Profissional da ajuda

Há quem brigue comigo quando descobre que sou formada em psicologia e optei por não exercer. É como se eu fosse um padre que abandonou a batina. Comparar meu abandono da psicologia com um sacerdócio faz sentido porque as pessoas que costumam brigar comigo, coincidência ou não, são ligadas a crenças religiosas ou místicas. Para elas, a psicologia é uma grande oportunidade de ajudar o próximo, um karma grande e nobre a ser queimado, e deixar isso de lado é esquecer do propósito mais alto que deveria reger minha vida.

Estava tendo a última conversa com aquele espírita, que seria a última justamente por ele não aceitar minha posição. Ele estava tentando me convencer a ser psicóloga. Eu aleguei falta de vontade, de vocação, descrença e todos os meus motivos. Muitos argumentos depois, ele então aceitou que eu não quisesse viver disso – mas então que eu fosse psicóloga num serviço voluntário, meia hora que fosse, uma vez por semana? Tive que concordar que isso era razoável (nós nos conhecemos justamente num serviço voluntário). Aí eu lhe apontei a questão legal, que eu não tenho e nunca tive CRP (registro no conselho profissional), e que seria ilegal me apresentar como psicóloga. Aí ele me disse que se eu me oferecesse a uma instituição, e pedisse a essa instituição me pagar apenas o correspondente a esse valor do CRP, para ir lá conversar, que seja, meia hora por semana com um menor de rua. Aí eu levantei a questão:

– Não tenho nada contra fazer esse serviço voluntário, mas porque eu precisaria me apresentar como psicóloga pra isso? Não bastaria eu chegar lá, eu mesma, com o conhecimento que tenho e conversar com o menino? Por que eu teria que fazer isso me apresentando como psicóloga, de crachá e de guarda-pó? Faz tanta diferença assim?

Pra ele fazia. Ele não soube explicar o porquê, mas continuou insistindo que eu deveria ir como psicóloga. Eu acho que o que ele mesmo não soube explicar é o poder do guarda-pó, do diploma, das instituições. Ele acreditava que tudo isso daria um peso às minhas palavras que normalmente elas não teriam. Talvez fosse muito mais isso do que eu, como pessoa, que pudesse ajudar o tal menino. Pessoalmente, discordo dessa posição. Acho que temos nos iludido demais com diplomas, com capacitações, com currículos. Isso é confundir forma com conteúdo, é confiar mais no certificado do que na coisa em si.

Porquê história, por Hobsbawm

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa existência pessoal às gerações passadas – é dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca no fim do milênio. Por esse motivo, porém, eles têm que ser mais do que simples cronistas, memorialistas e compliadores.
A era dos extremos, p. 13

Quando li esse trecho, lembrei imediatamente da discussão sobre porquê saber datas históricas. Se a própria história mudou, se perdeu muito de suas pretensões, por que ainda é importante conhecê-la? Já a idéia do presente contínuo da nossa época, é entendida de maneira menos antipática (e não como a eterna crítica que “os jovens de hoje perderam os valores” que toda geração faz as que lhe são posteriores) se levarmos em conta as discussões de Bauman – a falta de enraizamento e a eterna necessidade de se reconstruir, possibilitadas pela vida on line, dão ao sujeito a sensação de liberdade total sobre quem ele é. E, por consequencia, a ilusão de autonomia sobre o passado.

História sem régua

Minha sogra era professora primária e era dia 26 de abril quando estavamos almoçando lá. Ela perguntou à neta, de 14 anos, que data importante era aquela. 26 de abril? Eu sabia que o descobrimento do Brasil era 22 de abril, e pra existir um 26 de abril, concluí que aquela era a data da celebração da primeira missa. A sobrinha do Luiz não fez todos esses cálculos, e começou a chutar datas aleatórias – “Dia da independência do Brasil? Dia da descolonização do Brasil?” Descolonização? Minha sogra ficava doida. Contou que era o dia da primeira missa e perguntou quem a havia rezado. Outra negativa. Todos os presentes – eu, o Luiz, minha cunhada e meu sogro – sabiam as respostas. Depois o Luiz me explicou que a mãe dele sempre fica louca da vida em perceber que a neta é muito ruim em datas.

Eu não soube o que pensar. Não sei o quão importante é lembrar das datas, se faz mesmo diferença saber que foi em 1888 que foi assinada a Lei Áurea e outros tantos números que tenho guardados na minha cabeça. Acho que todos já recebemos um e-mail dizendo que há anos atrás as questões eram mais rigorosas, que o aluno de hoje mal precisa pensar para responder uma prova. Desse ponto de vista, o fato de não lembrar das datas seria o indício de algo maior, de que os alunos de hoje aprendem menos do que o básico. A impressão que eu tenho é de que certas discussões acadêmicas acabam chegando de maneira estranha – talvez o termo certo seja empobrecida – às salas de aula. Hoje a História, na academia, tem procurado abandonar o modelo cronológico que a dominou durante séculos, o que mesmo que me foi ensinado: o da história progressiva, um grande modelo explicativo da humanidade. Aquela história que estudava as Eras, que se preocupava em dizer se foi a Revolução Francesa ou a Primeira Guerra Mundial que nos fez deixar de ser Modernos para nos tornarmos Contemporâneos. Para esse modelo, era essencial conhecer as datas.

Filhos dessa auto-crítica histórica estão abordagens muito interessantes, que trazem uma maneira nova de olhar o que já parecia explicado, ou que lançam questões inovadoras sobre o passado. Ao invés da história dos grandes estadistas, hoje brotam livros que falam das pessoas comuns, de como viviam e pensavam aqueles cujos nomes ninguém nunca se interessou em saber. Nem todo recorte precisa ser feito por países, reinados ou guerras; podemos nos perguntar da concepção de morte, amor, higiene, infância e tudo o que faz/fez parte das nossas vidas. É uma história que nos torna mais próximos dos que nem conhecemos, que nos mostra que mentalidades ainda resistem, o que mudou, o que é radicalmente diferente da maneira como gostamos de nos entender. Meu amor pela história se renova quando leio livros assim. Quando falamos em mudanças de mentalidade, a data se torna uma questão menor. Podemos acompanhar o movimento e dizer quando ele parece ter se estabelecido, mas não é possível afirmar quando, onde e nem porquê.

Não me arrisco a dizer se essa nova geração não sabe a data da Proclamação da República (15 de novembro) mas sabe o que ela significa, ou se nem é importante saber o que é Proclamação. Sei que aos olhos mais cronológicos, é como se a história estivesse se desfazendo.