Trotsky, pela Netflix e por Padura

O que é pior: uma história esquecida ou mal contada? Assisti Trotsky na Netflix sob a advertência de que ela talvez tenha feito mais mal à história dele do que o próprio Stalin, tamanhas as distorções. Mas o visual da série é lindo, o ator principal é cheio de borogodó e sempre existe aquele atrativo de aprender história de maneira fácil. Esperei para ler o porquê da série ser tão ruim apenas depois de terminar, e também li a biografia romanceada que Leonardo Padura escreveu sobre o assassinato de Trotsky, o premiado “O homem que amava cachorros“. É complicado usar uma obra de ficção para desmentir outra, mas depois desta trajetória por Trotsky, tendo a concordar com os que dizem que a série da Netflix traça um panorama excessivamente negativo sobre ele. Mas, ao mesmo tempo, se não tivesse visto a série, não teria ido atrás da história. E ainda pretendo ler a biografia escrita por Dmitri Volkog, que fica para outro post…

Antes ainda de ler Padura, eu li o artigo que está no site do PSTU. Como mulher, eu me doí bastante com a informação de terem usado a presença de uma heroína russa – Larissa Reissner -, uma mulher corajosa e de biografia bastante interessante, reduzida ao papel de amante voluptuosa, sendo que nem ao menos há registros de que ela e Trotsky tenham sido amantes.  Num episódio, o antigo noivo dela (que é abandonado durante a viagem) vai transmitir uma informação a Trotsky e ela aparece semi nua na cabine, e anda por eles com a maior naturalidade. É uma cena curta, de onde se tira tantas conclusões: era um caso assumido, a mulher além de trocar um por outro ainda se exibe, todos sabiam que Trotsky era imoral e tinha uma amante só pra ele durante a viagem, etc. O mesmo ex-noivo abandonado, mais tarde, aceita mentir para derrubar um inimigo político de Trotsky. Ou seja, para acreditar em algumas coisas é preciso acreditar também que as pessoas são todas corruptas e sem coração.

Nos primeiros minutos do primeiro episódio, há uma conversa que o preso Liev Davidovitch tem com o chefe da carceragem chamado Trotsky, de quem ele “roubaria” o nome anos mais tarde. Também não há registros desta conversa, de acordo com o artigo do PSTU. A cena dá o tom da série: revolucionários são tão ávidos pelo poder e cruéis quanto aqueles a quem eles acusam. O futuro Trostky não sabia disso quando conversou com seu algoz, mas realizaria a profecia em poucos anos. Sempre há a necessidade de construir cenas quando se conta uma história, e o livro de Padura é praticamente feito disto – mas existe uma diferença muito grande em criar cenas baseadas nos fatos a criar cenas inexistentes para provar um ponto de vista. Achar que o poder é sempre poder, e que regimes totalitários são iguais independente do que professem, é uma visão bastante cínica e que faz  muito sentido para quem assiste hoje. Mas devemos lembrar que um dos motivos de fazer sentido hoje é também pelo fracasso soviético.  Trotsky é apresentado na série como um simples carreirista, com grande dom de oratória. Mas se suas motivações fossem tão simples, seus altos e baixos na carreira pela falta de alianças e se oferecer a viajar pela Rússia de trem enquanto Lenin e Stalin se fortalecem politicamente não fazem sentido.

Do mesmo modo que a Escola de Frankfurt coloca que não temos mais cultura para ouvir um Mozart da maneira que ele soava na época que foi composto, também me parece que não é possível entender a trajetória de heróis e vilões políticos do passado com o cinismo de hoje. E aí que Padura, como um autor cubano que cresceu dentro de um regime comunista, me parece muito mais adequado para falar de Trotsky e de seu assassino. O título do livro fala do homem, mas na verdade ele conta a história de três homens que amam cachorros: Trotsky, o assassino Mercader e Iván, um homônimo do autor. São três biografias. Iván um dia puxou papo com um homem com dois cachorros na praia. Daquele contato inocente nasceu a confidência sobre o assassinato de Trotsky, e puxando o fio daquela história, ela expunha “como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida (…) homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendências histórica.” (Segunda parte/ 7935 de 11623)

Os três homens também têm em comum a busca por um propósito. Enquanto para Trotsky e seu assassino, a revolução proletária dá sentido às suas vidas, Padura faz parte dos efeitos colaterais dela. Além de ter passado fome e ter assistido à deprimente fuga de cubanos da ilha, a patrulha ideológica sepulta durante anos o seu talento como escritor. A ele e outros artistas, a exigência da arte alinhada com o partido (ou de propaganda) coloca apenas duas escolhas: a submissão – que leva à produção de um material sem valor – ou o abandono da profissão. Iván opta pelo abandono e sente durante anos o peso do talento não manifestado. “Como é possível que um escritor deixe de sentir-se escritor? Pior ainda, como deixa de pensar como escritor?” (parte 7862 de 11623), a esposa dele pergunta. A história d”O homem que amava cachorros” é prisão e liberdade ao mesmo tempo, uma história que lhe faz mal guardar e precisa ser transformada em livro.

Já Trotsky e seu assassino se colocam a serviço de um ideal maior, então inevitavelmente a decepção deles também é maior. Padura fez uma extensa pesquisa histórica para escrever o livro, mas como o seu foco é o período de exílio, a participação de Trotsky na Revolução Russa é apenas relembrada. A maior diferença dos fatos apresentados entre a série e o livro está na própria relação entre Trotsky e seu assassino. Na série, Mercader, sob o pretexto de escrever sobre Trotsky, passa a encontrá-lo várias vezes, mistura sua vida com a vida da família, chega inclusive a dormir com Frida Khalo. Na realidade, eles não se encontraram tanto, os dois ficaram a sós apenas duas vezes; e o próprio Trotsky percebia que havia algo de mal contado naquele personagem que se dizia belga, jornalista e filho de embaixador, mas que escrevia mal, dizia não se interessar por política e esbarrava na má educação em algumas atitudes. E pensar que para isso Mercader se preparou para incorporar o personagem por três anos!

Trotsky do livro, em desgraça, é um homem acusado de inúmeras conspirações, como se fosse o gênio do mal por tudo o que acontece de errado na nascente URSS. Na prática, ele nada mais faz do que tentar sobreviver entre países que lhe recusam exílio, amigos que lhe abandonam, filhos que são assassinados e a perseguição de Stalin. A série omite que Trotsky foi, além de um grande orador, um dos principais teóricos da Revolução Russa. Descrevem que estar perto dele é como estar perto de uma águia, que sua exigência no trabalho – para consigo e com os outros – era tão grande que extenuava todos ao seu redor. É impressionante pensar que em meio a tanta infelicidade, Trostky não tenha simplesmente desistido; ele nunca deixou de lutar, publicar, escrever e protestar, se dizia consciente de seu papel histórico e único líder possível de resistência. Stalin se preocupou em apagar todos os vestígios da atuação de Trotsky, perseguiu colaboradores, queimou livros e reescreveu a história para colocá-lo num papel de vilão e tinha por ele um ódio pessoal – ódio que aparece tanto no livro quanto na série. Muitos dos mecanismos que Stalin usou para perseguir politicamente seus inimigos foram criados pelo próprio Trotsky; tal como na poesia de Brecht, quando chegou a vez de Trotsky, ninguém se importou porque um dia ele não se importou com ninguém. Apesar de reconhecer que os ideais pela qual havia lutado se perderam em meio à violência, Trotsky defendeu a revolução até o fim: a revolução era outra e Stalin se apropriou dela.

Já Mercader era apenas um dos peões destinados a morrer pela causa. O livro conta que, quando Stalin se aliou a Hitler, inúmeros comunistas que lutaram na Guerra Civil Espanhola cometeram suicídio nas cadeias. Recomendo a leitura da biografia de Olga Benário, outra que teve um destino trágico como recompensa pelo seu idealismo. Um dos personagens mais impressionantes da história de Mercader é a sua mãe, Caridad. Bem nascida, ela abandona uma vida abastada e se torna uma furiosa comunista. Seus filhos crescem no meio da luta, o que dá uma sensação de inevitabilidade ao caminho de Mercader. É ela quem faz a pergunta definitiva que levaria o filho a um caminho sem volta: ele estaria disposto a qualquer sacrifício para ajudar a causa? Poucos dias antes do atentando, ela diz a Mercader que sua mão ao matar Trotsky será também a mão e o ódio dela; na visão de Caridad, a morte de Trotsky ajudaria a construir um novo mundo, um mundo que ela mesma era estragada demais para ocupar.

Para o leitor, a manipulação de Mercader e a inutilidade da sua luta eram evidentes desde as primeiras linhas. Mas é especialmente triste estar na pele dele – graças ao talento narrativo de Padura – quando ele começa a desconfiar do seu destino, sem ser capaz de alterá-lo. Um desses momentos é quando seu mentor redige a carta que ele deveria deixar cair no local do crime, onde se dizia um decepcionado ex-trotskista. Há muita facilidade por parte do seu mentor em criar um discurso mentiroso, e que soava igual a tudo o que Mercader havia ouvido durante todos seus anos na luta. Ter sobrevido após o ato fez com que ele pudesse acompanhar o desenrolar da história e experimentar um pouco da solidão do homem que ele mesmo matou. Dos três biografados do livro, Mercader é o que vive mais tempo é, por isso mesmo, o que precisa conviver com a maior dor: a escolha pela própria condenação.

É possível usar a biografia de Trotsky como uma acusação ao comunismo – e bons tempos que as pessoas se preocupavam em conhecer para poder odiar com propriedade. Mas quem for um pouco mais apaixonado por política e história, verá excessos parecidos em todos os regimes totalitários. Trotsky personalizou sua crítica na figura de Stalin como o grande vilão do comunismo, sendo que talvez (minha opinião) ele seja cria inevitável de toda forma de centralização de poder e eliminação da oposição.

Semanas antes, Liev Davidovitch constatara dramaticamente o horror vivido por seus compatriotas quando uma velha amiga, fugida milagrosamente da Finlândia, lhe escrevera: “É terrível verificar que um sistema nascido para resgatar a dignidade humana tenha recorrido à recompensa, à glorificação, ao estímulo da denúncia, e que se apoie em tudo o que é humanamente vil. A náusea sobe-me pela garganta quando ouço as pessoas dizerem: fuzilaram M., fuzilaram P. fuzilaram, fuzilaram. As palavras, de tanto as ouvirmos, perdem seu sentido. As pessoas repetem-nas com a maior tranquilidade, como se estivessem dizendo: vamos ao teatro. Eu, que vivi esses anos no medo e senti a compulsão de denunciar (confesso com pavor, mas sem sentimento de culpa), deixei de sentir na minha mente a brutalidade semântica do verbo fuzilar… Sinto que chegamos ao fim da justiça humana na Terra, ao limite da dignidade humana. Que morreram demasiadas pessoas em nome daquela que, prometeram-nos, seria uma sociedade melhor”…

Segunda parte/posição 6862 de 11623

As rãs, de Mo Yan

Ao longo da leitura de As Rãs, pensei muito em que palavras usaria para descrever o livro. Pensei muito porque realmente quero recomendar este livro, que li como mera curiosidade para conhecer um escritor chinês que ganhou um prêmio Nobel. Uma das palavras que me veio à mente, e que nunca vi usada em literatura, é naif. De acordo com o Wikipedia:

A Arte Naïf é uma classificação que designa artistas auto-didatas que inventam um jeito pessoal de expressar suas emoções.(….) A palavra naïf é um termo francês que significa ingênuo ou inocente; portanto, a “arte naïf” é todo produto artístico de natureza pueril que demonstra uma criatividade autêntica baseada na simplificação de elementos decorativos a níveis brutos, espontâneos, puros, coloridos.

O livro passa a impressão, que tem a ver com a história pessoal do autor (a biografia é desinteressante, já adianto), de ter sido escrito por alguém que não veio de um meio literário e sim cheio de narrativas orais; o livro seria apenas apenas a última etapa do processo, de uma história que já foi contada e enriquecida de detalhes a cada audiência. Há algo de espontâneo e direto no livro, como se fosse uma reunião dos causos mais interessantes da vizinhança. A sensação ao ler o livro é esta: nos reunimos com os amigos e parentes e eles nos contam as últimas novidades, em detalhes deliciosos. Some isso às diferenças culturais, expressões impensáveis dentro da nossa própria língua, costumes diferentes, as mudanças radicais da Revolução Cultural. As Rãs é tão emocionante e surpreendente como se fosse um grande Casos de Família por escrito.

Professor, tínhamos em nossa aldeia um costume bem antigo de batizar as crianças com o nome de partes do corpo humano, como Chen Nariz, Zhao Olho, Wu Intestino, Sun Ombro… Nunca procurei saber a origem dessa prática, talvez tenha surgido por acreditarem que um nome humilde daria vida longa, ou pelo fato de as mães considerarem o filho parte da própria carne. Esse é um costume que caiu um desuso. Os pais de hoje não querem mais dar nomes estranhos aos filhos. As crianças da aldeia agora recebem nomes sofisticados de personagens de novelas de Hong Kong, de Taiwan ou Coreia. Quem tinha nome à maneira antiga, na maioria dos casos, acabou optando por outro mais elegante. Naturalmente, há aqueles que mantiveram o original, como o Chen Orelha e o Chen Sobrancelha.

Chen Nariz – pai de Chen Orelha e Chen Sobrancelha – foi meu colega de escola primária e meu amigo de juventude. Entramos na escola primária de Dayanglan no outono de 1960. As memórias mais marcantes que tenho daquela época de fome são, em grande parte, relacionadas à comida. Por exemplo, a história de quando comi carvão. Muitos pensam que é invenção minha, mas juro por minha tia que tudo aquilo aconteceu de fato, eu não inventei nada. (Parte I. capítulo 1)

O protagonista, Corre Corre, é como um dos muitos camponeses de uma pequena vila na China. Ele é como os que o cercam; Corre Corre não faz a menor questão de esconder suas fraquezas, que muitas vezes se propõe a ser melhor e não consegue, que vai no fluxo e acaba por decidir pelo que lhe é mais cômodo, o que o torna um personagem muito simpático. Seu ponto de contato com um mundo diferente é a sua tia, uma mulher idealista, teimosa e forte, que se torna a obstetra da vila e mais tarde representante do Governo. A vida dele e de toda vila é modificada quando inicia a Revolução Cultural, que traz novos valores e perspectivas. A tia dele acaba sendo o ponto de contato de políticas distantes do Partido Comunista e a realidade do povo comum. A delícia do livro é oferecer a visão micro do que é decidido no macro, como o povo reage a decisões políticas que num momento vão de encontro aos seus desejos e em outro os contrariam. O mesmo partido que no início estimulava a concepção, depois adota a política do Filho Único e coloca à força DIU, faz laqueaduras e interrompe sem escrúpulos gravidezes de sete meses. O processo não foi nada tranquilo, como nos faz parecer as distantes estatísticas. A tia mantém, por toda vida, a mesma atitude de fervor aos ideais do partido, e vai ao céu e ao inferno por isso. Mais do que a história de Corre Corre e sua tia, o livro conta a história da vila inteira, é um registro sobre a Revolução Cultural. O livro me fez lembrar das linhas de conhecimento, que quando tendem para a sociedade esquecem do indivíduo e vice-versa. Mo Yan consegue mostrar muito bem essa relação. Vemos como camponeses, pobres e ignorantes em muitos aspectos, dotados de relações e saberes tradicionais, manejam com inteligência os meios para tentar fazer as situações irem a seu favor. Temos o macro, com o partido, as políticas, o presidente Mao; em meio a isso, pessoas que se apaixonam, se vingam, mudam de ideia, se divertem, protagonizam barracos e, principalmente, procuram seu caminho.