Os advogados contra a ditadura

Eu já ouvi que todos os que foram presos e torturados durante a ditadura “fizeram por merecer”. Sempre me pergunto que diabo de colégios são esses que não falam do golpe de 64 aos alunos, ou que ensinam o assunto de maneira tão ruim que há quem esteja convencido de que nossos presos políticos eram assassinos, terroristas e/ou (ironia das ironias) torturadores – e não apenas (em sua maioria) jovens que ousavam falar ou pensar algo diferente do que o Regime prescrevia. É nesse sentido que vejo muito valor neste documentário que conta a história de advogados perseguidos durante a Ditadura. Ele demonstram que o patrulhamento e a violência eram tais que apenas advogar  e auxiliar as famílias dos que tiveram parentes presos era motivo para também ser perseguido e torturado.

Imagem de Amostra do You Tube

Meu primeiro Borges

Tenho um certo problema com alguns livros, geralmente os muito bons e de autores consagrados: não tenho a menor vontade de escrever sobre eles. De um lado porque não gosto da idéia de bater na mesma tecla, de me juntar à fileira dos muitos elogios. De outro, fico com receio de falar besteira. Na internet tem muita crítica profunda, inteligente e abalizada – e esse número à enésima potência de besteiras. Minha humilde contribuição para uma internet menos pior é tentar não aumentar esse número tão grande. Parafraseando Romário, eu sem publicar nada seria uma poeta.

Desse modo, eu estava determinada a fingir que não terminei o meu primeiro Borges – O aleph. Não era para ser o primeiro. Tenho na minha diminuta (por opção) biblioteca pessoal Ficções, que ensaiei ler algumas vezes. Antes de escrever isso aqui, peguei o livro para ver onde tinha parado e foi no fim do Prefácio. Veja que complicada a obra, nem passei do prefácio. E o prefácio não é nem tão longo. Lembro que esse prefácio me cansou tanto, me deixou tão confusa e tão reverente à obra de Borges que fiquei desestimulada a atacar o livro propriamente dito. Em todos os lugares é assim: análises complicadas e reverentes, elogios rasgados, invejas e comparações onde outros autores sempre saem perdendo quando comparados com Borges. Já que tinha que vestir e me armar com as armas de São Jorge antes de ler um simples livro, deixava sempre para depois.

Encontrar sem querer uma edição novinha na biblioteca me fez decidir enfrentar a fera, e fiquei totalmente encantada pela primeira história do AlephO imortal. Não era possível que tão poucas páginas pudessem conter uma reflexão tão profunda sobre o que significa a morte e o tempo. Terminei O imortal com a impressão de que não precisaria ler mais nada. Aí avancei mais no livro e começaram a aparecer citações escolásticas, lendas, guerras, geografias e detalhes. Resultado: travei. Lembrei dos muitos Borges que citaram no meu caminho, senti aflorar meu complexo de inferioridade. Eu não sou a leitora que deveria ser. Em algum lugar do caminho intelectual a qual eu estava destinada, eu falhei. Sim, eu falhei. Sou experimentada demais pra me deixar seduzir por Cinquenta tons, mas não tenho a avidez e a paciência para ler Ulisses. Gosto de ler, mas também gosto de ver vídeos de gatinhos, acompanhar séries americanas e comer pão com manteiga; se eu começo um livro e a coisa se repete, ou não sei quem está falando, porque e pra onde a coisa está indo, bocejo até lacrimejar e o abandono sem dó. Desde que comecei a abandonar livros, virei abandonadora compulsiva: conquista-me ou abandono-te. Tô nem aí se o livro é famoso.

Confessei ao Milton, meu guru literario-espiritual, que não me sentia culta o suficiente para ler Borges, que ele citava umas coisas e eu não entendi lhufas. Aí o Milton me esclareceu que é assim mesmo, que Borges cita muitas coisas, inventa outras, passa por cultíssimo e nunca sabemos direito o que é verdade ou não. Ahhhh! Então, amigo leitor, aqui está a mensagem essencial deste texto: leia Borges mesmo sem ser culto porque pode ser mentirinha dele. Leia com o mesmo desprendimento de uma criança, que não se importa de conhecer tudo, desde que seja bem contado. E é.

Sobre o livro em si, cada história é um universo. Tem desde momentos deliciosos como “manejava com fluidez e ignorância várias línguas”, como detalhes pitorescos, viagens fantásticas, reflexões profundas sobre o homem, seu sentido e o universo. Achei a narrativa econômica, mas não à maneira de um Dalton Trevisan; é que cada história diz coisas demais num espaço pequeno, coisas que outro autor levaria um livro inteiro para dizer. Finalmente entendi porquê tantos elogios, fiquei pequena diante da genialidade de O aleph. E nada mais direi, porque a minha intenção é justamente querer torná-lo mais próximo.

Um depoimento sobre Niemeyer

Conta meu pai da época que ele morava em Brasília, em plena ditadura militar, que arrumaram um pretexto para processar o Niemeyer, afinal ele mais que incomodava o regime só por existir. A desculpa seria averiguar se havia enriquecimento ilícito sobre seus bens, uma vez que ele foi funcionário público e não poderia ter alguns imóveis que possuia à época só com o seu soldo. O ridículo da situação é de que, além de nunca ter sido rico e ostentar vários bens, a época ser funcionário público era compatível com exercer a profissão privadamente, coisa que só mudou após a constitução de 88. Ou seja, ele assinou inúmeros projetos Brasil afora. Assim, era meio notório que não havia desvio algum, era so pra encher o saco e o regime poder dizer que Niemeyer era suspeito de desvio. Durante o julgamento, quando inquirido como ele havia comprado uma casa no campo a época, diz meu pai que ele chocou todo mundo ao levantar indignado perante aquela palhaçada toda e responder, esbravejando com a mão pra cima: “Dando o cu! Eu comprei essa casa dando o cu, meus senhores!”. Foi o escândalo. Como meu pai repetia os mesmos casos e piadas para mim, que eu sempre ouvi pelo prazer de vê-lo contar, fato é que cresci ouvindo essa história e vendo meu pai dando risada cada vez que contava da coragem dele e da cara dos militares. Pra mim, ficou mais um exemplo que coleciono aqui comigo de como é necessário não calar perante as arbitrariedades (coisa que todos falam e poucos fazem), e que o humor pode sempre ser acompanhado da coragem. Valeu pelo exemplo de vida 😉
Depoimento de Ingrid B. Pavezi, no Facebook.