Dádiva, dinheiro e serviço

O dinheiro é um substituto da troca, um facilitador. Se trocarmos mercadorias diretamente, como saber que quantidade de uma equivale à outra – um quilo de farinha corresponde a quantas roupas? Isso sem dizer que uma roupa não é igual a outra roupa… Temos que avaliar o tempo de produção, a raridade do produto, seu grau de necessidade. Tudo isso apenas para definir valores. Mas a troca tem um aspecto subjetivo ainda mais difícil de ser avaliado. É desse valor subjetivo que nos conscientizamos com o clássico Ensaio sobre a dádiva, de Marcell Mauss, de 1950, e ainda tão atual. Ele lança luzes sobre o contexto da troca de colares tradicionais – kula -, entre os Trobiandi, descrito por Malinowski em Argonautas do Pacífico Ocidental (1922). Eram colares de concha enormes e muito valiosos, que não eram feitos para serem usados, apenas para serem trocados. Estar com a posse temporária de um desses colares conferia status ao seu dono. Só que o repasse dos colares envolvia um complicado cálculo de influências: quem decepcionar, que alianças reforçar ao repassar o colar, a que expectativas corresponder?
A partir daí Mauss formula três princípios que norteam a dádiva, não apenas a dádiva dos Trobiand, qualquer contexto de dádiva:

1- A obrigação de dar
2- A obrigação de receber
3- A obrigação de retribuir.

Qualquer um que já esteve envolvido em trocas, presentes ou favores se sentiu dentro dessas regras. As relações entre os que oferecem e os que recebem algo nunca é de indiferença. O ato de dar não parte de uma espontaneidade vazia; quem oferece às vezes se vê compelido pela sua posição, datas ou acontecimentos específicos. Uma vez iniciado o processo, a pessoa que dá fica numa posição de superioridade com relação àquela que recebe. Quem recebe se vê na obrigação de receber, porque recusar um presente é uma ofensa muito grave. Ao mesmo tempo, receber o coloca em dívida. Até que essa dívida seja paga, ele tem para com aquele que lhe ofertou uma ligação, onde fica em posição de inferioridade. A balança só é reequilibrada quando a pessoa finalmente consegue retribuir. Mas a retribuição também envolve um cálculo: ela deve ser maior do que foi recebido. A retribuição não corresponde diretamente ao valor do que foi dado inicialmente, porque a passagem do tempo faz com que essa dívida cresça, faz com que o outro fique mais tempo numa posição de poder. Então a retribuição é superior ao que foi ofertado inicialmente para compensar e inverter a situação. Aí quem havia recebido passa a ser o doador, o que pode alimentar esse ciclo indefinidamente.
A entrada do dinheiro foi uma maneira de tentar igualar de maneira definitiva essas relações – sem vestígios, sem vínculos. As coisas passam a possuir um valor financeiro independente dos envolvidos na troca. Produtos diferentes encontram uma base em comum – trigo e roupas não precisam mais ser comparados entre si, eles são comparados com o seu valor em dinheiro. Os juros acrescidos com o tempo continuam, mas tem seu valor medido de forma exterior, pela inflação do período ou alguma taxa qualquer. Principalmente: não há uma dívida simbólica, não há necessidade de medir influências e se tornar ligado àqueles com quem trocamos. O outro nos oferece um produto e lhe damos o correspondente em dinheiro, e isso é tudo. Pelo menos, essa é a maneira como gostamos de ver as coisas.
Seguindo uma linha de raciocínio totalmente diferente, chegamos no que os marxistas chamam de coisificação das pessoas e personificação das coisas. As relações que o dinheiro proporciona excluíram de tal maneira a sociabilidade das relações, que pagar ou comprar algo parece conferir qualquer tipo de liberdade. Animais podem ser maltratados porque são posse dos seus donos, empregados podem ser desrespeitados porque estão recebendo para isso. Servir e receber um salário pode diminuir alguém quase até excluir sua humanidade, tudo em nome da premissa de que “o cliente tem sempre razão”. A dádiva e a troca exigiam cálculos difíceis e obrigações que nunca eram quitadas. Talvez esse fosse seu grande mérito – o exercício da gentileza e a consciência de que os laços entre os que vivem numa sociedade não devem ser desrespeitados.