Sobre a cegueira

O artigo a seguir, foi escrito por mim especialmente para a Revista de Filosofia. Ele fala sobre a minha pesquisa de mestrado, publicada como livro pela Editora da UFPR, mas fala também do saber científico e das reflexões que o tema permite, que vão muito além do tema cegueira. É uma experiência interessante voltar ao que publicamos; espero que o artigo traga informações diferentes aos que já conhecem o meu trabalho e que despertem o interesse nos que lerão sobre o tema pela primeira vez.

***

Sobre a Cegueira

Experiência estigmatizante, sensações de vida interrompida e anseio por voltar “ao estado anterior”. Essas são as percepções daqueles que perderam tardiamente a visão. Refletir sobre o tema é entender como a sociedade lida com a diferença

Por que ninguém nunca pesquisou isso?”. Para as pessoas comuns, o mundo está cheio de perguntas a serem respondidas. Mas quando essa mesma pessoa se envolve em uma pesquisa que é a base do fazer científico – é como se ela ficasse subitamente sem inspiração. Porque pesquisas não nascem do vazio ou de uma simples indagação: existem métodos, estatísticas, maneiras de abordar o problema; autores que já fizeram perguntas parecidas e dão respostas que norteiam futuras pesquisas. Se por um lado isso forma um conhecimento para o qual todo cientista pode e deve apelar, por outro funciona como uma maneira pré-determinada de olhar a realidade. Assim, o que seria uma pergunta espontânea se vê na necessidade de entrar em uma linha de pesquisa e uma tradição científica. Às vezes pode ser difícil olhar para uma realidade como se fosse a primeira vez e perguntar – por que ninguém nunca pesquisou isso?

Leia o artigo inteiro aqui.

A música que passou a me irritar depois da minha pesquisa

Eu adorava essa música e a versão que eu tenho é justamente a do clipe. A letra fala de uma cena que Alejandro Sanz teria testemunhado, de um deficiente visual que pede a uma moça para lhe descrever o pôr-do-sol. No final, quando ela se vai – depois da promessa de que retornaria no dia seguinte -, o rapaz perguntou ao Alejandro se ela era bonita, ao que ele lhe responde – Mais do que a lua.

Quem não tiver paciência pra ver o clipe pode conhecer a letra aqui.

Não é que a música seja horrivelmente preconceituosa ou forçada. Minha irritação com ela é muito mais por exagerar em algo mais banal. Talvez aí esteja o preconceito – em achar que estar apaixonado ou passar uma cantada é algo de extraordinário apenas por ter sido feita por alguém com deficiência.
Eu convivi com pessoas com diversos graus de deficiência visual – de visão residual à perda completa de visão – por causa de um serviço voluntário que mais tarde gerou a idéia pra uma pesquisa, o que me levou a conviver mais ainda com essa realidade. Aprendi a ultrapassar a barreira da pena ou do extraordinário. Para quem enxerga, parece inconcebível pensar num mundo sem a visão, e que isso lhe acontecesse, no resto da vida ela lhe faria falta. Pelo que ouvi de quem está nessa situação, não é verdade. Não enxergar, ter nos outros uma voz, uma presença e um cheiro, é algo que acostuma. Só com o preconceito que não se acostuma.
Então não consigo achar romântico quando o enamorado sem visão da música fala “mis ojos son tu voz”, “a tu lado puedo olvidar que para mi siempre es de noche” e, pior – “que no daria yo por contemplarte, aunque sea un solo instante”. Não veria essa pena de si mesmo, esse desejo de ser o que não é, de utilizar um sentido que não tem, como algo saudável. Das duas uma: ou isso fala de alguém que ainda não aprendeu a conviver com a sua condição, ou da projeção de alguém que enxerga e não consegue entender a vida de outra forma.
A parte final da música, quando o rapaz pergunta se a moça era bonita, é bastante familiar. Quem perde a visão faz isso com frequencia – de perguntar para os outros como uma pessoa é fisicamente. Por estarem interessados ou mera curiosidade. Se possível, consultam várias pessoas, pra ter um parecer ainda mais completo. O rapaz da música realmente parece encantado com a moça. Mas nisso também não há algo extraordinário. Quando convivi com homens que perderam a visão, eu não entendia a quantidade de cantadas que eles passavam. Bastava conversar com uma mulher um pouco mais gentil para as insinuações e perguntas começarem. Eles faziam o que a gente chama de “atirar para todos os lados”.
No decorrer da minha pesquisa, a motivação pra isso ficou mais clara. As mulheres possuem uma tendência a cuidar muito de deficientes, mas essa relação tende para o materno. De um lado, isso é de grande ajuda; de outro, causa problemas quando um homem quer ser visto como tal. Isso sem falar que ser deficiente diminui bastante o “apelo” de alguém nas relações com o sexo oposto. Acredito que essa atitude de se colocar como homem disponível logo que interage com qualquer mulher, tem o objetivo de aproveitar todas as chances e de deixar claro para todos que lá há um homem, não apenas um deficiente.
São detalhes que mudam totalmente o sentido da música: um desejo de ver que não existe, um romance açucarado onde ele não existe. Não dá mais pra ouvir da mesma forma.
(Estou com um artigo quase pronto sobre o meu livro, a ser publicado em breve. Quando for, colocarei o link aqui. E quem quiser um exemplar do livro – autografado e mais barato -, é só falar comigo)

Blogagem coletiva em apoio à Fundação Dorina Nowill

Quando li sobre essa postagem coletiva, o nome da fundação me soou imediatamente familiar. Me lembro de ter procurado esse nome do google para escrever corretamente. Isso porque um dos meus primeiros entrevistados – e o primeiro a aparecer no livro, que está em ordem decrescente da quantidade tempo em que está cego – foi para lá em busca de ajuda. Porque ele ficou cego de repente e aqui em Curitiba não havia onde procurar ajuda. Sua família tinha condições financeiras para lhe oferecer o melhor, por isso ele foi até São Paulo, para a Fundação Dorina Nowill, para aprender a se readaptar.

Isso foi há muito tempo, e hoje o nosso Institudo dos Cegos tem como oferecer apoio à essas pessoas. E existe também a Associação dos Deficientes Visuais do Paraná. A Biblioteca Pública do Paraná possui um grande acervo em braille e audio-livros, grande parte dele feito com a ajuda de voluntários. Pela sua história e qualidade, o instituto Dorina Nowill continua como referência a todos aqueles que sofrem com a deficiência visual – o que inclui cegos, pessoas com visão residual, amigos, familiares e educadores. Como a pesquisa que fiz sobre o assunto me levou a perceber, as pessoas tendem a olhar a questão da cegueira de maneira esteriotipada. O cego é visto como um coitado, que quando muito precisa de educação especial. A cegueira é apenas uma parte da vida dessas pessoas. Os cegos querem comida, diversão e arte – eles querem a mesma coisa que eu e você.

Pra ajudar as pessoas a lembrarem dessa questão, estamos fazendo essa blogagem coletiva. Você, blogueiro, pode fazer um post onde conste o endereço da Fundação Dorina Nowill e avisar aqui. Outra forma de participar é clicar em um dos links que coloquei ao longo do texto, ou quem sabe procurar entidades que trabalhem com cegos no seu estado e fazer uma doação. Existem muitas formas de doar: pode ser tempo, dinheiro ou solidariedade.

Mundo incompleto

A qualificação é temida injustamente por quem está escrevendo uma dissertação. Ela é uma das poucas oportunidades em que o nosso trabalho será lido com interesse minucioso e receberemos sugestões válidas. Das várias sugestões e correções que eu recebi ao meu trabalho, a que mais me surpreendeu foi, na verdade, a correção de uma idéia de Goffman:

Entre seus iguais, o indivíduo estigmatizado pode utilizar sua desvantagem como base para organizar sua vida, mas para consegui-lo deve se resignar a viver num mundo incompleto. Neste, poderá desenvolver até o último ponto a triste história que relata a possessão do estigma.

(p.30)

Naquelas alturas, depois de entrevistar onze pessoas que ficaram cegas em diversas fases, eu tinha conseguido provar de maneira muito consistente o quanto perder a visão é radical. Mas não radical num sentido físico, como no pesadelo de nós que enxergamos; meus entrevistados que já eram cegos há mais tempo encaravam o fato com muita naturalidade. Acostuma, nas palavras deles. A parte mais radical da experiência de ficar cego é o preconceito gigantesco e persistente que essas pessoas passam. É maior do que ser feio, gordo, negro, pobre ou analfabeto. Digo isso porque um colega de mestrado ouviu algumas histórias das entrevistas e me perguntou:

– Pra um homem, seria como ser muito feio, então? As mulheres já te colocam em último lugar?
– Não, é pior porque é uma categoria à parte. Existe o bonito, o feio e o cego. Pode até ser um cego bonito, mas ele simplesmente não entra na avaliação. Ele é café-com-leite.

É difícil e talvez impossível se acostumar com isso. Não para alguém que já enxergava antes, que sabe do que é capaz e como era tratado antes. É um preconceito que jamais deixa de ser percebido, porque jamais deixa de ser manifestado pelos outros. Existem poucas pessoas que sabem lidar com eles e poucas maneiras de esconder o seu defeito (a resistência em usar bengala é um deles). Essas características fazem com que a cegueira encaixe com perfeição na definição de estigma, de Goffman:

Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o torna diferente de outros que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos desejável – num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim, deixamos de considerá-lo uma pessoa comum e total, reduzindo-a a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando seu efeito de descrédito é muito grande. (pág 12)

Sendo esse contato com os “normais” tão difícil, Goffman fala do quanto é mais fácil lidar com pessoas com sofrem o mesmo problema ou que já saibam lidar com o problema (a que ele chama de “informados”). Um dos meus entrevistados falou do quanto ter uma turma de amigos cegos o ajudava, do entendimento profundo de poder falar que bateu a testa no orelhão e o outro dar risada ao invés de ficar com pena. Ou o problema de atendentes de loja se dirigirem sempre à outra pessoa, ou de abordar um estranho e ele achar que é pra pedir esmolas. Não tem como negar que isso deve ser muito desgastante. Falar apenas com quem não faz isso com você deve ser quase uma tentação. É disso que Goffman fala (naquele primeiro trecho que citei) sobre a possibilidade de viver num mundo incompleto – usar o seu problema como critério para estabelecer todas as suas relações. Ignorar o mundo que ignora a sua humanidade. Ser um cego e só andar com cegos, ou pessoas que sabem lidar com cegos seria esse mundo incompleto.

Aí fui alertada, durante a qualificação, que todos nós vivemos num mundo incompleto. Que nenhum de nós domina a amplitude da vida social, ninguém lida com todos os universos, conhece todos os tipos de pessoas. Podemos não escolher baseados num estigma, mas também escolhemos nossas relações de acordo com critérios. Andamos sempre com aqueles que compartilham nosso universo cultural, que frequentam nossos ambientes, que têm os nossos hábitos. Não precisa ir muito longe pra perceber: engenheiros andam com engenheiros, atores andam com atores, adolescentes andam com adolescentes. Às vezes achamos que somos radicais, que inovamos muito e conversamos com outro universo, sendo que na verdade o diferente em questão é quase igual.

Foi o que eu descobri, de maneira radical, quando abandonei o meio universitário e comecei a dançar. Eu me achava muito diferente por ter casado com um engenheiro: ele é exatas e eu humanas, ele é de direita e eu de esquerda. Na dança, entendi que somos dois universitários, que a diferença entre as carreiras acadêmicas é pequena com relação ao universo fora da academia. Na dança aprendi a reconhecer universitários pelo físico, pela maneira de vestir: sempre contido, quase imóvel, meio fora de moda e discreto, jamais sensual (por isso que Geysi Arruda pareceu tão agressiva de vestido rosa). Universitários mostram na sua maneira de vestir e andar que não é no corpo que sua identidade está. Descobri um mundo onde as pessoas não acham importante ler jornal, mas sim ser consciente de cada detalhe do seu corpo ao executar um movimento. É um nível de concentração e conhecimento da sua estrutura física que um universitário não faz idéia que existe. Ser belo, ter carisma e preciso ao se mover mostra quem você é, na dança e na vida. Enquanto um universitário carrega seu corpo, o bailarino é o seu corpo.

Mas é claro que são coisas diferentes: escolher suas relações tomando um estigma como base ou escolher suas relações por posições (em grande parte inconscientes) que temos na nossa vida social. A questão foi resolvida colocando uma nota de rodapé explicando essa diferença. Cegos ou não, vivemos todos em mundos incompletos.