As rãs, de Mo Yan

Ao longo da leitura de As Rãs, pensei muito em que palavras usaria para descrever o livro. Pensei muito porque realmente quero recomendar este livro, que li como mera curiosidade para conhecer um escritor chinês que ganhou um prêmio Nobel. Uma das palavras que me veio à mente, e que nunca vi usada em literatura, é naif. De acordo com o Wikipedia:

A Arte Naïf é uma classificação que designa artistas auto-didatas que inventam um jeito pessoal de expressar suas emoções.(….) A palavra naïf é um termo francês que significa ingênuo ou inocente; portanto, a “arte naïf” é todo produto artístico de natureza pueril que demonstra uma criatividade autêntica baseada na simplificação de elementos decorativos a níveis brutos, espontâneos, puros, coloridos.

O livro passa a impressão, que tem a ver com a história pessoal do autor (a biografia é desinteressante, já adianto), de ter sido escrito por alguém que não veio de um meio literário e sim cheio de narrativas orais; o livro seria apenas apenas a última etapa do processo, de uma história que já foi contada e enriquecida de detalhes a cada audiência. Há algo de espontâneo e direto no livro, como se fosse uma reunião dos causos mais interessantes da vizinhança. A sensação ao ler o livro é esta: nos reunimos com os amigos e parentes e eles nos contam as últimas novidades, em detalhes deliciosos. Some isso às diferenças culturais, expressões impensáveis dentro da nossa própria língua, costumes diferentes, as mudanças radicais da Revolução Cultural. As Rãs é tão emocionante e surpreendente como se fosse um grande Casos de Família por escrito.

Professor, tínhamos em nossa aldeia um costume bem antigo de batizar as crianças com o nome de partes do corpo humano, como Chen Nariz, Zhao Olho, Wu Intestino, Sun Ombro… Nunca procurei saber a origem dessa prática, talvez tenha surgido por acreditarem que um nome humilde daria vida longa, ou pelo fato de as mães considerarem o filho parte da própria carne. Esse é um costume que caiu um desuso. Os pais de hoje não querem mais dar nomes estranhos aos filhos. As crianças da aldeia agora recebem nomes sofisticados de personagens de novelas de Hong Kong, de Taiwan ou Coreia. Quem tinha nome à maneira antiga, na maioria dos casos, acabou optando por outro mais elegante. Naturalmente, há aqueles que mantiveram o original, como o Chen Orelha e o Chen Sobrancelha.

Chen Nariz – pai de Chen Orelha e Chen Sobrancelha – foi meu colega de escola primária e meu amigo de juventude. Entramos na escola primária de Dayanglan no outono de 1960. As memórias mais marcantes que tenho daquela época de fome são, em grande parte, relacionadas à comida. Por exemplo, a história de quando comi carvão. Muitos pensam que é invenção minha, mas juro por minha tia que tudo aquilo aconteceu de fato, eu não inventei nada. (Parte I. capítulo 1)

O protagonista, Corre Corre, é como um dos muitos camponeses de uma pequena vila na China. Ele é como os que o cercam; Corre Corre não faz a menor questão de esconder suas fraquezas, que muitas vezes se propõe a ser melhor e não consegue, que vai no fluxo e acaba por decidir pelo que lhe é mais cômodo, o que o torna um personagem muito simpático. Seu ponto de contato com um mundo diferente é a sua tia, uma mulher idealista, teimosa e forte, que se torna a obstetra da vila e mais tarde representante do Governo. A vida dele e de toda vila é modificada quando inicia a Revolução Cultural, que traz novos valores e perspectivas. A tia dele acaba sendo o ponto de contato de políticas distantes do Partido Comunista e a realidade do povo comum. A delícia do livro é oferecer a visão micro do que é decidido no macro, como o povo reage a decisões políticas que num momento vão de encontro aos seus desejos e em outro os contrariam. O mesmo partido que no início estimulava a concepção, depois adota a política do Filho Único e coloca à força DIU, faz laqueaduras e interrompe sem escrúpulos gravidezes de sete meses. O processo não foi nada tranquilo, como nos faz parecer as distantes estatísticas. A tia mantém, por toda vida, a mesma atitude de fervor aos ideais do partido, e vai ao céu e ao inferno por isso. Mais do que a história de Corre Corre e sua tia, o livro conta a história da vila inteira, é um registro sobre a Revolução Cultural. O livro me fez lembrar das linhas de conhecimento, que quando tendem para a sociedade esquecem do indivíduo e vice-versa. Mo Yan consegue mostrar muito bem essa relação. Vemos como camponeses, pobres e ignorantes em muitos aspectos, dotados de relações e saberes tradicionais, manejam com inteligência os meios para tentar fazer as situações irem a seu favor. Temos o macro, com o partido, as políticas, o presidente Mao; em meio a isso, pessoas que se apaixonam, se vingam, mudam de ideia, se divertem, protagonizam barracos e, principalmente, procuram seu caminho.

Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.