O leitor, de Bernhard Schlink

 

Eu li o livro por causa do filme, mas não o vi. Apesar de ter aversão assumida por versões cinematográficas de livros, fiquei curiosa para saber o trabalho que foi feito com esse e gosto muito da idéia dos principais personagens serem representados por Kate Winslet e Ralph Fiennes. Existem partes do livro extremamente visuais, que convidam o leitor a imaginar a luz suave do banheiro misturado à fumaça, passeios em dias ensolarados no meio das árvores, a visão persistente do cabelo preso num coque. Noutras, temi que simplesmente mostrar as coisas – Michael sentindo o cheiro do corpo de Hannah, a visão dela na piscina, quando seus olhares se cruzam no tribunal – banalize algo tão cheio de significado, algo que vai muito além do que é visto. Pelo sucesso que o filme fez, suponho que não tenha sido assim.

Nos meus relacionamentos posteriores tentei começar melhor e assim aprofundá-los. Aceitei que uma mulher precisava ter o braço e o toque um pouco como os de Hannah, ter o cheiro e o gosto um pouco parecidos com os dela, para que desse certo a nossa convivência. E passei a contar sobre Hannah. Também contei mais a meu respeito para as outras mulheres do que contara a Gertrud; elas deveriam poder tirar suas próprias conclusões sobre o que lhes parecesse estranho no meu comportamento e na minha disposição de espírito. Mas as mulheres não queriam ouvir muito. Lembro-me de Helen, uma norte-americana, crítica literária, que ficou coçando as minhas costas tranquilamente, sem dizer nada, enquanto eu lhe contava a história, e continuou coçando tão tranquilimente quanto antes, sem dizer nada, quando parei de contar. Gesina, uma psicanalista, achou que eu tinha que trabalhar melhor a minha relação com a minha mãe. Será que eu não reparava como minha mãe quase não aparecia na história? Hilke, uma dentista, sempre perguntava pela época antes de nos termos conhecido, mas esquecia logo que eu contava. Então desisti novamente de contar as coisas. Não é preciso contar, porque na verdade do que se conta está no modo como se é.

p.191

A melhor coisa do livro é a sua prosa. É uma leitura rápida, de capítulos curtos, daquelas que não exigem que o leitor se adapte à linguagem ou tenha paciência. O autor se apega ao essencial. Os primeiros capítulos passam voando, é uma história de amor. Só que ela é contada de maneira desapaixonada, ligeira; a todo instante sabemos que algo acontecerá, que um amor daqueles está condenado. Intuímos as reservas de Hannah, a sua lenta entrega a ao amor de um menino, a idealização e as limitações que uma relação dessas implica. Há nos seus gestos e no seu corpo de Hannah um cansaço, uma força e uma sensualidade que apenas uma mulher vivida podem ter; um corpo que fala de muitas coisas, e que encontrou num adolescente um único expectador atento. Só que o que nunca podemos imaginar sob o corpo de uma mulher – ou de qualquer outra pessoa que conhecemos intimamente – a crueldade e todas as coisas inclassificáveis que o nazismo representa.

Aí o livro se torna difícil, embora a qualidade da prosa não mude. Ele fica difícil porque toca em questões sem resposta. Ele fala do sofrimento judeu, mas fala também do sofrimento alemão. Eles foram cúmplices, todos eles, ao viverem no mesmo período que o Reich e levarem vidas pacatas enquanto os campos de concentração existiam. Do mesmo modo que há uma culpa dos que apenas seguiram ordens, há uma culpa dos que se omitiram. A segunda geração alemã do pós-guerra – representada por Michael – vive uma culpa que não consegue expiar, porque não estavam lá… mas o seus pais estavam, as pessoas que eles amam estavam. Até que ponto o amor nos torna cúmplices das atitudes do ser amado? Existe algo de inexplicável nos que tornaram o terror seus empregos, na idéia de dividir as pessoas de tal forma a ser cruel com alguns e amoroso com outros. Principalmente, existe a questão da justiça: não apenas a que aplicamos aos outros, mas a que nos é possível sem nos condenar.

Travessia de verão

É uma surpresa até mesmo pra mim: Travessia de Verão não me conquistou. Adoro Capote e sempre achei que qualquer livro dele é muito bom ou excelente. E, no início, ele pareceu corresponder às minhas expectativas, com uma prosa enxuta, leve, maneiras deliciosas e prosaicas de descrever as situações. Sem maiores pretensões, é um livro aparentemente simples, com poucos personagens, Nova York como cenário e um verão definitivo. Achei que leria num fôlego só, por conta de passagens como esta:

E como se todo tempo que passassem juntos não fosse suficiente, ela adquiriu o hábito de acompanhá-lo de vez em quando no trem que o levava à cidade: enquanto esperava para tomar o trem para casa junto com ele no final do dia, assistia a um filme da Broadway atrás do outros. Mas não havia tranquilidade para ela; ela não conseguia entender por que aquela alegria que sentira no começo havia se transformado em dor e agora em tormento.. Ele sabia. Tinha certeza de que ele sabia; os olhos dele, quando a viam atravessar um aposento, nadar em sua direção na piscina, aqueles olhos sabiam e não desaprovavam: assim, junto com seu amor, ela aprendeu um pouco de ódio, pois Steve Bolton sabia, e nada fazia para ajudá-la. Foi nessa época que todos os dias se tornaram infestos, um pisotear de formigas, um arrancar de asas de libélulas, acessos de raiva, aparentemente, contra tudo que fosse tão impotente quanto seu impotente e desprezado eu. E ela passou a usar os vestidos mais finos que conseguia comprar, vestidos tão finos que qualquer sombra de folha ou levantar de vento era um frescor que a acariciava; mas ela não comia, só queria saber de beber Coca-cola e fumar cigarros e dirigir seu carro, e tornou-se tão lisa e magra que os vestidos finos flutuavam em volta de seu corpo.

p.33

Para mim, o início é o melhor do livro: as mudanças na narrativa acontecem de maneira natural, como se fosse um simples movimento de câmera. Cada interação descrevia as expectativas e desencontros entre os personagens – nunca de uma maneira amarga, com uma aceitação preguiçosa de que a vida é assim. Grady, a protagonista, decide não viajar com a família e quer viver. De um lado, há seu alter ego e amigo de infância Peter; de outro, seu amor secreto, Clyde, de quem pouco sabe. O que deveria ser um momento de liberdade, adquire cada vez mais profundidade e importância. Capote não consegue segurar essa mudança de intensidade e o texto perde o brilho.

No posfácio, o responsável pelo patrimônio literário de Capote explica que aquele livro foi encontrado nos papéis antigos, que surgiram após sua morte. Travessia de verão, de acordo com a correspondência de Capote, é o primeiro romance que ele escreveu, ainda adolescente, e nunca havia enviado a uma editora. Depois de duvidarem da qualidade do manuscrito, e do desejo do próprio autor de que o conhecessem, decidem que a obra possui méritos próprios merece ser publicada. Isso diz muito sobre o livro. Como fã reconheço o valor do livro, mas minha recomendação para os que não conhecem Capote é: fujam. Leiam A sangue frio ou Música para camaleões antes.

As aventuras de Augie March

Não gosto muito da idéia de escrever sobre As aventuras de Augie March e gosto menos ainda de saber que existem muitos Augie March por aí – tem até uma banda. Fico enciumada. Tudo isso demonstra a popularidade do personagem, que causa nos outros o mesmo efeito que causou em mim: a impressão de que o livro fala de si. A identificação avança de tal forma, que depois de um certo ponto parece que o destino do personagem revelará alguma coisa sobre o seu próprio destino. Quem sabe todos os que se identificam com Augie tenham em comum uma certa passividade e adaptabilidade, um certo ar de pessoa “adotável” e seja bom ouvinte. Por não julgar as pessoas e agir conforme as circunstâncias, elas colocam Augie dentro dos seus sonhos, e vêem nele um seguidor ideal; o que ele corresponde, mas só até certo ponto:

“Ou você estava em busca de um frisson? Isso é hora de sair em busca de frisson, quando o resto do mundo está procurando por um abrigo pra se proteger? Você podia procurar isso na montanha-russa, no tobogã, no trem fantasma. Vai pro parque de diversões de Riverview. Mas espera aí. De repente eu me dei conta de uma coisa sobre você. Você é do contra, tem a oposição dentro de você. Você não sai deslizando suavemente por tudo. Só dá essa impressão.”
Essa era a primeira vez que alguém me dizia algo que se pudesse chamar de a verdade ao meu respeito. Eu a senti com força. Senti que, como ele disse, eu tinha de fato a oposição dentro de mim, e um enorme desejo de oferecer resistência e de dizer “Não!” que não podia ser mais claro, que era uma sensação tão inequívoca quanto uma pontada de fome. (….)
Ele continuou, mas meus pensamentos tomaram rumo próprio. Não, eu não queria ser o que ele chamava de predeterminado. Nunca aceitei a predeterminação e me recusava a ser o que as outras pessoas queriam que eu fosse. Já tinha dito “Não” para Joe Gorman também. Para vovó. Para Jimmy. Para um monte de gente. Einhorn tinha visto isso em mim. Porque ele também queria exercer influência.

p.168

O livro demorou para me conquistar. A princípio, ele me pareceu um desfile interminável de nomes e tipos, como se fosse uma dessas introduções que descrevem personagens de uma peça. O início do livro fala do início da vida de Augie, e é como se ele ainda não existisse, fosse apenas um pretexto para o ambiente e pessoas à sua volta. Depois você se dá conta que a narrativa do livro mostra o desenvolvimento pessoal do próprio personagem; no começo da vida, ninguém sabe realmente quem é. A docilidade de Augie faz com que ele se deixe levar, o que o coloca em situações que um rapaz pobre e orfão normalmente não viveria.  Transitando entre diversos mundos, num momento imerso em luxo e no instante seguinte em quartos imundos e sem qualquer perspectiva. Quando um capítulo do livro se encerra, uma fase da vida dele se encerra também.

Não é um personagem que tenha para onde ir – todos parecem saber quem são e para onde vão, menos Augie. Muitos lhe apresentam projetos interessantes, maneiras fáceis e definitivas de conseguir conforto, riqueza, nome, bom emprego e amor. Só que para usufruir dessas coisas, ele sempre precisa pagar um preço: deixar de lado algo que ele nem sabe o que é e porque é tão importante. Às vezes o problema se apresenta como um abandono as origens ou a adoção de uma maneira nova de se relacionar. Talvez por serem sonhos emprestados, ele se mostra incapaz de dizer SIM de forma permanente. Acredito que pessoas que gostem de certezas se irritem e se angustiem com um protagonista assim – para os que amam o livro, é justamente esse o motivo de atração. Quando tudo parece ir bem, chega um ponto que algo acontece, ou que Augie faz por onde estragar tudo, e o que parecia certo acaba como se nunca tivesse existido. Ele é radical na sua negação e o livro é cheio de recomeços.

É um livro cujo interesse está no desfile dos tipos, a mudança de ambiente, o desaparecimento e reaparecimento de pessoas, as ironias e rasteiras que o destino prega. Alguns personagens merecem apenas alguns parágrafos, enquantos outros aparecem sempre, nem que seja apenas através de suas lições. À medida que amadurece, Augie se torna mais consciente de quem é, o que diminui sua adaptabilidade e o ritmo de suas mudanças. Impossível não ver nisso o próprio caminho da maturidade, quando nos tornamos mais estáveis e menos aventureiros à medida que nos conhecemos. Gradualmente o livro muda de tom; Augie começa a pensar e escolher mais, e chega a ensaiar uma filosofia de vida. Mesmo com reflexões interessantes, a mudança de tom não me agradou muito, e eu teria cortado pelo menos cem páginas do final (e ainda assim seria um calhamaço). Não é o primeiro e nem o último livro excelente que parece se perder no fim, cito aqui o caso de Orlando. E tal como Orlando, Augie March está no meu rol de personagens inesquecíveis.

Chatô: o rei do Brasil

As mais de setecentas páginas do livro Chatô: o rei do Brasil são assustadoras. Como pode ser interessante um livro tão extenso sobre um personagem da qual ninguém é fã, que não tem nenhum carisma ou da qual não ouvimos falar nos dias de hoje? Lembro do estrondoso sucesso que o livro fez na época da sua publicação, há quase vinte anos, e da tentativa cercada de suspeitas de suborno e desvios de dinheiro (nada mais chatobrianesco do que isso) do filme Chatô que nunca foi lançado. Depois de uma semana devorando suas páginas, posso afirmar: o livro é delicioso e mereceu cada uma das suas críticas entusiasmadas.

Com o correr do tempo, chegou a hora de enviar o filho à escola. No começo de 1898, como já tivesse quase 6 anos, os pais o matricularam em uma escola pública do bairro. Cuidadosamente recomendado para a professora como uma criança nervosa e problemática, Chateaubriand nem chegou a completar a primeira semana de aula. Poucos dias após o início do curso, um bedel do grupo escolar veio trazê-lo de volta à mãe. Vítima de deboches e brincadeiras dos colegas, ele simplesmente desistiu de falar o que quer que fosse dentro da classe. De gago ele estava se transformando em mudo. Traumatizados com o sofrimento do filho, Francisco José e Maria Carmem procuraram outras escolas, contrataram sucessivas professoras particulares que tentavam alfabetizar o garoto em casa, mas nada deu certo. Ele tomava pânico na presença de estranhos e, além de não pronunciar uma só palavra, punha-se a chorar.

p. 35

O primeiro grande mérito do livro é, sem dúvida, a escolha de seu protagonista. Polêmico, Chateaubriand conseguiu construir do nada um império de comunicação, que compreendia os jornais, revistas e rádios mais influentes de sua época. Ele é o responsável pela implementação da TV no Brasil, pela criação do MASP e esteve por trás dos movimentos mais importantes da história política brasileira. Era um homem que tinha intimidade com o poder, temido por banqueiros e presidentes. Em nome dele leis foram modificadas e reputações destruídas; o contato com Chateaubriand poderia colocar qualquer um no topo – o que não impedia a pessoa de ser retirada de lá, pouco tempo depois, sob ofensas do próprio Chateaubriand. O autor não tenta responder à questão se era um louco, um gênio ou um visionário. E até o fim do livro não é possível responder isso.

Ao entrar em São Joaquim, Chateaubriand resolveu bater na primeira porta amiga que lhe apareceu pela frente: a farmácia de Hilário Braer, o aliancista pra quem ele deveria trazer uma carta de Rupp – como a dos Palma, também incinerada em Bom Retiro. Andando com as pernas abertas para evitar que uma coxa encostasse na outra, o que provocava uma sensação muito dolorosa, amarrou um cavalo no poste e apresentou-se ao farmacêutico. Descreveu com detalhes as adversidades e provações que experimentara desde a decolagem do Junkers no Rio de Janeiro, quantos dias antes? Fez as contas: apenas três dias, que mais pareciam três semanas de sofrimentos. Falou de Rupp, da barreira de soldados na estrada, do corte do fio do telégrafo, das cartas para os Palma e para ele queimadas na casa de Gerôncio Thibes, da morte inesperada de Jango Matos. O catarinense descendente de alemães ouvia tudo aquilo tomado por uma desconfiança mineira. A história era rocambolesca demais para ser verdadeira.

p.239-240

Somente um grande escritor para tornar os inúmeros fatos da vida de Chateaubriand numa narrativa coerente e muito interessante. Se Fernando de Morais não leu cada um dos 11870 artigos que Chateaubriand publicou, chegou muito perto. Apesar de longo, o livro não possui uma única passagem gratuita, e muito menos mal documentada. Como nos bons romances, o livro consegue criar suspenses, faz personagens ressurgirem, pontua grandes eventos com fatos pitorescos. Sem perceber, vamos descobrindo os bastidores da história do Brasil, ficamos a par do surgimento de grandes nomes da política e da cultura brasileira, ao mesmo tempo que descobrimos as idiossincrasias do comportamento de Chateaubriand. O mesmo homem que era implacável com os filhos e com os inimigos, tinha um apetite sexual incontrolável e nada criterioso, falava um inglês “fluente e ininteligivel” e insistia em sagrar as pessoas a quem admirava como Cavaleiro da Ordem do Jagunço.

Por fim chegou o 2 de junho, dia da coroação e do maior problema que Chateaubriand iria enfrentar naquela agitada temporada: acomedido de uma infecção na próstata, ele era obrigado a urinar a cada meia hora (Paulo Albuquerque, seu médico no Rio, chegara a aconselhá-lo a desistir da aventura londrina, pois se sabia que a cerimônia de coroação duraria cinco horas, sem interrupções). Mas o jornalista já havia planejado em segredo a solução: vestiu um grosso sobretudo sobre a casaca, e com uma gilete abriu dois talhos nos forros do casaco de lã. Pediu ao bar do hotel duas garrafas vazias de Coca-cola e enfiou uma em casa bolso do capote. Às oito da manhã, conforme mandava o protocolo, dirigiu-se à Abadia de Westminster.

p.542

Considero esse livro essencial pra qualquer um da área de história e de jornalismo. Depois do livro, fica-se com a sensação de que nada visto na TV ou publicado é verdade. Ironicamente, o jornalista Chateuabriand é a maior prova que se pode ter contra o poder do jornalismo. Percebemos que a imprensa não precisa ter o menor compromisso com os fatos – suas bases são outras, seus interesses são outros. O livro pode ser lido como um forte alerta sobre o poder dos meios de comunicação.

No começo de 1967, quando faltavam quinze dias para transferir o governo para o Marechal Costa e Silva, o ainda presidente Castelo Branco baixou o decreto-lei nº236, que parecia redigido de encomenda para confirmar as suspeitas de Chateaubriand de que de fato tudo não passara de uma conjura para destruí-lo. No artigo 12 do decreto, Castelo limitou a cinco o número de estações de televisão que poderiam pertencer ao mesmo grupo privado (três estações regionais e duas nacionais). Naquela data começava a desmoronar a rede Associada de televisão, cujo prestígio e poder seriam ocupados, anos depois, pela mesma Rede Globo de Televisão. Assis Chateaubriand perdia sua primeira grande batalha. Que talvez fosse a última de sua vida.
p. 674

A beleza nobre

A princesinha andava de um lado para outro do terraço com os companheiros, e brincava de esconde-esconde à roda dos vasos de pedra e das velhas estátuas musgosas. Nos dias comuns, só lhe era permitido brincar com crianças da mesma condição, de modo que brincava sempre sozinha, mas o dia dos seus anos era uma excessão, e o rei dera ordens para que ela convidasse todos os amiguinhos que quisesse para virem divertir-se com ela. Tinham uma graça majestosa ao passar aquelas esguias crianças espanholas, os meninos com os chapéus de grandes plumas e curtos mantos ondulantes, as meninas segurando a cauda dos longos vestidos de brocado, e protegendo os olhos do sol com imensos leques de cores negras e prateadas. Mas era a infanta a mais graciosa de todas, e a que se trajava com maior requinte, segundo a moda um tanto pesada da época.
O aniversário da infanta

De Oscar Wilde eu li, na adolescência, O Retrato de Dorian Gray. Lembro de ter gostado muito e não ter me interessado em ler mais nada do autor, porque estava numa fase de querer devorar clássicos. Então fui sem qualquer lembrança de estilo que peguei Os melhores contos de Oscar Wilde. E me senti, invariavelmente, entrando num aniversário de uma infanta, visitando uma vida de corte, vendo as coisas na perspectiva de uma pessoa que tinha tudo: beleza, educação, bons relacionamentos, brilho próprio e genialidade. Wilde às vezes tenta em alguns momentos sair da sua posição e escrever do ponto de vista de pessoas simples, mas as descrições lhe saem vazias. Ele claramente não pertence ao mundo dos que trabalham pesado:

Todas as tardes saía para o mar o jovem Pescador e atirava a rede à água.
Quando o vento soprava de terra, ele não apanhava nada, ou pouca coisa, pois era um vento amargo de asas negras, e ondas eriçadas vinham recebê-lo. Mas quando o vento soprava para a praia, subiam os peixes das profundezas, e nadavam-lhe por entre as malhas das redes, e ele os levava ao mercado e vendia-os.
O Pescador e sua Alma

Não sei que impressão eu teria se fossem outros contos. Nessa seleção que peguei, é como se Oscar Wilde pretendesse colocar no seu trabalho uma pitada de crítica social; ele não é insensível às contradições da sua época. Mas, aos olhos de hoje, essa crítica não consegue mais do que arranhar a superfície. Talvez para sua época nenhuma solução fosse vislumbrada que não fosse uma dedicação total aos pobres, abdicar de todos os seus bens (como pretende O jovem rei). Victor Hugo, nos Miseráveis, propõe um herói assim. Oscar Wilde não é tão radical, e justamente por isso não sabe o que propor. Ninguém soube dizer ao Jovem Rei que ele, mais do que ninguém, estava em posição de tentar ajudar àqueles que sofreram para costurar suas roupas. A história d´O modelo milionário lembra contos religiosos, onde anjos vestem andrajos para ajudar os puros de coração. Por mais que n´O Aniversário da Infanta a nobreza se mostre cruel e O rouxinol e a rosa tenham levado à sério demais dois jovens enamorados, é do lado da elite que Wilde está. O pobre é o feio, o anão, a multidão furiosa. A pureza de caráter e a beleza física estão sempre do lado nobre, mesmo que sua posição de elite esteja ameaçada:

A menos que seja rico, a ninguém adianta ser encantador. O romance é privilégio do abastado, e não ofício do desempregado. O pobre há de ser prático e prosaico. Mais vale ter uma renda permante do que ser fascinante. Tais são as grandes verdades da vida moderna, que Huguie Erskine jamais compreendeu. Podre Huguie! Intelectualmente, cumpre confessá-lo, não tinha grande importância. Nunca disse uma frase brilhante, nem sequer maldosa, em toda existência. Mas era maravilhosamente bem-apessoado, com cabelos anelados e castanhos, o bem-delineado perfil e os olhos cinzentos. Tão popular entre os homens como entre as mulheres, possuía todos os talentos exceto o de saber ganhar dinheiro. Legara-lhe o pai a espada de cavalaria e uma História da Guerra Peninsular em quinze volumes. Huguie colocou a primeira sobre o espelho, a segunda em uma estante, entre o Guia de Ruff e a Bailey´s Magazine, e passou a viver com as duzentas libras anuais que lhe dava uma tia velha. Tentara tudo. Frequentara durante seis meses a Bolsa de Valores; mas que há de fazer uma borboleta entre touros e ursos? Fora comerciante de chá por um pouco mais de tempo, mas logo se cansar de pekoes e souchons. Depois, tentara vender xerez seco. Mas isso também dera em nada: o xerez era seco demais. Afinal de contas, era nada, um rapaz encantador, malsucedido, com um perfil perfeito e nenhuma profissão.
O modelo milionário

Não é à toa que tantos críticos dizem que a obra de Wilde chegou a outro patamar depois de sua prisão e a publicação de De profundis. É o próximo livro que lerei e estou ansiosa para ver o que essa mudança de universo provocou no estilo de um dândi.

Fast psicologia

Cena 1 : Coisas que odeio em mim.

Esse programa se propõe a resolver dez problemas em apenas um dia. A californiana Jane se queixa de que ela não consegue esquecer o namorado com quem viveu mais de cinco anos e de quem estava separada há dois. Eles chamam sua melhor amiga para lhe dar apoio e um psicólogo. Diante das câmeras, ela fala da saudades que sente dele e chora. O psicólogo pede para ela escrever no papel todos os seus medos e mágoas com relação a esse assunto. Depois, discursa sobre ela estar começando um novo período na sua vida, simbolizado pela queima do papel onde ela havia descrito seus problemas.

Cena 2: Super Nanny.

A especialista Super Nanny ajuda pais que não conseguem educar seus filhos. As cenas mostram Mary oprimida por seus dois filhos. Ela carrega suas mochilas, apanha deles quando os contraria e se sente extremamente culpada quando coloca qualquer limite. Super Nanny lhe dá uma mochila cheia e as duas saem para caminhar. Chegam ao topo de uma montanha. Quando Mary abre sua mochila, ela está cheia de pedras. Aquelas pedras, Super Nanny lhe diz, representam toda culpa que ela tem carregado inutilmente. Ela é convidada a nomear cada pedra com uma de suas culpas e joga-las fora.

Cena 3: Guro do estilo.

A participante abre seu guarda-roupa a um especialista, que analisam seu tipo físico e estilo para lhe propor um novo visual. Depois de conhecer Sue, o especialista conclui que ela têm um grave problema de auto-estima. Então marcam para ela uma consulta com um psicólogo que atende várias estrelas. Na consulta, ele faz com que ela desfile com uma roupa feita de saco de lixo – “o que pode ser pior do que se vestir de saco de lixo?”. Depois a mostra a vários espelhos de imagem deformada, que simbolizam a maneira como os outros a vêem. Por fim, diante do espelho normal, ela conclui que o melhor é ser ela mesma.

A psicologia, como ciência, nasceu sob influência do pensamento filosófico europeu. Para muitos o marco está em Descartes, que ao dividir a res cogitans da res extensa, ou seja, a parte psíquica da física, iniciou uma forma de ver o indivíduo e estudá-lo. A psicologia estaria separada da biologia e outras ciências materiais por se debruçar sobre aquilo que se manifesta no físico e possui suas próprias origens e leis – para tanto, merece um método específico de estudo. Wundt em 1873 ele publicou o livro Fundamentos da Psicologia Física e é considerado o pai da psicologia. Ele criou em 1879 o primeiro laboratório de psicologia. Como é possível perceber, a psicologia experimental ainda dialogava muito com experimentos fisiológicos. Idéias hoje associadas à psicologia como inconsciente, repressão e libido surgiram graças a Freud. Em 1895, no Estudos Sobre a Histeria, Freud procura minimizar o discurso físico em torno da histeria para privilegiar a dimensão psicológica.

O tratamento psicológico, quando pensado em função do inconsciente e traumas infantis, é bastante dispendioso. A preocupação com o tempo e a cura não foi uma prioridade no nascimento da disciplina. A psiquiatria nunca teve um histórico de curas, apenas de controle. A psicanálise também não se propõe a curar. Na tipologia da psicanálise, o sujeito normal é um neurótico. O neurótico é aquele que entende a adere às regras sociais, mesmo que isso lhe cause sofrimento. A repressão da libido é entendida como condição básica da civilização. A única coisa que a psicanálise pode propor aos seus pacientes é o ajustamente social e alívio de alguns sintomas. Com Jung, o paciente terapeutizado se propõe a fazer um mergulho tão profundo no seu inconsciente que atinge o inconsciente da própria humanidade. Reich, outro discipulo eminente de Freud, propunha uma verdadeira revolução sexual: a neurose invidividual, fruto de uma repressão sexual, não poderia encontrar sua plena manifestação numa sociedade puritana e repressora. Por isso, a libertação da indivíduo necessariamente passaria pela libertação da própria sociedade.

Nos Estados Unidos surgiu uma outra maneira de entender a psicologia, muito mais prática e direta. Lá surgiu a psicologia comportamental, também chamada de behaviorismo. O behaviorismo metodológico de Watson (1878-1958) se propunha a abandonar os processos cognitivos e se limitar ao comportamento observável. Skinner (1904-1990) levou o método comportamental a outro patamar, ao propor que através do comportamento observável é possível conhecer e modificar a dimensão psíquica. Para tanto era preciso fazer uma análise comportamental, ter objetivos claros, levar em conta possível condicionamentos e propor modificações ambientais. Isso tornou possível a criação de terapias mais rápidas. Embora criticado pelo seu mecanicismo e por ignorar a questão da liberdade pessoal, o behaviorismo se mostrou muito eficaz em tratamentos como os de fobias, distúrbios de sexualidade, necessidades educativas especiais, entre outros.

O que ninguém poderia prever é até onde a idéia da rapidez e simplificação poderia nos levar. O behaviorismo se livrou do inconsciente e essa nova modalidade de terapia se livrou do condicionamento. Restou apenas o comportamento. Em programas de TV, palestras motivacionais e qualquer evento que dure algumas horas, é possível alguém usar algum objeto como metáfora – papel para simbolizar as dificuldades, pedras transformadas em culpa, espelho e roupa em auto-imagem – e propor com isso uma mudança de vida. Pela popularidade do método, não duvido que isso possa causar uma sensação imediata de alívio. Acho que se as questões de uma pessoa fossem simples como carregar pedras, ela mesma já teria dado conta de resolver o problema. Essa simplificação extremada não possui nenhuma base consistente; ela pode ser resultado da solicitação crescente que a psicologia sofre da sociedade. E certamente contribuirá para a desvalorização da psicologia.

Seu corpo sabe

É um arquivo que parecerá grande quando você abrir, mas é bem fácil devorar as sete páginas em que o Dr. Vernon Coleman discute vários aspectos da medicina. Destaco alguns pontos:

O fato é que nosso corpo é perfeitamente capaz de cuidar-se sozinho. No entanto, poucas pessoas aproveitam esses mecanismos de auto-cura e a capacidade de auto-proteção. Em vez disso, preferimos colocar nossa saúde e nossa vida nas mãos de “especialistas”, muitas vezes treinados para considerar o corpo e as doenças que o afligem com evidente estreiteza de visão.(….)

Como conseqüência importante desse relacionamento entre médicos e indústria farmacêutica, formas de terapia que não podem ser embaladas, vendidas e transformadas em um produto lucrativo são ignoradas tanto pelas revistas médicas quanto pelos próprios médicos, que obtêm suas informações através dessas revistas.

Por exemplo, embora cada vez mais estudos independentes comprovem que pessoas com hipertensão podem reduzir permanentemente sua pressão arterial aprendendo a relaxar, a maioria dos médicos ainda acredita que medicamentos são a única saída.(….)

Anos atrás, se você fosse ao médico dizendo que se sentia péssimo, na maior fossa, ele provavelmente teria receitado um tônico inócuo, conversado com você durante uns 20 minutos e aconselhado a sair e se divertir um pouco. Hoje, se você vai ao médico queixando-se do mesmo desânimo, ele provavelmente vai diagnosticá-lo como depressivo. Provavelmente, ele vai receitar um dos poderosos medicamentos atualmente disponíveis na praça.

Até recentemente, a depressão era uma doença relativamente rara, mas as coisas mudaram. Hoje, a depressão é uma das moléstias que mais aumenta no mundo. Milhões de pessoas sofrem de depressão. E o boom ocorrido no diagnóstico de depressão coincidiu com o desenvolvimento de anti-depressivos químicos especiais, novos e caros. Temo que muitas vezes a pessoa é diagnosticada como “depressiva” quando simplesmente está angustiada, infeliz ou cansada da vida que leva.(….)

Como a maioria dos médicos receita demais medicamentos diferentes, eles não têm idéia dos efeitos colaterais produzidos por aqueles que estão receitando. Portanto, lembre-se da Primeira Lei da Medicina Moderna de Coleman: “Se você desenvolver novos sintomas enquanto estiver sob tratamento para qualquer problema, provavelmente esses novos sintomas são causados pelo tratamento.” Um entre cada seis pacientes está no hospital porque os médicos o tornaram doente. O motivo é simples. São poucos os médicos e os doentes que conhecem a Primeira Lei da Medicina Moderna de Coleman. Você não deve esquecer nunca.

Leia o artigo completo aqui. Indicação do Alessandro Martins.

Calma, tá tudo bem agora

Há algumas semanas, eu assisti uma reportagem especial, não sei de qual emissora. Não importa, realmente, em que emissora foi, porque essas reportagens especiais seguem um roteiro muito parecido. Essa era sobre exploração sexual de crianças. Ele mostrava estrangeiros que vinham ao Brasil para dormir com as meninas, falava da pobreza, das drogas, das doenças, da infância abandonada e que algumas eram levadas pelos próprios pais a se prostituirem. Tinha imagens chocantes de meninas em boates, depoimentos dolorosos de crianças que mesmo antes de chegarem aos dezoito anos já tinham visto, vivido e sido exploradas de todas as maneiras. Uma reportagem de conteúdo pesado, que causava angústia ao nos colocar a par de um problema tão grande, que existe em todos os lugares e simplesmente não é visto.

Aí, no fim da reportagem, eles colocaram instituições exemplares que cuidam dessas meninas. Mostravam as pequenas X e Y, que pela primeira vez em muitos anos eram tratadas com dignidade e não viviam mais nas ruas. E assim, depois de todo mal estar, eles colocaram algo positivo para que os telespectadores não fossem dormir mal. Calma, tá tudo bem agora. Mas não está. Se for parar pra pensar, aquelas instituições não resolvem os problemas relativos à prostituição infantil: o número delas é insuficiente, o índice de recuperação é pequeno, os danos causados a essas crianças são muito grandes e quando falamos em perspectivas, são sempre perspectivas muito limitadas, de sair da prostituição para entrar na pobreza e no subemprego. A questão é que não paramos pra pensar, apenas nos sentimos aliviados. As reportagens que mostram a realidade nua e crua têm essa tendência, ou essa regra, de sempre terminarem bem, mostrando um problema e sua solução. Mesmo que seja uma solução muito insuficiente.

A ficção conhece há muito tempo e se utiliza do recurso de escolher bem como encerrar. Nas novelas, nos romances, os anos a fio de injustiça vividos pelos mocinhos são apagados no momento em que tudo acaba bem no final. Há obras que precisam ser totalmente repensadas, porque o final nos abre perspectivas novas para tudo o que havia acontecido antes. Lembro de filmes de terror, que não terminam nunca; eles nos oferecem um final feliz falso e logo depois plantam a dúvida – a mãozinha do assassino saindo da terra – que nada mais é do que um aviso de que haverá uma continuação. Existem as narrativas circulares, em que no fim da história nos vemos no começo, ou num recomeço. Na música, existem intervalos entre notas que dão a idéia de tensão, assim como existem os que dão idéia de finalização; tais intervalos dão colorido às frases. As músicas costumam ter um auge melódico pouco antes de acabar. Na dança, as coisas terminam em pose. Onde quer que se olhe, a maneira de terminar é uma comunicação com o público, que a partir dali deve reagir – com aplausos ou com silêncio.

Se a maneira de terminar indica que experiência o público deve levar, podemos concluir que o as reportagens chocantes nunca querem prolongar o desconforto que elas mesmas causaram. É um choque de mentirinha. O público deve ficar temporarimente abalado, mas que a TV não seja culpada de dores na consciência e insônia de ninguém. Após conhecer uma realidade difícil, que o espectador se tranquilize com a idéia de que alguém – que sem dúvida não é ele – já está providenciando solução para o problema. Se o sentimento de desconforto persistir, ele pode procurar a instituição que apareceu na reportagem e fazer uma doação.

O que aconteceria se as coisas fossem apresentadas sem solução? Se ao invés de mostrar instituições salvadoras, a reportagem terminasse com meninas que se prostituem desde a infância, usam drogas e não tem perspectiva para o futuro? Eu não sei. Quem estivesse vendo aquela reportagem ficaria angustiado, e teria que procurar sozinho uma maneira de digerir o que viu. Não há como prever que efeito teria- poderia ser totalmente inócuo, ou o espectador poderia encontrar uma solução muito mais interessante do que normalmente se propõe. Eu acho que o inesperado, não oferecer soluções fáceis, é uma experiência muito mais adulta e que vale a pena ser testada.

Um mundo carente de terapia

Quando eu fazia psicologia, sentia um certo medo quando via a exigência de terapia pra casos como os de Realengo. Porque imagino que não haja um “especialista em vítimas de situações de massacre e violência extrema”. Não ainda. Imaginava a pessoa comum, como eu me via, chegando lá com a tarefa de tornar aptos e sãos adolescentes que viveram algo tão brutal. Porque quando a gente diz que é necessário mandar para a terapia, na verdade está dizendo – sem ajuda, esse indivíduo não conseguirá ser normal. E por normal, entendemos alguém que ande pelas ruas, trabalhe, case, tenha filhos, amadureça. Eu fiquei muito espantada, quando no 5º ano, quase saindo da faculdade, um dos autores de psicodrama na qual me baseava para fazer atendimento clínico, declarava que se a pessoa tivesse um amigo que a apoie e possa confiar, essa pessoa poderia ser tão terapeutica como um psicólogo. Afinal, psicólogos eram curadores mágicos capazes de tornar qualquer um normal novamente ou apenas um amigo sensato?

Olho para trás, na história da psicologia, e vejo ela surgir como necessidade a contextos muito específicos – mulheres apresentavam paralisias que não podiam ser explicadas por lesões organicas; seleção de indivíduos mais aptos para exercer funções específicas em períodos de guerra e, posteriormente, tratamento para ex-soldados traumatizados; crianças fora da curva normal de aprendizagem, por apresentarem uma inteligência muito superior ou muito inferior ao dos seus colegas, etc. Por algum motivo, hoje a psicologia é muito mais, é uma verdadeira panacéia. Ela serve aos que estão abaixo da média e aos que estão acima também. Ela trata tanto o que sofreu um grande trauma como aquele que se ressente da vida tediosa. Faz-se necessária na adolescência em si, porque é uma fase muito difícil. É de grande ajuda para obesos, pais, casais em dificuldade, desempregados (difícil é pagar terapia nesse período), compulsivos e qualquer coisa que possa ser chamada de problema. O como todos têm problemas, todos precisam de terapia.

Precisar de ajuda pra resolver todo e qualquer tipo de problema revela uma insegurança, uma falha no sentimento de se sentir potente diante das dificuldades. Antigamente a única saída era calar diante de certas dores, resolvê-las dentro de si sem alarde. Muitas dessas dores nem ao menos possuiam um nome. Nem por isso essas pessoas deixaram de seguir em frente, nós somos a prova disso. O nosso mundo possui mais nomes -assédio moral, bullying, stress pós-traumático, depressão pós-parto -, mais ajuda e mais necessidade de ajuda. É uma realidade tão complicada, os papéis tão confusos, as exigências tão grandes que a pessoa comum não se sente apta a lidar com ela sem ajuda profissional. Para alcançar algo, nem que esse algo seja apenas retornar ao estado primitivo, é preciso ajuda. Todos são amadores, sem seus terapeutas.

Todos? Mesmo aqueles que conseguiram sucesso, aqueles que possuem o que os outros desejam? Isso demonstra que há algo de errado com o que consideramos sucesso, com o que nos motiva, com o que todos buscam. Quem está de fora, acha que a felicidade é estar dentro; quem está dentro sofre – com as expectativas frustradas, com o peso de manter sua posição, com a falta de motivação. Lembro de Marcuse, e seu conceito de mais-repressão: a repressão freudiana, por retardar o princípio de prazer, criava mais tensão e por isso mais prazer. Hoje vivemos uma repressão constante que não leva a lugar nenhum, que jamais é satisfeita, a repressão se tornou um fim em si mesma. Parece que não há lugar onde chegar. Ou que não estamos mais culturalmente preparados para chegar e parar. Deixar de reprimir e deixar fluir o princípio de prazer não é um simples gesto de vontade depois de uma existência inteira de mais-repressão.

Ao mesmo tempo, a terapia em si é algo tão simples. É difícil acreditar no caráter mágico que ela se reveste. O terapeuta é uma pessoa que ouve segredos e promete sigilo absoluto a respeito deles. Ele se dispõe a se colocar numa posição de escuta, e oferecer seu melhor parecer baseado no que ouviu. Se um amigo confiável é capaz de oferecer o mesmo conforto, por que tanta gente precisa pagar para isso? É possível concluir muitas coisas: que as pessoas possuem muitos amigos, mas não são capazes de confiar neles; que as pessoas quase não têm amigos e por isso não encontram com quem compartilhar; que as relações estão virtuais demais, que ter muitos amigos de @s não acrescenta à qualidade de vida das pessoas; que até a amizade e a compreensão são mediadas por relações comerciais e as pessoas perderam a capacidade de trocar de maneira desinteressada. São todas hipóteses plausíveis. O fato é que as pessoas têm sentido necessidade de pagar para serem ouvidas, que o desejo de compreensão não tem encontrado acolhida nas relações do dia a dia. E que valorizamos a palavra de tal maneira que ela se basta pra quase tudo.

Por fim, acho a terapeutização do mundo inteiro uma maneira simplista de entender os problemas. É uma maneira de olhar para o detalhe e se surpreender com cada problema como se ele fosse novo. O que se repete em vários indivíduos não é apenas individual, poderia ser tratado como coletivo. Temos preferido achar que a obesidade é falta de força de vontade e gula de cada um, ao invés de pensar em questões mais amplas como mudanças no padrão de alimentação, a retirada da mulher da cozinha e entrada no mercado de trabalho (não que eu ache que ela deva ficar na cozinha, por favor!), a popularização do fast food, padrões irreais de beleza, etc. Ao buscar a terapeutização do mundo, queremos tratar o depois, a última ponta de uma série de problemas. Esse movimento muitas vezes coloca sobre o sujeito uma responsabilidade que não é só dele. E diminui a força contestatória dessas questões.