Escolarizando o mundo

O filme discute a suposta superioridade cultural que ajuda a escola a salvar as crianças da pobreza. Ao retirar as crianças de suas comunidades tradicionais, a escola se mostra eficiente no rompimento de laços e destruição de conhecimentos ancestrais.

Retirado do Café história.

Audrey Hepburn, Bonequinha de luxo e o surgimento da mulher moderna

quintaavenidaVocês vão me perdoar ter colocado em destaque o subtítulo do livro, que na realidade se chama Quinta Avenida, 5 da manhã. Posso dizer sem medo que foi a minha melhor aquisição em 2013. É muito raro passar numa livraria e encontrar por cinco reais um livro que não parece valer muito mais do que isso. O preço original é de quarenta, mas quem compraria? A capa e a contra capa possuem elogios rasgados e a declaração de que se trata de um best-seller, mas e quantos não são? Nunca ouvi falar do livro e do seu autor (Sam Wasson), peguei unicamente porque era uma pechincha. E é um daqueles livros raros salvam vidas em fins de semana chuvosos deprimentes. Ele é todo interessante, de ler numa sentada e tentar enfiar goela abaixo de todos os nossos amigos, porque dá uma vontade louca de comentar. Sintam só os primeiros parágrafos da introdução:

Como um daqueles acidentes que não são realmente acidentes, a escolha da “boazinha” Audrey para o papel da “não tão boazinha” garota de programa Holly Golightly mudou o rumo das mulheres no cinema, dando voz ao que até então era uma mudança não expressa no gênero nos anos 50. Sempre houve sexo em Hollywood, mas antes de Bonequinha de Luxo, só as garotas más é que faziam sexo. Com poucas exceções, garotas boazinhas no cinema tinham de se casar antes de ganhar seu primeiro fade out, enquanto as mais provocantes ganhavam fades outs o tempo todo e com todo tipo de homem em praticamente todas as posições (sociais) . Nem é preciso dizer, no fim elas pagavam o preço pela diversão. As meninas más sofriam/ se arrependiam, amavam/ casavam, ou sofriam/ se arrependiam/ casavam/ morriam; mas a ideia geral era basicamente a mesma: senhoritas, não tentem fazer isso em casa. Só que em Bonequinha de Luxo, de repente – porque era Audrey que fazia o papel – , morar sozinha, sair, andar linda e ficar um pouco bêbada não era mais tão ruim. Ser solteira, na verdade, não parecia motivo de vergonha. Parecia divertido.

Embora possam ter deixado passar, ou não ter identificado isso de imediato, a pessoas que conheceram a Holly Golightly de Audrey em 1961 experimentaram , pela primeira vez, a glamourosa fantasia de uma vida de independência desenfreada e excêntrica e liberdade sexual sofisticada; o melhor de tudo, era uma fantasia possível de se realizar. Até Bonequinha de Luxo, as mulheres glamourosas do cinema ocupavam um estrato disponível apenas para as damas loucamente chiques, envoltas em cetim debruado  de arminho, do boulevard, nas quais ninguém, a não ser a verdadeira estrela de cinema, podia se transformar. Mas Holly era diferente. Ela usava coisas simples. Não eram coisas caras. E pareciam fantásticas.

p. 17-18

O livro conta a trajetória do filme. Ao situar Bonequinha de Luxo nos anos 50, descobrimos o quanto o filme revolucionou sua época e a vida dos que se envolveram nele. O autor nos faz entender o papel do cinema durante a guerra, quem são e como são escolhidas as estrelas de cinema, o papel reservado às mulheres no pós-guerra (impossível não lembrar de Mad Men). Vemos as questões que se colocam a roteiristas, diretores e grandes estúdios na hora de se fazer um filme, o que precisa ser cortado e em nome de quê. Encontramos Truman Capote, como escritor e figura legendária da alta sociedade americana, conhecemos um pouco da ascensão de Audrey, seu novo tipo de beleza e sua relação com a moda. Existe até uma simbologia por detrás do famoso vestidinho preto, que tinha conotações sexuais ao estar ligado à viuvez. Há também deliciosas fofocas de bastidores, como descobrir que Audrey preferia surgir nas primeiras cenas de Bonequinha chupando apenas um sorvete ou a dificuldade de criar Moon River, uma música feita especialmente para o alcance vocal limitado dela.

Cinéfilos adorarão. Fãs de Audrey, feministas, historiadores, jornalistas, curiosos em geral também.

Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.

Vergonha

Há trechos belíssimos no romance Vergonha. Alguns por resumirem a trajetória dos personagens em poucas frases poéticas, outros por serem de grande sensibilidade. A cultura muçulmana e oriental aparece ora como exótica, ora como muito próxima; ela remete o leitor a uma sensação de pertencimento mesmo àquilo que nunca viu. Ao escolher a vergonha como tema, e pela maneira como a descreve, Salman Rushdie nos convence da importância desse sentimento, na força cultural que existe por detrás dele e na armadilha infeliz que ele prende todos seus envolvidos. O trecho a seguir, para mim, resume o conceito de cultura de uma forma extraordinária. A cultura é mais do que trajes, preferências ou uma escolha – ela determina nossa maneira de reagir e torna inevitáveis comportamentos que podem ir contra o nosso próprio bem estar. Mesmo que comumente coloque a mulher numa posição de vítima – quem sabe pudéssemos afirmar que ao homem cabe a honra e à mulher sua contrapartida, a desonra – a cultura enquanto vergonha atinge homens e mulheres de forma dolorosamente complementar.

Não muito tempo atrás, no East End em Londres, um pai paquitanês matou sua única filha porque, ao fazer amor com um rapaz branco, ela atraíra tamanha desonra para sua família que só o seu sangue poderia lavar a mancha. A tragédia foi intensificada pelo enorme e evidente amor pela filha abatida e pela cerrada relutância de seus amigos e parentes (todos “asiáticos” para usar o termo confuso destes dias difíceis) em condenar sua ação. Entristecidos, eles disseram aos microfones das rádios e às câmeras de televisão que compreendiam o ponto de vista do homem e continuavam a apoiá-lo mesmo quando se soube que a garota não tinha “ido até o fim” com seu namorado. A história me horrorizou quando a ouvi, horrorizou-me de um jeito bastante óbvio. Eu recentemente havia me tornado pai e portanto acabara de ser capaz de avaliar quão colossal tem de ser a força necessária para fazer um homem voltar uma faca contra sua própria carne e sangue. Mas ainda mais horrorizado fiquei ao me dar conta de que, como aqueles amigos entrevistados etc., eu também me descobri entendendo o assassino. A notícia não me pareceu alheia. Nós que crescemos numa dieta de honra e vergonha ainda somos capazes de captar o que deve parecer impensável para pessoas que vivem pós-morte de Deus e da Tragédia: que homens sacrifiquem seu mais querido amor no implacável altar de seu orgulho. (E não só homens. Depois ouvi falar de um caso em que uma mulher cometeu um crime idêntico por idênticas razões.) Entre a vergonha e a falta de vergonha há um eixo em torno da qual nós giramos; as condições metereológicas nesses dois pólos são do tipo mais extremo e feroz. Falta de vergonha, vergonha: as raízes da violência.

p. 147-148

Por esses motivos, adoraria derramar elogios sobre o livro, que se propõe a muitas coisas: trechos confessionais e biográficos, formação do Estado do Paquistão, história de duas famílias destinadas a desgraçarem-se mutuamente, heróis atípicos. A narrativa vai e volta constantemente, antecipando o que está por vir, misturando as histórias reais e fantásticas e discutindo questões culturais. Mas o resultado de tudo isso é confuso e truncado durante quase todo o livro. Seja pela falta de intimidade com os nomes ou pelo total desconhecimento da questão paquistanesa, pra mim a leitura levou muito tempo para engrenar. Apenas depois da página 150 o autor diz – agora cheguei na personagem e na história que eu quero contar. Quem procurar o resumo da contracapa do livro, lerá sobre o que acontece a partir daí. Ou seja, o leitor tem que enfrentar heroicamente uma introdução de mais de cem páginas… Coincidência ou não, é depois desse momento que ele o livro se torna devorável. Adorei os trechos, as histórias, os contrastes; só que para um livro que se propunha a apresentar o nascimento de um Estado, eu continuei ignorante.

Muito além do peso

Por Adriane Hagedorn

Não te dá um nó na garganta ouvir de uma criança que o que falta em sua vida é o sentido? Então se prepare para muitos outros nós que estão por vir!

O filme “Muito além do peso”, de Estela Renner nos dá um soco seco no estômago e trata de forma clara e educacional o descaso que se tem com a alimentação correta. Você imagina um mundo com crianças que não sabem distinguir uma batata de uma cebola; ou um abacate de um pimentão?

O documentário – que estreou em novembro – apresenta dados assustadores de cultura, educação e da alimentação de crianças brasileiras. O aparentemente inofensivo refresco de fruta em pó, por exemplo, é um dos vilões da alimentação que já começa com o pé errado desde cedo. Em 35g de refresco, há 28g de açúcar e 1% de fruta! Isso contribui a um outro fato: 51 quilos, peso médio de consumo anual de açúcar por brasileiro.

De todos os dados informados no documentário (que nos surpreende a cada nova informação) um me pegou de surpresa: 56% dos bebês ingerem refrigerantes com frequencia antes de completar um ano.

Leio o restante do post e os videos que ele apresenta.

 

ATUALIZAÇÃO: é possível ver o documentário completo aqui.

Leituras incorretas e o sujeito que lê

Ler um livro com idéias da qual discordamos é incômodo. Foi difícil passar dos primeiros capítulos de Lolita. O livro é narrado em primeira pessoa, na pessoa do pedófilo. Nas primeiras páginas existe uma justificativa para esse comportamento, ou seja, ele tenta justificar o injustificável. Quase desisti… e que bom que não o fiz. Passadas essas primeiras páginas, extremamente necessárias dentro da história, o livro se revelou uma grande experiência. Ele é crítico, divertido, envolvente e – pasmem – nada  pornográfico. É um excelente livro, um dos melhores que eu já li. Mesmo que a idéia de um homem abusar de uma criança não tenha nada de bela.

Nesse mesmo tema, um dia veio parar nas minhas mãos uma revista de circulação pequena, cujo nome eu não lembro, com o público alvo de skatistas. Havia naquele número um artigo polêmico sobre zoofilia. O artigo vinha lacrado, com o aviso de que chocou muita gente. Fiquei curiosa e fui direto nas páginas lacradas. Foi um dos artigos mais divertidos da minha vida. O artigo descrevia as características sexuais de vários animais, cuidados que um humano precisa ter se decidir copular com eles e por fim terminava com a história do filme de maior sucesso do Zé do Caixão: 24 horas de sexo explícito, protagonizado pela atriz Vânia Bournier e um pastor alemão. O que havia de polêmico no texto era a maneira como ele foi escrito: em nenhum momento seu autor chama a zoofilia de doença e se coloca contra ela. Parecia um artigo da Revista Nova.

O que quero dizer com essas aventuras literato-sexuais é que ler não é concordar. Entre  a intenção do autor e a interpretação do leitor existe um universo. O mesmo conteúdo pode excitar, chocar ou causar riso. Atualmente existe muito barulho em torno da obra de Monteiro Lobato (que nunca li), acusada de racista. Ao que me consta, ninguém nega o racismo do autor em certas partes, e sim a possibilidade de oferecer isso a crianças sem contribuir para perpetuação de preconceitos. Como é muito difícil controlar a variável do sujeito e suas interpretações, nossas atenções se voltam sobre o que lhe cai em mãos, principalmente de crianças: o quanto idéias ruins são toleráveis porque têm um contexto? É preciso debater certas idéias antes de disponibilizá-las ou é tão difícil e perigoso que é mais fácil abandoná-las? A radicalização de algumas posturas pode levar a: nada justifica o acesso idéias discordantes, precisamos controlar de antemão todo material acessível.

Isso não é novo. Penso em religiões, que estimulam seus fiéis a lerem, ouvirem e comentarem apenas o que diz respeito à sua fé. Para citar algo que li recentemente, lembro dos efeitos do governo talibã sobre o Afeganistão. Tem a famosa burca e restrições às mulheres que causam desespero só de ouvir: proibição de frequentarem escolas, de andarem sozinhas, de exibirem qualquer parte do seu corpo em público, de se dirigirem a qualquer homem que não pertença à família. Além disso, os talibãs interferiram em pequenas coisas como: proibição de ter fotos, de ingerir bebidas alcoólicas, de dançar. Nem preciso dizer que não se pode ler livros desfavoráveis à fé muçulmana. Até empinar pipa foi proibido. Para nós, tudo isso soa como barbárie; para os seus implantadores havia a intenção de purificar os costumes através da supressão de tudo o que desviasse a sociedade do comportamento bom.

Vejo por detrás de tudo isso uma descrença no sujeito. Acho justo temer pela falta de discernimento de uma criança ao ler uma afirmação racista num livro que lhe foi oferecido na escola – mas o que justifica esse mesmo controle sobre um adulto? Numa explicação religiosa, podemos afirmar que o Mau é tão insidioso que travestirá coisas ruins com a aparência de boas. Numa perspectiva histórica, arrisco, eu poderia citar que a II Guerra nos deixou como legado uma profunda descrença na ciência e na capacidade de discernimento do homem. Para muitos existe um Bom imutável e indiscutível – eu não acredito nisso. Mesmo que ele exista, a questão de quem tem autoridade e discernimento para reconhecê-lo não é simples.

Quando ditaduras tentavam impor uma forma correta de arte, ela raramente ficava boa. Parece haver uma antipatia natural entre a expressão artística e o moralismo. Existem livros bons em seu aspecto literário que não são necessariamente livros de boas idéias. São livros que podem descrever coisas chocantes, defender pontos de vista intoleráveis, contribuir para a manutenção de preconceitos. Colocar um bom livro ruim na mão de um leitor é sempre um risco: ele pode abandonar a leitura, pode relevar a informação como liberdade poética ou – o mais arriscado de tudo – pode começar a achar que coisas ruins não são tão más assim. O importante é que esse risco exista, para todos os livros e todos os leitores. Não há crítica e esclarecimento na unanimidade.

O livreiro de Cabul

O livreiro de Cabul é um daqueles livros que você pode presentear ou indicar sem medo. O seu amigo que não é de ler muito vai adorar as histórias curtas e acessíveis; o amigo intelectual vai aproveitar muito a cultura e as questões que o livro levanta.  No papel privilegiado de estrangeira – o que lhe permitia ficar com homens e mulheres – a autora Asne Seierstad se hospedou na casa do livreiro Sultan e teve a oportunidade de conviver intimamente com a sua família. É da família de Sultan que o livro trata, dos seus dramas cotidianos. E através dela temos acesso à cultura árabe, numa fase especialmente delicada: a queda do regime Talibã.

O grande mérito do livro é trazer a cultura muçulmana para muito perto. É um livro que modifica lentamente as opiniões do leitor. Os muçulmanos deixam de ser algo distante e se tornam Sultan, Leila, Mansur, Bibi Gul e pessoas que como quaisquer outras têm sonhos e procuram realizá-los. Alguns são egoístas e só pensam em dinheiro, outros querem experimentar o sexo, quase todos querem independência. A sua maneira de buscar esses sonhos está inserida numa cultura onde a família ocupa uma papel essencial e os hierarquiza. As relações entre homens e mulheres são cercadas de tabus, que oras os protegem e ora os fazem sofrer. Somado a tudo isso, eles vivem numa região devastada por guerras e contínuas disputas políticas.

É difícil não ficar extremamente sensibilizado com a sina feminina. A maior representante dessa sina é Leila, a tia de Sultan. Solteira, trabalha dia e noite para os parentes. Criada sob o regime talibã, mesmo quando ele é extinto não consegue se sentir bem com a liberação de certos costumes. Vemos o sofrimento de Sharifa, a primeira de Sultan, ao ser colocada de lado em prol de uma mulher mais jovem. Mesmo em Bibi Gul, considerada uma mulher de sorte por ter tido muitos filhos homens, vemos a falta de perspectiva. Qualquer contato com homens lhes suja a reputação, qualquer arbitrariedade de um parente masculino se torna uma ordem. Não é uma versão antiga e piorada dos costumes ocidentais, é diferente. Tanto que o homossexualismo é comum e visto com muita naturalidade, com líderes tribais com amantes jovens que se adornam com flores.

Mais do que a revolta com os seus costumes, o que o leitor sente é compaixão. O repúdio ao ocidente, que aparece em algumas passagens, soa muito mais como uma reclamação distante, cultivada pelo hábito e cercada de ignorância. O cenário do livro é de cidades devastadas: paredes perfuradas a bala, imóveis sem água, apartamentos sem móveis, alunos sem professores, lugares onde um dia houve e já não há mais. Mesmo Sultan que é um homem rico nos parece empobrecido. E quem é realmente pobre, como um carpinteiro, está muito pior. Tudo é feio e destruído. As cidades tentam se reerguer do regime talibã, mas suas consequencias ainda perduram na burocracia, no medo, nos costumes. O livro nos coloca claramente à favor da intervenção americana.

Akbar se diverte lendo um livro da Organização de Turismo afegã, lançado em 1967.

— “Ao longo da estrada há crianças vendendo correntes de tulipas cor-de-rosa. Na primavera, cerejeiras, abricoeiros, amendoeiras e pereiras brigam pela atenção dos viajantes. Uma paisagem florida segue de Cabul por todo o caminho.” — Eles dão risadas. Nesta primavera, a única coisa que podem ver é uma ou outra cerejeira rebelde que sobreviveu a bombas, mísseis, três anos de seca e poços envenenados. Mas será difícil encontrar um caminho sem minas para chegar às cerejas. — “A cerâmica local é uma das mais belas do Afeganistão. Dê uma parada para ver as oficinas na beira da estrada, onde os artesãos fazem travessas e vasilhas seguindo tradições seculares” —Akbar lê. (….)

— Dizem que Alexandre escreveu odes a essas montanhas, que “inspiravam a fantasia para mistérios e o descanso eterno” — Akbar lê no guia turístico. — O governo planejava uma estação de esqui nesse lugar! — ele exclama de repente, olhando para cima das encostas íngremes. — Em 1967 Assim que a estrada fosse asfaltada, diz aqui! A estrada foi asfaltada, como previu o guia, mas não sobrou muito do asfalto. E a estação de esqui ficou só nos planos.

— Seria uma descida explosiva — Akbar ri. — Ou talvez as minas pudessem exibir cartazes como “Experimente o Passeio Bombástico, o legítimo esporte radical afegão.”

Todos dão risadas. A realidade trágica às vezes parece um desenho animado ou um filme de suspense. Eles visualizam esquiadores coloridos explodindo em mil pedaços montanha abaixo.

p.100-101

Alimentação perfeita

Cresci em meio a livros de alimentação natural e homeopatia, e minha mãe sempre se esforçou para seguir o que esses livros pregavam. Mas era muito difícil. Se por um lado as marmitas de comida macrobiótica que ela trazia determinaram o meu paladar para sempre, por outro éramos crianças e todas as crianças estão atentas às novidades das bolachas, dos chocolates, dos salgadinhos. Ela tentava achar um meio termo, se recusando a comprar Tang e dando preferência ao chocolate no lugar da bala. A intenção era ser naturalista, mas pra isso ela precisava de um tempo, dinheiro e pesquisa impossíveis para uma mulher que passava o dia inteiro fora.

Se por um lado minha mãe não conseguiu a alimentação perfeita, eu tive a oportunidade de conhecer quem conseguiu essa proeza. Era uma família formada por um casal de uma filha. Não conheci o pai, que passava quase todo o tempo na chacarazinha que eles tinham. Eu desconfiei de qualquer coisa quando a filha, que era uma pessoa muito sociável, se recusou a ir a um comes & bebes de confraternização. O convívio com a família e muitos sucos de bambu depois, me fizeram descobrir que ela e a mãe conseguiam realmente se alimentar de modo “perfeito”, do modo que todos os livros de comida natural pregam. Elas eram totalmente vegetarianas e cortaram o açúcar de suas vidas. As coisas que elas comiam vinham de diferentes origens: da chácara, da hortinha no apartamento, de feiras de orgânicos e, por último, da sessão de hortifruti do supermercado perto de casa. E era apenas isso e produtos de limpeza que elas compravam lá. Tudo o que elas comiam era feito em casa e integral; graças ao talento culinário da mãe, tudo era muito gostoso.

Ao mesmo tempo, foram elas que me fizeram perceber porque minha mãe nunca conseguiu ter a alimentação natural perfeita, do mesmo modo que eu não consigo. Se nós lemos Sugar Blues e acreditamos no poder dos alimentos, o que nos falta? A família de alimentação perfeita a tinha tão perfeita que elas nunca comiam fora de casa. Seus critérios alimentares eram rigorosíssimos. A filha se viu em sérios problemas quando começou a namorar e foi conhecer a família dele. Para agradá-la, sabendo que ela não bebe refrigerante ou sucos de caixa, decidiram lhe oferecer um chá. Compraram matte leão. Mas pra quem é realmente naturalista algo que vem adoçado, cafeinado e numa garrafa pet não pode nem ser chamado de chá. Ela não aguentou beber e foi pega no flagra quando despejava o conteúdo do copo na pia da cozinha…

Por outro lado, conheço quem se despreocupe completamente com essas questões. Eu mesma fiz isso, quando casei. Adotamos aqui em casa o mesmo esquema que o Luiz estava acostumado na casa dos pais dele: geladeira sempre cheia de refrigerante, comida congelada, bolachas recheadas, muitas idas à praças de alimentação. Mais tarde, tivemos que lutar para emagrecer e eu me revelei uma grande viciada em coca-cola. A mesma coca-cola que um amigo do Luiz (cada dia mais gordo e com problemas de colesterol) toma de café-da-manhã, porque “espremer uma laranja pra fazer suco dá muito trabalho e perde muito tempo”. Na falta de tempo e de habilidade para fazer uma boa comida natural, pagamos caro pra comer regularmente num restaurante vegetariano. Dá pra dizer que temos uma alimentação mais saudável do que a média. Vejo os resultados disso quando minha cunhada, que é mais nova do que o Luiz, teve que retirar pedras da vesícula e parece muito mais velha.

Por isso que eu gostei muito quando a Sonia Hirsch, na sua entrevista, falou da alimentação possível, a alimentação que conjuga o que faz bem com o que todo mundo come. Porque a comida é muito mais do que um simples combustível que nos anima. Ela está nas confraternizações entre amigos, no lanche da tarde com as visitas, nos almoços para conhecer os pais, no cafezinho com os colegas de trabalho, nos jantares de negócios. O que comemos fala da época que nós vivemos, e com quem comemos fala sobre as nossas relações . Não acho que devemos nos submeter apenas à nossa época de maneira acrítica, em matéria de comida ou em qualquer outra. Ao mesmo tempo, não conseguimos estar de todo fora dela.

Decadência

A sociologia entende que culturas vão e vem; que falar em decadência é, na realidade, a eleição de uma cultura e a pretensão de eternizá-la. Algo sempre fica decadente em relação à alguma coisa – então, como dizer o que é referência? Naturalmente, cada um escolherá como referência a cultura a qual pertence e a época que vive (ou viveu). Por isso a tendência de olhar para as gerações mais novas e achar que elas estão decadentes, assim como nossos pais diziam o mesmo quando éramos jovens. A religião parece trazer a idéia da decadência no seu cerne, porque elas geralmente surgem baseadas na figura de um lider carismático ou pouco após a sua morte. Esse lider se torna o marco zero, e à medida em que nos afastamos da época em que ele esteve presente, a decadência aumenta. A idéia de decadência funciona como alguém que anda olhando para trás.

Em alguns casos é difícil não pensar que estamos vendo uma decadência. Vejo as pessoas terem muita certeza disso no campo artístico, que parece ter entrado numa simplificação sem fim. Um exemplo bem claro é o da música. Pouca gente é louca de comparar a música clássica com a pop; falemos da música pop em relação a si mesma. Ainda ouvimos e cultuamos a música dos anos 70 e a música hoje é quase toda descartável. O problema é que os objetivos e a forma de produzir música mudaram. Ao contrário do conhecimento científico, que procura ser acumulativo, na arte a mudança não quer dizer superação, apenas diferença. Ainda ouvimos as obras do passado e gostamos; temos acesso às que permaneceram e por isso achamos que tudo naquela época era excelente. As obras atuais ainda não sofreram o filtro do tempo, estão próximas demais. Não tem como negar que a nossa música que se ouve hoje é realmente menos elaborada, em critérios melódicos. Ela está associada a outras formas de consumo e está muito ligada à imagem, aos videoclipes. Isso é melhor ou pior? Depende do critério…

Nos “costumes” encontramos a maior queixa de nossa decadência. Por costumes, geralmente podemos entender o comportamento sexual. Todos estaríamos mais libertinos. A liberdade sexual dos anos 60 teria nos levado ladeira abaixo; o modelo anterior não era perfeito mas pelo menos funcionava. Ou seja: a liberdade sexual ampla e às claras é assustadora. Não dá pra mensurar a quantidade de pessoas que burlavam essas regras, mas sabemos que elas existiam. Homens e mulheres não sabem mais qual comportamento é normal ou quantos parceiros uma pessoa saudável pode ter. O homossexualismo deixou de ser considerado uma doença. Essa dificuldade em encontrar respostas simples dá a alguns a sensação de decadência. Não que não houvesse liberdade sexual antes, mas ela estava restrita a um pequeno grupo: homens heterossexuais. A eles ter muitas parceiras não apenas não era negado como era estimulado, dentro e fora do casamento. Já para as mulheres, poucos parceitos, ou um único parceiro que não fosse o marido já prejudicava toda uma vida. Homossexuais estavam condenados a um sofrimento ainda maior do que o de hoje, onde pelo menos aceitamos que o desejo existe. O modelo anterior era mais preto no branco; justamente por isso, mais comportamentos eram considerados transgressores.

Apesar de todas as relativizações que fiz, eu acho que estamos decadentes. Eu não veria problema nenhum em subvertermos critérios, consumirmos mais, explorarmos a nossa sexualidade e tantas outras coisas que sairam do armário na nossa época, sem que ao menos tivessemos idéia de que havia um armário. Acho que qualquer coisa teria valido a pena se estivessemos mais felizes. Mas não estamos. Lembro de Durkheim, o pai da sociologia, que dizia que era perigoso quando o indivíduo se sentia apartado do todo. Ou de Bauman, que fala da nossa incapacidade cada vez maior de nos relacionarmos face a face. Por fim, de Boaventura, que nos alerta que a espera passiva pelo futuro não nos preparará para ele. Parece que entramos num ciclo destrutivo em que nada deve permanecer sólido e nos ressentimos por não termos onde segurar.