A REVOLUÇÃO VIRAL – Como um grupo cultural previamente tido como irrisório mudou a balança política do país da noite para o dia

Por Rafael Savastano

Tem sido impossível desgrudar da TV e da internet na última semana. E, por incrível que pareça, não é por causa da Copa das Confederações, que tem sido vendida como um ensaio geral para a Copa do Mundo de 2014. Ao contrário do que até o mais insano dos insanos poderia prever, os últimos dias viram a eclosão de um movimento político popular como o país não via há mais de 20 anos, bem no meio de uma edição de gala, em solo nacional, de um evento esportivo que o senso comum sempre ditou ser um grande alienador das massas. De lá para cá, tenho lido e assistido inúmeras análises, opiniões, palpites, até mesmo os bons e velhos “chutes” por parte de toda sorte de cientistas políticos, catedráticos, medalhões da mídia, etc. Tenho visto todas as esferas de poder, de todos os partidos, apavorados como se estivessem saindo do banho e encontrassem um urso feroz e faminto no meio do banheiro, no caminho da porta. Atordoados, eles tiveram que rever suas agendas políticas no susto sem nem ao menos entender como um urso daquele tamanho passou pela porta sem que eles notassem. A grande diversão da minha vida nos últimos dias tem sido imaginar o teor das reuniões de cúpula emergenciais que foram convocadas do Oiapoque ao Chuí. E mesmo agora, que a reivindicação inicial da turba foi atendida com um misto de contragosto e derrota pelos governantes das principais metrópoles do Brasil, ninguém ainda conseguiu entender a essência do movimento.

Bem, eu não sou cientista político, nem filósofo, e muito menos catedrático. Mas eu sou um integrante do que provavelmente foi o elemento chave que inverteu a ordem das coisas, um grupo cultural que até semana passada eu nem tinha real compreensão de que fazia parte, ou sequer que existia. Mas daqui de dentro, enxergo muitas peças que se encaixam perfeitamente e completam o quebra-cabeça que tem tirado o sono dos analistas políticos, e por isso acho que vale a pena tentar esclarecer e enriquecer o debate.

Para começar a explicação, vamos resgatar um termo que já saiu de moda, mas que curiosamente se encaixa melhor para explicar os eventos atuais do que qualquer jargão que surgiu desde então: Cibercultura. (….)

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Observações sobre os sete pecados

Nas entrevistas que vi usarem os sete pecados capitais como pergunta – “qual dos sete pecados mais se aplica a você?” – sempre vi responderem preguiça ou gula. A leitura que se faz, hoje, quem comete o pecado da preguiça é quem o sujeito gosta muito de ficar na sua cama quentinha e detesta acordar cedo. Daqueles que respondem que são gulosos, entendemos que eles amam pão com manteiga, bolo de chocolate, pastel de feira e cerveja com os amigos. Ou seja, nada mais inocente.

Os sete pecados se aplicavam à circunstâncias diferentes, falavam de uma visão de mundo diferente. Quando questionados, todos nós poderíamos dizer que praticamos a Luxúria, porque não reservamos o nosso sexo para depois do casamento ou com fins reprodutivos. Hoje, dizer que pratica muito o pecado da luxúria seria o mesmo que dizer que faz muito sexo – o que para um homem pode ser se gabar, e para uma mulher sinônimo de descontrole e galinhagem… É difícil falar sobre a Gula num mundo onde a oferta de comida acontece de maneira tão desigual, e onde comer muito pode significar comer pouco em termos de qualidade. Aos que vivem em meio à muita comida de consumo rápido, a escolha do que comer pode significar a privação voluntária de alguns alimentos em nome de ideais de saúde ou aparência. Vejo gente que se permite um pedaço de bolo por semana e se diz muito guloso; para outros, viver à base de fast food não diz nada a seu respeito. No sentido original, o pecado da Preguiça estava associado ao ócio, ao não fazer nada. Antes era possível não fazer nada e sobreviver, ou até mesmo viver muito bem (no caso dos nobres). Hoje é impensável não trabalhar. Quando louvamos a preguiça, e falamos do prazer de estar à toa, mostramos o quão limitado é o nosso acesso a esse prazer. Estamos num ritmo tal que quem trabalha oito horas por dia nos dias úteis ainda se dedica pouco. A Avareza, o pecado de colocar os bens materiais acima do mundo espiritual, chega a ser algo difícil de se entender – o que os meus bens têm a ver com outro mundo? A idéia de ser rico no outro mundo não seduz mais ninguém; os novos cultos evangélicos vendem a idéia da prosperidade material através da oração. Condenamos como avarento aquele que acumula dinheiro sem aproveitar, mas não vemos nada de ruim com a acumulação do dinheiro em si, não vemos limite para o ser rico. A Inveja, um dos sentimentos mais difíceis de se assumir, é um dos grandes motores da indústria do consumo. É feio assumir a inveja de alguém do nosso convívio, mas o desejo de comprar e ter acesso ao melhor que o dinheiro pode oferecer é amplamente estimulado. Como prêmio por finalmente conseguir algo de tudo o que foi sonhado, está o Orgulho. Somente o repúdio à Ira, quem sabe, seja maior hoje em dia do que antes, porque vivemos numa sociedade muito mais controladora. Os ataques de ira da qual tive notícia sempre estão associados à prisões ou internações psiquiátricas.

Civilidade, para Sennet

Eu definiria a civilidade da seguinte maneira: é a atividade que protege as pessoas umas das outras e assim permite que elas tirem proveito da companhia umas das outras. Usar máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a sociabilidade pura, separadas das circunstâncias do poder, do mal-estar e do sentimento privado daqueles que as usam. A civilidade tem como objetivo a proteção dos outros contra serem sobrecarregados por alguém. Se alguém fosse religioso e acreditasse que o impulso vital do homem é o mal, ou então se alguém tomasse Freud à sério e acreditasse que o impulso vital do homem é a guerra interior, então, o mascaramento do eu, a libertação dos outros de serem apanhados pela carga interior de alguém seria um bem evidente.

Richard Sennett/ O declínio do homem público: as tiranias da intimidade

Família desestruturada

Quando a profa Marlene disse em sala de aula que essa idéia de família desestruturada é uma falácia teórica, que não tem o menor sentido e comprovação, foi como uma revelação. Era tão óbvio! Ao mesmo tempo, é uma idéia tão arraigada, tão repetida. No dia a dia, nunca fez sentido: não existem diferenças significativas entre filhos de pais separados ou não, em nenhum aspecto. Meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos e, bem, não preciso dizer que não sou nenhuma marginal. Filhos de pais separados não têm tiques nervosos, não são fracassados, não são piores, viciados ou mais inseguros. Por outro lado, filhos de pais casados não são mais bonitos, mais inteligentes, bem-sucedidos ou guiados por princípios éticos superiores. Então porque continuamos a acreditar nisso, a fazer estatísticas sobre isso, a procurar essa informação quando algo dá errado?

Não precisa pensar muito pra concluir que a família desestruturada é fruto da super estruturada família burguesa. Aquela que hoje nos parece muito natural, mas que nem sempre foi assim: religiosa, com o pai provedor, a mulher fiel que se dedica aos filhos. A essa família burguesa corresponde à casa burguesa dividida em cômodos, com quartos que garantem privacidade e resguardam a vida sexual no casal. Uma família em quem ninguém mete a colher. Bem ao contrário da classe dominante anterior, a nobreza: que não via o trabalho como um valor, fazia vista grossa à amantes, não prendia a mulher à prole e era voltada para o status e a vida social. Havia um grande número agregados e empregados; os quartos dos conjuges eram separados e a privacidade entendida de outra forma. Com a família nuclear burguesa, os marido passa a controlar de perto os passos da esposa, que por sua vez controla de perto os passos dos filhos. É isso que supomos quando falamos de famílias desestruturadas: é uma família com pouco controle sobre seus membros. E, interiormente, está a idéia freudiana de que é a repressão que nos torna civilizados.

Para provar continuamente a importância da família estruturada, para qualquer problema que envolva jovens e crianças, buscamos estatísticas sobre as famílias delas. Nesse instante, a família desestruturada passa a ser sinônimo de pais separados. É família desestruturada ou casamento desfeito? O suporte de outras pessoas não parece remediar o efeito desastroso da separação dos pais, pelo menos nas estatísticas. Aí surgem dados como “36,3% dos menores encontrados usando drogas na escola são de famílias desestruturadas”. Mas nunca ficamos sabendo o número de casais separados na média da população ou de outras populações semelhantes… Desse mesmo universo – menores encontrados usando drogas na escola- , eu também poderia dizer que 41,7% passam de 3 a 5 horas por dia vendo TV, que 18,9% deles jogam futebol ou que 79,7% bebem de 10 a 20 litros de coca-cola por semana. Isso prova que a coca-cola ou televisão influencia mais no comportamento drogadito do que a separação dos pais? Prova que estatísticas são fáceis de produzir, basta considerar e buscar um dado. Mas concluir que eles demonstram uma relação de causa e efeito é outra história.

A data de validade dessa noção expirou há muito tempo, mas ainda consegue gerar culpa. Por necessidades econômicas, mesmo quando casados, homens e mulheres não conseguem se produzir uma família totalmente “ajustada” – ele por não ser provedor, ela por não conseguir estar perto dos filhos o dia inteiro. Já não temos um único modelo de casamento, não sabemos e não conseguimos controlar as crianças como antigamente, duvidamos dos papéis atribuidos a homens e mulheres e sabemos que a privacidade absoluta tem gerado muitos abusos. É uma discussão importante, que não conseguirá avançar enquanto olharmos para a família buscando a mera adaptação a um ideal.