O desafio

Hoje é dia do desafio. Todo dia 25 de maio, as cidades são convidadas a conseguir o maior número de pessoas para realizar pelo menos 10 minutos de atividade física, seja ela qual for. Os SESCs costumam se envolver com essa campanha a promovem atividades físicas gratuitas o dia inteiro. De acordo com o site deles, o desafio de 2010 envolveu 20 países, representados em 3505 cidades. Mais do que uma competição entre cidades, o dia do desafio se propõe a estimular a prática de esportes, como forma de melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, que estão cada dia mais sedentários.

Mais sedentários, mais gordos, com mais problemas de saúde. A quantidade de campanhas, dicas, preocupações, especialistas, histórias de sucesso e publicações sobre o assunto demonstra o quanto é cada dia mais difícil se manter magro e saudável – termos que aparecem sinônimos mas não são. Há poucas décadas essa discussão não aparecia porque ser magro era o natural. Basta olhar fotos ou filmes mais antigos para perceber isso. Mesmo as pessoas consideradas gordas na época não o eram tanto assim, quando comparadas com os gordos de hoje. As pessoas não pensavam no assunto e não precisavam investir tanto esforço para se manterem magras.

O próprio estilo de vida das pessoas as mantinha assim. Além da nossa alimentação ser mais rápida, pobre e açucarada, a tecnologia nos cercou de conforto. Além dos grandes esforços que se deixou de fazer ao andar mais de carro e deixar de subir escadas, a tecnologia nos poupou de vários e pequenos esforços o dia inteiro: não é preciso lavar louça, não é preciso lavar a roupa e nem torcer, não é preciso sovar a massa de pão ou fazer qualquer tipo de massa, não é preciso fazer força para girar o volante ou abrir os vidros do carro, digitar não demanda a força que era necessária na máquina de escrever, basta apertar um botão para mudar de faixa ou canal. Quanto mais dinheiro se tem, menos esforço físico é preciso fazer para viver. Em outras palavras: esforço físico é coisa de pobre. A melhor crítica que vi a respeito da tecnologia do conforto foi no filme Wall-E (1:06):

Em contraste à tendência natural de engordar, nosso padrão de beleza está cada vez mais magro. Mas não a mesma magreza exibida pelas gerações anteriores, a magreza “natural”. A magreza que os padrões de beleza procuram nos impor é uma magreza “trabalhada”, de músculos definidos. Para chegar a ela, não basta resistir às guloseimas e comer alimentos mais saudáveis. Também não basta fugir do estilo de vida sedentário. É uma magreza buscada ativamente, que demonstra grande investimento no corpo – através de plásticas, alimentação rica em proteínas, uso de hormônio e muitas horas de academia. Especialmente nas mulheres, isso transparece em músculos hipertrofiados, fruto de muitas horas de academia.

Isso cria dois mundos separados, num onde o status está em tecnologia e comodidade, e outro onde a pessoa faz força tendo o corpo como único objetivo. A pessoa rica e bem empregada não fará, no ambiente de trabalho, mais esforço do que erguer mais do que uma pilha de papéis; na academia, ela levantará o maior peso que conseguir, repetidamente, só pra recolocará no lugar. Basta pensar que hoje em dia não há nada mais vergonhoso e constrangedor do que suar em público. Se acompanhado de cheiro, é causa de ostracismo. O ideal é nunca suar. Ver alguém suar, fora da academia ou do ambiente doméstico, é como partilhar de uma intimidade indesejada. Àqueles que têm tendência a suar muito, o mercado lhe oferece alternativas que vão desde desodorantes antitranspirantes fortes até operações.

Como apontou Elias, em contraste com o homem medieval que cuspia, suava, fedia, devolvia comida mastigada no prato e soltava todas as suas secreções em público, nos encaminhamos para uma civilização cada vez mais contida. É realmente um desafio cercar o mundo de comidas que engordam e se sentir obrigado a dizer não a elas, sob o risco de ficar fora dos padrões de beleza; buscar uma existência cada vez mais cômoda e sem esforço, mas valorizar o corpo musculoso e magro; existir, ser provido de corpo e sentimentos, e jamais deixar que eles transpirem em público.