Carcereiros, de Drauzio Varella

Estação Carandiru, publicado há quinze anos, mudou a vida do seu autor, Dr. Drauzio Varella. Ele não esperava uma repercussão tão grande, e tanto ele quanto seu livro se tornaram famosos. Dr. Drauzio se tornou uma figura conhecida e fez vários programas no Fantástico, sempre unindo os temas de medicina e promoção de saúde. E, mesmo assim, ele jamais perdeu seus vínculos com o sistema prisional. Seus motivos estão em destaque na contracapa do Carcereiros:

Depois de 23 frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não tivesse me trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixaria de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.

Eu ressaltaria dois méritos que tornam Carcereiros um grande livro, e esse é o primeiro deles. O olhar do Dr. Drauzio nos aproxima dos seus personagens. Apesar de serem funcionários concursados e sem ficha criminal, sobre os carcereiros recai quase o mesmo estigma que carregam os prisioneiros: de serem pessoas más, violentas, também bandidos. Nos estudos sobre estigma, dizemos que ele tem uma propriedade contaminante, que estar perto de pessoas desacreditadas socialmente faz com que o outro também seja desacreditado, o que leva a um círculo vicioso de evitação. Para não ficarmos desacreditados, evitamos, e ao evitar aumentamos a distância, e quanto mais distantes, mais desumanizamos o outro. Sobre os bandidos ainda há a explicação de que eles “fizeram por merecer” seu estigma, mas sobre os carcereiros o preconceito é ainda menos justificável.

No primeiro capítulo, Dr. Drauzio retoma o massacre do Carandiru, mas desta vez mostrando o que acontecia ao lado, no pavilhão Oito. Foi graças à iniciativa de poucos funcionários que a tragédia ficou restrita ao pavilhão Nove. Os presos do pavilhão Oito foram convencidos pelos funcionários a entrarem novamente nas suas celas e aguardarem o rumo dos acontecimentos. Drauzio reconta o que aconteceu esse dia, a tensão de todos, as difíceis negociações, o heroísmo anônimo que salvou a vida de mais de duas mil pessoas. Os agentes carcerários cuidam dos presos no sentido amplo da palavra. Vindos para as prisões pelos mais diversos motivos, alguns por fascínio (que Dr. Drauzio confessa também possuir) pelo ambiente das cadeias, outros apenas pelo desejo de se tornarem funcionários públicos, vemos o quanto a rotina violenta mexe com a subjetividade de quem trabalha nas prisões. Num lugar é difícil saber o que é bom e o que é ruim, eles contam consigo mesmos e com a solidariedade dos companheiros. Assediados pelo tráfico, mal remunerados, testemunhas de barbaridades, o mesmo homem que salva a vida de um suicida tortura outro preso na sala.

Uma tarde, quando se preparava para sair do plantão, trouxeram à sua presença um rapaz de olhos aterrorizados, preso alguns dias antes por fazer parte de uma quadrilha de adolescentes que roubava toca-fitas nas adjacências da PUC, em Perdizes. Tinha o rosto inchado e o corpo coberto de manchas roxas, queimaduras com pontas de cigarro e cortes de faca, sequelas de uma luta travada com os quatro companheiros de xadrez, na tentativa infrutífera de evitar o estupro coletivo. O sangue que manchava a camisa e escorria pelas pernas da calça formou uma poça no chão. Quando a ambulância chegou, já estava a ponto de perder os sentidos.

Hulk ajudou a transportá-lo e subiu até a cela dos estupradores. Sem dizer uma palavra, retirou os dois que estavam mais próximos da porta e fechou o cadeado.

Na salinha do térreo, perguntou ao mais gordo e ao magrinho o que tinha acontecido:

– Nada – respondeu o mais entroncado – . Nós aqui nesse esgano, chega esse menino bonitinho de olho azul.

Hulk agarrou-o pelas axilas, levantou-o a um metro do chão e arremessou-o contra a parede como um saco de batatas, que fez um som oco e desabou desacordado. Enquanto o magricela pedia pelo amor de Deus para ser poupado, ele enrolou um pano para proteger a mão esquerda e desferiu-lhe um soco no peito que o deixou roxo de falta de ar. Antes que recuperasse o fôlego, veio o segundo na ponta do queixo. Voaram dois cacos de dente. (p.55)

O segundo mérito do livro é trazer à tona uma discussão mais ampla sobre os problemas das prisões. Sem ter ele mesmo respostas para um problema tão amplo, Dr. Drauzio aponta a impossibilidade das prisões, pelo menos no seu formato atual. Ele fala do contraste da luta pelos direitos humanos em guerras e situações excepcionais, e o total descaso com o preso, que é torturado o tempo todo – geralmente amontoado em celas imundas e insalubres, entediado, exposto à violência de outros presos. Quase na sua totalidade, são pessoas pobre e negras, que são “recompensadas” assim pela sua falta de escolaridade e oportunidades. Caso o maltrato exagerado aos presos não seja motivo suficiente, ele aponta que é impossível ter cadeias para tanta demanda. O número de recém encarcerados supera, diariamente, o número dos que são soltos. E os que são soltos estão mais violentos e com poucas possibilidades de arranjar emprego. Dr. Drauzio nos mostra que as cadeias são instituições monstruosas, violentas, com uma organização própria, onde todo cuidado e pouco. Ela maltrata os que ali entram, mesmo como funcionários. Homens normais e pacíficos são contaminados e transformados no ambiente prisional. É um livro que, assim como Estação Carandiru, está sempre dizendo aos leitores: você não vê, mas isso existe. Você quer ignorar, mas este também é um problema seu.

Jackie, a estripadora

Agora saiu um livro dizendo que Jack, o Estripador pode ter sido uma mulher.

Jack, o estripador, não está mais tão em moda quanto era na minha infância. Eu vi vários documentários sobre ele, e todos eles apresentavam uma lista de suspeitos. Com os dados que eles forneciam, eu tentava adivinhar quem seria o Jack. Em nenhum desses documentários falaram em uma mulher, durante séculos ninguém jamais cogitou que pudesse ser uma mulher. É uma das formas que a desvalorização e o preconceito assume: de tornar algo impensável. Uma mulher jamais poderia ter sentimentos tão violentos. A violência concedida à mulher sempre foi a de tratar mal filhos, maridos, empregados. Mulheres gritam, choram, esperneiam, infernizam, nunca matam. Principalmente, uma mulher jamais poderia enganar a polícia – os homens da polícia – durante tanto tempo. Eles não poderiam imaginar uma mulher com a técnica que o Estripador tinha, e muito menos a capacidade de fazer o que fazia sem ser descoberto. Em resumo, uma mulher não poderia ser tão inteligente.
Homens não esperam violência das mulheres, que compraram a idéia e refrearam sua violência durante muito tempo. Mas o preconceito, ao diminuir a visibilidade, permite revoluções silenciosas, crescimentos insuspeitos e crimes sem solução. Como mulher, me senti um pouco vingada com a idéia de uma Jackie Estripadora.

A sangue frio

Eu sempre me perguntei o que um bom autor – alguém que gostasse mesmo do ofício, que tivesse um estilo, que soubesse usar recursos que tornem a escrita interessante – faria por uma boa história verdadeira. Porque nem todo mundo que escreve o faz com o objetivo de entretenimento ou tem talento para entreter. Os assuntos mais interessantes ficam tão insosos quanto jiló quando obedecem as fórmulas da academia. Jornalistas possuem mais liberdade, mas a necessidade de se ater aos fatos pode ser uma limitação. O que faria, repito, um bom autor com uma boa história verdadeira? O que Capote fez ao contar o assassinato da família Clutter, em A sangue frio.

Capote acompanhou as investigações e teve a oportunidade de falar pessoalmente com os assassinos. Ele pode formular impressões pessoais e foi atrás de coisas que não tinham relação direta com o caso: o que se discutia nos bares da cidade, que impressão e dramas pessoais que o caso teve na família dos investigadores, a vida em Holcolm antes de depois dos assassinatos, a rotina do corredor da morte, etc. Como resultado, temos um livro tão bem construído e cheio de informações como qualquer romance de narrador onipresente. Capote sem dúvida preencheu algumas lacunas, descreveu cenas baseado em informações de terceiros, inventou diálogos que nunca ocorreram. Mas tudo tornou a história tão vívida que não somos capazes de dizer em que momento isso aconteceu. Ele consegue nos transmitir verossimilhança justamente por não procurar “se ater aos fatos”, como seria de praxe em uma investigação jornalística.

O crime em si só é descrito na metade pra frente do livro. Ele faz duas narrações paralelas, em que segue a família Clutter e os assassinos. Gosto da sutileza com que ele descreve os Clutter:

A casa fora construída em 1948, e projetada em grande parte pelo Sr. Clutter, que se mostrara arquiteto sóbrio e sensato, embora não se destacasse como decorador (….) um imenso sofá moderno na sala de estar, coberto por um tecido encaracolado e entremeado de fios cintilantes de metal prateado; na copa uma banqueta torrada de plástico azul e branco. Este tipo de mobília agradava ao Sr. e a Sra. Clutter, bem como à maioria dos seus conhecidos, cujas casas eram assim decoradas.

Os assassinos, ao contrário dos enraizados Clutter, são errantes e desorganizados:

Uma laterna, uma faca de pesca, um par de luvas de couro e uma roupa de caça, completa com cartuchos, cada ainda mais atmosfera a essa curiosa natureza morta.
– Vai usar isso aí? – perguntou Perry, indicando a roupa.
Dick deu com os nós no dedo do pará-brisa:
Toc, toc. O senhos nos desculpe. Estavámos caçando e parece que perdemos o caminho. Será que poderíamos usar o seu telefone?…
Sí, señor. Yo comprendo.
– Vai ser fácil… Prometo a você, meu anjo, vamos espalhar miolo por tudo quanto é parede.

Quando os dois destinos se cruzam, ele omite temporariamente o encontro e se detém nos efeitos dele. Acompanhamos o terror dos primeiros a encontrarem a família, os laços interrompidos, a notícia se espalhando pela cidade, o clima de insegurança. A violencia inexplicável à uma família tão poderosa e querida afeta a cidade. A percepção da realidade é alterada, a insegurança e a desconfiança se instalam. Tanto que depois eles custam a acreditar que não foi um cidadão o mandante do crime, quando tudo é finalmente esclarecido. A violência banal e sem destino certo assusta muito mais do que a idéia de uma vingança pessoal. E é justamente isso que a trajetória de Dick e Perry nos mostra – o acaso.

Enquanto a cidade imagina coisas, os assassinos vão atrás de suas ilusões pessoais. Eles viajam, praticam pequenas fraudes, convivem da maneira como podem com o laço sinistro criado entre eles. Ao mostrar a biografia de ambos, Capote os torna muito próximos do leitor: Dick simpático e piadista, Perry sensível e até mesmo correto. A empatia que sentimos por alguns momentos os torna mais assustadores, por causar a impressão de que qualquer um esconde o sangue frio capaz de tirar vidas. O livro, em si, também nos desperta sentimentos ambíguos, ao tornar algo horrível gostoso de ler. Ele é tão bem escrito que às vezes nos faz esquecer da sua denúncia, o fato de mostrar o pior lado do ser humano: a incapacidade de se sensibilizar com o sofrimento alheio.