Quase tudo, Danuza Leão

Eu segui meu próprio conselho e peguei uma biografia pra ler. Escolhi a da Danuza por dois motivos: ela escreve bem e foi mulher de Samuel Wainer, editor do jornal Última Hora, ex-reporter responsável pela reeleição de Vargas e inimigo de Chatô. Sobre esse assunto em particular, Danuza é vaga e conta que na época não tinha o menor interesse em política, que ela não tinha muita ciência do que estava acontecendo, porque sempre havia algo acontecendo. Por já conhecer a autora, o livro atendeu minhas expectativas: uma leitura leve, interessante, recheada de curiosidades e nomes famosos. Danuza fala dessas coisas sem se deslumbrar, como quem já viu de tudo. Tenta nos dar a entender que ela é uma mulher de sorte, que apenas estava no lugar certo e na hora certa. Mas com tantos convites, festas, novas carreiras e paixões, a gente conclui que ela é uma mulher interessantíssima e muito capaz.

O livro mostra um mundo da qual apenas ouvimos falar, onde as pessoas são importantes se conhecem, resolvem dar um tempo e passam meses em Paris, participam de acontecimentos históricos quase sem querer e ganham carros de presente. Mas mesmo a essas pessoas, a parte dolorosa da vida chega e o livro muda de tom quando Danuza enfrenta a morte dos que mais ama: seu pai, Samuel Wainer (a quem sempre esteve ligada, mesmo depois da separação), sua irmã Nara e seu filho Samuca. Aí a pessoa tímida que ela jura que sempre foi começa a aparecer e Danuza precisa se reconstruir. Será que é apenas aí que ela atinge a sabedoria ou algo já estava sendo gestado no meio a tantas festas?

À tarde, chega no meu hotel uma imensa caixa da Chanel, com o vestido mais lindo que já vi: a saia toda de pétalas de organdi branco, o corpete de tafetá preto; o cinto, apenas uma fita de cetim preto com um laço e uma camélia, um luxo. A partir desse momento, o concierge do hotel começou a me tratar muito melhor, cheio de sorrisos e salamaleques – sabe como eles são. E Lily (Marinho), que vai até o fim das coisas, me mandou, de quebra, seu colar de esmeraldas com os respectivos brincos e anel – emprestados, claro. Eu me senti uma princesa, e dei graças por ainda ter o mesmo corpo de quando era manequim, ou o vestido não serviria.
No baile, eu era a mais chique – ou uma das – , mas só eu sei o que passei. O medo de quem pingasse uma gota de champanhe no vestido me impediu de me divertir, e de dois em dois minutos eu botava a mão na orelha pra ver se o brinco não tinha caído. Nunca sofri tanto. Quando voltei para o hotel, tirei cuidadosamente a roupa – quase acomodei o vestido na cama e dormi no chão, para não amarrotar -, guardei as esmeraldas e fiquei olhando para todo aquele luxo. Lá no fundo talvez eu achasse que, o dia em que uma mulher vestisse um lindo vestido de Chanel e usasse esmeraldas, tudo mudaria, ela passaria a ser outra, mas a verdade é que nada muda e você volta a ser a mesma pessoa de antes. E pensei que, mesmo adorando essas coisas maravilhosas – que, aliás, adoro -, não vale a pena fazer nenhum tipo de conecessão para tê-las, pois, quando a festa acaba, nada disso quer dizer nada, e nenhuma festa dura para sempre.
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Apesar de ter encontrado outra forma de viver e se sentir mais equilibrada, o livro termina num tom de tristeza, de fim de festa. Apesar de admitir seus erros e suas plásticas, dá a impressão de que a sabedoria veio forçada, apenas porque os amigos e a fase interessante passaram. Em algum lugar, a verdadeira Danuza continua linda e casada com Samuel.