Os resíduos do dia, de Kazuo Ishiguro (e um tico de Que horas ela volta?)

Ler Os resíduos do dia tem tudo a ver com o momento atual, em que o filme Que horas ela volta? será representante do Brasil no Oscar e tem constrangido os brasileiros no exterior, ao mostrarem para os estrangeiros o quanto ainda somos escravocratas. Essencialmente, ambos expõem a crueldade das relações com empregados “quase da família”. No caso do livro, na Inglaterra do século XX. Há um filme sobre esse livro, de 1993, com Anthony Hopkins no papel principal.

Durante um ou dois minutos, não fiz ideia do que meu patrão estava dizendo. Então percebi que estava fazendo alguma piada e me esforcei para sorrir como era devido, embora desconfie que algum resto de confusão, para não dizer choque, deva ter continuado visível na minha expressão.

Ao longo dos dias seguintes, porém, aprendi a não mais me surpreender com tais observações de meu patrão, e sorria do jeito certo sempre que detectava aquele tom de brincadeira em sua voz. Mesmo assim, nunca tenho muita certeza do que ele espera de mim nessas ocasiões. Talvez eu devesse rir com gosto, ou até responder com alguma observação minha. Esta última possibilidade tem me ocupado durante estes meses, e é algo que ainda me deixa indeciso. (p.24)

O livro, todo escrito em primeira pessoa, é um diário de viagem do mordomo Stevens. Estimulado pelo seu novo patrão, um americano, ele, pela primeira vez, viaja para Inglaterra sozinho de carro, e vai à busca da antiga governanta da casa, Miss Kenton. Enquanto viaja, ele reflete sobre a sua profissão, as mudanças políticas que assistiu nos salões, deixa adivinhar sua paixão por Miss Keaton e, principalmente, sobre a maneira como ser mordomo e os valores associados a essa profissão lhe são caros.

Certa tarde, para sua própria tristeza e vergonha, Mr. Charles permitiu-se ficar bêbado na companhia de dois outros hóspedes, cavalheiros que chamarei apenas de Mr. Smith e Mr. Jones, uma vez que é possível que ainda sejam lembrados em certos círculos. Depois de uma hora e tanto bebendo, os dois cavalheiros resolveram dar um passeio de carro por algumas aldeias vizinhas. O automóvel ainda era uma espécie de curiosidade à época. Convenceram Mr. Charles a acompanhá-los e, como seu chofer estava de folga naquele momento, convocaram meu pai para dirigir o carro. (….)

Porém, a atenção de Mr. Smith e Mr. Jones havia se voltado então para meu pai e, sem dúvida, entediados pela vista que o local tinha a oferecer, passaram a se divertir gritando observações desagradáveis sobre o “erro” do motorista. Mr. Charles ficou deslumbrado com a maneira como meu pai não demonstrou nenhum indício de raiva ou desconforto, continuando a dirigir com uma expressão em perfeito equilíbrio entre a dignidade pessoal e a prontidão para obsequiar. (p.48-49)

Essa é parte difícil e a maestria do livro. Na própria linguagem do mordomo e nas suas observações, percebemos seu enrijecimento pessoal, sua adesão a um papel onde a noção de “dignidade” se confunde com a capacidade de sofrer grandes humilhações sem demonstrar. Sofremos com relatos que ele mesmo não coloca como sofrimento, e sim como exemplo de grande profissionalismo. A governanta Miss Kenton, para o leitor, atua como um sopro de vida, alguém consegue olhar com crítica e afeto o que acontece à sua volta. O mordomo Stevens, tal como na empregada “parte da família” vivida pela Regina Casé, é a personificação de um sistema bem azeitado, onde os dominados compram o discurso e os valores dos seus dominadores, o que naturaliza a relação entre patrões e empregados como se fosse uma diferença de humanidade. São personagens que nos deixam sem saber se amamos ou odiamos na sua adesão; ora sofremos por eles, ora nos enraivecemos por atuarem contra seus próprios interesses. Mas, ao mesmo tempo, seu próprio descompasso com o que acontece à sua volta – “mordomos menores abandonam seus seres profissionais em prol da vida pessoal à menor oportunidade” (p.54) – sinalizam a mudança. Ainda bem. Que o desconforto de leitores e espectadores diante de antigos papéis seja o início de uma nova atitude.

Carcereiros, de Drauzio Varella

Estação Carandiru, publicado há quinze anos, mudou a vida do seu autor, Dr. Drauzio Varella. Ele não esperava uma repercussão tão grande, e tanto ele quanto seu livro se tornaram famosos. Dr. Drauzio se tornou uma figura conhecida e fez vários programas no Fantástico, sempre unindo os temas de medicina e promoção de saúde. E, mesmo assim, ele jamais perdeu seus vínculos com o sistema prisional. Seus motivos estão em destaque na contracapa do Carcereiros:

Depois de 23 frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não tivesse me trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixaria de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.

Eu ressaltaria dois méritos que tornam Carcereiros um grande livro, e esse é o primeiro deles. O olhar do Dr. Drauzio nos aproxima dos seus personagens. Apesar de serem funcionários concursados e sem ficha criminal, sobre os carcereiros recai quase o mesmo estigma que carregam os prisioneiros: de serem pessoas más, violentas, também bandidos. Nos estudos sobre estigma, dizemos que ele tem uma propriedade contaminante, que estar perto de pessoas desacreditadas socialmente faz com que o outro também seja desacreditado, o que leva a um círculo vicioso de evitação. Para não ficarmos desacreditados, evitamos, e ao evitar aumentamos a distância, e quanto mais distantes, mais desumanizamos o outro. Sobre os bandidos ainda há a explicação de que eles “fizeram por merecer” seu estigma, mas sobre os carcereiros o preconceito é ainda menos justificável.

No primeiro capítulo, Dr. Drauzio retoma o massacre do Carandiru, mas desta vez mostrando o que acontecia ao lado, no pavilhão Oito. Foi graças à iniciativa de poucos funcionários que a tragédia ficou restrita ao pavilhão Nove. Os presos do pavilhão Oito foram convencidos pelos funcionários a entrarem novamente nas suas celas e aguardarem o rumo dos acontecimentos. Drauzio reconta o que aconteceu esse dia, a tensão de todos, as difíceis negociações, o heroísmo anônimo que salvou a vida de mais de duas mil pessoas. Os agentes carcerários cuidam dos presos no sentido amplo da palavra. Vindos para as prisões pelos mais diversos motivos, alguns por fascínio (que Dr. Drauzio confessa também possuir) pelo ambiente das cadeias, outros apenas pelo desejo de se tornarem funcionários públicos, vemos o quanto a rotina violenta mexe com a subjetividade de quem trabalha nas prisões. Num lugar é difícil saber o que é bom e o que é ruim, eles contam consigo mesmos e com a solidariedade dos companheiros. Assediados pelo tráfico, mal remunerados, testemunhas de barbaridades, o mesmo homem que salva a vida de um suicida tortura outro preso na sala.

Uma tarde, quando se preparava para sair do plantão, trouxeram à sua presença um rapaz de olhos aterrorizados, preso alguns dias antes por fazer parte de uma quadrilha de adolescentes que roubava toca-fitas nas adjacências da PUC, em Perdizes. Tinha o rosto inchado e o corpo coberto de manchas roxas, queimaduras com pontas de cigarro e cortes de faca, sequelas de uma luta travada com os quatro companheiros de xadrez, na tentativa infrutífera de evitar o estupro coletivo. O sangue que manchava a camisa e escorria pelas pernas da calça formou uma poça no chão. Quando a ambulância chegou, já estava a ponto de perder os sentidos.

Hulk ajudou a transportá-lo e subiu até a cela dos estupradores. Sem dizer uma palavra, retirou os dois que estavam mais próximos da porta e fechou o cadeado.

Na salinha do térreo, perguntou ao mais gordo e ao magrinho o que tinha acontecido:

– Nada – respondeu o mais entroncado – . Nós aqui nesse esgano, chega esse menino bonitinho de olho azul.

Hulk agarrou-o pelas axilas, levantou-o a um metro do chão e arremessou-o contra a parede como um saco de batatas, que fez um som oco e desabou desacordado. Enquanto o magricela pedia pelo amor de Deus para ser poupado, ele enrolou um pano para proteger a mão esquerda e desferiu-lhe um soco no peito que o deixou roxo de falta de ar. Antes que recuperasse o fôlego, veio o segundo na ponta do queixo. Voaram dois cacos de dente. (p.55)

O segundo mérito do livro é trazer à tona uma discussão mais ampla sobre os problemas das prisões. Sem ter ele mesmo respostas para um problema tão amplo, Dr. Drauzio aponta a impossibilidade das prisões, pelo menos no seu formato atual. Ele fala do contraste da luta pelos direitos humanos em guerras e situações excepcionais, e o total descaso com o preso, que é torturado o tempo todo – geralmente amontoado em celas imundas e insalubres, entediado, exposto à violência de outros presos. Quase na sua totalidade, são pessoas pobre e negras, que são “recompensadas” assim pela sua falta de escolaridade e oportunidades. Caso o maltrato exagerado aos presos não seja motivo suficiente, ele aponta que é impossível ter cadeias para tanta demanda. O número de recém encarcerados supera, diariamente, o número dos que são soltos. E os que são soltos estão mais violentos e com poucas possibilidades de arranjar emprego. Dr. Drauzio nos mostra que as cadeias são instituições monstruosas, violentas, com uma organização própria, onde todo cuidado e pouco. Ela maltrata os que ali entram, mesmo como funcionários. Homens normais e pacíficos são contaminados e transformados no ambiente prisional. É um livro que, assim como Estação Carandiru, está sempre dizendo aos leitores: você não vê, mas isso existe. Você quer ignorar, mas este também é um problema seu.

Três livros tão diferentes quanto bons

Nada como tomar chá de cadeira em aeroporto e ficar longe de casa para arranjar tempo para ler.  Li três livros muito bons durante a minha viagem, e não pude fazer uma crítica elaborada deles por não ter muita condição de ficar diante do computador. Por isso, segue uma crítica ligeira de cada um:

chandlerPara sempre ou nunca maisRaymond Chandler – Um dos livros do detetive Marlowe que eu mais gostei. Achei a história bem amarrada e dinâmica, apesar de não ter muitas daquelas observações ferinas e deliciosas que Chandler faz dos submundos. Logo de início, Marlowe é contratado para seguir uma mulher misteriosa, e logo ele se envolve em mistérios maiores. A explicação demora tanto pra chegar que eu até duvidei de que ela existisse.

O bom senso sempre fala tarde demais. O bom senso é o cara que lhe diz que você deveria ter regulado os freios na semana passada, antes de bater de frente nesta semana. O bom senso é como o jogador reserva que poderia ter feito a bola do jogo se estivesse no time. Mas ele nunca está. Ele assiste a tudo da arquibancada, uma garrafinha no bolso. O bom senso é um homenzinho num terno cinza, que jamais erra uma conta. Mas é sempre o dinheiro de outra pessoa que ele está contando.

Raymond Chandler/ Para sempre ou nunca mais p. 86-7

 

No país das últimas coisas, Paul Auster – Caí numa armadilha ao pegar esse livro.paul auster Minhas últimas leituras de Paul Auster me fizeram pensar que ele era um autor que só escrevia coisas fofas. Este país é quase como um Cidades Invisíveis versão decadência. São as últimas coisas porque a cidade se desfaz por todos os lados; o livro parece um exercício de imaginar que estratégias de sobrevivência as pessoas se serviriam se toda civilidade e esperança se acabasse. Enquanto a história da protagonista não se desenrola, somos levados a um pessimismo terrível.

Tantos de nosotros nos hemos convertido otra vez en niños! No es que lo haymos buscado, ya me entiendes, ni que seamos conscientes de ello. Pero cuando la fe desaparece, cuando comprendes que ni siquiera te queda la esperanza de recuperar la esperanza, entonces tiendes a llenas los espacios vacíos con sueños, pequeñas fantasías y cuentos infantiles que te ayuden a sobrevivir.

Paul Auster/ El país de las últimas cosas p.19

O Enigma do Coronel Fawcett: o Verdadeiro Indiana Jones, Hermes Leal–  Esse foi uma grata surpresa. A história de Fawcett, um inglês obcecado por encontrar a Atlântida no Brasil, enfrfawcettentando todo tipo de dificuldade nos rios e matas virgens, lidando com índios e a própria dificuldade de conseguir ajudantes, driblando o governo brasileiro e a própria imprensa que ele mobilizou, já é ótima. Aí quando o coronel some, a história fica melhor ainda: as crenças místicas da sua família, as expedições sérias e fantasiosas em busca do coronel, as muitas versões para o seu fim. No epílogo, o autor fala de uma expedição ingênua que ele e seus amigos tentam fazer em busca dos rastros de Fawcett e se vêem ludibriados por índios que nada têm de ingênuos.

Muito além do peso

Por Adriane Hagedorn

Não te dá um nó na garganta ouvir de uma criança que o que falta em sua vida é o sentido? Então se prepare para muitos outros nós que estão por vir!

O filme “Muito além do peso”, de Estela Renner nos dá um soco seco no estômago e trata de forma clara e educacional o descaso que se tem com a alimentação correta. Você imagina um mundo com crianças que não sabem distinguir uma batata de uma cebola; ou um abacate de um pimentão?

O documentário – que estreou em novembro – apresenta dados assustadores de cultura, educação e da alimentação de crianças brasileiras. O aparentemente inofensivo refresco de fruta em pó, por exemplo, é um dos vilões da alimentação que já começa com o pé errado desde cedo. Em 35g de refresco, há 28g de açúcar e 1% de fruta! Isso contribui a um outro fato: 51 quilos, peso médio de consumo anual de açúcar por brasileiro.

De todos os dados informados no documentário (que nos surpreende a cada nova informação) um me pegou de surpresa: 56% dos bebês ingerem refrigerantes com frequencia antes de completar um ano.

Leio o restante do post e os videos que ele apresenta.

 

ATUALIZAÇÃO: é possível ver o documentário completo aqui.

Viva o povo brasileiro

O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal pra pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de côco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia passado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele. Também usaram as sobras para iscas de siri e de peixinho de rio, sendo os bofes e as partes moles o que melhor serve, como caboco logo descobriu.

p. 40
Adorei o livro. Alguns trechos são de um senso de humor indecente. Eu conhecia João Ubaldo pela coleção Plenos Pecados, o livro dedicado à Luxúria e recorde de empréstimo na Biblioteca. Mas faz muito tempo. Quando no início do Viva o Povo apareceram algumas descrições de mulheres sendo pegas à força, pensei se ele não seria um daqueles autores magistrais apenas no ponto de vista masculino – assim como mulheres podem saber apenas escrever do ponto de vista feminino. Mas depois quando ele fala do mesmo assunto, sem meias palavras, do ponto de vista da mulher que foi atacada, ele se mostrou tão sensível e preciso quanto. João Ubaldo Ribeiro descreve com a mesma naturalidade e empatia o caráter violento, o orgulho, a ambição, a falta de escrúpulos, assim como é capaz de nos levar a amar outro personagens, pelo seu idealismo, sua sensibilidade, seu amor, ou a tragicidade do seu destino.
O senso de humor dele também está presente na maneira como alguns personagens se desenrolam, tomando rumos inesperados, negando o que um dia foram, retornando às suas raízes mesmo que as ignorem. Ele mostra o problema da história, por certas coisas se perdem com o tempo, algumas por querer. Equívocos são mantidos e as mentiras úteis são repetidas até se tornarem verdadeiras. Como era de se esperar, no início da colonização os personagens são brutos, violentos, não existe honestidade possível e nem ao menos uma idéia de honestidade. Existem apenas vítimas e os que fazem de tudo para estarem por cima. À medida em que o livro (e o tempo) avança, outras características são necessárias para vencer. Os personagens substituem a violência pela astúcia, pelas influências, pela rede de conhecidos e o pensar antes de agir.
Nesse sentido, Viva o Povo brasileiro me lembra o Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Os personagens mais interessantes de Érico são os do início, que lutam contra uma realidade mais dura e por isso mais heróica: Ana Terra e Capitão Rodrigo. Seus descendentes vão ficando tão civilizados quanto desinteressantes. Isso acontece um pouco no Viva o Povo, embora de maneira mais lenta. Mas as semelhanças entre os dois livros são poucas. A narrativa de Érico é tradicional, enquanto João Ubaldo se permite brincar, ir e voltar no tempo; Érico se compromete com personagens da mesma família, mesmo os sem brilho, enquanto João Ubaldo conta episódios, abandona alguns personagens para nunca mais retornar, enquanto outros merecem aprofundamento. E aquela característica já citada, da capacidade de João Ubaldo se colocar no papel das mulheres, falta claramente em Érico (que fez mea culpa disso em edições posteriores). Em Tempo e o Vento, as esposas se adaptam com tranquilidade à matriarca da família Terra-Cambará; oras, uma mulher aceitar o domínio de outra na esfera doméstica – a única em que eram permitidos jogos de poder às mulheres – nunca é tranquila. Só um homem poderia dizer uma coisa dessas. As mulheres de João Ubaldo se mostram mais ativas e fazem o que podem para serem felizes apesar das convenções.
Em Viva o Povo Brasileiro, vemos que o desprezo das nossas elites pelo povo é um lugar comum. Dos portugueses com os nativos, dos brancos com os negros, dos mestiços com os negros, mestiços esses que fazem de tudo para negar sua ascendência e buscam o clareamento da prole. Por se verem como europeu expatriados, não existe a identificação e nem o desejo de ajudar. O problema da ignorância e pobreza é sempre motivo de queixa, mas eles não acham que fazem parte disso. O povo brasileiro se vê obrigado a buscar uma identidade nacional em meio a esse descaso. Isso faz com que o livro se torne engajado, porque ele olha para séculos de abandono com carinho, e tenta alertar para o futuro. Tanto que seu título um grito de guerra, repetido pelos seus personagens mais valorosos: Viva o povo brasileiro!

Patriotismo

Eu não saberia o que responder se me perguntasse se sou patriota. Em certos momentos me parece que eu sou, porque acho irritante a mania de algumas pessoas em achar que basta ser de fora para ser bom. Que vale mil vezes lavar pratos em Paris do que ter uma vida tranquila no Brasil, que sair daqui a todo custo é sempre melhor do que ficar. Em outras ocasiões, me parece que não sou, porque sinto vergonha de algumas manifestações culturais legitimamente brasileiras, como a imagem da brasileira fogosa, sambista e semi-nua. Acho que não apenas somos um povo ignorante como nos orgulhamos disso. Vejo a questão de ser brasileira com aceitação, e com um afeto inevitável. O mesmo sentimento que se tem por uma tia avó caipira ou por um primo bêbado – faz todo mundo passar vergonha, mas é parente, fazer o quê?

Quando a gente conhece um pouco de outras culturas, acaba tendo consciência do quanto ainda teríamos o que melhorar. Só quando comecei a dança que eu entendi o quanto é importante apoiar financeiramente atletas, que aqui tudo é feito na base do idealismo e da boa vontade das pessoas. Já os Estados Unidos procuram desde cedo seus talentos, seja nos esportes ou no QI, e oferecem todo apoio. Todos ganham com isso – a pessoa recebe apoio para seguir sua vocação, o país ganha os melhores atletas, as melhores cabeças. A Frau Glaeser, graças a um post meu, falou do amor dos alemães pelo conhecimento, do debate livre e sem preconceito de idéias, de uma clareza no falar que deixou todo mundo com vontade de ir pra Alemanha. A Amanda revela continuamente no seu blog um pouco do modo de pensar dos franceses. Somente lá eu fiquei sabendo que eles não têm o menor orgulho da sua primeira dama ex-modelo, e prefeririam mil vezes uma intelectual como a nossa falecida Ruth Cardoso. São pequenas diferenças que demonstram quem somos, sobre o que atribuímos valor.

Ao mesmo tempo, senti na pele que amar outra cultura nunca nos tornará parte delas. Por parte de mãe, minha família é descendente de chineses. Minha avó era filha e mais tarde se tornou esposa de um chinês. Para aumentar os laços, meu avô era correspondente de um jornal na China e trabalhava com produtos chineses. Então, faz parte da lembrança de infância da minha mãe e tias o som das óperas chinesas ecoando pela sala, um som que parece com “gatos sendo torturados”. Elas cresceram em meio a ideogramas em livros que são lidos de cima pra baixo e da direita para a esquerda, porcelanas, madeiras e marfins cuidadosamente entalhados, comida chinesa de verdade (e não esses fast food gordurosos). Eu não conheci meu avô e peguei apenas a herança da herança. Cada vez que vejo uma mulher oriental – cabelo liso e preto, membros curtos, jeito tímido -, mesmo de costas, ela me remete à minha mãe. Cresci ouvindo histórias sobre meu avô e toda a riqueza que a família tinha nessa época. Aprendi a amar o sobrenome chinês que eu não herdei (nenhuma das filhas passou o nome adiante) e ficar feliz cada vez que alguém adivinha que tenho sangue oriental, o que raramente acontece.

Mas a minha avó, assim como a sua mãe antes dela, fez algo culturalmente imperdoável: ela proibiu meu avô de falar chinês quando ela estava presente. Por esse motivo, nenhum membro da minha família sabe chinês. Os ideogramas para nós são familiares apenas como figuras – mas isso nunca impediu minha família de se ver como chinesa. Foi isso que me fez um dia procurar um curso de chinês. O professor de chinês era nativo e pouca coisa mais velho do que eu. Na turma, um comerciante que fazia negócios com a recém-capitalista China; uma senhora que viajaria para a China em breve; uma universitária que já tinha feito curso de outras sete línguas; uma sul coreoana e por aí vai. Me apresentei ao meu professor como descendente de chinês. Eu olhava para ele e via traços parecidos com de um primo e achei que ele veria em mim alguma familiaridade também. De alguma forma, eu achava que ele me reconheceria como uma igual. Mas ele não viu nada. Para ele, eu sempre fui mais uma de suas alunas brasileiras. E não poderia ser diferente -não sei chinês, nunca pus os pés na China, só estive cercada de objetos e histórias. Apenas nesse momento eu me dei conta de tudo isso.

Eu sou brasileira. Herdei algumas coisas da minha ancestralidade chinesa, como outras pessoas herdaram dos inúmeros outros estrangeiros que vieram para cá. Algumas famílias fazem um esforço consciente para manter sua pureza cultural estrangeira; a minha não o fez, e mesmo se o fizesse nunca é como se morassem fora do país. Se pudesse escolher outra nacionalidade, ser brasileira provavelmente não estaria na lista. Gostaria de fazer parte de culturas mais antigas, que valorizam o estudo, que apoiam o comportamento ordeiro e disciplinado – aqui tentemos da julgar como sem valor (o “trouxa”) a tentativa de fazer as coisas direito. Mas pensar assim é um exercício que não leva a nada. Nada do que eu faça irá mudar o fato de que nasci aqui, que sofro influências definitivas e até inconscientes pelo fato de viver aqui. É o meu background. O que posso fazer é tentar olhar criticamente para a bagagem que carrego e fazer o melhor possível da minha brasilidade.

Reencarnação

Eu estava num trem que saía da Galícia. Enquanto ainda estamos em território galego, é uma viagem arrastada, porque o terreno é montanhoso e o trem vai devagar. Na cabine, estávamos eu, um policial, uma empregada e o seu filho de treze anos. Não sei se pela origem das pessoas, mas foi a única viagem de trem que eu que fiz onde todos conversaram na cabine. O policial me fez várias perguntas sobre o Lula, até então eterno candidato à presidência. Ele conhecia o Lula, admirava sua trajetória e não entendia porquê o povo brasileiro votar nos outros. Eu lhe disse (estávamos em 1999) que acreditava que o Lula nunca se elegeria, porque ele não inspirava confiança nas pessoas. A conversa foi para diversos rumos, e num determinado momento começaram a falar de religião. A empregada falou:
– Não entendo como tem gente que acredita em reencarnação. Como é que a pessoa vai reencarnar depois de morta se o corpo já apodreceu? Não resta mais nada.

No início, pensei que ela estava de brincadeira, daquelas que a gente faz para desmerecer. Mas o policial concordou, a discussão continuou e eu me dei conta que eles realmente achavam que reencarnação era aquilo. Bem que eu já tinha ouvido falar que o kardecismo só existe como religião no Brasil. Quando o assunto reencarnação surgiu, eu me dei conta do que é ser brasileira, do que significava uma cultura. Eu, por acaso, venho de uma família espírita. Mas qualquer brasileiro que estivesse no trem, fosse ele católico fervoroso ou até mesmo um ateu de gerações como o Milton, saberia dizer que por reencarnação não se entende que a pessoa volta para o mesmo corpo, e sim que renasce, em outra época e local.

Ser brasileira é saber os principais times de futebol do Brasil mesmo sem suportar futebol. Cultura é aquilo que sabemos, como se estivesse no ar. Penetra na nossa pele e faz parte da nossa maneira de pensar o mundo, como se não existisse outra. E à nossa volta não existe mesmo. É aquilo que abraçamos sem saber que abraçamos, no grande porém limitado conjunto de crenças que nos são oferecidas desde sempre. Para ser brasileiro e ateu é preciso um esforço imenso, porque todos sabemos de que signo somos, vemos igrejas por todos os lugares, tememos o poder do mal olhado. Não é apenas uma maneira de ver o mundo, mas também o voltar-se contra a maneira de ver o mundo. Quando somos contra, somos contra alguma coisa; esse alguma coisa é o nosso referencial. Contra ou a favor, nossas idéias, nossos gostos e nossos gestos nos dizem de onde somos.