Teorias conspiratórias

Como a imprensa não consegue se preocupar com mais de uma catástrofe por vez, não se deu a importância devida às chuvas que alagaram o litoral paranaense. Tudo porque aconteceu no mesmo fim de semana do terremoto do Japão. Além de ter feito desabrigados em nas cidades históricas de Antonina, Paranaguá e Morretes, três pontes que ligavam o litoral ao resto do estado caíram. Foram dias até que as pessoas pudessem ir da praia à capital e vice-versa. Quem estava no meio do caminho teve que dormir no carro. As imagens das pontes de asfalto e concreto destruídas era realmente impressionantes. Por isso, não me surpreendi quando ouvi a seguinte conversa:
– Vocês viram as pontes que cairam no litoral? Eu vi as imagens, água não faz aquele estrago todo. Eu acho que aquilo é consequencia do terremoto no Japão e eles não querem noticiar.
Posso ter presenciado o nascimento de uma nova teoria conspiratória. De nada adiantou falar que vi programas na época do terremoto no Chile, que mostravam as principais placas tectônicas bastante longes daqui. Fui olhada como crédula. Como dizia o seriado Arquivo X, a verdade está lá fora: os desenhos da Disney contém mensagens subliminares satanistas; a gripe suína é uma farsa criada para enriquecer o laboratório responsável pelo seu remédio; o ataque às torres gêmeas foi organizado pelo próprio governo americano; o mundo é controlado pela família Rothschild; e por falar em família Rothschild, ela faz parte de uma raça alienigena que governa a Terra há séculos. Nesses poucos exemplos, é possível perceber que as teorias conspiratórias possuem algumas características em comum:

1. Elas sempre duvidam da versão oficial.

Esta talvez seja a característica mais marcante. Um homem, ser ou pequeno grupo têm acesso à verdade e não deixam que as outras pessoas a conheçam. Haveria uma desculpa nobre, tal como a segurança da população; na realidade, o ocultamento dessa informação serve unicamente aos que se apropriaram dela.

2. Elas acreditam num poder central.

Ess poder pode ser atribuido ao governo, igreja, famílias muito ricas ou ao diabo. Tais minorias não teriam seu poder afetado por mudanças de regimes políticos, distribuição de renda, ou mudança de tradições. Essas oscilações seriam apenas aparentes – quem perde ou sai do poder nunca é quem realmente comanda. O verdadeiro mandatário nunca sofreu perdas ou de afastou da função de comando.

3. Elas acreditam num propósito, que é prejudicial à maioria.

Isso é bastante interessante. Para as teorias conspiratórias, o interesse de poucos sempre se opõe ao interesse da maioria. A minoria no poder acaba encarnando o mal (e às vezes seria o mal em pessoa) por agir de maneira a prejudicar deliberadamente o resto da humanidade. A vida das pessoas comuns tem doenças criadas, guerras sem propósito real, mensagens falsas e/ou empobrecimento previamente planejados. A morte, a doença e a ignorância da população se reverte em lucro e poder para aqueles que os criam.
4. Elas acreditam que coisas aparentemente insuspeitas ou coincidências não o são.
A minoria organizada teria controle de instituições nas quais as pessoas confiam, e se aproveitam dessa confiança. O perigo pode estar no que há de mais íntimo, inocente, no que é absorvido sem crítica. No oficial vemos apenas um lado do poder – ele está nos meios de comunicação, nos alimentos que consumimos, na publicidade, nos desenhos animados. Coisas aparentemente sem ligação, que ocorrem em lugares e épocas diferentes podem fazer parte do mesmo plano, por nos levar à direção que eles querem.

 

5. Elas acreditam numa ação prolongada e organizada.

Toda ação numa teoria conspiratória é um propósito organizado. O limite no número de pessoas envolvidas nessa ação permite que ela se mantenha fiel, até por gerações. Ao mesmo tempo, o grande poder (aquisitivo ou mágico), permite que a engrenagem necessária para colocar o propósito em prática se estenda por toda a Terra. Mudança cultural ou de gerações não faz com que o propósito mude, que a rota seja desviada ou que erros sejam cometidos. Ao entender que qualquer perda aparente é apenas um ardil, atribui-se a esse poder central uma inteligência infalível.