Uma teoria pessoal sobre moda

Antes, uma historinha: Uma amiga minha, recentemente, estava na sauna do clube Curitibano. Para quem é de fora, o clube Curitibano é o clube mais fresco e tradicional da cidade. Ela estava reclinada com uma toalha em cima dos olhos, o que dava aos outros a impressão de que estava dormindo, mas por debaixo da toalha ela via tudo o que estava acontecendo. Entrou na sauna uma mulher com roupa de ginástica, que provavelmente havia saído da musculação. Era uma mulher bonita, por volta dos seus quarenta anos, cabelo loiro-comprido-liso e conjunto de ginástica colorido. Ok. Aí à medida que a mulher foi tirando a roupa, minha amiga não acreditou no que estava vendo: por debaixo da roupa de ginástica, ela estava com um modelador. Não, ela não havia feito plástica recentemente – era apenas para ficar bem dentro da roupa de ginástica.

Eu vivi os anos 80, vi videos dos anos 70 e agora estou viciada em Downton Abbey e, por incrível que pareça, encontrei algo similar em todas essas modas. Ou, dito de outra maneira, vejo mais semelhanças nos charmosos vestidos de Downton Abbey e as ombreiras que usei na infância do que com o que vestimos hoje. Pense comigo: antigamente os corpos eram mais parecidos. Mesmo se pensarmos que a gordura foi mais valorizada em uma época do que outra, não era tanta gordura assim. As diferenças de peso não variavam pra muito mais de cinquenta quilos, não com o que se comia naquela época, não sem as facilidades que a tecnologia nos oferece. As crianças gordinhas da minha infância hoje nem seriam consideradas gordinhas. A diferença entre as classes, dentre outras coisas, era bastante demarcada pela roupa. A roupa e seus detalhes, tecidos diferentes, costuras e caimentos eram extremamente elaborados. O corpo que havia dentro delas variava muito pouco.

Hoje estamos num padrão de beleza tal, que é impossível chegar a ele sem um investimento pesado de tempo e dinheiro. O tal corpo de academia, com a barriga negativa, a coxa enorme e o peitão não são o corpo de ninguém, não se nasce daquela forma e em nenhum momento da vida o corpo se encaminha para aquela forma. O “corpão” é resultado de alimentação com suplementos e restrições, horas de treinamento específico e diário na academia e cirurgia plástica. Tudo isso numa época em que ser simplesmente magro, como éramos antigamente, já é difícil. Tudo – o avanço da tecnologia, a vida sedentária, alimentos industrializados, medicalização – contribui e nos levou a uma epidemia mundial de obesidade.

Por outro lado, nossas roupas estão cada vez mais simples: um nada de um tecido que estica preso a duas costuras laterais e já temos uma roupa. Sem dizer que a China copia rapidamente e vende a versão barata do que apareceu ontem na loja cara. São roupas que tem um desenho, cuidado e caimento mínimos. Elas esticam. Tudo porque, na verdade, elas não são importantes. O caimento é o corpo, e não a roupa. Mortais comuns ficam horríveis nelas, que de tão coladas exibem com crueldade qualquer “dobrinha”. Não tem sentido cobrir de tecido, volume e curvas um corpo que sofreu tanto investimento. O corpo, sua magreza, seu silicone e suas plásticas é que são ostentados.

Escrita e dinheiro, por Ubaldo Ribeiro

Duas razões me fizeram incompetente em matéria de dinheiro. A primeira vem da profissão, pois a opulência não costuma acompanhar as letras. Lembro de um outro escritor, respondendo sobre se livro dá dinheiro. “Dá, sim”, disse ele, “Contanto que não se seja o escritor”. E, de fato, tenho na memória viagens com editores e escritores, aqueles na primeira classe, estes na econômica. Volta e meia, um editor aparecia para ver os escritores. Que inveja da nossa criatividade, da glória, da liberdade do artista – ah, se pudesse estar ali conosco, em vez de aguentar os chatos lá da frente, mas, sabe como é, noblesse oblige, que é que se pode fazer? E voltava entristecido para sua poltrona palacial, seu champanhe e seus menus premiados, deixando-nos com nossa glória, nossa cerveja morna, nossos sanduíches ressequidos e nossas aeromoças tão doces de trato quanto um sargento dos Fuzileiros Navais.

Educação Financeira, p. 43. In: Um brasileiro em Berlim

 

(Caso tenha ficado curioso, o outro motivo é o fato de ser brasileiro.)

Os manuscritos do mar Morto

A passagem do mar Morto é monótona, opressiva e medonha. Completamente impessoal. Uma paisagem sem fisionomia: as formas das colinas não sugerem rostos de deuses ou de homens, nem corpos de animais deitados. “Só o monoteísmo podia resultar disso”, falou um amigo meu, que conhecia a Palestina. “Em lugar nenhum há uma brecha para uma ninfa”. A relva da primavera começa a murchar – minha visita ocorreu no início de abril – e parecia um bolor esverdeado sobre pães imensos. De um marrom amarelado e frio, uma cor escura sem a riqueza da sombra, esses montes também se assemelhavam – foi a única imagem viva que me ocorreu – às corcovas dos camelos que ali pastavam, amarelos, sem brilho, desajeitados, tendo ao seu lado a cria de um branco sujo. Um rebanho de cabras pretas salpicava uma encosta. Cá e lá, sozinha no vazio, uma beduína, acocorada e imóvel, que parece tão atenta como uma pedra, vigia um camelo ou uma cabra; e passamos por alguns poucos abrigos dos beduínos, negros e rasgados, que bem poderiam ser as velhas tendas de Abraão.

p. 44

Grande parte do que conhecemos sobre os Evangelhos são traduções de traduções, versões escritas muito depois da época de Cristo e que nos fazem adivinhar quem seria essa figura que influenciou a história de maneira definitiva. Então, descobrir fragmentos inéditos que falam de seu período histórico e lancem luzes sobre quem ele seria e que influências sofreu seria ótimo, algo a ser comemorado e acolhido por todos, certo? Errado. Em Os manuscritos do mar Morto, Edmundo Wilson mostra o impacto e as dificuldades que surgiram em decorrência de surgimento desse novo material.

O que é realmente interessante no livro é a maneira como os manuscritos incomodaram. Como Edmund Wilson diz, a ciência estava acostumada com um certo número de informações e – por mais que elas tivessem lacunas – tudo a respeito do material existente já estava escrito e as teorias formuladas. Os manuscritos foram um problema para os primeiros que reconheceram seu valor, que tiveram que lutar contra o descrédito, encontrar especialistas, enfrentar acusações de charlatanismo. Depois de reconhecidos, os manuscritos geraram disputas entre países, acadêmicas e financeiras. Os manuscritos tratam, principalmente, grupo chamado de essênios e que seriam a ponte entre o judaísmo e o futuro catolicismo; isso gerou disputas religiosas e desagradou tanto católicos quanto judeus. Até o autor, Edmundo Wilson, ao escrever as primeiras reportagens que deram origem ao livro, também acabou sendo alvo de interesses religiosos e disputas de ego.

Quem está de fora poderá perguntar aos católicos: se Cristo tinha uma identidade humana como Jesus de Nazaré, que numa época e lugar definidos, enfrentou o sistema judaico e a ocupação romana, por que seria chocante supor que Ele tivesse colhido algumas de Suas idéias teológicas dos mestres das seitas do mar Morto, hoje identificados em geral com os essênios, da mesma forma que presumivelmente aprendera carpintaria na oficina de José, ou que alguns de seus ditos e ações possam representar um repúdio a esses mestres? Um católico inteligente e culto por certo não se perturbará – pois sabe que seu Cristo apareceu em determinado momento, numa situação histórica especial – ao descobrir que certos elementos desse contexto agora se tornam mais distintos. Entretanto muitos católicos – como muitos membros de qualquer grupo religioso – não são inteligentes e cultos. Tentar preencher com mais fatos históricos o contexto humano da trajetória de Cristo equivale a correr o risco de enfraquecer a lenda que o populacho ignorante adora e não deve questionar para que a Igreja mantenha a sua autoridade.

p.119-120

Mais do que dos essênios, Os manuscritos do mar Morto conta uma história do conhecimento, da dificuldade em aceitar mudanças, dos mecanismos políticos envolvidos, do efeito duradouro que pessoas específicas têm na ciência. A primeira parte do livro trata dos momentos mais imediatos à descoberta dos manuscritos. Nas partes seguintes, com os manuscritos reconhecidos, Wilson fala do impacto que eles tiveram na vida de várias pessoas, no que foi construído em volta deles, dos limites exteriores e políticos. Além disso, visita o estado de Israel e discute religião. É um meta-livro que conquista até quem não está nem aí pra religião.

Dádiva, dinheiro e serviço

O dinheiro é um substituto da troca, um facilitador. Se trocarmos mercadorias diretamente, como saber que quantidade de uma equivale à outra – um quilo de farinha corresponde a quantas roupas? Isso sem dizer que uma roupa não é igual a outra roupa… Temos que avaliar o tempo de produção, a raridade do produto, seu grau de necessidade. Tudo isso apenas para definir valores. Mas a troca tem um aspecto subjetivo ainda mais difícil de ser avaliado. É desse valor subjetivo que nos conscientizamos com o clássico Ensaio sobre a dádiva, de Marcell Mauss, de 1950, e ainda tão atual. Ele lança luzes sobre o contexto da troca de colares tradicionais – kula -, entre os Trobiandi, descrito por Malinowski em Argonautas do Pacífico Ocidental (1922). Eram colares de concha enormes e muito valiosos, que não eram feitos para serem usados, apenas para serem trocados. Estar com a posse temporária de um desses colares conferia status ao seu dono. Só que o repasse dos colares envolvia um complicado cálculo de influências: quem decepcionar, que alianças reforçar ao repassar o colar, a que expectativas corresponder?
A partir daí Mauss formula três princípios que norteam a dádiva, não apenas a dádiva dos Trobiand, qualquer contexto de dádiva:

1- A obrigação de dar
2- A obrigação de receber
3- A obrigação de retribuir.

Qualquer um que já esteve envolvido em trocas, presentes ou favores se sentiu dentro dessas regras. As relações entre os que oferecem e os que recebem algo nunca é de indiferença. O ato de dar não parte de uma espontaneidade vazia; quem oferece às vezes se vê compelido pela sua posição, datas ou acontecimentos específicos. Uma vez iniciado o processo, a pessoa que dá fica numa posição de superioridade com relação àquela que recebe. Quem recebe se vê na obrigação de receber, porque recusar um presente é uma ofensa muito grave. Ao mesmo tempo, receber o coloca em dívida. Até que essa dívida seja paga, ele tem para com aquele que lhe ofertou uma ligação, onde fica em posição de inferioridade. A balança só é reequilibrada quando a pessoa finalmente consegue retribuir. Mas a retribuição também envolve um cálculo: ela deve ser maior do que foi recebido. A retribuição não corresponde diretamente ao valor do que foi dado inicialmente, porque a passagem do tempo faz com que essa dívida cresça, faz com que o outro fique mais tempo numa posição de poder. Então a retribuição é superior ao que foi ofertado inicialmente para compensar e inverter a situação. Aí quem havia recebido passa a ser o doador, o que pode alimentar esse ciclo indefinidamente.
A entrada do dinheiro foi uma maneira de tentar igualar de maneira definitiva essas relações – sem vestígios, sem vínculos. As coisas passam a possuir um valor financeiro independente dos envolvidos na troca. Produtos diferentes encontram uma base em comum – trigo e roupas não precisam mais ser comparados entre si, eles são comparados com o seu valor em dinheiro. Os juros acrescidos com o tempo continuam, mas tem seu valor medido de forma exterior, pela inflação do período ou alguma taxa qualquer. Principalmente: não há uma dívida simbólica, não há necessidade de medir influências e se tornar ligado àqueles com quem trocamos. O outro nos oferece um produto e lhe damos o correspondente em dinheiro, e isso é tudo. Pelo menos, essa é a maneira como gostamos de ver as coisas.
Seguindo uma linha de raciocínio totalmente diferente, chegamos no que os marxistas chamam de coisificação das pessoas e personificação das coisas. As relações que o dinheiro proporciona excluíram de tal maneira a sociabilidade das relações, que pagar ou comprar algo parece conferir qualquer tipo de liberdade. Animais podem ser maltratados porque são posse dos seus donos, empregados podem ser desrespeitados porque estão recebendo para isso. Servir e receber um salário pode diminuir alguém quase até excluir sua humanidade, tudo em nome da premissa de que “o cliente tem sempre razão”. A dádiva e a troca exigiam cálculos difíceis e obrigações que nunca eram quitadas. Talvez esse fosse seu grande mérito – o exercício da gentileza e a consciência de que os laços entre os que vivem numa sociedade não devem ser desrespeitados.