A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

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Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

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A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

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* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Uma visão sobre o Comandante d´O Conto da Aia

Alerta de spoiler: O livro é de 1985 e tem filme, série, peça de teatro, desenho. Aqui os spoilers abundam por ser uma discussão e não uma resenha.

“Beije-me como se sentisse vontade”, pede o Comandante a Offread. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa e Offred, sua protagonista, oferece ao leitor uma visão tão limitada da sua realidade quanto o que ela mesma vê: um quarto onde precisa ficar trancada, uma janela com uma pequena visão do jardim, palavras ríspidas de mulheres, olhares cobiçosos dos homens. Tudo parece uma espécie de prisão de luxo, tanto que às vezes a própria Offread faz menção ao fato de ser um privilégio ter o que comer e estar naquela posição – o que nos faz adivinhar o que há algo pior ao mesmo tempo que isso seja difícil de imaginar. Como em qualquer sistema opressivo dos bons, as contradições estão em toda parte: ela veste vermelho e se cobre, ela serve ao sexo e não pode sentir prazer, ela é uma privilegiada e não tem liberdade nenhuma. Nada pertence a Offread, nem o seu próprio nome, que é ligado à família onde está e deve ser dado à outra, quando o prazo dela estar naquela casa e tentar gerar um filho se esgotar.

Há tempo de sobra. Esta é uma das coisas para as quais não estava preparada – a quantidade de tempo não preenchido, o longo parênteses de nada. Tempo como som de ruído fora de sintonia. Se ao menos eu pudesse bordar. Tecer, tricotar, alguma coisa para fazer com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco a fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas agora vejo o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio.

Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.

Parte V, capítulo 13

São pelo menos quatro mulheres na casa, e elas junto com o motorista servem apenas ao bem estar de um homem: o Comandante. De acordo com o ritual, ele deveria usar a aia apenas em dias prescritos, com a presença da sua esposa, as duas unidas como uma só carne, uma como a verdadeira companheira e a outra apenas como depositária do futuro filho de ambos. Da fora mais deserotizada possível, ele penetra uma aia impassível e ejacula. Mas, para a surpresa do leitor, o Comandante subverte as regras e, apesar de poder pedir o que quiser, leva a aia para o seu lugar mais privado da casa e se aproxima dela amigavelmente. Pede para jogar no tabuleiro, observa enquanto ela lê uma revista, conversa com ela. Ele lhe pede com olhares tristes o carinho que vai além da obrigação e passa a olhar para ela durante o sexo, o que a constrange, porque traz de novo ao ato que era mecânico uma presença. O Comandante se esforça para agradar e ser amado e parece ser, da mesma forma que Offread, um prisioneiro do seu papel. Nessa parte, rola uma paixãozinha enquanto a gente vai lendo.Como as feministas alertam: o machismo afeta os dois lados. Na prática, a divisão entre esposa e aia faz com que ele não seja próximo de nenhuma das duas. Os mesmo papéis que servem também isolam os homens em seu poder.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Parte IV, cap.15

Mas qualquer possibilidade de uma paixão vai embora quando sabemos mais sobre o Comandante: que ele havia feito esse jogo antes e que a aia anterior tinha cometido suicídio; que ele foi um dos responsáveis pela implementação daquele regime e que o justificava dizendo: “Queríamos transformar o mundo num lugar melhor. Melhor nunca significou bom para todos, sempre fica pior para alguns”. Alguns, no caso, é apenas toda população feminina…Ele foi um dos responsáveis por tirar de Offread até mesmo o direito de ter seu nome; ele sabia que aquele jogo podia ser mortal para ela, que arcaria com todos os ônus. Ele não fazia nada que pudesse ajudá-la individual e coletivamente e no entanto, ainda queria o seu calor. De sensível e oprimido, descobrimos no Comandante um homem vaidoso e voltado apenas para o seu prazer. Porque, apesar de ser meio sem graça aqui e ali, a submissão feminina é muito confortável. Offread sinaliza que mesmo o mais liberal dos homens ainda pode se sentir assim quando narra que seu marido Luke, o homem da época que ela era alguém, quis fazer sexo com ela no mesmo dia que todas as mulheres perderam seus empregos e o direito de usarem dinheiro. Offread estava totalmente abalada mas “pelo menos nós temos um ao outro” – se Luke iria cuidar dela, então tudo estava bem. Eu me lembrei do Livreiro de Cabul, com homens desejosos que as mulheres que usam burca e seguem estritas normas de conduta agissem – apenas e tão somente na hora do sexo – como as mulheres que aparecem nos filmes ocidentais. Em pouco tempo é isso que o Comandante faz: traz para Offread uma lingerie, a leva para a Casa de Jezebel e para a cama, em busca de uma relação sexual completa.

Mulheres com direitos cortados por canetada, mulheres colocadas sob a tutela masculina, mulheres divididas por funções, mulheres mantidas na ignorância, mulheres vigiadas, mulheres reduzidas ao desejo masculino – o livro é extremamente perturbador para qualquer mulher que o leia. Talvez a gente adivinhe, como a autora Margaret Atwood afirmou, que tudo aquilo já aconteceu de uma forma ou de outra – ou ainda pode acontecer. Até o Comandante levar Offread para o bordel, esta distopia ainda não havia me convencido. Em palavras, a minha crítica era: oprimir as mulheres ok, mas dessexualizar totalmente as relações e fazer delas apenas máquinas para fazer filhos não faz sentido, os homens não abririam mão do prazer que lhes é mais caro, o de dispor do corpo feminino. Aí quando surge a lingerie e o bordel, o quadro se completou para mim. Será que toda opressão e hipocrisia andam juntas? A esposa do comandante e a aia, colocadas em campos opostos, assim como as mulheres na cozinha, perdiam tempo com antipatias mútuas sem se dar conta de que eram todas vítimas. A conclusão do livro é óbvia: somos todas mulheres e não podemos deixar acontecer.

Fisiologia, prazer e sexo anal

Nos muitos comentários contra este vídeo, dizem que os dados sobre endocardite estão errados e que é clara a visão preconceituosa dela a respeito da homossexualidade. Eu não tenho formação o suficiente para discutir os dados que a palestrante levanta e opiniões abalizadas seriam muito bem vindas. Entre os defensores, há os que dizem que “Deus criou tudo perfeito como deve ser”, o que eu também me parece bastante complicado, porque não usamos “tal como deve ser” muitos órgãos – somos bípedes, comemos alimentos industrializados, tiramos pedaços do nosso corpo, medicamos, fazemos enxertos, etc.

O que torna essa discussão interessante, para mim, são as perguntas que a palestrante coloca no início: de onde surgiu o consenso de que sexo anal é ótimo e muito prazeroso a qualquer mulher, se feito da maneira correta? Com endocardite ou não, as explicações dela expõem a fragilidade, do ponto de vista físico, da penetração anal em relação à vaginal. Que, por mais que os discursos atuais tendam ao contrário, não é uma simples questão de “respire fundo e tenha boa vontade, querida”. Há uma clara influência da indústria pornográfica sobre esse discurso e a ênfase não está no prazer feminino. Vale lembrar que as consequências do pornô vão além daqueles que estão no filme, ele influencia a forma como todos os que assistem vivenciem sua sexualidade – e algumas dessas pessoas ainda estão na adolescência:

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”(….) Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

(Retirado de: A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível)

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Amada, de Toni Morrison

Cheguei a esse livro por recomendação do Paraísos de Papel. Toni Morrison é uma escritora pouco conhecida aqui, mas ganhadora do Nobel de Literatura em 1993 e o livro Amada ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção de melhor ficção e foi considerada “a melhor obra da ficção americana dos últimos 25 anos” pelo The New York Times. Só isso já seria motivos suficiente para lê-la, e quero acrescentar outro: é mais uma dessas escritoras incríveis que mostram a força e a originalidade de uma narrativa feminina.

Antes uma introdução meio desagradável: normalmente eu não gosto de nenhum tipo de spoiler e não leio as orelhas e nem as contracapas do livros. Críticas, nem pensar. Mas eu me vi consultando a orelha logo depois do primeiro capítulo, porque não estava entendendo nada. Nunca tive dislexia, mas os nomes da mãe e filha serem curtos e com E (Sethe e Denver) me confundiram o tempo todo. É um grande livro e essa dificuldade passageira faz parte da construção dele e merece ser superada. A história gira em torno de Sethe, uma ex-escrava, que vive com sua filha numa casal mal assombrada. Os personagens que surgem na sua história – Denver, Baby Suggs, Paul D, Halle – têm em comum um passado ligado à escravidão. A pós-escravidão, a solidão e o desamparo, as tragédias pessoais – para eles a normalidade é uma necessidade nem sempre alcançada, ou que repousa numa base muito frágil. Apesar da tentativa generalizada de enterrar o passado, ele ressurge, cobra as consequências e mostra, para o leitor, o sentido mais humano do que é aparentemente inexplicável. É um livro cresce durante a leitura. Apesar da história ser sobre Sethe, sua família e o aparecimento da misteriosa personagem Amada, a grande protagonista é a Escravidão:

Paul D não responde porque ela não esperava, nem queria que ela respondesse, mas ele sabia do que ela estava falando. Ouvir aqueles pombos em Alfred, Georgia, e não ter nem o direito nem a permissão de fruir aquilo porque naquele lugar a neblina, os pombos, a luz do sol, a terra cor de cobre, a lua – tudo pertencia aos homens que tinham armas. Homens pequenos alguns, homens grandes também, todos ele era capaz de quebrar em dois como um graveto se quisesse. Homens que ele sabia que tinham a virilidade era nas armas e nem tinham vergonha de admitir que sem armas até a raposa ria deles. E esses “homens” que faziam até as raposas darem risada podiam, se você deixasse, impedir você de ouvir os pombos ou gostar do luar. Então você se protegia e amava pequeno. Escolhia as menores estrelas do céu para serem suas; deitava com a cabeça virada para ver a amada por cima da beira do fosso antes de dormir. Roubava tímidos olhares dela entre as árvores durante o acorrentamento. Hastes de grama, salamandras, aranhas, pica-paus, besouros, um reino de formigas. Qualquer coisa maior não servia. Uma mulher, um filho, um irmão – amor grande como esses arrebentava com você em Alfred, Georgia. Ele sabia exatamente do que ela estava falando: chegar a um lugar onde você podia amar qualquer coisa que quisesse – sem precisar de permissão para desejar – , bom, ora, isso era liberdade. (p. 220-221)

Esse é o ponto onde a voz feminina faz toda diferença. Muito já se escreveu sobre racismo e escravidão, sua opressão e violência, mas nunca li relatos que trazem essa escravidão tão próxima à carne. A escravidão determinando uma maneira de ser, que pinta o mundo com perspectivas pequenas e cruéis, um encolhimento pessoal que visa a diminuição de um sofrimento que sempre chega. As marcas de chicotadas nas costas, que as tornam insensíveis e desenhadas; a necessidade de não se apegar a ninguém, nem aos filhos, porque eles podem lhe ser tirados; ser visto como um objeto, mesmo quando se pertence a donos benevolentes – e ser brutalizado pelos cruéis. São descrições pungentes de dores tão grandes, dores que não pedem licença e não se preocupam com a medida da justiça. A própria Sethe pergunta: Por que não havia nada que seu cérebro se recuasse? Nenhuma miséria, nenhuma imagem odiosa detestável demais de se aceitar? Uma vez só não poderia dizer não, obrigada? Detestei e não quero mais, não? (p.103). É um livro forte, lindo e triste.

Sexo, pornografia e mulheres

Achei esse vídeo por acaso, curtido por uma amiga no Facebook. A pessoa que curtiu e a substituição do Adão por uma cruz logo nas primeiras cenas, me fazem pensar que ele circule entre religiosos, quem sabe o palestrante responda por alguma crença. Nos comentários do youtube – pois é, quebrei a regra de jamais lê-los – duas visões opostas: uns se queixam dos “fiscais de punheta” e os que concordam com o vídeo citando a religião.

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(Eu sei que não vai adiantar nada dizer isso, que serei chamada de fiscal de punheta de qualquer jeito, mas: não pertenço a nenhuma religião, não tenho nada contra masturbação, sexo antes do casamento, experiências sexuais, etc. Sou à favor de toda forma de sexualidade consensual entre indivíduos adultos.)

Já faz alguns anos que linkei aqui um artigo sobre a indústria pornô e que me deixou bastante chocada na época. O título do artigo pergunta: Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade? e ele é uma entrevista com Gail Dines, que publicou uma pesquisa sobre a indústria pornográfica, desde a fundação da Playboy e da Penhouse até a pornografia da era da internet.

As partes que copiei a seguir se parecem muito com os insights do vídeo. Elas falam de uma mudança na sexualidade daqueles que veem pornografia. E que daqui em diante a sexualidade das pessoas vai mudar em função dessas imagens – e não parece ser para melhor:

A internet mudou a indústria. Tornou-a acessível, e barata. Então lembre-se, quando a média de idade de ver pornografia pela primeira vez é 11, quando o menino de 11 anos põe “pornografia” no Google, ele não está olhando para a Playboy de seu pai, ele está olhando para um mundo de crueldade, e um mundo de brutalidade . Então o que eu pergunto no livro é: “Quais são as consequências a longo prazo de criar os meninos com imagens violentas quando você pensa na pornografia como sendo a principal forma de educação sexual em nossa sociedade? [….]

Tem sido motivo de estudos por 30 anos – sobre os homens, principalmente – o que eles acham, e o que eu encontrei em minhas entrevistas, é que quanto mais os homens vêem pornografia, menos eles são capazes de desenvolver relacionamentos íntimos. Também o que é interessante é que eles perdem o interesse em mulheres reais, porque a pornografia é tão hard-core – é o sexo a força da industria – nada menos que aquilo  parece brando e enfadonho. Além disso, os homens acham que devem se comportar como os homens na pornografia, eles acham que o pênis devem ser semelhantes aos dos atores pornô, e eles acham que deveriam ser capazes de realizar atos sexuais por horas como os homens fazem na pornografia. O que eles não percebem é que um monte de homens da pornografia usam Viagra, é por isso que é tão possível … E eles começam a ver as mulheres realmente como objetos. Não como alguém a ter relacionamentos, mas como alguém para se usar para algo. O sexo se torna algo como fazer ódio ao corpo de uma mulher. Eles não fazem amor na pornografia, fazem ódio. [….]

Bem, é muito interessante nós dizermos isso, como alguém que estuda a mídia e como alguém que é progressista, quando estudamos midia de extrema-direita não dizemos que é fantasia. Nós não dizemos, “Quer saber, não se preocupe com Glenn Beck, não se preocupe  com Rush Limbaugh – as pessoas podem distinguir”. Não, nós entendemos que a mídia molda a nossa maneira de pensar. Ela molda a realidade, que molda as nossas percepções do mundo. A pornografia é mais uma forma de mídia. É um gênero específico, que, por sinal, é muito poderoso, pois entrega as mensagens para o cérebro dos homens através do pênis, que é um sistema de entrega extremamente poderoso. Então eu acho que a ideia de que é apenas fantasia não é confirmada, dada a estudos que nós sabemos sobre como a pornografia, e como as imagens em geral, afetam a visão das pessoas de todo o mundo.

A queixa contra fiscais de punheta é claramente uma reclamação no sentido de: não mexam com o meu desejo! O desejo é o que temos de mais íntimo e difícil de negociar. Se fosse tão simples, anos de reprovação teriam conseguido sufocar a homossexualidade. Existe, realmente, algo que ultrapassa a decisão consciente. Gostamos de reservar à nossa sexualidade a liberdade de não ter que responder aos códigos morais comuns. A sexualidade é associada à liberdade; a conduta pacífica e respeitadora no mundo e selvagem entre quatro paredes é como um mundo ideal.

O incômodo dessa pesquisa é perceber que não somos tão livres. Enquanto conscientemente não conseguimos ou abrimos mão de negociar com os nossos desejos, o mercado tem feito isso de maneira bastante eficiente. E – adivinhe – uma das maiores vítimas desse mercado é o corpo feminino.

O que você vê é uma mulher sendo penetrada brutalmente na  vagina, anus e oralmente. Como o que está acontecendo – três homens de uma só vez, quatro homens de uma só vez – ela está sendo chamada vil, nomes de ódio, ela está sendo estapeada, às vezes, seu cabelo é puxado … A própria indústria diz que muitas mulheres têm dificuldade em estar na indústria por mais de três meses. Por quê? Devido à brutalização do corpo. [….]

Além disso, eu entrevistei alguém que trabalhou com o AIM, a organização que cuida da saúde dos artistas pornô, e ele me disse o que acontece com os corpos destas mulheres. Por exemplo, ele disse que uma das grandes coisas são prolapsos anais, onde literalmente seus ânus caem de seu corpo e tem que ser costurados de volta por causa do sexo anal brutal. Ele também falou sobre a gonorréia do olho, comum atualmente – porque você tem algo chamado [do cu para a boca_ ass to mouth] – eles colocam o pênis no ânus, e depois em sua boca sem lavar. Eles estão descobrindo agora que as mulheres estão pegando infecções bacterianas fecais na boca e garganta. [….]

Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?

 

UPDATE: Um artigo mais recente e com foco na adolescência – A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de  garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”

Suas pacientes estavam profundamente envergonhadas por apresentar tais lesões. Elas mentiam  para as mães sobre o assunto e sentiam que não podiam desabafar com mais ninguém, o que só aumentava o sofrimento. Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

Madonna, Tina Turner e o envelhecimento

No último dia 2 de maio, Madonna compareceu a um tapete vermelho com um modelo Givenchy e recebeu muitas críticas. Basicamente, ela foi acusada de ser velha demais para expor o seu corpo desta maneira:

E rebateu as críticas com o seguinte texto (disponibilizado por Denise Arcoverde, no Facebook):

Nós sempre lutamos e continuaremos lutando por direitos civis e gays ao redor do mundo. Quanto aos direitos das mulheres, nós ainda estamos na era das trevas. Meu vestido no MET Gala foi uma manifestação política, assim como uma manifestação fashion. O fato de algumas pessoas ainda acreditarem que uma mulher não pode expressar sua sexualidade e ser aventureira após uma certa idade é a prova de que ainda vivemos em uma sociedade etarista e sexista. Eu nunca pensei de uma forma limitada, e não vou começar agora. Nós nunca estaremos provocando mudanças, a menos que aceitemos os riscos de sermos destemidos e passarmos a percorrer a estrada menos percorrida. É assim que mudaremos a história. Se você tem algum problema com a forma como eu me vesti, isso é apenas uma reflexão do seu próprio preconceito. Eu não tenho medo de abrir caminhos para as garotas que vêm depois de mim. Assim como Nina Simone disse uma vez, a definição de liberdade é ser destemido. Se junte à minha luta pelo gênero. Igualdade!

Em primeiro lugar, quero deixar claro que endosso tudo o que está escrito acima. Madonna tem toda razão no que diz respeito ao preconceito e reivindicar, através da sua roupa, uma igualdade de gênero. Basta lembrar que ela tem a mesma idade que Brad Pitt, que nunca vi citado em lugar nenhum como homem velho e sim como sexy.

Ao mesmo tempo, tenho dificuldade de repassar e aplaudir esse texto. Um lado meu concorda e o outro se sente incomodado. Ao mesmo tempo que me parece justo, a sua preocupação fala de um caminho que temos seguido, de uma eleição de prioridades. Madonna ousa se vestir dessa forma porque ainda está “gostosa”, “com tudo em cima”. Ela discute o direito à sexualidade e beleza femininos, mas vejo também uma questão anterior e mais profunda, acima de questões de gênero. Mais profunda e mais cercada de tabus, praticamente sem defensores: o direito ao envelhecimento.

Existem, por toda internet, muitas fotos de Antes e Depois, que comparam as celebridades consigo mesmas nas versões jovens e velhas. E, quase sempre, essas comparações concluem que a pessoa está péssima, feia, velha, uma sombra do que um dia foi. Felizmente, essas comparações tem gerado revolta e é fácil concordar que não faz sentido acusar a pessoa de ser uma versão feia de si mesma vinte anos depois. Então proponho o contrário, pensar em quando um Antes e Depois é elogioso. Tina Turner é um desses casos raros:

Essencialmente, o que esse elogio quer dizer, por que Tina Turner sai “vitoriosa” no seu Antes e Depois? Um Antes e Depois elogioso nada mais é do que comemorar que a pessoa mudou pouco. Que mesmo muito mais velha, ela ainda parece com quem ela foi na juventude. Seja através de exercícios, plásticas ou genética, a passagem do tempo deixou poucas marcas visíveis na sua aparência. Digo na aparência e não no corpo porque, ao olhar essas fotos, ninguém se pergunta do preço, das dores ou da saúde. Menos ainda em mudanças de personalidade ou expressão artística. Estamos falando apenas da fachada.

Gosto de pensar que homens e mulheres têm direito à sexualidade e beleza, em qualquer idade. Mas não gosto que sexualidade e beleza estejam ligados sempre à manutenção da juventude. Ou que sexualidade e beleza tenham primazia sobre todas as outras facetas da vida. O tempo nos afasta de quem somos quando temos vinte anos, no corpo e na alma. E essa mudança só é ruim porque atualmente classificamos assim. Não discutirmos a biografia por detrás do Antes e Depois é muito revelador – não importa se o artista melhorou ou sumiu, se foi preso ou lançou disco novo, o chamariz é a feiura. Perdemos o respeito pela experiência e vemos na velhice apenas decadência. As características associadas à idade – paciência, experiência, parcimônia, sabedoria – estão desvalorizadas, então não é à toa que não queremos e não sabemos envelhecer. Em nome do ideal de aparência dos vinte anos, estamos nos encaminhando para uma cobrança de desempenho e luta constantes contra o próprio corpo. Negar a passagem do tempo é negar justamente o que há de mais básico e infalível da vida orgânica.

Belo ou não, o corpo cansa. Enruga, cai, fica mais lento, dói, demora para se recuperar. Há uma fase da vida em que os anos atrás são muito mais vastos do que os que estão pela frente, em que há muito mais o que ser relembrado do que ser sonhado. Mesmo num corpo rejuvenescido e emplasticado, quem está dentro da pele sabe que não é mais o mesmo. Que se tenha o direito de cansar, de diminuir, de envelhecer por dentro e por fora, de ser apenas o que se é. Madonna, Brad Pitt, Tina Turner, eu, você – não somos os mesmos. Eu acho bom, estranho seria se ainda fôssemos. Que os meus vinte anos não sejam meu molde físico, tal como não é o meu molde psicológico.

Uma teoria pessoal sobre moda

Antes, uma historinha: Uma amiga minha, recentemente, estava na sauna do clube Curitibano. Para quem é de fora, o clube Curitibano é o clube mais fresco e tradicional da cidade. Ela estava reclinada com uma toalha em cima dos olhos, o que dava aos outros a impressão de que estava dormindo, mas por debaixo da toalha ela via tudo o que estava acontecendo. Entrou na sauna uma mulher com roupa de ginástica, que provavelmente havia saído da musculação. Era uma mulher bonita, por volta dos seus quarenta anos, cabelo loiro-comprido-liso e conjunto de ginástica colorido. Ok. Aí à medida que a mulher foi tirando a roupa, minha amiga não acreditou no que estava vendo: por debaixo da roupa de ginástica, ela estava com um modelador. Não, ela não havia feito plástica recentemente – era apenas para ficar bem dentro da roupa de ginástica.

Eu vivi os anos 80, vi videos dos anos 70 e agora estou viciada em Downton Abbey e, por incrível que pareça, encontrei algo similar em todas essas modas. Ou, dito de outra maneira, vejo mais semelhanças nos charmosos vestidos de Downton Abbey e as ombreiras que usei na infância do que com o que vestimos hoje. Pense comigo: antigamente os corpos eram mais parecidos. Mesmo se pensarmos que a gordura foi mais valorizada em uma época do que outra, não era tanta gordura assim. As diferenças de peso não variavam pra muito mais de cinquenta quilos, não com o que se comia naquela época, não sem as facilidades que a tecnologia nos oferece. As crianças gordinhas da minha infância hoje nem seriam consideradas gordinhas. A diferença entre as classes, dentre outras coisas, era bastante demarcada pela roupa. A roupa e seus detalhes, tecidos diferentes, costuras e caimentos eram extremamente elaborados. O corpo que havia dentro delas variava muito pouco.

Hoje estamos num padrão de beleza tal, que é impossível chegar a ele sem um investimento pesado de tempo e dinheiro. O tal corpo de academia, com a barriga negativa, a coxa enorme e o peitão não são o corpo de ninguém, não se nasce daquela forma e em nenhum momento da vida o corpo se encaminha para aquela forma. O “corpão” é resultado de alimentação com suplementos e restrições, horas de treinamento específico e diário na academia e cirurgia plástica. Tudo isso numa época em que ser simplesmente magro, como éramos antigamente, já é difícil. Tudo – o avanço da tecnologia, a vida sedentária, alimentos industrializados, medicalização – contribui e nos levou a uma epidemia mundial de obesidade.

Por outro lado, nossas roupas estão cada vez mais simples: um nada de um tecido que estica preso a duas costuras laterais e já temos uma roupa. Sem dizer que a China copia rapidamente e vende a versão barata do que apareceu ontem na loja cara. São roupas que tem um desenho, cuidado e caimento mínimos. Elas esticam. Tudo porque, na verdade, elas não são importantes. O caimento é o corpo, e não a roupa. Mortais comuns ficam horríveis nelas, que de tão coladas exibem com crueldade qualquer “dobrinha”. Não tem sentido cobrir de tecido, volume e curvas um corpo que sofreu tanto investimento. O corpo, sua magreza, seu silicone e suas plásticas é que são ostentados.

Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.

Mão naquilo

Eu geralmente me abstenho de discutir um assunto quando ele já é tratado por muita gente e com muita propriedade. É o caso da última polêmica, do caso Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para mim, a foto já era agressiva por si só. Comentários de internet têm a capacidade de nos deprimir em qualquer assunto, e nesse caso não foi diferente. Era brincadeira, ela gostou, quem mandou ir de vestido curto (argumento do próprio Gerald Thomas), o Pânico merecia, Gerald foi um gênio e agiu “fora da caixa”, etc. Eu sou mulher e vi aquela foto como uma mulher, pensei no que seria se um homem que nunca vi na vida, que não desejo, colocasse a mão em mim daquela forma na frente de uma platéia que não me defendesse. Não consigo deixar de achar que ela se sentiu extremamente humilhada. É uma humilhação que talvez apenas outra mulher possa entender.

Como explicar esse pudor a um homem? Eu poderia dizer “imagine se uma velha nojenta…” ou “imagine se um homem…” e não seria a mesma coisa. A relação que um homem tem com o seu sexo, com o seu pênis, é totalmente diferente. Anatômica e culturalmente falando, o pênis sempre foi algo exposto. Ele é mostrado orgulhosamente, ele é medido, ele recebe apelidos, ele é simbolizado em gestos obscenos, ele se confunde com seu próprio dono. Enquanto até a palavra pênis é dita com naturalidade, hesito até em escolher um termo para falar da mulher: xoxota, buceta, vagina? Cada termo tem uma carga, soa de maneira estranha, tende a algo libidinoso. A mulher aprende a se esconder, a não tocar e nem pensar no assunto, a nem saber como ela é embaixo, a corar com qualquer referência a tamanho ou formato. Penso em quantas mulheres têm câncer de colo de útero, uma doença que leva muito tempo para se desenvolver, por causa do tabu de fazer um exame simples como o papanicolau. O que entra, como entra, quando entra – o valor de uma mulher sempre foi medido (hoje menos, esperamos que no futuro menos ainda) pela quantidade de homens que podem ter acesso a sua vagina. E sabemos que é um valor negativo: quanto menos acesso, mais valorosa a mulher é. O maior ícone dessa idéia é a Virgem Maria.

Se ambas mostram mulheres nuas, porque dizemos que a Playboy tem um “nível melhor” do que a Sexy? A revista Sexy é mais escancarada, mais pornográfica, ela faz o que chamamos de “closes ginecológicos”. Com closes vaginais, não é mais possível dizer que um ensaio nu é artístico, porque a vagina é a diferença entre o artístico e o pornográfico, o sugerido e o escancarado. Ou seja, mostrar uma vagina é tão desejado quanto proibido, é de uma sexualidade indisfarçável e por isso mesmo “de baixo nível”. A nudez feminina se faz ainda mais nua quando uma mulher permite o acesso à sua vagina, porque a vagina é a última fronteira da sua sexualidade. Do lado oposto ao da Virgem Maria, que de tão santa é intocada, está a puta, aquela que não tem mais qualquer intimidade, qualquer moralidade, aquela que tem uma vagina pública.

A vagina é o canto mais reservado, ela é de uma intimidade que não há correlação em um homem, porque o homem é público. Pensemos nas dicotomias apontadas por Bourdieu em A dominação masculina: o homem é público, exterior, visível, agressivo; a mulher pertence à esfera do íntimo, privado, invisível, dócil. Quando saem da esfera do privado, a mulher e a sua vagina deixam de pertencer ao papel que lhes é reservado, o que tampouco faz com que sejam reconhecidas como masculinas. Elas se tornam putas, aquelas figuras desprezadas por homens e mulheres. Uma mulher que tem uma vagina que pode ser manipulada em público, sem que ninguém a defenda, é uma mulher sem o menor valor, é uma mulher sem direito à intimidade.

Muitos consideram o ato de Gerald Thomas justo quando pensamos nos abusos que o Programa Pânico têm cometido ao longo dos anos. Pode ser que eles realmente mereçam o troco, mas é uma pena que esse troco seja dado justamente no elo mais fraco do programa: numa Panicat. As Panicats que ganham pouco, que têm fama de prostitutas, que são escolhidas unicamente pela estética. São mulheres que precisam ficar rebolando de biquíni sem abrir a boca, que podem ser humilhadas dentro do próprio programa, que são pressionadas a esculpir o corpo e depois são facilmente demitidas porque não têm carisma ou estão masculinas demais. O mesmo programa que comprou imediatamente uma briga quando Netinho de Paula deu um soco no repórter Vesgo, deu risada e disse que não foi nada demais quando abusam de uma Panicat. Em outras palavras, era apenas uma panicat, uma mulher, uma gostosa que rebola pra gente. Essas coisas me fazem pensar que mulheres e vaginas ainda são, para muitos, apenas coisas a serem violadas num feliz mundo falocêntrico.