence.

Pode dar a impressão de modéstia, isso sim; no decorrer de suas especulações em todos os domínios possíveis, chega a dizer, por vezes, que não está seguro deste ou daquele pormenor e que apenas se esforça por encontrar a melhor explicação possível. Mas acredita conhecer o conjunto, a finalidade e o sentido do universo! Sua humildade só se manifesta nas pequenas coisas. É uma espécie deveras estranha de modéstia.

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Quem pode dizer o que está na alma de cada um, quais são os nossos reais desejos, o que uma pessoa seria capaz de fazer se não pudesse ser vista? É impossível para mim, quando penso em santos, esquecer o quanto o celibato dos padres, que deveria santificá-los, os levou a coisas muito piores. Amar o bem não é ser capaz de praticá-lo – será que a mesma regra vale para o mal? Anões ou santos, ninguém nunca saberá o que somos profundamente, apenas o que fazemos.

A conversão do diabo

Quem não ama o bem?

É assim que Leonidas Andreif começa um dos melhores contos que eu já li, que marcaram a minha vida: A conversão do diabo. Fui à minha estante, à procura dele, e não o achava entre os contos de Maupassant. Porque o conto é cheio da ironia, o pessimismo e a desilusão que consideramos as marcas de Maupassant. Nunca li, ao que eu saiba, qualquer outra coisa de Andreif. Caso A conversão do diabo seja um daqueles casos únicos de um autor que não produziu mais nada, já terá valido a pena. É uma reflexão dura e, de certa forma, um tapa na cara de todos aqueles que buscam o aprimoramento pessoal. Para Andreif, o esforço consciente para se tornar bom é algo que não chega a lugar nenhum.

Uma vez, um diabo, já entrado em anos e a quem tinham apelidado, no inferno, de Narigão, sentiu, inesperadamente, certa inclinação à virtude. Entregara-se na sua mocidade, como todos os diabos, a insignificantes proezas diabólicas, mas, com a idade, já um tanto cansado do seu oficio, tornara-se comedido.
Embora gozasse de ótima saúde, os excessos juvenis quebraram-lhe um pouco as forças e ele não sentia entusiasmo algum pelas tolices da mocidade. Cada vez sentia mais acentuada propensão para a ordem (virtude esta muito comum entre os diabos); dotado de espírito firme e esclarecido, embora um tanto metafísico, gostava de filosofar.
Acabou por perder a fé na perfeição do inferno e nos costumes diabólicos.Enfadava-se principalmente nos dias festivos, quando não tinha nenhuma tarefa a desempenhar e não sabia como matar o tempo, tanto mais que era celibatário.
Para lutar contra essa situação que tanto lhe perturbava o espirito, entregou-se ao trabalho, mudando várias vezes de ofício.
De inicio, instalou-se como diabo tentador em uma igrejinha católica de Florença.
Ali, segundo suas próprias palavras, saboreou pela primeira vez o repouso de espirito.
Ali, também principiou sua conversão.

E assim somos nós, eu e você, depois que passamos de uma certa idade. Alguns já nasceram meio velhos, outros demoram mais. De qualquer maneira, todo mundo passa por uma fase de em que basta haver sexo oposto, alcool e música pra tudo ser divertido. Como se tivesse um botão escrito FUN e bastasse apertá-lo. Porque às vezes as condições são muito ruins – caronas desconfortáveis, péssimas acomodações para dormir, pouca comida – e mesmo assim tudo parece muito divertido, tudo vale a pena. Até que um dia os pobres diabos começam a se sentir exaustos antes mesmo da diversão começar. Pensam em como estará na segunda-feira, nas contas a pagar e esse processo de prestar atenção em detalhes faz com que a magia se perca. Talvez seja por causa do corpo, e sua curva descendente. Ou talvez o ser humano realmente aprenda alguma coisa com o tempo.

– Tu és um verdadeiro sábio nas questões religiosas! Realmente! – Por ventura as estudastes?
– Um pouco, respondeu modestamente o diabo. Apesar dessa modéstia, conservava sua dignidade; não se humilhava, nem demonstrava demasiada afetação.
Via-se logo que era um diabo sério, ponderado e judicioso. Não se orgulhava de seus conhecimentos, e por isso agradava ainda mais o velho sacerdote.
– Afinal – perguntou-lhe o padre – o que desejas?
Então o diabo caiu de joelhos, exclamando:
– Ensine-me, meu padre, a praticar a virtude. Sinto grande desejo disso. Eu não posso viver sem praticar a virtude, porém não sei como fazê-lo. Quanto ao Satanás e a todos os místeres diabólicos, renuncio a eles para sempre.
E, com o fito de confirmar suas palavras, o diabo cuspiu desdenhosamente três vezes seguidas.

A história é divertidíssima. Quero muito que vocês passem no link completo do conto e comprovem o que estou dizendo. Uma pequena amostra, só pra animar vocês:

– E o que quer dizer esta camisa nova? Ganhaste-a de presente?
– Qual! Comprei-a para dar ao primeiro que ma pedisse. Durante quinze dias estive passeando pela cidade, entre os pobres. Pediram-me tudo o que o senhor possa imaginar, menos a camisa. Provavelmente ignoram o caminho do bem.

O padre é um homem simples e bondoso, o diabo culto e disciplinado, e a procura do bem se revela um desafio para os dois. O padre é bom instintivamente, e não consegue transmitir isso. O diabo não consegue sentir o que é o bem, não consegue decidir o que fazer diante das situações; ele não pode contar com o que tem dentro de si. A cultura e todas as escrituras se mostram inúteis para o diabo, porque elas são contraditórias e não esclarecem sobre O Bem no dia a dia. Quanto mais eles buscam, mais O Bem parece fugir deles. Nesse esforço, o diabo comete erros maiores do que do os que quando era apenas mais um diabo.

Como não lembrar de fundamentalistas religiosos? Pessoas que interpretam livros sagrados ao pé da letra e esquecem que o preceito mais importante é o do amor e da tolerância. Ao invés de ser um instrumento de união, instituições religiosas dividam o mundo entre nós x eles, sendo que eles merecem todo sofrimento porque pensam/agem diferente. Mas a acusação de não saber o que é o bem não cabe apenas a fundamentalistas ou pessoas radicais. Todos estamos continuamente buscando um bem que não sabemos direito o que é, e nessa tentativa nos cremos melhores do que realmente somos. Na tentativa de acabar com um defeito, frequentemente apenas trocamos um pelo outro, quando muito. Para Andreif, somos todos diabos arrependidos, desejando princípios sem conhecê-los, patéticos e bem intencionados.