A questão do duplo em Black Mirror

Alerta de spoiler: este texto fala livremente de histórias dos episódios das temporadas 2, 3 e 4 de Black Mirror. Se você ainda não viu e não gosta de spoiler, corre lá pra ver e volta!

jon hamm black mirror

A ovelha Dolly, criada em 1996, foi o primeiro ser vivo a ser duplicado geneticamente. Na época surgiram muitas discussões, lembro que uma pergunta frequente: será possível, em algum lugar, alguém recriar Hitler? A resposta é que, mesmo que um dia a genética consiga recriar um corpo humano de um DNA pré-existente, seria inútil pretender que Hitler, ou de qualquer outra pessoa, revivesse com isso. Uma pessoa não é, apenas, sua genética. Uma pessoa é um conjunto de contingências, familiares e sociais; é a soma da intimidade e a cultura da sua época, interações impossíveis de serem recriadas. Muito antes da Dolly a ficção já se questionava sobre a possibilidade de duplicar seres vivos. Na série original Netflix, Black Mirror, que se caracteriza quase inteiramente por uma visão pessimista do avanço tecnológico, a questão de criar um duplo é um dos temas recorrentes. Lá, os duplos ora são o simples desligamento da realidade objetiva, ora são substitutos idênticos de seus donos; ora são replicações auto-conscientes, assim como podem ser pura consciência; às vezes são servos e podem ser ignorados pelo próprio dono do DNA.

Em dois episódios o próprio sujeito permite que seu Eu seja mergulhado numa realidade virtual. No episódio Playtest (temporada 3, episódio 2), um homem se oferece como cobaia para o desenvolvimento de jogos de computador. Ele fornece à empresa a informação dos seus medos mais íntimos e lhes dá permissão de ser desligado do mundo material. O jogo constrói realidades múltiplas e se torna uma espécie de pesadelo, onde não sabemos mais o que é intencional ou fora de controle, o que é vida ou morte. Já em San Janupero (temporada 3, episódio 4), na realidade virtual estão misturados os que possuem uma vida corpórea e aqueles que são apenas consciência, ou seja, já estão mortos. San Janupero representa a possibilidade de viver além de suas limitações físicas, seja problemas de saúde, idade avançada ou até mesmo a morte. Nos dois episódios o duplo não está ligado à noção de DNA e sim de consciência, como um ente independente do físico que pode construir outro mundo para si. Como o mundo material é apenas uma referência, no mundo criado as regras são flexíveis e alteradas conforme a conveniência – em Playtest, de forma hostil; em San Janupero, com a possibilidade de ser sempre jovem e belo. O protagonista de Playtest, submetido a uma situação estressante, está sempre se relembrando da irrealidade do que o cerca, como forma de proteção. Em San Janupero, o mundo virtual se pretende como uma espécie de paraíso, com acesso ilimitado a todos os prazeres. A questão com que a personagem se depara, ao escolher entre a morte física e San Janupero é muito mais filosófica: existe felicidade infinita?

Muito menos sorte tem a mulher de segunda história de Black Museum (temporada 4, episódio 6). Do coma, a consciência dela é transferida para o cérebro do marido. Por incrível que pareça, assim como nos casos anteriores, ela quem pede isso, num sistema arcaico que lhe permitia responder Sim ou Não quando estava presa ao seu corpo. Para ela, nenhuma nova realidade é criada, ela é trazida ao mundo atual. A mulher está consciente sem poder atuar; mas ao contrário de quando estava presa ao próprio corpo, ela vê e sente com os olhos do marido, fala através da consciência dele e pode acompanhar o crescimento do filho. Mas o duplo não dá certo (claro!) e o marido a sente como um voyeur constante e desagradável. Mas mesmo assim ele não tem coragem de deixá-la partir e sua falta de coragem leva a uma solução cruel: a mulher é transferida para um urso de pelúcia, que só pode dizer Sim ou Não, agora em forma de Eu Te Amo ou Me dê um Abraço. Nesse mesmo episódio, na terceira história, descobrimos que existem destinos piores para uma consciência sem corpo. Um condenado permite que sua consciência seja recolhida do seu corpo quando é executado na cadeira elétrica. Ele é revivido para uma outra prisão, agora perpétua, como curiosidade num museu. Não apenas a dor da execução é recriada para satisfação dos visitantes como é possível ter um duplo do duplo, um souvenir do seu momento de agonia. Novamente, vemos Black Mirror levantar a questão do quanto é legítimo sentir prazer com o sofrimento do outro quando ele é mau, questão que discuti AQUI.

Em Be Right Back (temporada 2, episódio 1) o propósito de criar um duplo é bem mais nobre. Uma mulher grávida perde seu namorado num acidente de carro. Um serviço online cria uma versão virtual dele, através das informações que ele mesmo compartilhou durante anos em redes sociais. Essas informações, somadas às novas interações com a namorada, permitem que o cálculo de suas reações prováveis seja cada vez mais sofisticado, e o duplo evolui de interação por escrito para uma voz, e por fim um corpo sintético. O duplo neste caso não foi idealizado pelo seu original e de nada lhe serve. Nos episódios discutidos anteriormente, o duplo era o próprio sujeito, único, enquanto aqui temos uma projeção que trabalha com informações. Mas, apesar da perfeição na aparência, voz e uso de expressões, é justamente no uso das probabilidades que o programa se mostra falho – ao gostar de uma música diferente, por precisar ser sempre ensinado e nunca fazer nada novo, o duplo não alcança jamais o seu original. Há algo de imprevisível na vida que a tecnologia não alcança. Tal como o marido que prendeu a mulher no ursinho, aqui a namorada também não consegue se desfazer do duplo, por mais que reconheça suas falhas. Sem ocupar inteiramente o papel do outro e sem deixá-lo partir, o duplo impede a vivência total do luto.

Talvez relações humanas sejam complicadas demais e a vantagem de recriar duplos seja justamente a possibilidade de fazer valer sua vontade. Em USS Callister (temporada 4, episódio 1), os duplos derivam de um material genético coletado sem autorização de colegas de trabalho. Um programador cria uma versão pessoal do seu programa preferido, a USS Callister (uma clara referência a Star Trek). Nela, como tripulação, estão seus colegas, e naquele ambiente ele pode descontar a necessidade de reconhecimento e vinganças que não são possíveis no mundo real. Os duplos, quando o programa não é acessado, vivem uma existência tediosa, como se fossem atores que não tem o que fazer no intervalo entre cada peça. Como pessoas consciente e oprimidas, odeiam estar nessa posição e lutam para conseguir a liberdade. As pessoas originais não sabem que existe uma versão delas dentro de um jogo, que sofrem e tem anseios, mesmo quando as ajudam. Para o mundo real nada acontecia, e quem sabe o jogo garantisse que o programador jamais se rebelasse no seu ambiente de trabalho. Para os duplos ele era um vilão, mas será que isso conta? Algum princípio ético é ferido quando se abusa da projeção que fazemos dos outros? De certa forma, é o que fazemos o tempo todo em nossos pensamentos e desejos mais privados. A diferença é que a USS Callister era mais sofisticada.

O episódio White Christmas (temporada 2, episódio especial) é, para mim, o mais interessante sobre o tema dos duplos. O nerd de USS Callister tem problemas de relacionamento e faz um uso muito privado da possibilidade de criar duplos – já o personagem Matt Trent faz da exploração dos duplos um meio de vida. Ele tem uma empresa que, através do DNA, desenvolve programas personalizados que atendem às mínimas exigências dos seus donos. Para aquele que colhe seu material genético e entrega para a empresa, é apenas um software avançado. Como no filme The Island, o que seus usuários ignoram é que o duplo gerado pelo seu material genético é um ser consciente. O duplo criado pela empresa como software atende sua versão real sob tortura, em meio ao tédio e da solidão. O ajuste de software nada mais é do que levar o duplo à obediência ao mostrar a ele sua falta de opção: ele é uma pessoa num cenário todo vazio com um computador, operá-lo é a única maneira de preencher o tempo. No final do episódio, descobrimos que os dois protagonistas não estão conversando numa cabana isolada num posto avançado, e sim que são duplos plantados por Matt Trent com a finalidade de obter a confissão de um crime. Só então descobrimos o grau de controle que se tem sobre o duplo e seu entorno, o que torna a exploração deles ainda mais chocante.

(Nos episódios USS CallisterWhite Christmas, o processo de criação dos duplos é igual a dar crtl+C, crtl+V em um arquivo. Através do material genético de um pouco de saliva, surge uma outra pessoa com o mesmo grau de consciência da original até o momento da coleta. Eu sei que é uma liberdade poética BEM grande, mas se fosse para ser rigorosamente científico com o tema, não dava nem pra começar a escrever…)

O ineditismo da abordagem em Black Mirror está, me parece, em nos colocar empáticos com os duplos e não nos originais. Mesmo em Blade Runner, com andróides com senso de preservação e que se acreditam humanos por terem uma memória falsa, e que de tão perfeitos o próprio caçador de androides começa a duvidar da sua própria humanidade, estamos sempre vendo o lado dos humanos. A Janet, o sistema operacional da série The Good Place, brinca muito com a associação entre senso de preservação e seres vivos. Quando prestes a ser reiniciada, Janet pede por sua vida, se ajoelha, argumenta, mostra fotos de filhos; quando o perigo passa, não apenas volta à calma habitual como relembra que todas suas atitudes foram apenas programação, que ela não sente nada porque não é um ser vivo. O que Black Mirror parece nos dizer com os duplos é que, por mais que as pessoas acreditem que não gostam de causar sofrimento, a sua busca pelo prazer leva a um desenvolvimento de tecnologia que causa sofrimento. Mas como esse sofrimento é um efeito secundário invisível ou recai sobre “pessoas más”, ele nos é indiferente. Aceitamos de bom grado o sofrimento, desde que alheio. Como diria Harari, o capitalismo não mata por crueldade e sim por indiferença. Que o digam todas as outras espécies do planeta, o próprio planeta, e até mesmo seres humanos de grupos fragilizados.

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Sobre a cegueira

O artigo a seguir, foi escrito por mim especialmente para a Revista de Filosofia. Ele fala sobre a minha pesquisa de mestrado, publicada como livro pela Editora da UFPR, mas fala também do saber científico e das reflexões que o tema permite, que vão muito além do tema cegueira. É uma experiência interessante voltar ao que publicamos; espero que o artigo traga informações diferentes aos que já conhecem o meu trabalho e que despertem o interesse nos que lerão sobre o tema pela primeira vez.

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Sobre a Cegueira

Experiência estigmatizante, sensações de vida interrompida e anseio por voltar “ao estado anterior”. Essas são as percepções daqueles que perderam tardiamente a visão. Refletir sobre o tema é entender como a sociedade lida com a diferença

Por que ninguém nunca pesquisou isso?”. Para as pessoas comuns, o mundo está cheio de perguntas a serem respondidas. Mas quando essa mesma pessoa se envolve em uma pesquisa que é a base do fazer científico – é como se ela ficasse subitamente sem inspiração. Porque pesquisas não nascem do vazio ou de uma simples indagação: existem métodos, estatísticas, maneiras de abordar o problema; autores que já fizeram perguntas parecidas e dão respostas que norteiam futuras pesquisas. Se por um lado isso forma um conhecimento para o qual todo cientista pode e deve apelar, por outro funciona como uma maneira pré-determinada de olhar a realidade. Assim, o que seria uma pergunta espontânea se vê na necessidade de entrar em uma linha de pesquisa e uma tradição científica. Às vezes pode ser difícil olhar para uma realidade como se fosse a primeira vez e perguntar – por que ninguém nunca pesquisou isso?

Leia o artigo inteiro aqui.

Medicina e ciência

Fico irritada quando dizem que quem procura medicinas alternativas é burro, desprovido de espírito científico. Primeiro que uma coisa não é sinônimo da outra. Depois, vejo que é muito mais fácil atribuir burrice ao número cada vez maior de pessoas descrentes com a medicina tradicional ao invés de se perguntar o porquê disso. Por que tanta descrença com a medicina e com a ciência? Porque elas não cumpriram suas promessas. A medicina tradicional avançado muito no que diz respeito a exames e diagnósticos. Os tratamentos, porém, continuam seguindo os métodos antigos de arrancar, queimar, deixar partes faltando ou substituir por outro pedaço do corpo. Médicos receitam drogas potentes pra “ver no que é que dá” porque o efeito delas não é totalmente conhecido ou controlável. Muitas dessas drogas e radiações são as mesmas de cinquenta anos atrás. Sejamos sinceros, o avanço da medicina que gostaríamos de ver é este:

Medicina e ciência não são sinônimos; biologia é ciência, medicina é uma prática. A medicina se beneficia dos conhecimentos científicos relativos ao funcionamento do corpo, estatísticas, comportamento humano e manipulação de drogas, dentre outros. A ciência possui paradigmas próprios relativos à neutralidade, crítica, criação de conceitos; já a medicina trabalha com idéias relativas à normalidade, patologia, cura. Uma se baseia em idéias e outra em seres humanos. Ambas possuem sua própria história, que em alguns pontos se encontram, mas que jamais podem ser confundidas uma com outra. Por fim, seus objetivos e o público alvo de ambas é diferente – uma busca a comunidade científica e um avanço cada vez maior do conhecimento, enquanto a outra se propõe a restabelecer a saúde da sua clientela.
Dizer que algo não foi comprovado cientificamente, muitas vezes, quer dizer apenas que ninguém se deu ao trabalho de pesquisar. Não quer dizer que é uma tolice, que não dá certo, que não tem o menor fundamento ou que crer naquilo é sinal de burrice. Pesquisas surgem de centros de pesquisa, que por sua vez são dominados por necessidades e políticas próprias. O que gera mais pesquisa é o que está mais em voga, o que não é sinônimo de ser o mais necessário. A malária mata muito mais pessoas por ano do que a AIDS, mas esta última recebe muito mais atenção (e verba) da comunidade científica. Mesmo que exista vontade, pesquisas avançam devagar porque exigem condições materiais específicas. Às vezes o que impede o avanço científico numa determinada área é algo básico como a dificuldade de coleta de material. Os anticoncepcionais femininos foram desenvolvidos mais cedo porque as amostras de urina já estavam disponíveis em exames de grávidas, enquanto a masculina precisava ser coletada…
Existe um amplo conhecimento que não foi absorvido pela medicina. São práticas milenares, coisas transmitidas entre gerações, conhecimentos populares. Essas coisas foram testadas na prática e se mostraram eficazes. Elas apenas não foram testadas por cientistas dentro de laboratórios, seus resultados não constam em revistas científicas. Quem prega a fidelidade absoluta à “medicina científica” ignora a dificuldade de alguns em ter acesso a médicos, seja pelo custo ou pela própria falta de profissionais. Quanto mais sofisticados os exames, mais caros. Ou ignora a dúvida legítima gerada por tratamentos ineficazes, ou eficazes de uma maneira muito agressiva – lembro da piada que diz “a operação foi um sucesso, só que o paciente morreu”. Eu vejo na busca pela medicina alternativa uma atitude crítica, de não olhar para a questão do conhecimento de maneira dogmática e não aceitar passivamente o que lhe é oferecido. Burro é quem faz o contrário.

Guarda-pó

Basta digitar a palavra cientista no Google pra encontrar várias fotos semelhantes a essa: uma pessoa de guarda-pó, preferencialmente em meio a tubos de ensaio. Lembro de uma propaganda de um desses cogumelos milagrosos (“contra artrite, artrose, osteoporose”), em que a imagem do cientista ganhava um acréscimo: aparecia um japonês de guarda-pó para falar das últimas pesquisas relativas ao produto. Se cientistas já são pessoas inteligentes, gênios, imagine só um cientista japonês! Não menos ridículo é pensar que até poucas gerações atrás os professores de sociologia usavam guarda-pó também. São ciências sociais, entende? Me pergunto como uma peça de vestuário que deve ter nascido da simples praticidade de proteger a roupa adquiriu um imaginário tão poderoso. Há quem declare sonhar em ser um profissional da saúde para usar guarda-pó branco – ou que tenha fantasias sexuais com quem o usa. A função de proteção é o de menos. O guarda-pó é um verdadeiro símbolo de status.

Doses de ciência na cura da religião?

Programas evangélicos, desses que passam na TV, têm um pouco de tudo. Há um momento específico de doutrinação, mas vai muito além disso. Fiéis mandam cartas perguntando ao pastor o que fazer, coisas comuns como casar ou esperar mais um pouco. Em ritmos possíveis, muitas vezes inspiradas no último sucesso pop, as músicas se esmeram em tentar colocar Jesus em todos os refrões. Nos programas da igreja universal cada dia tem um ritual diferente – camiseta amarrada, as sete águas correntes, a flor de não-sei-o-quê. Mas o momento mais interessante, sem dúvida, é quando eles dão voz aos que frequentam a igreja, para eles compartilharem os seus milagres pessoais: ações na justiça que se resolveram rapidamente, livrar-se com drogas, casais que não se entendem, problemas crônicos de saúde, etc.

Frequentei muitos cultos por curiosidade, mas nem ao menos sou batizada. Apesar disso, eu sou aquela que vai nos posts do ateu Milton Ribeiro “defender” a religião. Não que eu a considere desejável, e sim porque não concordo com visões simplistas sobre o assunto. Uma delas é crer se tornarmos a ciência acessível, as pessoas se libertarão da religião.

(roubei da Tina Lo)

Eu diria que esse é um pensamento datado. Mais especificamente, do século XIX. No já citado Ramo de Ouro (The golden bough: a study of magic and religion), publicado em 1890, Frazer propunha que a humanidade avança por três estágios: do mágico para o religioso e do religioso pro científico. A magia era visto como algo mais desorganizado, que através de leis especifícas – como da contiguidade e da similaridade – tenta influenciar o mundo extermo. A religião teria a vantagem de ser um sistema cosmológico mais complexo, que ao invés de entender a natureza através leis imaginadas, apela para a existência de espíritos e divindades. E o científico é o estágio da excelência, das coisas como são, de entender a natureza tal como ela é e buscar influenciá-la da maneira realmente eficiente. Em resumo, a ciência é o ocidental e civilizado. Magia e religião são coisas de atrasados e primitivos, de pessoas de raciocínio menos desenvolvido – estejam eles vivendo longe ou perto de nós.

Existe uma referência anterior a Frazer, mas não menos importante: Comte. Augusto Comte (1798-1857), avô da sociologia, também postula três estados no desenvolvimento do sistema social: o estado teológico, estado metafísico e estado positivista. No estado teológico, o o homem observa a natureza e, impossibilitado de entendê-la de outra maneira, produz explicações sobrenaturais, dando origem às teologias; no estado metafísico, a procura de soluções absolutas para os problemas dos homens o leva e especulações abstratas e daí surge a filosofia; por fim, o estado final é o positivista, onde o homem subordina seu julgamento à razão e chega à ciência positiva. A ciência positiva uniria todas as ciências, conheceria as leis que regem as sociedades e permitiria a produção do bem. Novamente a ciência surge como um estágio superior de pensamento. É interessante pensar que Comte distingue teologia de religião, e propunha a criação da Igreja Positivista; nela, são louvados os grandes filósofos, cientistas e artistas da humanidade. Isso mostra que qualquer coisa pode ser colocada num altar, inclusive a ciência.

Nem preciso dizer que todas as previsões sobre o fim das religiões falharam. Ciência e religião coexistem, e não foi por falta de avanço científico. Na minha opinião, quem ofereceu uma explicação simples e profunda a esse respeito foi Weber, o mesmo autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904). No Ciência e política: duas vocações (1917-1919) ele nos diz, citando Tolstói: “a ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, a única pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver?” Retorno aos programas evangélicos, às cartas, às músicas, aos rituais, às dúvidas idiossincráticas dos fiéis, às decisões a serem tomadas todos os dias. Há uma dor que precisa ser carregada individualmente e a ciência não lida com ela. Por mais mentiroso ou fantasioso que soe aos ouvidos descrentes, a religião têm algo a propor sobre a vida de cada um. A ciência procura descrever o mundo e não encontrar um significado nele.

É preciso entender o que é ser um fiel. Há um desejo anterior aos templos, por isso não basta destruí-los. Esse desejo vai além da simples crença de que existe algo além do que vemos, porque muitos que não frequentam nenhuma denominação também pensam assim. Crer não torna alguém religioso, no sentido de ser um fiel. O fiel vai à sua igreja; fazer parte de uma igreja é viver uma cultura. É o encontro marcado, a vivência em comum, pessoas que olham o mundo a partir de um mesmo ponto e a partir dele algo é gerado. Igrejas oferecem uma ampla rede de apoio, tanto para os seus fiéis como para o resto da sociedade. Basta pensar no conceito de caridade – quase todos os trabalhos voluntários e altruístas ainda se alimentam dele. Eu vejo falarem em tirar a religião das pessoas, como quem retira um objeto. Não se propõe nada, não a substitui por nada. Enquanto aqueles que gostariam de ver o fim das religiões a entenderem apenas como um conjunto de crenças equivocadas, sempre estarão muito longe de solucionar esse problema.

Sexo trocado

Sexo é cultura. O que entendemos como masculinidade ou feminilidade são totalmente determinadas pelo meio. É ela que nos diz que homens são fortes, agressivos e líderes, enquanto as mulheres são delicadas, tranquilas e conciliadoras. Desde o nosso nascimento, na escolha dos nossos nomes e em diferenças sutis de tratamento, vamos assimilando as características do sexo que nos é atribuímos e unicamente com base nelas fazemos nossas escolhas. Desde a maneira de ser portar até a atração física pode ser explicada nesses termos. Ao nascer, a única coisa que diferencia meninos e meninas é a presença do pênis; se fosse possível criar um menino sem pênis, se ele lhe dessem um nome feminino e o tratassem como tal durante toda sua infância, bastaria lhe dar hormônios na adolescência para concluir a transformação.

Eu sei que tudo o que eu disse soou exagerado. Mas durante algum tempo, as coisas foram consideradas verdades científicas. Tempo o suficiente para tornar real a experiência de criar um menino sem pênis como menina. É o que conta o livro Sexo Trocado. Um erro médico criou a oportunidade perfeita para provar o determinismo cultural sobre o biológico: em 1967, dois meninos gêmeos, de oito meses de idade, foram realizar cirurgias de circuncisão. Em um deles a operação foi tranquila; no outro, o aparelho queimou o pênis do bebê. Sem saber o que fazer, os pais se renderam ao argumento de um médico, que os convenceu que um menino sem pênis estava privado do que há de mais importante na sexualidade masculina. Seria mais fácil castrar o pouco pênis que lhe restou e transformá-lo numa menina. Se eles não contassem a ninguém que ele era originalmente um menino e tratassem a criança como filha, ela assumiria a identidade feminina sem problemas.

As coisas não aconteceram exatamente como o esperado. Mas isso não impediu o médico de apresentar esse caso em diversas conferências, publicar em revistas científicas e se tornar referência nos casos de mudança de sexo. Muitas crianças hermafroditas tiveram suas características dúbias retiradas (em favor de um dos sexos, escolhidos pelo médico) por conta desse caso exemplar. A foto do casal de irmãos e notícias periódicas do desenvolvimento normal da menina confirmavam à comunidade científica o poder da cultura e da intervenção da ciência sobre a natureza. Penso no impacto favorável desse caso ao feminismo da época, que ainda buscava argumentos contra o biologicismo da desigualdade entre os sexos. Era o sonoro NÃO à questão levantada por Margaret Mead no livro Sexo e temperamento (1935): “ninguém conhecia em que grau o temperamento está biologicamente determinado pelo sexo, de modo que esperava ver se havia factores culturais ou sociais que afectassem o temperamento. Eram os homens inevitavelmente agressivos? Eram as mulheres inevitavelmente caseiras?”

A menina cresceu agindo como um menino sem pênis. É como se em algum lugar, desde sempre, ela soubesse da verdade. Quando criança, se comparava ao irmão e dizia que queria ser igual a ele. Quando argumentavam que ela não podia, porque era uma menina, ela ficava sem saber o que dizer. As outras crianças percebiam que havia algo errado e se mantinham longe. Ela cresceu arredia, desconfortável com seu próprio corpo, ignorando e ignorada pelos rapazes. Quando começou a receber hormônios, mesmo sem saber o que eram, não queria tomar. A situação foi ficando cada vez mais insuportável, até que aos 14 anos seus pais lhe revelaram a verdade. Por um lado foi um alívio, mas por outro foi o início de mais uma batalha: a recuperação da masculinidade. É um livro que conta um sofrimento pessoal e familiar muito grande. Anos depois da publicação, seu protagonista cometeu suicídio.

Com o tempo, esse extremo culturalismo foi perdendo força. Na época, a notícia de que a mudança forçada de sexo não fora bem sucedida encontrou uma acolhida fria nos meios acadêmicos. Assim como os estudos que apontavam um componente biológico a ser levado em conta na construção da sexualidade. Hoje esses estudos não encontrariam obstáculo algum – num movimento pendular, hoje estamos vivendo uma busca de explicações biológicas para os todos comportamentos. Existe a pretensão de que a genética substituirá a psicologia. Mesmo em correntes tão diferentes, o falocentrismo ainda não parece ter sido superado… Quem iria prever que a visão da mulher como o negativo (no sentido de encaixe) do homem ou do pênis como peça essencial no complexo de édipo poderiam levar um menino a ser transformado em menina? Coisas que parecem simples metáforas, quando transformadas em discurso científico, têm um perigoso poder de materialização.