Uma história curta e triste

Meu pai tinha um amigo, também engenheiro, que trabalhava com a esposa em uma usina nuclear. Parecia o emprego dos sonhos: eles tiravam férias quatros meses durante o ano, ganhavam muito mais do que a média salarial e se aposentariam cedo. Esse amigo se tornou o padrinho do meu irmão mais velho, o que me matava de inveja: além de eu não ter padrinho (meu irmão é o único filho batizado), o padrinho dele era legal e rico. Os filhos estudaram nos melhores colégios e herdei de uma das filhas o vestido rosa mais lindo que usei durante a minha infância. Lembro dele dirigindo um carro de câmbio automático em plenos anos 80. Meu pai teria ido trabalhar lá se pudesse. Mas o tempo se encarregou de mostrar que não havia nenhuma bondade do que a empresa lhe oferecia. A esposa do padrinho morreu muito jovem, provavelmente de câncer, e o corpo dele não demorou a sentir os efeitos. É como se ele tivesse envelhecido depressa. O carro de câmbio automático era porque ele, já aos quarenta anos, não tinha força no braço o suficiente pra dirigir um carro comum.

Eu me lembrei dessa história quando vi o desastre no Japão. Me sinto bem retratada no texto do Farinatti, então apenas os convido a lerem. Acho que ele expressa bem o sentimento diante do que está acontecendo lá, a ironia desse destino que os liga a desastres atômicos. Lembro também do texto do Charlles, testemunha ocular do que aconteceu em Goiânia no episódio do Césio 137. Ao mesmo tempo, as notícias nos mostram o comportamento exemplar do povo japonês. Em nenhum outro lugar do mundo veríamos essas coisas. São muitas lições a serem aprendidas num só episódio.