Bradbury e Murakami: dois livros e dois processos de escrita

Uma vez eu estava conversando no MSN com um psicólogo. Era o tempo do orkut e tínhamos conhecidos em comum. Foi a nossa primeira e última conversa. Eu estava falando do tempo que fui escultora. Disse a ele que o meu processo de trabalho era bastante infantil. Logo em seguida ele me deu uma patada – por isso que as pessoas não gostam de você, psicólogos – dizendo que eu me diminuía, que eu não tinha auto-estima, etc. Levei muito tempo tentando entender de onde ele havia tirado aquilo, até descobrir que foi a palavra infantil. Eu não estava me diminuindo, muito pelo contrário. Quem já tentou um trabalho criativo sabe como é duro ser adulto: racionalizar antes mesmo de começar, ter plena consciência das dificuldades, saber que não há nada sob o céu que já não tenha virado tema, enfim, colocar tanta ansiedade antes mesmo de começar que fica difícil sair do lugar.

Ray Bradbury, no seu O Zen e a arte da escrita, mostra que ele tem o processo infantil. Os seus artigos são todos apaixonados e num determinado momento ele fala que insistiram demais em dizer que o processo de escrever é difícil e é preciso ter prazer. No começo, achei que o tom grandiloquente dele fosse estilo, uma maneira de imprimir otimismo no leitor; depois, à medida que ele contou como escreve, eu me convenci que para ele é fácil mesmo. Na disciplina que ele se impôs, um conto sai em uma semana: segunda ele escreve, terça e quarta revisa, etc. Domingo as ideias fermentam. Nós os conhecemos como o sujeito que escreveu o livro que se tornou o filme Farenheit 451, mas a produção dele é enorme e inclui traduções, teatro, quadrinhos e até mesmo a construção do Epcot Center. Ele se propõe uma pergunta absurda (“e se ao invés de apagar incêndios os bombeiros o provocassem?”) e à partir daí a imaginação voa. Diante da vivacidade e imaginação incríveis desse sujeito, eu só conseguia pensar numa coisa enquanto lia: Bradbury, acho que te odeio.

Não seria maravilhoso, por exemplo, jogar longe um exemplar da Harper´s Bazaar que você folheava no dentista e se lançar sobre sua máquina de escrever com uma fúria hilária para atacar a esnobação tonta e às vezes chocante dessa revista? Há alguns anos, fiz exatamente isso. Deparei com um artigo em que os fotógrafos da Bazaar, com seu pervertido senso de igualdade, mais uma vez utilizaram nativos do bairro de Porto Rico ao lado de modelos esquálidas que posavam em benefício de mulheres ainda mais esquálidas dos melhores salões do país. As fotografias me irritaram tanto que corri, não andei, para minha máquina de escrever e escrevi Sol e sombra, a história de um velho porto-riquenho que acaba com uma tarde de trabalho de um fotógrafo da Bazaar ao se intrometer em cada foto dele de calças arriadas.

Acredito que alguns de vocês gostariam de ter feito esse trabalho. Eu me diverti muito fazendo; era o efeito redentor da vaia, do berro e da intensa gargalhada. Provavelmente, os editores da Bazaar nem ouviram falar, mas vários leitores leram e gritaram:” Da-lhe, Bazaar! Da-lhe, Bradbury!”. Não proclamo vitória, mas havia sangue em minhas luvas quando liguei para eles.

A alegria da escrita (1973)

Algumas vezes as pessoas viram pra mim e dizem que vão escrever um livro. Que com todo material que só elas têm, o livro está ali e será muito interessante. Como sabem o quanto eu amo escrever e que, mesmo assim, o desejado livro nunca sai, eu noto que há algo diferente no olhar delas quando me dizem isso. Talvez temam que eu sinta inveja ou me sinta desafiada de alguma forma. Mas é justamente o contrário: escrevam, escrevam mesmo. Porque só se as pessoas realmente sentarem e levarem a sério o processo de escrever, vão entender o que eu passo.

O Do que eu falo quando eu falo de corrida, do Murakami, à princípio pode não parecer um livro sobre escrita e acho que a maioria dos leitores o busca para ler um livro de corrida. E é, é um excelente livro de corrida; mas caso além de gostar de praticar esportes, a pessoa também goste de escrever, esse livro será um prazer duplo. Sobre Murakami, só conseguia pensar: somos o mesmo tipo de gente. Não sei ao certo o que isso significa, apenas que nós somos. Para ele, escrever e correr são uma coisa só. Primeiro, porque ele passou a correr quando decidiu virar um autor. Antes ele era dono de um bar de jazz (!) e escreveu seu primeiro livro impulsivamente e ele fez sucesso. Quando decidiu escrever, passaria a ser mais sedentário e para se manter ativo passou a correr. Escrever e correr são seu estilo de vida; as duas atividades exigem o mesmo tipo de temperamento e disciplina. As três características fundamentais do escritor seriam talento e concentração. Embora o talento seja inato, ele pondera, aqueles que persistem – tal como ele que não tinha físico de atleta e começou a correr aos trinta – podem acabar encontrando águas profundas de tanto escavarem. E as duas atividades, embora não pareça, são exaustivas:

Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro inteiro está mais próximo do trabalho braçal. Não envolve levantar peso, correr ou pular. A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que você arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo quanto parece. O processo todo – sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo fluxo da história nos trilhos – exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para o outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo o seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto da estafa.

Quatro: A maior parte do que sei sobre escrever ficção aprendi correndo todos os dias

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Conheço fãs que gostam de tudo o que Murakami escreve, assim como também conheço quem tenha muitas reservas em relação ao autor; de ambos, ouvi que Kafka à beira-mar é seu melhor livro. Não li livros o suficiente dele para dizer se é o melhor ou não, fora esse li apenas outro que também é considerado excelente, o Caçando Carneiros. Mas, olha, que livro. Ele atende muitos critérios diferentes de um grande livro: a história se mostra cada vez mais interessante; o autor não enrola, quando o leitor capta as pistas, ele já parte para novas informações; não há uma única cena desnecessária; os personagens são cativantes; o final, as explicações e a falta de explicações são satisfatórios; o livro trata de temas profundos sem jamais se tornar piegas ou moralista. Murakami entrega aos seus leitores alguns prazeres específicos, como situações e formas de ver o mundo bastante japonesas, por mais que o mundo globalizado nos passe a ilusão de uniformidade, ainda há sim hábitos muito próprios em cada país. Oshima, a biblioteca, os personagens sempre acompanhados de uma garrafa de chá quente, é desse tipo de detalhe que estou falando. E tem as músicas. Os personagens ouvem algumas músicas e, quando fui atrás delas no youtube, os comentários eram: “Dá um like se você veio parar aqui por causa do Kafka à beira-mar”. Uma delas já entrou no meu panteão de preferidas. Não vou dizer quais são as músicas, descubra (e dê um like) você também.

A profecia é água escura e misteriosa, sempre presente.

Normalmente, ela fica submersa em algum lugar desconhecido. Mas, quando o momento chegar, a água transbordará e, silenciosa, banhará em gelo cada uma de suas células, irá afogá-lo num turbilhão cruel que o fará ofegar. Você se agarra ao respiradouro existente no alto, próximo ao teto, e busca desesperado o puro ar externo. Mas o ar que lhe vem dali é seco e quente, queima sua garganta. Água e sede, frio e calor: elementos que deviam se opor juntam-se então para atacá-lo simultaneamente.

Tanto espaço neste vasto mundo, mas você não encontra – e bastava um, bem pequeno – nenhum capaz de acomodá-lo. E, quando ansiar por uma voz, ali encontrará apenas o silêncio, ali encontrará a voz da profecia sussurrando sem parar. E pode ser que um dia essa voz aperte algo semelhante a um interruptor misterioso, oculto nalgum lugar dentro de sua cabeça.

Sua alma se assemelha a um rio cujas águas a chuva incessante transformou em caudal. A correnteza submergiu e ocultou todas as placas de sinalização terrestre e provavelmente já as carregou para um lugar escuro. Mas a chuva, copiosa, continua a cair sobre o rio. E toda vez que você vir em noticiário tais cenas de inundação, você pensará: Realmente, assim é a minha alma.

Capítulo 1/ Posição 212 de 9572

O livro conta três histórias em paralelo, que adivinhamos que em algum momento se encontrarão: um adolescente que resolve fugir de casa, um evento estranho envolvendo crianças durante a Segunda Guerra Mundial, um homem com inteligência reduzida que conversa com gatos. Não conto mais do que isso para não estragar as surpresas. O que posso adiantar é que, tais como as atuais novelas da Globo, Murakami acaba num instante com um suspense que pensaríamos que levaria o livro inteiro. Quando pensamos que uma informação específica vai desvendar o livro, ela é colocada na mesa e abre dúvidas ainda maiores. Em muitos sentidos, o livro me lembrou o filme A viagem de Chihiro e sua impossibilidade de classificar os elementos como bons ou maus, algo tão fácil em filmes da Disney. Há momentos que o leitor pula da cadeira, sem acreditar no que está lendo. Há, tal como no Caçando Carneiros (e acredito que em todos os livros dele), o fantástico mesclado no dia a dia –  e assume seu papel de fantástico na maior desfaçatez e humor. Quando o livro termina, nos pegamos nostálgicos, apaixonados por pelo menos três personagens, imaginando que vidas levam depois da aventura e temos como nossas as suas músicas preferidas.

Tio Tungstênio, de Oliver Sacks

Oliver Sacks é um médico que foi se tornando escritor e se tornando celebridade. Por não ter começado no mundo literário com a intenção de ser realmente escritor, a trajetória dos livros dele segue uma direção atípica. Embora sempre interessante, os livros dele começam mais técnicos e se libertam cada vez mais; começam falando de outros e depois revelam a biografia. Como acontece com qualquer autor, há livros melhores do que outros, mas no geral dá pra pegar sem medo porque são sempre bem escritos. Se me pedissem uma recomendação, eu diria que Enxaqueca e A Mente Assombrada são péssimos começos por serem muito técnicos, e que Diários de Oaxaca é totalmente fora da curva. Para amar Sacks é preciso lê-lo em ação: comecem com O homem que confundiu sua mulher com um chapéu ou Um antropólogo em marte. Tio Tungstênio, para mim, é meio como um Carl Sagan: leve até aquela criança inteligente e solitária que ama ciência – mesmo que essa criança ainda exista apenas dentro de si.

Por mais fraco que fosse o nosso olfato em comparação com o dos cães – nossa cachorra, Greta, conseguia detectar suas comidas favoritas se abríssemos uma lata no outro extremo da casa -, ainda assim os humanos pareciam possuir um analisador químico no mínimo tão refinado quanto os olhos ou os ouvidos. Não parecia existir uma ordem simples, como a escala de tons musicais ou cores do espectro, mas mesmo assim nosso nariz era admirável porque fazia categorizações que correspondiam, de algum modo, à estrutura básica das moléculas químicas. Todos os halogênios, embora diferentes, tinham odores característicos de halogênio. O clorofórmio cheirava exatamente como o bromofórmio, e tinha um cheiro bem parecido – mas não idêntico ao do tetracloreto de carbono (que era vendido como líquido para lavagem a seco chamado Thawpit). A maioria dos estéres tinha cheiro de fruta; os alcoóis – pelo menos os mais simples – tinham cheiros “alcoólicos” semelhantes, e o mesmo valia para aldeídos e as cetonas.

(Erros e surpresas certamente podiam ocorrer; tio Dave contou-me queo fosgênio, cloreto de carbonila, o terrível gás venenoso usado na Primeira Guerra Mundial, em vez de anunciar-se perigoso emitindo um cheiro característico dos halogênios, tinha um enganoso odor de feno recém-cortado. Esse aroma adocicado e rústico, recendendo aos campos de feno da infância, foi a última sensação que tiveram os soldados envenenados por fosfeno antes de morrer)

8. Fedores e explosões/ Posição 1204 de 4826

 

Para quem cresceu com a imagem do Dr. Sacks como o médico doce de Tempo de Despertar e sua incrível empatia evidenciada nos livros que tratam de casos clínicos, quando ele revela um pouco da vida sempre nos pega um pouco de surpresa. No Mente Assombrada descobrimos que Dr. Sacks já se submeteu a muitas experiências com drogas, até se tornar viciado nelas. No Diário de Oaxaca, sabemos que ele é o tímido que se afasta do grupo para escrever e que ama samambaias. Com o Tio Tungstênio, ele vai ainda mais para trás e fala do seus antecedências familiares: o avô que estimulou o intelecto dos filhos, homens e mulheres; o papel da sua família na popularização das lâmpadas elétricas; a cultura reinante numa casa próspera de um casal de médicos; a chocante perda da idílio quando se afasta dos pais na época da guerra e vai para um colégio interno de crianças judias; a difícil reconstrução de si mesmo e o papel da ciência na sua vida. Sacks reconstrói seu interesse e nos leva à história do desenvolvimento da química, a biografia dos seus pioneiros, o desenvolvimento de princípios e objetos que hoje nos parecem tão “naturais” como se tivessem surgido do ar. Rico de deliciosa cultura enciclopédica, é um livro que consegue ser ao mesmo tempo científico e humano, histórico e biográfico. Recomendo.

A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch

Do título, ao tema, aos depoimentos, à forma como as entrevistas foram conduzidas, as perguntas que a autora procurou responder, as questões levantadas – tudo em A guerra não tem rosto de mulher grita a importância da representatividade. Uma das suas entrevista confidencia a Aleksiévitch que passou a noite anterior à entrevista com o marido, que também participou da guerra, estudando livros de história. Ele revisou a história oficial com ela porque “não queria que ela passasse vergonha”. Censores e editoras também passaram muito tempo achando o conteúdo do livro vergonhoso por ser excessivamente “naturalista”, desqualificar heróis, jogava lama na vitória dos aliados. O que há de vergonhoso no relato feminino é a tendência a falar do que é deixado de lado nos grandes feitos heróicos da história, constituído por datas e alta tecnologia e se voltar para o prosaico: mães que uivavam de dor ao se despedir dos filhos nas estações, do horror à cor vermelha por ter visto sangue demais, a resistência quando se precisa matar uma pessoa pela primeira vez. 

Estamos acostumados a pensar que a participação feminina na guerra, no que diz respeito ao trabalho, estava limitada às fábricas e enfermarias. Mas elas também estiveram no front, foram franco-atiradoras, motoristas, tanquistas. A presença delas nunca era indiferente – o trabalho pesado demais para os seus corpos, a necessidade maior de provar que consegue ser útil, o pudor dos homens diante delas. Os homens ora viam nelas filhas, ora o retrato da valentia e pureza, e as punham num lugar especial; estupro de mulheres, ou até mesmo de crianças, estava reservado a outras. Nem todas as paixões de guerra vingavam, às vezes as pessoas se viam cansadas de olhar para aqueles com quem vivenciaram o horror. Em um dos depoimentos, uma disse que a guerra obriga a deixar parte da humanidade de lado e se tornar mais animal, para sobreviver. Muitas falam da guerra como o período que “foram homens”. Com o final da guerra, vinha a difícil tarefa de se readaptar, preconceito – como se pelo fato de terem passado tanto tempo com homens fosse sinônimo de prostituição – , o esquecimento da história oficial.

Certa vez uma mulher que havia sido piloto recusou-se a se encontrar comigo. Por telefone, explicou: “Não posso… não quero lembrar. Passei três anos na guerra. E, nesses três anos, não me senti mulher. Meu organismo perdeu a vida. Eu não menstruava, não tinha quase nenhum desejo feminino. E era bonita… Quando meu futuro marido me pediu em casamento… Isso já em Berlim, ao lado do Reichstag. Ele disse: ‘A guerra acabou. Sobrevivemos. Tivemos sorte. Case comigo.’ Eu queria chorar. Começar a gritar. Bater nele. Como assim casar? Agora? No meio de tudo isso – casar? No meio da fuligem preta, de tijolos pretos… Olhe para mim… Veja em que estado estou! Primeiro, faça de mim uma mulher! Me dê flores, flerte comigo, me diga palavras bonitas! Eu quero tanto isso! Esperei tanto! Por pouco não bati nele… !ueria bater… Uma de suas bochechas estava queimada, vermelha, e eu vi que ele tinha entendido tudo: desciam lágrimas por essa bochecha. Pelas cicatrizes ainda recentes… E eu mesma não acreditei que estava dizendo: ‘Sim, eu me caso com você’.

1978-85/ Posição 126 de 5468

Para além da guerra em si, é um livro terno. Impossível deixar de perceber a pessoa amorosa que fez aquelas entrevistas. Há um trajeto doloroso na busca desses depoimentos, que pareciam nunca ter fim – uma mulher indicava a outra, pessoas escreviam pedindo para ser entrevistas, ou a auto-censura só permitiu que algumas coisas fossem ditas depois da queda da URSS. A autora começa uma “mocinha” que pede para ouvir sobre o horror e  vive a cada entrevista um contato profundo e efêmero. Lembranças que faziam as entrevistadas passarem mal, cair no choro, ter que tomar remédio para o coração – e depois pediam para continuar. “É terrível lembrar, mas é mais terrível ainda não lembrar”. Mesmo diante da morte e da dor, existe o lado rotineiro da vida, roupas que precisam ser lavadas, vontade de comer bombons, cheiro de casa, a natureza. “Não importa do que as mulheres falassem, até mesmo de morte, sempre se lembravam (sim!) da beleza, que aparecia como uma parte indestrutível da existência”. Apesar de tudo, é também um livro de heroísmo, tal como outros livros de guerra; mas o olhar bondoso da autora e o ineditismo do material que ela colheu também transformam o livro numa reflexão sobre memória, humanidade, vida. 

Depois, mais de uma vez me deparei com essas duas verdades convivendo numa mesma pessoa: a verdade pessoal, relegada à clandestinidade, e a verdade geral, impregnada do espírito do tempo. Do cheiro dos jornais. A primeira raramente consegue ficar de pé diante da segunda. Por exemplo, se no apartamento, além da narradora, estivesse também presente outro tipo de parente ou conhecido, vizinho (especialmente homem), ela seria menos sincera e confidente do que se estivéssemos só as duas. Já se tornava uma conversa pública. Para o expectador. Extrair suas impressões pessoais se tornava tarefa impossível, e eu imediatamente verificava uma rigorosa defesa interna. Um autocontrole. A correção se tornava habitual. E até pude identificar um padrão: quanto mais ouvintes presentes, mais desapaixonado e estéril era o relato. Mais cauteloso em relação ao que manda o figurino. O que era terrível já se tornava grandioso, e o incompreensível e obscuro no ser humano era imediatamente explicável. Eu ia parar no deserto do passado, onde só havia monumentos. Façanhas. Orgulhosas e impenetráveis. [….] Todas as vezes eu ficava estupefata com essa falta de confiança no que é simples e humano, com esse desejo de substituir a vida por um ideal. O que é habitualmente cálido por uma auréola fria.

Eu não conseguia esquecer como havíamos bebido chá daquele jeito caseiro, na cozinha. As duas chorando.

Fui a única a voltar para minha mãe/ posição 1793 de 5468

As rãs, de Mo Yan

Ao longo da leitura de As Rãs, pensei muito em que palavras usaria para descrever o livro. Pensei muito porque realmente quero recomendar este livro, que li como mera curiosidade para conhecer um escritor chinês que ganhou um prêmio Nobel. Uma das palavras que me veio à mente, e que nunca vi usada em literatura, é naif. De acordo com o Wikipedia:

A Arte Naïf é uma classificação que designa artistas auto-didatas que inventam um jeito pessoal de expressar suas emoções.(….) A palavra naïf é um termo francês que significa ingênuo ou inocente; portanto, a “arte naïf” é todo produto artístico de natureza pueril que demonstra uma criatividade autêntica baseada na simplificação de elementos decorativos a níveis brutos, espontâneos, puros, coloridos.

O livro passa a impressão, que tem a ver com a história pessoal do autor (a biografia é desinteressante, já adianto), de ter sido escrito por alguém que não veio de um meio literário e sim cheio de narrativas orais; o livro seria apenas apenas a última etapa do processo, de uma história que já foi contada e enriquecida de detalhes a cada audiência. Há algo de espontâneo e direto no livro, como se fosse uma reunião dos causos mais interessantes da vizinhança. A sensação ao ler o livro é esta: nos reunimos com os amigos e parentes e eles nos contam as últimas novidades, em detalhes deliciosos. Some isso às diferenças culturais, expressões impensáveis dentro da nossa própria língua, costumes diferentes, as mudanças radicais da Revolução Cultural. As Rãs é tão emocionante e surpreendente como se fosse um grande Casos de Família por escrito.

Professor, tínhamos em nossa aldeia um costume bem antigo de batizar as crianças com o nome de partes do corpo humano, como Chen Nariz, Zhao Olho, Wu Intestino, Sun Ombro… Nunca procurei saber a origem dessa prática, talvez tenha surgido por acreditarem que um nome humilde daria vida longa, ou pelo fato de as mães considerarem o filho parte da própria carne. Esse é um costume que caiu um desuso. Os pais de hoje não querem mais dar nomes estranhos aos filhos. As crianças da aldeia agora recebem nomes sofisticados de personagens de novelas de Hong Kong, de Taiwan ou Coreia. Quem tinha nome à maneira antiga, na maioria dos casos, acabou optando por outro mais elegante. Naturalmente, há aqueles que mantiveram o original, como o Chen Orelha e o Chen Sobrancelha.

Chen Nariz – pai de Chen Orelha e Chen Sobrancelha – foi meu colega de escola primária e meu amigo de juventude. Entramos na escola primária de Dayanglan no outono de 1960. As memórias mais marcantes que tenho daquela época de fome são, em grande parte, relacionadas à comida. Por exemplo, a história de quando comi carvão. Muitos pensam que é invenção minha, mas juro por minha tia que tudo aquilo aconteceu de fato, eu não inventei nada. (Parte I. capítulo 1)

O protagonista, Corre Corre, é como um dos muitos camponeses de uma pequena vila na China. Ele é como os que o cercam; Corre Corre não faz a menor questão de esconder suas fraquezas, que muitas vezes se propõe a ser melhor e não consegue, que vai no fluxo e acaba por decidir pelo que lhe é mais cômodo, o que o torna um personagem muito simpático. Seu ponto de contato com um mundo diferente é a sua tia, uma mulher idealista, teimosa e forte, que se torna a obstetra da vila e mais tarde representante do Governo. A vida dele e de toda vila é modificada quando inicia a Revolução Cultural, que traz novos valores e perspectivas. A tia dele acaba sendo o ponto de contato de políticas distantes do Partido Comunista e a realidade do povo comum. A delícia do livro é oferecer a visão micro do que é decidido no macro, como o povo reage a decisões políticas que num momento vão de encontro aos seus desejos e em outro os contrariam. O mesmo partido que no início estimulava a concepção, depois adota a política do Filho Único e coloca à força DIU, faz laqueaduras e interrompe sem escrúpulos gravidezes de sete meses. O processo não foi nada tranquilo, como nos faz parecer as distantes estatísticas. A tia mantém, por toda vida, a mesma atitude de fervor aos ideais do partido, e vai ao céu e ao inferno por isso. Mais do que a história de Corre Corre e sua tia, o livro conta a história da vila inteira, é um registro sobre a Revolução Cultural. O livro me fez lembrar das linhas de conhecimento, que quando tendem para a sociedade esquecem do indivíduo e vice-versa. Mo Yan consegue mostrar muito bem essa relação. Vemos como camponeses, pobres e ignorantes em muitos aspectos, dotados de relações e saberes tradicionais, manejam com inteligência os meios para tentar fazer as situações irem a seu favor. Temos o macro, com o partido, as políticas, o presidente Mao; em meio a isso, pessoas que se apaixonam, se vingam, mudam de ideia, se divertem, protagonizam barracos e, principalmente, procuram seu caminho.

A questão do duplo em Black Mirror

Alerta de spoiler: este texto fala livremente de histórias dos episódios das temporadas 2, 3 e 4 de Black Mirror. Se você ainda não viu e não gosta de spoiler, corre lá pra ver e volta!

jon hamm black mirror

A ovelha Dolly, criada em 1996, foi o primeiro ser vivo a ser duplicado geneticamente. Na época surgiram muitas discussões, lembro que uma pergunta frequente: será possível, em algum lugar, alguém recriar Hitler? A resposta é que, mesmo que um dia a genética consiga recriar um corpo humano de um DNA pré-existente, seria inútil pretender que Hitler, ou de qualquer outra pessoa, revivesse com isso. Uma pessoa não é, apenas, sua genética. Uma pessoa é um conjunto de contingências, familiares e sociais; é a soma da intimidade e a cultura da sua época, interações impossíveis de serem recriadas. Muito antes da Dolly a ficção já se questionava sobre a possibilidade de duplicar seres vivos. Na série original Netflix, Black Mirror, que se caracteriza quase inteiramente por uma visão pessimista do avanço tecnológico, a questão de criar um duplo é um dos temas recorrentes. Lá, os duplos ora são o simples desligamento da realidade objetiva, ora são substitutos idênticos de seus donos; ora são replicações auto-conscientes, assim como podem ser pura consciência; às vezes são servos e podem ser ignorados pelo próprio dono do DNA.

Em dois episódios o próprio sujeito permite que seu Eu seja mergulhado numa realidade virtual. No episódio Playtest (temporada 3, episódio 2), um homem se oferece como cobaia para o desenvolvimento de jogos de computador. Ele fornece à empresa a informação dos seus medos mais íntimos e lhes dá permissão de ser desligado do mundo material. O jogo constrói realidades múltiplas e se torna uma espécie de pesadelo, onde não sabemos mais o que é intencional ou fora de controle, o que é vida ou morte. Já em San Janupero (temporada 3, episódio 4), na realidade virtual estão misturados os que possuem uma vida corpórea e aqueles que são apenas consciência, ou seja, já estão mortos. San Janupero representa a possibilidade de viver além de suas limitações físicas, seja problemas de saúde, idade avançada ou até mesmo a morte. Nos dois episódios o duplo não está ligado à noção de DNA e sim de consciência, como um ente independente do físico que pode construir outro mundo para si. Como o mundo material é apenas uma referência, no mundo criado as regras são flexíveis e alteradas conforme a conveniência – em Playtest, de forma hostil; em San Janupero, com a possibilidade de ser sempre jovem e belo. O protagonista de Playtest, submetido a uma situação estressante, está sempre se relembrando da irrealidade do que o cerca, como forma de proteção. Em San Janupero, o mundo virtual se pretende como uma espécie de paraíso, com acesso ilimitado a todos os prazeres. A questão com que a personagem se depara, ao escolher entre a morte física e San Janupero é muito mais filosófica: existe felicidade infinita?

Muito menos sorte tem a mulher de segunda história de Black Museum (temporada 4, episódio 6). Do coma, a consciência dela é transferida para o cérebro do marido. Por incrível que pareça, assim como nos casos anteriores, ela quem pede isso, num sistema arcaico que lhe permitia responder Sim ou Não quando estava presa ao seu corpo. Para ela, nenhuma nova realidade é criada, ela é trazida ao mundo atual. A mulher está consciente sem poder atuar; mas ao contrário de quando estava presa ao próprio corpo, ela vê e sente com os olhos do marido, fala através da consciência dele e pode acompanhar o crescimento do filho. Mas o duplo não dá certo (claro!) e o marido a sente como um voyeur constante e desagradável. Mas mesmo assim ele não tem coragem de deixá-la partir e sua falta de coragem leva a uma solução cruel: a mulher é transferida para um urso de pelúcia, que só pode dizer Sim ou Não, agora em forma de Eu Te Amo ou Me dê um Abraço. Nesse mesmo episódio, na terceira história, descobrimos que existem destinos piores para uma consciência sem corpo. Um condenado permite que sua consciência seja recolhida do seu corpo quando é executado na cadeira elétrica. Ele é revivido para uma outra prisão, agora perpétua, como curiosidade num museu. Não apenas a dor da execução é recriada para satisfação dos visitantes como é possível ter um duplo do duplo, um souvenir do seu momento de agonia. Novamente, vemos Black Mirror levantar a questão do quanto é legítimo sentir prazer com o sofrimento do outro quando ele é mau, questão que discuti AQUI.

Em Be Right Back (temporada 2, episódio 1) o propósito de criar um duplo é bem mais nobre. Uma mulher grávida perde seu namorado num acidente de carro. Um serviço online cria uma versão virtual dele, através das informações que ele mesmo compartilhou durante anos em redes sociais. Essas informações, somadas às novas interações com a namorada, permitem que o cálculo de suas reações prováveis seja cada vez mais sofisticado, e o duplo evolui de interação por escrito para uma voz, e por fim um corpo sintético. O duplo neste caso não foi idealizado pelo seu original e de nada lhe serve. Nos episódios discutidos anteriormente, o duplo era o próprio sujeito, único, enquanto aqui temos uma projeção que trabalha com informações. Mas, apesar da perfeição na aparência, voz e uso de expressões, é justamente no uso das probabilidades que o programa se mostra falho – ao gostar de uma música diferente, por precisar ser sempre ensinado e nunca fazer nada novo, o duplo não alcança jamais o seu original. Há algo de imprevisível na vida que a tecnologia não alcança. Tal como o marido que prendeu a mulher no ursinho, aqui a namorada também não consegue se desfazer do duplo, por mais que reconheça suas falhas. Sem ocupar inteiramente o papel do outro e sem deixá-lo partir, o duplo impede a vivência total do luto.

Talvez relações humanas sejam complicadas demais e a vantagem de recriar duplos seja justamente a possibilidade de fazer valer sua vontade. Em USS Callister (temporada 4, episódio 1), os duplos derivam de um material genético coletado sem autorização de colegas de trabalho. Um programador cria uma versão pessoal do seu programa preferido, a USS Callister (uma clara referência a Star Trek). Nela, como tripulação, estão seus colegas, e naquele ambiente ele pode descontar a necessidade de reconhecimento e vinganças que não são possíveis no mundo real. Os duplos, quando o programa não é acessado, vivem uma existência tediosa, como se fossem atores que não tem o que fazer no intervalo entre cada peça. Como pessoas consciente e oprimidas, odeiam estar nessa posição e lutam para conseguir a liberdade. As pessoas originais não sabem que existe uma versão delas dentro de um jogo, que sofrem e tem anseios, mesmo quando as ajudam. Para o mundo real nada acontecia, e quem sabe o jogo garantisse que o programador jamais se rebelasse no seu ambiente de trabalho. Para os duplos ele era um vilão, mas será que isso conta? Algum princípio ético é ferido quando se abusa da projeção que fazemos dos outros? De certa forma, é o que fazemos o tempo todo em nossos pensamentos e desejos mais privados. A diferença é que a USS Callister era mais sofisticada.

O episódio White Christmas (temporada 2, episódio especial) é, para mim, o mais interessante sobre o tema dos duplos. O nerd de USS Callister tem problemas de relacionamento e faz um uso muito privado da possibilidade de criar duplos – já o personagem Matt Trent faz da exploração dos duplos um meio de vida. Ele tem uma empresa que, através do DNA, desenvolve programas personalizados que atendem às mínimas exigências dos seus donos. Para aquele que colhe seu material genético e entrega para a empresa, é apenas um software avançado. Como no filme The Island, o que seus usuários ignoram é que o duplo gerado pelo seu material genético é um ser consciente. O duplo criado pela empresa como software atende sua versão real sob tortura, em meio ao tédio e da solidão. O ajuste de software nada mais é do que levar o duplo à obediência ao mostrar a ele sua falta de opção: ele é uma pessoa num cenário todo vazio com um computador, operá-lo é a única maneira de preencher o tempo. No final do episódio, descobrimos que os dois protagonistas não estão conversando numa cabana isolada num posto avançado, e sim que são duplos plantados por Matt Trent com a finalidade de obter a confissão de um crime. Só então descobrimos o grau de controle que se tem sobre o duplo e seu entorno, o que torna a exploração deles ainda mais chocante.

(Nos episódios USS CallisterWhite Christmas, o processo de criação dos duplos é igual a dar crtl+C, crtl+V em um arquivo. Através do material genético de um pouco de saliva, surge uma outra pessoa com o mesmo grau de consciência da original até o momento da coleta. Eu sei que é uma liberdade poética BEM grande, mas se fosse para ser rigorosamente científico com o tema, não dava nem pra começar a escrever…)

O ineditismo da abordagem em Black Mirror está, me parece, em nos colocar empáticos com os duplos e não nos originais. Mesmo em Blade Runner, com andróides com senso de preservação e que se acreditam humanos por terem uma memória falsa, e que de tão perfeitos o próprio caçador de androides começa a duvidar da sua própria humanidade, estamos sempre vendo o lado dos humanos. A Janet, o sistema operacional da série The Good Place, brinca muito com a associação entre senso de preservação e seres vivos. Quando prestes a ser reiniciada, Janet pede por sua vida, se ajoelha, argumenta, mostra fotos de filhos; quando o perigo passa, não apenas volta à calma habitual como relembra que todas suas atitudes foram apenas programação, que ela não sente nada porque não é um ser vivo. O que Black Mirror parece nos dizer com os duplos é que, por mais que as pessoas acreditem que não gostam de causar sofrimento, a sua busca pelo prazer leva a um desenvolvimento de tecnologia que causa sofrimento. Mas como esse sofrimento é um efeito secundário invisível ou recai sobre “pessoas más”, ele nos é indiferente. Aceitamos de bom grado o sofrimento, desde que alheio. Como diria Harari, o capitalismo não mata por crueldade e sim por indiferença. Que o digam todas as outras espécies do planeta, o próprio planeta, e até mesmo seres humanos de grupos fragilizados.

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Fim, por Fernanda Torres

Quando a imensa publicidade em torno do livro começou a vender Fernanda Torres como escritora, eu torci o nariz e tirei aquela conclusão óbvia: está recebendo todos os louros e sendo publicada logo de cara por uma grande editora por ser uma atriz famosa, se fosse Joana da Silva… Entrei numa FNAC, vi o livro bem posicionado na entrada e decidi submetê-la ao teste do parágrafo aleatório. Não fui tão aleatória assim, li a primeira página inteira. Fechei o livro com raiva. Não é que bandida escrevia bem mesmo? Vi numa entrevista dela que o livro já recebeu diversas traduções, agora tem o outro, e a crítica se desmancha em elogios para ambos. Do mesmo modo que estava disposta a odiar o livro quando dei com cara com ele, na FNAC, há 4 anos, estava disposta a me derreter por ele durante quase toda leitura. Mas livros têm o mesmo problemas dos filmes: o gosto que nos deixa o final contamina a experiência toda.

A estrutura da história é simples: são cinco amigos, cada parte dedicada a um deles e seu fim. Quando revisam a própria existência, falam um dos outros e destacam as mesmas experiência como definidoras. Os diferentes pontos de vista iluminam os pontos escuros das narrativas uns dos outros.

Precisava dividir o momento com alguém, mas a única carpideira presente não parecia a fim de conversa. Ignorando a reserva de Irene, avançou até a cadeira vizinha à dela. Irene estremeceu, fingiu não notá-lo. Que coisa…, balbuciou o homem. Pois é, que coisa, respondeu Irene. Uma hora a gente está aqui, na outra desaparece, mas Deus sabe o que faz. Não. Não era possível que ainda fosse obrigada a escutar a seleção de lugares-comuns de alguém que nunca vira antes. Melhor interrompê-lo. O senhor era amigo do Álvaro? Fui eu que prestei socorro, sou porteiro do prédio há mais de quinze anos. O tempo voa. A gente se acostuma a ver a pessoa todo dia e, de repente… Por isso é que eu vivo cada segundo como se fosse o último, não se conhece o dia de amanhã, a vida é um fósforo que a gente risca e não sabe a hora que apaga. Irene cogitou gritar por ajuda, tinha horror a clichês. É pra frente que se anda. Não tem como voltar atrás. Não se controla a vontade de Deus. O porteiro era uma metralhadora giratória de frases feitas. (Álvaro/ 355 de 2296)

O livro tem momentos hilários, dinâmicos, gráficos, como se assistíssemos a uma peça de teatro ou uma daquelas maravilhosas minisséries sérias da Globo. O caminho que ela fez, como atriz, parece dar um outro caminho à forma de narrar e as cenas são muito naturais. O sexo é parte importante da trama e também não parece ter oferecido a autora qualquer dificuldade. Apesar de ter a morte como tema, o livro é leve e despretensioso, unânime na sua capacidade de prender o leitor, mas… me decepcionou no final. O personagem mais interessante é, de longe, Álvaro, que abre o livro. Ele abre o livro porque é o que tem a vida mais longa, as mortes seguem ordem decrescente de idade. À medida que a história avança e o grupo fala de si mesmo, todos tem Ciro como ponto focal, como o mais interessante e apaixonante, aquele cuja morte representou o fim do grupo, um homem visado em todos os lugares que entrava. Mesmo não sendo os outros personagens tão interessantes e engraçados como Álvaro, o desenvolvimento da trama cria uma expectativa em torno de Ciro. Depois do início brilhante de Álvaro, o livro foi gradualmente perdendo calor – alguns personagens ficam indistintos, as coisas deixam de ser engraçadas. Mesmo assim, a gente espera que a entrada de Ciro na história traga um ponto de vista privilegiado, segredos que nenhum dos outros possuía. Seguindo a tendência geral do livro, a guinada não acontece e temos o personagem menos acabado dos cinco. A única explicação para o fato dele ser tão magnético é a beleza, que nem ao menos é descrita. Aí uma personagem que parece sugerir algo sobrenatural, é construída rapidamente uma história em torno dela e Ciro morre. Achei um triste fim para um livro tão devorativo.

Fora de série – Outliers, por Malcolm Gladwell

Acho que qualquer pessoa que tenha noção de história ou sociologia não se surpreenderá com a afirmação abaixo:

Os legados culturais são forças poderosas. Possuem raízes profundas e vida longa. Persistem, geração após geração, praticamente intactos, mesmo quando as condições econômicas, sociais e demográficas que os geraram já desapareceram. Eles desempenham um papel tão importante no direcionamento de atitudes e condutas que não podemos entender o mundo sem eles. (Parte II – Legado, cap. 6: Harlan, Kentuck)

O que torna o livro Fora de série – Outliers tão marcante é a maneira como ele consegue fazer esta afirmação se tornar muito próxima – muito mais do que o mero reconhecimento que nosso passado escravocrata ou a maneira como as mulheres eram tratadas tem alguma influência em quem somos hoje. Acredito que a escolha da editora, ao colocar na capa: “descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não”, tenha sido dar ao leitor a impressão de que se trata de um livro de auto-ajuda, o que para mim foi um ponto negativo. Contrariamente ao gênero auto-ajuda, que bate na tecla do talento e esforço individual, Outliers ressalta contextos que costumam passar ignorados justamente porque a noção de meritocracia nos é tão cara. Logo no primeiro capítulo, o autor nos fala da liga de hóquei no gelo canadense, a melhor liga de hóquei do mundo, com atletas selecionados e classificados de acordo com suas capacidade desde crianças, com patamares de seleção contínuos que levam apenas a habilidade individual, sem qualquer outra influência ligada a renda ou família. E consegue nos provar que um critério aleatório garante o sucesso de algumas crianças e condena outras a jamais conseguirem se tornar profissionais. A descoberta foi feita por um psicólogo que, ao examinar a lista de jogadores profissionais, percebeu que quase todos haviam nascido em janeiro e fevereiro, poucos em março e nenhum dos meses seguintes.

Simplesmente no Canadá a data-limite para se candidatar às ligas de hóquei por idade é de 1º de janeiro. Um menino que faz 20 anos em 2 de janeiro pode, então, jogar com outro que não completará 10 anos antes do final do ano – e, nessa fase da pré-adolescência, uma defasagem de 12 meses representa uma diferença enorme em termos de desenvolvimento físico.

Tratando-se do Canadá, que é o país mais louco por hóquei do mundo, os treinadores começam a selecionar atletas para as equipes de elite – os times de primeira linha – na faixa de 9 a 10 anos. Por isso, tendem a considerar mais talentosos os jogadores maiores e com melhor nível de coordenação, que têm a vantagem daqueles meses extras de maturidade física.

E o que acontece quando um jogador é escolhido pela equipe de elite? Ele recebe treinamento de mais qualidade, seus colegas são melhores, disputa 50 ou 70 partidas por temporada em vez de 20 (como os que são relegados às houses leagues) e pratica duas ou até três vezes mais do que normalmente faria. No princípio, sua vantagem não é tanto possuir uma superioridade nata, mas apenas o fato de ser um pouco mais velho. No entanto, quando chega aos 13 ou 14 anos, por ter se beneficiado de um treinamento de alto nível e daquela prática extra, ele é de fato melhor. (Parte I – Oportunidade/ Capítulo 1 – Efeito Mateus 4.)

Para provar a força dos seus argumentos, o autor pega aqueles que nos parecem os maiores exemplos se pessoas fora de série: Bill Gates, Mozart, QIs altos, self-made-men. O único momento que se pode considerar auto-ajuda nesse livro é o reconhecimento do esforço, a necessidade das ditas 10 mil horas que o cérebro precisa para que alguém seja expert em qualquer atividade. O que vemos nas histórias estudadas é a força do contexto, tanto no mais imediato quanto família, para que escola foi mandado, o que faz nas férias de verão; no mais amplo, qual a região onde vive, a que políticas públicas teve acesso, o que faziam seus ancestrais, como a sua linguagem se organiza. Há a citação de um estudo relativo à importância que se dá à hierarquia, o quanto que um subalterno pode falar livremente com seu superior hierárquico sem que a relação entre os dois fique abalada – costume que dentro de certos contextos, como a colaboração entre pilotos em caso de perigo, pode se revelar fatal. O país que encabeça a lista como promotor de maior distância social é o Brasil. Este dado é apenas uma nota de rodapé no livro, mas fará o leitor daqui pensar… Por ter uma linguagem acessível e ser recheado de exemplos, a vontade de mandar todo mundo Outliers, especialmente o amiguinho que acredita piamente em meritocracia. E esse amiguinho perceberia, no fim da leitura, que é o reconhecimento dos outros fatores é um fardo muito menos pesado do que o mérito.

A balada de Bob Dylan, por Daniel Mark Epstein

Antes de falar da biografia, sou obrigada a falar do meu contexto, que determinou minha busca por ela e minha maneira de lê-la. Acredito que outras pessoas tenham uma história parecida.

Eu não sei inglês. Com os anos até aprendi a me virar, mas nunca fiz curso e não sou fluente. Na minha infância e adolescência, nos anos 80, não havia google e conseguir tradução de música não era instantâneo como hoje. Pra saber o que uma música dizia, eu tinha duas alternativas: a tradução que vinha na contracapa da revista Querida ou a do locutor do rádio, perto da meia noite, que recitava de maneira sexy frase por frase. Então, Bob Dylan, com sua voz analasada e longas frases incompreensíveis, nunca me atraiu. Ao longo da vida, aqui e ali, conheci fãs dele, aprendi a identificar alguns dos seus hits, meu ídolo português Miguel Araújo adora e Dylan ganhou um controvertido Nobel de literatura. Foi crescendo em mim a sensação de que havia ali uma importante referência que empobrecia meu conhecimento musical por estar alheia. Mas o que realmente me levou a Dylan foi Leonard Cohen, que é tão grande e repete, com a maior naturalidade, que se ele é o número 1, Dylan é o número 0, por estar fora de qualquer escala. Este seria o momento da vida que eu deveria acionar um fã de Dylan e passar com ele uma tarde inteira sentada no chão, cercada de LPs, enquanto ele me mostra suas preferidas e me explica cada fase e a revolução que cada música representa. Na ausência de tal pessoa, o jeito foi apelar para o lelivros.love e procurar uma biografia.

Foram os Deuses Protetores dos Ignorantes da Música que me fizeram baixar justo A balada de Bob Dylan: um retrato musical, de Daniel Mark Epstein. Ela era tudo o que eu precisava. Epstein é esse fã apaixonado que acompanhou a carreira de Dylan, pega na mão do leitor e o conduz à sua mesma paixão. Ele estava lá desde o começo, no histórico show de 1963, em Washington, como uma das pessoas mais jovens da platéia. E já ali a gente se pergunta: como é que um menino de 22 anos já tem tanto a dizer e com tanta qualidade?

Eu mencionei o fato de que esta canção, talvez mais do que as outras, me surpreendeu, pois mal podia acreditar que aquele jovem na minha frente a tivesse escrito. Eu não consigo me lembrar agora quando ouvi pela primeira vez “Boots of Spanish Leather” (como “Sweet Betsy from Pike”  ou “I´ve Been Worked on the Railroad”) apesar de estar quase certo que não foi de seus lábios.

Ela havia sido publicada na edição de verão da Sign Out!, em 1963, mas eu não a li imediatamente. Desde que Dylan começou a tocar a canção no início daquele ano, ela havia se espalhado de modo viral de mão em mão e de ouvido a ouvido, como uma balada do séc XIX. Devia haver uns vinte cantores folk como Gil Turner e Carol Hedin movendo-se de cidade em cidade e cantando “Boots of Spanish Leather”, identificando ou não sua fonte. Não havia uma linha na letra que a identificasse como contemporânea; muitos versos soavam atemporais, como pedras gastas e polidas por séculos de água correndo por cima delas. Os amantes da balada, seu compromisso e seu desejo, eram tão autênticos como qualquer fato ou ficção – ao menos desde que os amantes tinham como poder escolher seu destino. Em resumo, a canção soava como se estivesse por aí há gerações, pois tinha todas as qualidades de uma canção que duraria para sempre.

Colado no corpo do violão de Dylan estava um pedaço de papel com uma lista de músicas. Olhando para a lista, em certo momento, ele comentou que havia escrito algumas centenas de canções. Não mencionou isso com orgulho, e sim como se fosse uma riqueza embaraçosa; às vezes, admitiu, não conseguia se lembrar de todas as palavras. “Boots of Spanish Leather” provocou a necessária mudança de humor de drama para romance. Neste momento, Dylan se atrapalhou de modo cômico com o suporte da gaita. A iluminação do palco nunca variava, mas ainda assim o músico sinalizou uma mudança de clima tão forte como se atmosfera tivesse mudado de azul para dourado. (1.Lisner auditorium, 14 de dezembro de 1963)

O livro é dividido em quatro partes, cada uma tendo como base um show histórico de Dylan: Washington D.C. 1963, Madison Square Garden 1974, Tanglewood 1997 e Aberdeen 2009. É uma leitura que avança devagar, porque é irresistível querer ouvir cada música para entender o que está descrito e ter sua própria impressão. Se o leitor tiver tempo e curiosidade, com o pretexto de acompanhar as influências de Dylan, também conhecerá folk, rock e toda cultura que dialogou com Dylan – e, acreditem, foram muitos diálogos. No meio disso, as histórias lendárias ou não, cultivadas pelo próprio Dylan ou não, e uma tentativa de entender a mistura única de um cantor que nunca foi o mais bonito, nem a melhor voz, nem o melhor instrumentista, nem a melhor presença de palco, mas que marcou para sempre a história da música – e até da literatura, de acordo com o Nobel. De alguém que partiu do zero, não apenas sem gostar das músicas como com uma certa resistência, já me flagrei doida pra chegar em casa e tocar uma certa música, aquela, uma bem comprida do Dylan. Acho que o livro cumpriu seu papel.

Sapiens e Homo deus, Yuval Noah Harari

Na ciência – e quem sabe na vida – as perguntas costumam ser muito mais importantes do que as respostas. Para quem leu o Guia dos Mochileiros das Galáxias, a ideia é representada pelo número 42. Numa visão estritamente pessoal, posso dizer que livros menos ambiciosos costumam dar mais certo do que os que se propõem a muito. Basta tentar ler manuais que resumem todas as escolas de psicologia ou filosofia, ou que tentam contar a história do Brasil para vestibulandos em pouco mais de cem páginas. Na prática, é um apanhado de dados que falam muito pouco a quem já não tem conhecimento prévio do assunto. Por isso a minha suspeita quando soube que Yuval Harari se propunha a escrever uma história da humanidade. Aí, logo nas primeiras linhas de Sapiens: uma breve história da humanidade, ele deixa o leitor sem fôlego ao ir do maior para o menor quando fala do campo de estudos da física, química, biologia e história. O que torna o seu livro excelente e único é sua proposta, a pergunta: qual caminho tornou o Homo sapiens a espécie dominante da Terra?

Harari retoma o conceito de espécie – por isso o nome Sapiens – ao falar de humano, e isso é parte fundamental da sua abordagem. Ele relembra que houveram outros Homoaustralopithecos, neanderthais, soloensis, erectus -, que Homos coexistiram e que o sapiens ser a única espécie não é, por si só, sinônimo de ser melhor. Ao retomar as diversas escolhas feitas pelo Homo sapiens, Harari fala de suas vantagens e desvantagens, relativiza o que nos parecia um caminho inevitável e até mesmo desperta uma certa nostalgia de quando éramos caçadores-coletores, estes sim muito mais saudáveis e harmônicos com o meio em que viviam. Já adiantando o raciocínio dos livros, o caminho do Homo sapiens que Harari descreve é de um crescente descolamento da natureza, que faz com quem o sapiens nem ao mesmo se reconhece mais como um animal. E a maneira como o sapiens olha para si mesmo (o livro fala muito de ilusões intersubjetivas)  acaba interferindo em todo ecossistema.

O surgimento da ciência e da indústria modernas trouxe consigo a revolução seguinte entre homens e animais. Durante a Revolução Agrícola, a humanidade silenciou animais e plantas e transformou a grande ópera animista num diálogo entre o homem e os deuses. No decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou-se em um one man show. O gênero humano estava sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser. (Homo deus/ 2. O antropoceno – Quinhentos anos de solidão)

O livro Sapiens se propõe a descrever as três grandes revoluções do Homo sapiens: Cognitiva, Agrícola e Científica. Quando Harari trata das duas primeiras evoluções, muito antigas e quase desprovidas de história – no sentido de registro – o livro une uma série de dados de maneira primorosa, insights originais e aquela sensação de que suas explicações são completas, simples e “puras”, que não há outra maneira de explicar o passado. O primata se levanta, usa as mãos, altera a postura de uma coluna que não estava adaptada, diminui o espaço para a saída de bebês que nascem prematuros. E a imaturidade dos bebês fazem com que não saiam como cerâmica prontas do forno e sim como vidros – maleáveis, adaptáveis, mais cultura do que biologia. Para o que não há explicação razoável, como a escolha pela agricultura ou constante dominância do sexo masculino sobre o feminino, Harari levanta várias hipóteses sem escolher nenhuma, para deixar claro que não há explicação satisfatória comprovada. Quando se apela para explicações que partem de fósseis e instrumentos de pedra, há uma tendência a explicações biologicistas e um grande desprezo intelectual pelos nossos antepassados. Como historiador, ele passa bastante longe disso:

Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidades. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.

A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também, natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido que a velocidade da luz, ou que os elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros. (Sapiens: uma breve história da humanidade/ 7. Sobrecarga de memória – Ele e ela)

Quando fala da Revolução Científica, por ela ter apenas quinhentos anos, Harari começa a desenvolver seu raciocínio e Homo deus: uma breve história do amanhã é uma consequência clara das discussões finais de Sapiens. Quando chega no homem atual, o autor começa a bater e com força. Superadas os três grandes flagelos da espécie – fome, pestes e guerra – a agenda humana se debruça sobre novos objetivos, que são a busca pela felicidade, imortalidade e divindade. Mas, retomando ao seu argumento inicial, Harari relembra que se conceber como superior aos animais, às plantas e ao resto do planeta não torna isto verdade. Que o homem tem agido como uma criança irresponsável, fechado os olhos para o sofrimento que causa (num trecho de Sapiens ele diz que, ao contrário de outras ideologias que matam por ódio, o capitalismo mata por indiferença) aos animais, e que o mesmo argumento de justificar sua violência por superioridade pode se voltar contra ele quando o sapiens se tornar obsoleto. A descrição que Harari faz das capacidades dos animais e o sofrimento intenso a que são submetidos apenas para nossa satisfação à mesa, levam à conclusão que o veganismo é o mínimo que se pode fazer para ajudar. Ele mesmo é vegano.

Só que o isolamento do sapiens, conforme Harari projeta, tende a uma radicalização tal que passará a ser até dentro da espécie. O avanço da tecnologia capaz de prolongar a vida humana e aumentar nossa capacidade com o uso de inteligências artificiais não é estendido a todos. Enquanto uns serão amortais, outros não terão função dentro do sistema e serão descartados. Só que quando o livro fala do perigo de um Homo deus que se priva e se aproveita dos seus irmãos sapiens, não consigo deixar de pensar que o autor vem de um país muito mais igualitário. O que ele vê num o futuro me parece bastante aqui e agora, senão pelo avanço da tecnologia, pela pura e simples diferença no acesso à cultura. As diferenças de classes no Brasil são tão gritantes que duas pessoas que nunca se viram, trancadas durante poucos minutos numa mesma sala, já são capazes de adivinhar com uma grande probabilidade acerca as origens uma da outra. Nossas diferenças de classe são mais sofisticadas do que uma mera diferença racial – elas invadem o tipo físico, as roupas, a maneira de gesticular, de se portar, de olhar. A linguagem falada é diferente e escrita ainda mais. Criamos tantos e tão sofisticados códigos que o indivíduo não consegue, conscientemente, dominar todos – com isso a mobilidade social se torna cada vez mais difícil. E é essa falta de domínio dos códigos padronizados pela elite cultural e econômica que serve de justificativa para a manutenção de privilégios; os outros são burros, não sabem votar, são manipulados, precisam ser protegidos de si mesmos, não precisam de quase nada.

Ao mesmo tempo que demonstra o quão fenomenal o que conseguimos como espécie, as projeções que Harari faz estão muito mais para distopias. Ele alerta que quando fala na busca por eternidade, felicidade e divindade está apontando tendências, o que não quer dizer que as aprova. Sua ambição é, tal como aconteceu com o marxismo, que a própria leitura dos seus livros influencie o futuro e faça com que ele não aconteça da forma prevista. Se levarmos em conta que os livros são best sellers mundiais e lidos por gente como Barack Obama e Mark Zuckberg, quem sabe seja possível.