De volta ao básico

Estou lendo David Copperfield e não farei outra crítica a Charlles Dickens. Essa segunda leitura me fez entender melhor algumas críticas ao autor: pieguismo, visão maniqueista dos personagens, repetição de temas, crítica superficial às condições da sua época. Mesmo que duas leituras já me tornem capaz de saber onde está o vilão antes mesmo dele começar a vilania, mesmo que as desventuras de Copperfield desde a tenra idade sejam tão exageradas que eu não fui capaz de derramar uma lágrima (e sou uma leitora vergonhosamente emotiva), é um livro maravilhoso. Ele domina aquela arte mais sagrada da literatura, que é a capacidade de emocionar o leitor. Numa época que o bacana é procurar inovações na linguagem, nada como ler alguém que procura ser agradável e acessível.

Será possível que, hoje, no momento em que surge diante de mim, tão nitidamente como pessoa que eu reconhecesse na rua cheia de gente, o rosto de minha mãe já não exista mais? Sei que ela se foi, que não é mais deste mundo; mas, ao falar de sua beleza inocente e infantil, posso acreditar que ela tenha desaparecido para sempre, embora ainda sinta em mim seu hálito suave, como senti naquela noite? Será possível que minha mãe tenha morrido, quando a minha memória evoca-lhe a existência sempre assim, e meu coração, fiel às recordações da mocidade, conserva vívido o que então acariciava?

Joe Gargery

Eu cheguei ao Grandes Esperanças de Charles Dickens através do post do Milton, e principalmente por causa dos comentários da Nikelen. Diante do que eles disseram, me sinto tão obtusa e constrangida quanto Joe Gargery, o ferreiro ignorante e amoroso. Nada tenho a declarar sobre o autor estar abandonado e qual legado ele nos deixou; se fosse escrever sobre a importância de Dickens como primeira celebridade literária, teria que copiar os comentários da Nikelen. A crítica que tenho a fazer sobre o livro é apenas um entusiasmado Estou adorando.

O livro me pegou de jeito, como pegou as pessoas que o leram na época sua época. Termino cada capítulo ansiosa pelo seguinte. Rio das muitas ironias do livro, me comovo com os momentos emotivos, me indigno com as injustiças. Ou seja, sou uma leitora-joguete, o autor tem me conduzido como quer. Pip tem a trajetória clássica do herói, a mesma tradição que também abarca Luke Skywalker e Harry Potter: cresce como orfão e mais tarde tem acesso a todas as oportunidades que sonhava antes. Na sua passagem do mundo pobre para o mundo rico, vemos apenas sorte, talvez destino. São mundos imensos, injustos e inconciliáveis. Mas tudo é colocado em meio a uma história tão boa que…

Este trecho, de Joe Gargery, exemplifica o que acabei de dizer. É a despedida do primeiro encontro entre ele e Pip, depois que o último começou a ser educado como cavalheiro. Antes única fonte de carinho e amizade de Pip, Joe passa a representar um passado constrangedor. Esse momento representa uma mistura tão grande de sentimentos: imaturidade, gratidão, amor, embaraço, distância social. E termina profundo e comovente, com as palavras de Joe:

Pip, velho amigo, a vida é feita de despedidas. Um é ferreiro, o outro é funileiro, o outro é ourives e alguém é caldeireiro. Essas divisões sempre vão existir, e devem ser tratadas assim como são. Se saiu alguma coisa errada hoje, a culpa foi minha. Tu e eu não podemos ficar juntos em Londres. Nem em lugar nenhum, a não ser na intimidade, no conhecimento e na compreensão dos amigos. Não é que eu seja orgulhoso, mas é que eu quero agir certo, e não quero me ver mais nestas roupas. Eu estou errado nestas roupas. Eu estou errado fora da ferraria, da cozinha ou do nosso pântano. Tu não perceberias em mim nem a metade do que percebeste se me visse com as minhas roupas de ferreiro, com o martelo na mão ou mesmo com o cachimbo. Se algum dia quisesses me ver e fosses me espiar pela janela da ferraria e visses Joe, o ferreiro, na velha bigorna, no velho avental chamuscado, grudado no velho ofício, com certeza não perceberias tantos defeitos em mim. Eu sou muito ignorante, mas espero ter feito com isso alguma coisa certa. E Deus te abençoe, velho Pip, querido camarada. Deus te abençoe!

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