Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus

Por Daniel Duclos

UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas: a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e 2, apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência. Por fim: esse post não é sobre a Holanda. A Holanda estar aqui é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Leia o post inteiro aqui.

Três comentários sobre homens e mulheres

Hoje a Nikelen postou esta notícia no FB: Em nome da liberdade, homens são proibidos em vilarejo do Quênia. Em resumo, a notícia fala de mulheres que se cansaram do direito que os homens da região – sejam eles maridos ou soldados estrangeiros – de disporem de seus corpos como quiserem, seja estuprando ou espancando. Na foto vemos mulheres em trajes tradicionais e aquele vilarejo parece ser um lugar pouco contaminado por outras culturas – mas contaminado o suficiente para que suas mulheres não aceitem mais esse tipo de opressão. A idéia de pureza cultural é uma bobagem; o interessante é notar justamente o que o sujeito escolhe das outras culturas, o que isso reflete de anseios que ele já tinha. Para todo período histórico e lugar que se olhe, a opressão feminina parece ser uma regra. De maneira semelhante, assim que alguma possibilidade é oferecida, essas mulheres se rebelam. As exigências mudam, nem sempre elas pedem o tanto quanto achamos que merecem. Só que o desejo de autonomia nunca morre. Em outros termos, podemos pensar que o ser humano jamais se acostuma com a opressão.
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Estou lendo, a passos de tartaruga, O livreiro de Cabul. É um livro delicioso, o livro mais gostoso que já li sobre a cultura daquela região. Dá vontade de copiar o livro inteiro para comentar. Uma das histórias (Tentações) fala sobre Mansur, o filho do livreiro. Ele tem dezessete anos e, embora seja homem e primogênito, sofre com a posição que ocupa – precisa obedecer ao seu pai em tudo e é solteiro. Vemos sua tentativa (que ao leitor ocidental parece patética) de paquerar as moças de burca, cuja beleza é adivinhada pelo tamanho da burca, pela maneira de andar, pelo porte, pelas mãos, pelo pouco que é possível ver dos olhos por detrás das rendas. Seu amigo Rahimullah é muito menos inocente do que ele e se aproveita de viúvas para obter favores sexuais. Num certo momento, Rahimullah lamenta que as mulheres afegãs sejam “tão chatas” – elas ficam tensas e estiradas durante o sexo, muito diferente do que ele vê nos filmes pornôs. Por mais que ele tente dizer o que elas devem fazer, elas não conseguem. Se de um lado a cultura os mantém tão seguros sobre o que suas mulheres escondem, por outro não lhes permite tanto prazer quanto gostariam. Só a liberdade em níveis mais amplos permite mulheres como aquelas dos filmes.
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Uma vez vi uma entrevista de um cineasta muçulmano, e num certo momento a entrevistadora (acho que era a Fernanda Torres) lhe pergunta sobre as burcas e a opressão feminina. Ele lhe diz que se por um lado as mulheres orientais se cobrem, por outro as ocidentais são obrigadas a se mostrar sempre e com a mesma aparência que teriam se estivessem na adolescência. Claro que uma coisa não justifica a outra – nem essa era a intenção dele – mas acho importante pensar no sofrimento que a tal “luta pela beleza” tem causado às mulheres. As mulheres ocidentais são proibidas de engordar, de enrugar, de deixar seus cabelos brancos, enfim, de simplesmente envelhecer. Não existe mais tregua, não existe mais um período que a mulher possa dizer – “eu já cheguei a tal idade” ou “eu já sou bem casada” ou “eu já criei meus filhos”. Assim como ficar bela e fazer sexo é um direito, deveria haver também o direito de deixar para lá. É uma utopia de juventude eterna. Testemunho mulheres sofrendo com cada quilo, com cara ruga e lamento que isso não seja apenas normal, o resultado inevitável da passagem dos anos e da alteração do metabolismo.

Ratos

Tenho uma grande admiração por ratos. Eu já tive um rato de estimação. Essa informação teria mais impacto antes, porque muitas pessoas passaram a achar ratos simpáticos depois de Ratatouille. Nos extras do DVD, tem um filminho dedicado inteiramente à informações sobre os ratos de verdade. Já eu sou de uma geração diferente, a do Mickey Mouse e o Jerry. Mickey Mouse é um camundongo sem nada de roedor, de um bom mocismo irritante. Já o Jerry, com sua esperteza e crueldade, era muito mais rato. Lembro da dona do Tom (cujo rosto nunca vimos) subindo desesperada na cadeira quando vê Jerry. Mesmo hoje, é assim que as mulheres aprendem a reagir na presença de um rato, subindo nas cadeiras e gritando por socorro.
Imagem de Amostra do You Tube
Rato é meu ascendente no horóscopo chinês, e a descrição do signo diz que eles são gregários, organizados e protetores. Só que quando combinado com o meu outro signo, a serpente, geralmente esses horóscopos me definem como interesseira, vingativa e capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quero. Um pouco como os ratos do Guia do Mochileiro das Galáxias. Esse livro, um verdadeiro símbolo nerd, perde muito a sua graça quando lido depois dos vinte (meu caso). O que achei interessante foram os aliens chegam na Terra para conversar com a especie mais inteligente. A surpresa está no fato de que a humanidade é apenas a terceira espécie: antes da humanidade estão os golfinhos e os ratos encabeçam a lista. Concordo.
Imagem de Amostra do You Tube
O que me convenceu disso foi um livro interiro dedicado ao assunto: Todos os ratos do mundo: do Flautista de Hamelin a Mickey Mouse: O Irresistível Charme dos Roedores. Olha que informação interessante: desenvolver veneno contra ratos é muito difícil. Não se sabe se é pelo olfato, mas eles são muito desconfiados e simplesmente não comem certas substâncias, por mais que sejam misturadas aos ingredientes mais saborosos. E quando se deparam com algo novo, eles fazem com que os mais velhos ou mais fracos comam primeiro. Esses membros ficam dias em observação, e apenas depois desse período, se eles não mostrarem nenhuma reação, é que os outros comerão a comida. Venenos para ratos, por esse motivo, precisam não ter odor e só manifestarem seu efeito depois de alguns dias.
Imagem de Amostra do You Tube
Essa daqui é pra convencer de uma vez que eles são muito inteligentes: um navio estava infestado de ratos. Para exterminar a praga, o navio foi esvaziado, lacrado e colocaram tubos por pontos estratégicos onde seria liberado um veneno poderoso. Com aquela quantidade de veneno, durante tanto tempo e sem ter por onde sair, todos os ratos morreriam asfixiados e a praga terminaria. Só que quando terminou a administração de veneno, eles chegaram lá e encontraram os ratos, vivos. O que teria dado errado? Quando foram recolher os tubos, viram que em cada um havia um rato entalado. Ou seja, eles descobriram de onde o veneno saía e sacrificaram alguns membros para impedir que todos morressem.
As histórias de ratos são todas assim. Os ratos são tão poderosos porque pensam coletivamente. Ratos dão a impressão de serem uma grande inteligência, espalhada em pequenos corpos ágeis e de dentes afiados. Uma família de ratos sempre pensa no todo. Quando o lugar onde eles estão se torna pequeno e a comida escassa – experiência de alimentar um casal, deixando-o se reproduzir o quanto quiser, sem mudar de gaiola ou alterar a quantidade de ração – eles começam a fazer controle de natalidade e racionar comida. Por isso que só eles e as baratas (sem mérito por parte delas) sobreviveriam a uma hecatombe nuclear. Nós mal sobrevivemos a nós mesmos.

Patriotismo

Eu não saberia o que responder se me perguntasse se sou patriota. Em certos momentos me parece que eu sou, porque acho irritante a mania de algumas pessoas em achar que basta ser de fora para ser bom. Que vale mil vezes lavar pratos em Paris do que ter uma vida tranquila no Brasil, que sair daqui a todo custo é sempre melhor do que ficar. Em outras ocasiões, me parece que não sou, porque sinto vergonha de algumas manifestações culturais legitimamente brasileiras, como a imagem da brasileira fogosa, sambista e semi-nua. Acho que não apenas somos um povo ignorante como nos orgulhamos disso. Vejo a questão de ser brasileira com aceitação, e com um afeto inevitável. O mesmo sentimento que se tem por uma tia avó caipira ou por um primo bêbado – faz todo mundo passar vergonha, mas é parente, fazer o quê?

Quando a gente conhece um pouco de outras culturas, acaba tendo consciência do quanto ainda teríamos o que melhorar. Só quando comecei a dança que eu entendi o quanto é importante apoiar financeiramente atletas, que aqui tudo é feito na base do idealismo e da boa vontade das pessoas. Já os Estados Unidos procuram desde cedo seus talentos, seja nos esportes ou no QI, e oferecem todo apoio. Todos ganham com isso – a pessoa recebe apoio para seguir sua vocação, o país ganha os melhores atletas, as melhores cabeças. A Frau Glaeser, graças a um post meu, falou do amor dos alemães pelo conhecimento, do debate livre e sem preconceito de idéias, de uma clareza no falar que deixou todo mundo com vontade de ir pra Alemanha. A Amanda revela continuamente no seu blog um pouco do modo de pensar dos franceses. Somente lá eu fiquei sabendo que eles não têm o menor orgulho da sua primeira dama ex-modelo, e prefeririam mil vezes uma intelectual como a nossa falecida Ruth Cardoso. São pequenas diferenças que demonstram quem somos, sobre o que atribuímos valor.

Ao mesmo tempo, senti na pele que amar outra cultura nunca nos tornará parte delas. Por parte de mãe, minha família é descendente de chineses. Minha avó era filha e mais tarde se tornou esposa de um chinês. Para aumentar os laços, meu avô era correspondente de um jornal na China e trabalhava com produtos chineses. Então, faz parte da lembrança de infância da minha mãe e tias o som das óperas chinesas ecoando pela sala, um som que parece com “gatos sendo torturados”. Elas cresceram em meio a ideogramas em livros que são lidos de cima pra baixo e da direita para a esquerda, porcelanas, madeiras e marfins cuidadosamente entalhados, comida chinesa de verdade (e não esses fast food gordurosos). Eu não conheci meu avô e peguei apenas a herança da herança. Cada vez que vejo uma mulher oriental – cabelo liso e preto, membros curtos, jeito tímido -, mesmo de costas, ela me remete à minha mãe. Cresci ouvindo histórias sobre meu avô e toda a riqueza que a família tinha nessa época. Aprendi a amar o sobrenome chinês que eu não herdei (nenhuma das filhas passou o nome adiante) e ficar feliz cada vez que alguém adivinha que tenho sangue oriental, o que raramente acontece.

Mas a minha avó, assim como a sua mãe antes dela, fez algo culturalmente imperdoável: ela proibiu meu avô de falar chinês quando ela estava presente. Por esse motivo, nenhum membro da minha família sabe chinês. Os ideogramas para nós são familiares apenas como figuras – mas isso nunca impediu minha família de se ver como chinesa. Foi isso que me fez um dia procurar um curso de chinês. O professor de chinês era nativo e pouca coisa mais velho do que eu. Na turma, um comerciante que fazia negócios com a recém-capitalista China; uma senhora que viajaria para a China em breve; uma universitária que já tinha feito curso de outras sete línguas; uma sul coreoana e por aí vai. Me apresentei ao meu professor como descendente de chinês. Eu olhava para ele e via traços parecidos com de um primo e achei que ele veria em mim alguma familiaridade também. De alguma forma, eu achava que ele me reconheceria como uma igual. Mas ele não viu nada. Para ele, eu sempre fui mais uma de suas alunas brasileiras. E não poderia ser diferente -não sei chinês, nunca pus os pés na China, só estive cercada de objetos e histórias. Apenas nesse momento eu me dei conta de tudo isso.

Eu sou brasileira. Herdei algumas coisas da minha ancestralidade chinesa, como outras pessoas herdaram dos inúmeros outros estrangeiros que vieram para cá. Algumas famílias fazem um esforço consciente para manter sua pureza cultural estrangeira; a minha não o fez, e mesmo se o fizesse nunca é como se morassem fora do país. Se pudesse escolher outra nacionalidade, ser brasileira provavelmente não estaria na lista. Gostaria de fazer parte de culturas mais antigas, que valorizam o estudo, que apoiam o comportamento ordeiro e disciplinado – aqui tentemos da julgar como sem valor (o “trouxa”) a tentativa de fazer as coisas direito. Mas pensar assim é um exercício que não leva a nada. Nada do que eu faça irá mudar o fato de que nasci aqui, que sofro influências definitivas e até inconscientes pelo fato de viver aqui. É o meu background. O que posso fazer é tentar olhar criticamente para a bagagem que carrego e fazer o melhor possível da minha brasilidade.

Reencarnação

Eu estava num trem que saía da Galícia. Enquanto ainda estamos em território galego, é uma viagem arrastada, porque o terreno é montanhoso e o trem vai devagar. Na cabine, estávamos eu, um policial, uma empregada e o seu filho de treze anos. Não sei se pela origem das pessoas, mas foi a única viagem de trem que eu que fiz onde todos conversaram na cabine. O policial me fez várias perguntas sobre o Lula, até então eterno candidato à presidência. Ele conhecia o Lula, admirava sua trajetória e não entendia porquê o povo brasileiro votar nos outros. Eu lhe disse (estávamos em 1999) que acreditava que o Lula nunca se elegeria, porque ele não inspirava confiança nas pessoas. A conversa foi para diversos rumos, e num determinado momento começaram a falar de religião. A empregada falou:
– Não entendo como tem gente que acredita em reencarnação. Como é que a pessoa vai reencarnar depois de morta se o corpo já apodreceu? Não resta mais nada.

No início, pensei que ela estava de brincadeira, daquelas que a gente faz para desmerecer. Mas o policial concordou, a discussão continuou e eu me dei conta que eles realmente achavam que reencarnação era aquilo. Bem que eu já tinha ouvido falar que o kardecismo só existe como religião no Brasil. Quando o assunto reencarnação surgiu, eu me dei conta do que é ser brasileira, do que significava uma cultura. Eu, por acaso, venho de uma família espírita. Mas qualquer brasileiro que estivesse no trem, fosse ele católico fervoroso ou até mesmo um ateu de gerações como o Milton, saberia dizer que por reencarnação não se entende que a pessoa volta para o mesmo corpo, e sim que renasce, em outra época e local.

Ser brasileira é saber os principais times de futebol do Brasil mesmo sem suportar futebol. Cultura é aquilo que sabemos, como se estivesse no ar. Penetra na nossa pele e faz parte da nossa maneira de pensar o mundo, como se não existisse outra. E à nossa volta não existe mesmo. É aquilo que abraçamos sem saber que abraçamos, no grande porém limitado conjunto de crenças que nos são oferecidas desde sempre. Para ser brasileiro e ateu é preciso um esforço imenso, porque todos sabemos de que signo somos, vemos igrejas por todos os lugares, tememos o poder do mal olhado. Não é apenas uma maneira de ver o mundo, mas também o voltar-se contra a maneira de ver o mundo. Quando somos contra, somos contra alguma coisa; esse alguma coisa é o nosso referencial. Contra ou a favor, nossas idéias, nossos gostos e nossos gestos nos dizem de onde somos.