As tais Frenéticas

as tais freneticasComo avisam o doutor Drauzio Varella no prefácio e a própria autora na introdução, o livro As tais Frenéticas – eu tenho uma louca dentro de mim é sincero e despretensioso, o que não quer dizer que seja desinteressante. As Frenéticas dispensam apresentações: foram e conviveram com os maiores nomes da música brasileira no anos 70. Quem conta os inúmeros causos é a ex-Frenética Sandra Pêra, irmã de Marília Pêra, ex-cunhada de Nelson Motta, mãe de uma filha de Gonzaguinha, ex-colega de apê de Ney Matogrosso, e por aí vai… É um livro cheio de fotos, com capítulos curtinhos e mais ou menos cronológico. A gente senta pra dar uma olhadinha e não consegue largar mais.

As Frenéticas começam de uma maneira tão improvável que parece conto de fadas: Nelson Motta recebe a proposta de agitar uma casa noturna que seria demolida em poucos meses, convida sua cunhada atriz, que convida amigas também atrizes e cantoras. “Regina também lembrou de Edir de Castro, recém separada de Zé Rodrix, com uma filha pequena, a Joy, ainda abalada com a separação e precisando trabalhar para vida ficar bacana. No dia seguinte lá estavam as duas, prontas.” Elas serviriam mesas e por volta da meia noite, cantariam algumas músicas em cima do balcão. Elas foram atrás das gorjetas, só queriam um emprego temporário. O Dancing virou febre, elas entraram em contato com seus ídolos (“Alguém pode imaginar o que é ter Gal Costa te vendo cantar? Caetano? Não, ninguém pode”) e durante os primeiros anos, tudo o que tocavam virava sucesso. E o sucesso, visto por dentro, é muito menos glamouroso do que se pensa. Sandra fala das viagens cansativas, de ganhar pouco, das drogas – mas aviso que seu olhar nada tem de amargo. O sucesso é mostrado como apenas um pedaço da vida, algo que acontece junto picuinhas, amores, família e pequenos momentos de felicidade.

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Não lembro precisamente a data, mas foi durante a primeira saída do Rio. Era um festival de rock, um camping pop em Belo Horizonte. Vários artistas se apresentaram, me lembro da Gal, do Joelho de Porco e de várias outras bandas. Quando chegamos, o tumulto já estava armado. O Joelho de Porco tinha acabado de se apresentar e, durante o show, alguém tentou subir no palco e foi impedido, acho que de forma meio bruta, pelos seguranças. Então outros também começaram a subir no palco. Houve confusão e ouvíamos mil histórias, que não sei quem caiu no palco, que quebraram não sei que aparelhagem, que alguém havia ido parar no hospital. Enfim, fomos para o palco depois de muita espera e tensão. O som era de sétima qualidade. Os microfones não funcionavam. Por causa disso, cometemos mil erros, pois não nos ouvíamos direito, mas arrebentamos com nossa energia. Não entendo até hoje como o público muitas vezes não percebe, não ouve ou não liga para os deslizes que às vezes são cometidos pelos seus ídolos enquanto cantam.

A noite estava linda! O céu coalhado de estrelas, um vento totalmente à favor, gostoso. Eu, para variar, banhada em suor. Meu cabelo era imenso, todo molhado, era como se eu tivesse lavado a cabeça. Estava meio em êxtase, mas aflita com aquela aparelhagem sem retorno, com medo de estar cantando mal, quando, de repente, no meio de uma canção, vi uma estrela cair do céu! Fiquei louca! Era a primeira vez na vida que eu via uma estrela cadente. Tentei mostrar às outras, não consegui. Ela caiu só pra mim. Riscou o céu inteiro enquanto eu cantava. Eu pensava: é sorte, Sandra, é sorte.

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Por falar em amores, meu sentimento final ao ler o livro foi de tristeza. Não pelo fim das Frenéticas, que logo no começo a autora deixa claro que sabia que não durariam para sempre. Eu me senti triste pela morte de Gonzaguinha, descrito com tanta doçura que é impossível não ficar apaixonada. Não sei se de maneira consciente ou não, a maneira como a história é construída faz dele o grande protagonista. Quando Sandra volta do fim do Dancing e ouve seus discos, quando ele a encontra apavorada no avião, quando oferece às Frenéticas a música Feijão Maravilha… Gonzaguinha é aquele amor que está à espera enquanto Sandra está ocupada demais curtindo, crescendo. Um dias eles se encontram, prontos, e desse grande amor nasce uma filha. Dá vontade de acreditar que vão ser felizes para sempre. No fim do livro, numas das últimas fotos, Gonzaguinha está com a filha nas costas, lindos. Fica a sensação de que aquela festa em que vale tudo acabou em algum lugar dos anos 80.

Alguns problemas sobre as drogas

A questão das drogas está novamente na moda, e é muito difícil discutí-la. É difícil saber definir o que são drogas – é o que causa viagem? É o que cria dependência? É o que causa prejuízos sociais? Existe a questão do que preenche os requisitos e é legalizado, enquanto outras substâncias podem causar efeitos menores e são proibidas. Nesse ponto, vemos a questão da tradição – o que estamos acostumados a consumir e considerar inocente – e de toda uma indústria que existe e lucra com o consumo de algumas coisas. Existe a questão da dosagem, do quanto é necessário consumir para os efeitos serem negativos. Há a discussão sobre a capacidade do indivíduo de se negar, ou caso ele opte por não se negar, sobre a sua capacidade de não se viciar. Nesse ponto entra a questão do livre arbítrio, do quanto é possível informar e do quanto esse nível de informação torna o sujeito responsável por suas ações. O que ninguém nega é a existência do vício, seus prejuízos, e que é muito mais salutar para a sociedade diminuir (ou anular) a quantidade de indivíduos químico-dependentes. Ou seja, que a droga é um mal.

Por ela ser um mal, fazemos campanhas de combate às drogas, acreditamos que adolescentes entram no mundo das drogas por causa das más companhias. Que às drogas cabe dizer não, porque é possível entrar num caminho sem volta. Os que conseguem sobreviver nos relatam o inferno que suas vidas se tornaram, a perda de tudo que lhes era importante e o difícil caminho da reconstrução. Caminho esse que geralmente envolve uma conversão religiosa. Do Estado esperamos repressão total – entendemos ações violentas como parte do processo e condenamos quando se mostra fraco diante do poder do tráfico. Nessa luta do bem contra o mal, a alternativa de descriminalizar o uso soa a alguns como uso indiscriminado, aprovação e compactuação com o vício. Como se de alguma forma fosse preciso dizer sempre não, que a única alternativa moralmente correta seja a de proibir – qualquer coisa diferente disso seria imoral. Parece que o Estado assume o mesmo dilema dos pais no que diz respeito às coisas erradas: impedir o acesso até chegar à maturidade ou deixar conhecer sob a sua supervisão? Essa demonização também merecia ser revista, o quanto ela impede ou serve de estímulo para o que queremos evitar.

A questão das drogas me parece um exemplo dramático da dificuldade de escolher (ou conciliar) as duas éticas weberianas: a ética da convicção e a ética do esclarecimento. Proibir as drogas está de acordo com nossas crenças de que elas são nocivas, perigosas, más. Na ética da convicção, ao colocarmos as drogas como poderosas e ruins, entendemos que o melhor é impedir seu acesso, formar aparelhos repressores físicos e morais para impedirem os indivíduos de consumi-las. Na ética do esclarecimento, nos apoiamos nos dados que apontam o fracasso continuado das campanhas, reconhecemos o uso, a vontade de experimentar e que talvez seja inevitável que alguns trilhem um caminho de auto-destruição através delas. Apesar de reconhecer nela um mal, agimos de maneira a evitar que o uso de drogas se associe à violência, clandestinidade e doenças. E pra isso permitimos algo, com o pressuposto de que seria usado de qualquer forma. Como Weber aponta, nenhuma das duas éticas é melhor do que a outra e nem funcionam de maneira absoluta. Encontrar a maneira de conciliá-las, de maneira a causar o menor dano possível, é o grande desafio.