Tão marcante que dói

Comecei a ler Homem Invisível, de Ralph Ellison, um verdadeiro clássico sobre o preconceito racial. Logo no primeiro parágrafo do Prólogo, lamentei muito que ninguém que eu conhecesse na época do meu mestrado tivesse me recomendado o livro. Porque a definição que ele faz da sua invisibilidade cai perfeitamente com o conceito de estigma. Se não pudesse usar o livro todo, pelo menos usaria esse começo, nem que fosse apenas como uma Epígrafe.
Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibra e líquidos – talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem um corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação – na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu.
Minha invisibilidade também não é, digamos, o resultado de algum acidente bioquímico da minha epiderme. A invisibilidade à qual me refiro ocorre em função da disposição peculiar dos olhos das pessoas com quem entro em contato. Tem a ver com a disposição de seus olhos internos, aqueles olhos com que elas enxergam a realidade através dos olhos físicos. Não estou reclamando nem protestando. Às vezes é até vantajoso não ser visto, embora quase sempre seja desgastante para o sistema nervoso.
p.7
Com uma leitura tão interessante, fui logo para as páginas seguintes. E o que se seguiu no primeiro capítulo foi tão forte, doloroso e exagerado, que estou na dúvida se prossigo. Um grande livro, sem dúvida. Mas é daqueles que colocam o dedo na ferida, escancaram, não poupam o leitor. Não sei se quero, não sei se consigo.

Citação, BBB e pessimismo

Esta citação está na biografia de Hitler, que eu citei aqui. Na época, guardei mais por me fazer pensar do que por concordar com ela:

Não é a cegueira ou ignorância o que leva à ruína os homens e os estados. Não demora muito para que percebam até onde os levará o caminho escolhido. Mas há neles um impulso, que sua natureza favorece e o hábito reforça, ao qual não podem resistir, e que continua a empurrá-los enquanto lhes resta a mínima energia. Aquele que consegue dominar-se é um ser superior. A maioria vê diante dos olhos a ruína e avança para ela.

Leopold van Ranke

Tive vontade de usá-la quando começaram as primeiras discussões sobre o estupro no BBB. Mas me abstive, porque isso seria uma opinião qualquer frente às coisas muito interessantes que foram publicadas. Soaria como um simples repúdio ao programa, um convite ao boicote de patrocinadores e espectadores, e, pior ainda, pareceria colocar aqueles que não gostam do programa numa posição de pessoas superiores que eu sempre discordei. Eu mesma vi muito BBB, parei, voltei. Como muitas pessoas me disseram e eu concordo – estava na cara que um dia alguém exageraria. Reúnem mulheres gostosas, algumas delas garotas de programa, com marmanjos, em festas regadas a álcool e libido a flor da pele. A surpresa é que tenha demorado 12 anos – prova de que somos um país ainda bastante pudico.

A citação tem a ver com o caso BBB, pra mim, porque me fez entende-la de uma maneira ampla. Colocamos engrenagens complexas para trabalhar e depois não sabemos como parar, ou não queremos pagar o preço de parar. O BBB distrai nossas noites e não conseguimos parar de ver, gera dinheiro para os anunciantes, que não querem parar de lucrar. Princípios rigorosos mandariam parar tudo de uma vez, mas… Penso nos hábitos negativos, na destruição da natureza, na desigualdade social que convivem lado a lado à nossa preocupação sincera com os mesmos temas. É humano – tomamos banhos longos e nos preocupamos com a água do planeta, amamos os animais e nos deliciamos com a sua carne, desperdiçamos comida e repudiamos a idéia de que outros passam fome. É o prazer imediato contra o benefício de todos, é algo que faz parte do dia a dia contra uma vaga idéia de um mundo ideal. Será que o destino das coisas é acabar – de programas de TV a regimes políticos – apenas quando a energia se esgotou, quando renderam os piores frutos, atingiram níveis de corrupção insuportáveis, ou em algum momento a humanidade consegue dizer – vamos parar agora, porque as coisas se encaminham para o pior? Parece que não.

Feminilidade, por Scarlett O´Hara

Peguei … E o vento levou com todos os preconceitos em torno da idéia de pegar pra ler um best seller que virou filme. Tudo graças às recomendações da Luciana, que disse que era uma leitura agradável. Pois digo que ela não fez justiça ao livro – ele é delicioso. Além dos personagens inesquecíveis e da história que todos nós conhecemos, o livro têm detalhes, costumes, uma percepção muito aguda do pensamento da época. O livro descreve os pais de Scarlett O´Hara, o que a torna uma mistura inusitada de todas as maneiras e sutilezas que uma grande dama deve ter, mas com a força do sangue irlandês paterno, tão forte que não conseguiu ser domado pela educação. Ela conhece e maneja muito bem os artifícios femininos, mas sempre com o cinismo de quem sabe quem usa uma fachada; Scarlett não se identifica e não se deixa enganar por eles. Apenas uma mulher que compreende o teatro da relação entre os sexos poderia dizer isto:

– Quisera Deus que eu já fosse casada! – murmurou enervada ao encetar as batatas doces. – Já não posso mais com esse constante constrangimento de não fazer nada do que me apraz. Estou cansada de fingir que me alimento como um passarinho; de andar devagar, quando a minha vontade é correr; de insinuar que quase perco os sentidos depois de cada valsa, quando poderia dançar dois dias seguidos sem me sentir cansada. Estou cansada de dizer: “Você é extraordinário!”, a uns idiotas que têm muito menos juízo do que eu; cansada de fingir ignorância, para que os rapazes se sintam cheios de si, e me ensinem o que estou farta de saber…
MITCHELL, Margaret. …E o vento levou. 5º ed.
São Paulo: Hemus, [1980] p.67

Ainda tão atual, não?

Descobertas, por García Márquez

Eu conheço esta citação há anos, descontextualizada. Não sabia se era de uma entrevista ou de um livro; nem ao mesmo tinha certeza do seu autor. Como pessoa organizada, me identifiquei na hora e vi nela uma bela autocrítica. Só que lendo-a no Memórias de minhas putas tristes, ela adquiriu novas cores. No meio da história, ela deixa de ser uma simples constatação e adquire cores otimistas, por representar a descoberta e renascimento de um homem aos noventa anos.
“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.”
Memórias de minhas putas tristes, p.74

De volta ao básico

Estou lendo David Copperfield e não farei outra crítica a Charlles Dickens. Essa segunda leitura me fez entender melhor algumas críticas ao autor: pieguismo, visão maniqueista dos personagens, repetição de temas, crítica superficial às condições da sua época. Mesmo que duas leituras já me tornem capaz de saber onde está o vilão antes mesmo dele começar a vilania, mesmo que as desventuras de Copperfield desde a tenra idade sejam tão exageradas que eu não fui capaz de derramar uma lágrima (e sou uma leitora vergonhosamente emotiva), é um livro maravilhoso. Ele domina aquela arte mais sagrada da literatura, que é a capacidade de emocionar o leitor. Numa época que o bacana é procurar inovações na linguagem, nada como ler alguém que procura ser agradável e acessível.

Será possível que, hoje, no momento em que surge diante de mim, tão nitidamente como pessoa que eu reconhecesse na rua cheia de gente, o rosto de minha mãe já não exista mais? Sei que ela se foi, que não é mais deste mundo; mas, ao falar de sua beleza inocente e infantil, posso acreditar que ela tenha desaparecido para sempre, embora ainda sinta em mim seu hálito suave, como senti naquela noite? Será possível que minha mãe tenha morrido, quando a minha memória evoca-lhe a existência sempre assim, e meu coração, fiel às recordações da mocidade, conserva vívido o que então acariciava?

Joe Gargery

Eu cheguei ao Grandes Esperanças de Charles Dickens através do post do Milton, e principalmente por causa dos comentários da Nikelen. Diante do que eles disseram, me sinto tão obtusa e constrangida quanto Joe Gargery, o ferreiro ignorante e amoroso. Nada tenho a declarar sobre o autor estar abandonado e qual legado ele nos deixou; se fosse escrever sobre a importância de Dickens como primeira celebridade literária, teria que copiar os comentários da Nikelen. A crítica que tenho a fazer sobre o livro é apenas um entusiasmado Estou adorando.

O livro me pegou de jeito, como pegou as pessoas que o leram na época sua época. Termino cada capítulo ansiosa pelo seguinte. Rio das muitas ironias do livro, me comovo com os momentos emotivos, me indigno com as injustiças. Ou seja, sou uma leitora-joguete, o autor tem me conduzido como quer. Pip tem a trajetória clássica do herói, a mesma tradição que também abarca Luke Skywalker e Harry Potter: cresce como orfão e mais tarde tem acesso a todas as oportunidades que sonhava antes. Na sua passagem do mundo pobre para o mundo rico, vemos apenas sorte, talvez destino. São mundos imensos, injustos e inconciliáveis. Mas tudo é colocado em meio a uma história tão boa que…

Este trecho, de Joe Gargery, exemplifica o que acabei de dizer. É a despedida do primeiro encontro entre ele e Pip, depois que o último começou a ser educado como cavalheiro. Antes única fonte de carinho e amizade de Pip, Joe passa a representar um passado constrangedor. Esse momento representa uma mistura tão grande de sentimentos: imaturidade, gratidão, amor, embaraço, distância social. E termina profundo e comovente, com as palavras de Joe:

Pip, velho amigo, a vida é feita de despedidas. Um é ferreiro, o outro é funileiro, o outro é ourives e alguém é caldeireiro. Essas divisões sempre vão existir, e devem ser tratadas assim como são. Se saiu alguma coisa errada hoje, a culpa foi minha. Tu e eu não podemos ficar juntos em Londres. Nem em lugar nenhum, a não ser na intimidade, no conhecimento e na compreensão dos amigos. Não é que eu seja orgulhoso, mas é que eu quero agir certo, e não quero me ver mais nestas roupas. Eu estou errado nestas roupas. Eu estou errado fora da ferraria, da cozinha ou do nosso pântano. Tu não perceberias em mim nem a metade do que percebeste se me visse com as minhas roupas de ferreiro, com o martelo na mão ou mesmo com o cachimbo. Se algum dia quisesses me ver e fosses me espiar pela janela da ferraria e visses Joe, o ferreiro, na velha bigorna, no velho avental chamuscado, grudado no velho ofício, com certeza não perceberias tantos defeitos em mim. Eu sou muito ignorante, mas espero ter feito com isso alguma coisa certa. E Deus te abençoe, velho Pip, querido camarada. Deus te abençoe!

p.254

Nego Leléu

De vários tipos inesquecíveis de Viva o Povo Brasileiro, Nego Leléu é um dos melhores. Diria que é um dos personagens memoráveis da literatura brasileira, e um dos que eu guardo comigo. Ele consegue ser engraçado e profundo; seu envelhecimento nos mostra nuances cada vez mais ricas, que acabam por arrebatar o leitor. Gosto deste trecho que, mais do que Leléu, exibe a prosa fluida de João Ubaldo Ribeiro. Ele conduz o leitor por expressões e referências que o têm tudo a ver com a época e a geografia de Nego Leléu. Além de ser forte e estimulante. Se você acredita que em um único parágrafo é possível reconhecer um bom autor, entenderá o sucesso do livro:
Mas Nego Leléu se entrega? Entrega não! Sabe como é a baleia que se apelida de Toadeira? É o mais valente ser vivente existente, que recebe pelo flanco arpoadas, que se vê cercado dos inimigos mais mortais que qualquer bicho pode ter, que vê o mar virado num espinheiro fatal e então, levantando o dorso como um cavalo de nobreza, sacudindo a cabeça como um combatente que não se rende, não dá ousadia de bufar, não dá ousadia de gemer, mas segura o ardor de tantos dardos lhe mordendo as costas, manda que seu sangue lhe seja fiel naquela hora e, com um arranco a que nada na terra pode resistir, estraçalha o que lhe vier à frente e leva barco, leva gente, leva corda, leva tudo, num carreirão de espuma e água pelos sete mares, vencendo assim quem quer que pensa que é vencido aquele que vencido não vai ser, pela força do orgulho e da resistência. Eu não sou nada, pensou. Nego Leléu aos poucos foi se virando numa baleia Toadeira, sou um negro safado que nunca ninguém quis, mas eu sou eu e não há esse trabalho que eu queira trabalhar que não trabalhe e esta corda eu puxo, este barco inimigo eu destruo, à topetadas, neste mar eu mergulho, vamos lá, Nego Leléu!
Viva o Povo Brasileiro, p.327

Pobreza, por Victor Hugo

A vida para Marius ficou difícil. Comer com o dinheiro obtido na venda das roupas e do relógio não era nada. Ele se alimentou também dessa coisa inexprimível que se chama o pão que o diabo amassou. Coisa horrível, que incluiu os dias sem pão, as noites sem sono e sem luz, a lareira sem fogo, as semanas sem trabalho, o futuro sem esperança, os cotovelos rotos, um chapéu velho que provocava o riso das mocinhas, a porta que se encontra fechada à noite por não ter pago o aluguel, a insolência do porteiro e do estalejadeiro, a zombaria dos vizinhos, as humilhações, a dignidade ofendida, a aceitação dos trabalhos vis, o desgosto, a amargura, o desânimo. Marius aprendeu como se devora tudo isso, e como, muitas vezes, essas são as únicas coisas que se existem para devorar. Nesse momento da existência em que o homem tem necessidade do orgulho, porque tem necessidade de amor, viu-se escarnecido, porque estava mal vestido, e ridicularizado, porque era pobre. Na idade em que a juventude nos enche o coração de altivez imperial, ele muitas vezes baixou os olhos para as botinas furadas e conheceu a vergonha injusta e o pungente rubor da miséria. Admirável e terrível prova da qual os fracos saem infames e os fortes, sublimes. Cadinho em que o destino joga os homens todas as vezes que quer criar um patife ou um semideus.

Victor Hugo/ Os miseráveis

Viramundo

Ao contrário do Charlles, que pegou uma birra assumida e decidiu ignorar a literatura brasileira, há alguns anos venho empreendendo o caminho contrário. Tenho feito um esforço consciente para ler os autores nacionais, e estendo esse esforço aos autores latino-americanos. Porque é a nossa cultura; saber mais da cultura dos outros não muda a nossa nacionalidade. Li muita literatura francesa mas e daí? Certas coisas são acessíveis apenas à eles, assim como muitas coisas são acessíveis apenas à nós. Outra grande vantagem disso é ler sem apelar para traduções. Escrever me fez entender melhor a importância de ler na língua original. Se passo tanto tempo me decidindo entre belo, bonito, agradável ou encantador, é porque cada uma dessas palavras expressa de mais maneira sutil ou mais próxima a idéia original. São detalhes que distinguem os autores, que criam impressões diferentes nas descrições. Existem até estudos que medem o grau de sinonímia das palavras, o que mostra que a substituição sempre perde algo.

Foi por isso, e tão somente por isso, que eu me propus a ler O grande mentecapto. Fernando Sabino, pra mim, era aquele autor do infeliz Zélia, uma paixão. Gostei tanto do Mentecapto que não pude deixar de me perguntar a mesma coisa que todos se perguntaram na época – Por que o Fernando Sabino se sujeitou a isso? Aquilo é tarefa pra um ghost writer qualquer e não um autor de verdade. Nunca li essa resposta, mas eu sei que deve ser um óbvio contas a pagar.

Era uma tarde de sábado, e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Havia silêncio em tudo, pairando sobre as árvores e as coisas ao redor. O sino da igreja tinha acabado de bater. Então Geraldo Viramundo se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar, meio para longe, meio para cima. Centenas de vezes ele tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de um automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe, na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudades da infância – quando minutos mais tarde, se ergueu à caminhar pela casa, percebeu que não era menino mais.
Eu colocaria o Mentecapto como um livro picaresco, parente de Dom Quixote e Cândido. É um personagem louco e sábio, que anda pelo mundo e as coisas lhe acontecem de maneira inesperada e quase sempre positiva. É uma leitura leve, um livro que nos faz rir e não dá pra largar até terminar. Há também passagens sensíveis e memoráveis, como a que transcrevi acima. Li há alguns anos, e lembro muito pouco do que acontece com Viramundo. O que ficou foi a sensação de um personagem muito querido e um livro bem feito. Nem todos os autores são Faulkner, Capote ou Guimarães Rosa. Existem Sabino, Scliar, Telles. Pensar isso me faz bem, porque me lembra de que existem estágios até a genialidade. Isso não os torna dispensáveis. Eles não são gênios, mas ainda assim merecem nossa visita.

Progresso

Em todos os países da Europa, é agora uma verdade que se pode demonstrar para toda mente despida de preconceitos, e que só pode ser negada por aqueles que estão interessados em iludir as pessoas, que nem o aperfeiçoamento das máquinas, nem a aplicação da ciência à produção, nem os artifícios da comunicação, nem a criação de novas colônias, nem a abertura de mercados, nem o livre-câmbio, nem todas essas coisas juntas abolirão a miséria das classes trabalhadoras; mas que, pelo contrário, com base nas falsas bases atuantes atualmente vigentes, todos os novos progressos das forças produtivas do trabalho tenderão a intensificar as discrepâncias sociais e aguçar os antagonismos sociais. A morte causada pela fome atingiu quase o nível de uma instituição, durante esta época de embriaguez com o progresso econômico, na metrópole do império britânico; Esta época está assinalada nos anais do mundo pelo retorno mais rápido, o âmbito mais extenso e os efeitos mais letais da praga social denominada crise comercial e industrial.

Marx, na 1º internacional comunista, em 1864
retirado do livro Rumo à estação Finlândia