Sapiens e Homo deus, Yuval Noah Harari

Na ciência – e quem sabe na vida – as perguntas costumam ser muito mais importantes do que as respostas. Para quem leu o Guia dos Mochileiros das Galáxias, a ideia é representada pelo número 42. Numa visão estritamente pessoal, posso dizer que livros menos ambiciosos costumam dar mais certo do que os que se propõem a muito. Basta tentar ler manuais que resumem todas as escolas de psicologia ou filosofia, ou que tentam contar a história do Brasil para vestibulandos em pouco mais de cem páginas. Na prática, é um apanhado de dados que falam muito pouco a quem já não tem conhecimento prévio do assunto. Por isso a minha suspeita quando soube que Yuval Harari se propunha a escrever uma história da humanidade. Aí, logo nas primeiras linhas de Sapiens: uma breve história da humanidade, ele deixa o leitor sem fôlego ao ir do maior para o menor quando fala do campo de estudos da física, química, biologia e história. O que torna o seu livro excelente e único é sua proposta, a pergunta: qual caminho tornou o Homo sapiens a espécie dominante da Terra?

Harari retoma o conceito de espécie – por isso o nome Sapiens – ao falar de humano, e isso é parte fundamental da sua abordagem. Ele relembra que houveram outros Homoaustralopithecos, neanderthais, soloensis, erectus -, que Homos coexistiram e que o sapiens ser a única espécie não é, por si só, sinônimo de ser melhor. Ao retomar as diversas escolhas feitas pelo Homo sapiens, Harari fala de suas vantagens e desvantagens, relativiza o que nos parecia um caminho inevitável e até mesmo desperta uma certa nostalgia de quando éramos caçadores-coletores, estes sim muito mais saudáveis e harmônicos com o meio em que viviam. Já adiantando o raciocínio dos livros, o caminho do Homo sapiens que Harari descreve é de um crescente descolamento da natureza, que faz com quem o sapiens nem ao mesmo se reconhece mais como um animal. E a maneira como o sapiens olha para si mesmo (o livro fala muito de ilusões intersubjetivas)  acaba interferindo em todo ecossistema.

O surgimento da ciência e da indústria modernas trouxe consigo a revolução seguinte entre homens e animais. Durante a Revolução Agrícola, a humanidade silenciou animais e plantas e transformou a grande ópera animista num diálogo entre o homem e os deuses. No decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou-se em um one man show. O gênero humano estava sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser. (Homo deus/ 2. O antropoceno – Quinhentos anos de solidão)

O livro Sapiens se propõe a descrever as três grandes revoluções do Homo sapiens: Cognitiva, Agrícola e Científica. Quando Harari trata das duas primeiras evoluções, muito antigas e quase desprovidas de história – no sentido de registro – o livro une uma série de dados de maneira primorosa, insights originais e aquela sensação de que suas explicações são completas, simples e “puras”, que não há outra maneira de explicar o passado. O primata se levanta, usa as mãos, altera a postura de uma coluna que não estava adaptada, diminui o espaço para a saída de bebês que nascem prematuros. E a imaturidade dos bebês fazem com que não saiam como cerâmica prontas do forno e sim como vidros – maleáveis, adaptáveis, mais cultura do que biologia. Para o que não há explicação razoável, como a escolha pela agricultura ou constante dominância do sexo masculino sobre o feminino, Harari levanta várias hipóteses sem escolher nenhuma, para deixar claro que não há explicação satisfatória comprovada. Quando se apela para explicações que partem de fósseis e instrumentos de pedra, há uma tendência a explicações biologicistas e um grande desprezo intelectual pelos nossos antepassados. Como historiador, ele passa bastante longe disso:

Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidades. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.

A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também, natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido que a velocidade da luz, ou que os elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros. (Sapiens: uma breve história da humanidade/ 7. Sobrecarga de memória – Ele e ela)

Quando fala da Revolução Científica, por ela ter apenas quinhentos anos, Harari começa a desenvolver seu raciocínio e Homo deus: uma breve história do amanhã é uma consequência clara das discussões finais de Sapiens. Quando chega no homem atual, o autor começa a bater e com força. Superadas os três grandes flagelos da espécie – fome, pestes e guerra – a agenda humana se debruça sobre novos objetivos, que são a busca pela felicidade, imortalidade e divindade. Mas, retomando ao seu argumento inicial, Harari relembra que se conceber como superior aos animais, às plantas e ao resto do planeta não torna isto verdade. Que o homem tem agido como uma criança irresponsável, fechado os olhos para o sofrimento que causa (num trecho de Sapiens ele diz que, ao contrário de outras ideologias que matam por ódio, o capitalismo mata por indiferença) aos animais, e que o mesmo argumento de justificar sua violência por superioridade pode se voltar contra ele quando o sapiens se tornar obsoleto. A descrição que Harari faz das capacidades dos animais e o sofrimento intenso a que são submetidos apenas para nossa satisfação à mesa, levam à conclusão que o veganismo é o mínimo que se pode fazer para ajudar. Ele mesmo é vegano.

Só que o isolamento do sapiens, conforme Harari projeta, tende a uma radicalização tal que passará a ser até dentro da espécie. O avanço da tecnologia capaz de prolongar a vida humana e aumentar nossa capacidade com o uso de inteligências artificiais não é estendido a todos. Enquanto uns serão amortais, outros não terão função dentro do sistema e serão descartados. Só que quando o livro fala do perigo de um Homo deus que se priva e se aproveita dos seus irmãos sapiens, não consigo deixar de pensar que o autor vem de um país muito mais igualitário. O que ele vê num o futuro me parece bastante aqui e agora, senão pelo avanço da tecnologia, pela pura e simples diferença no acesso à cultura. As diferenças de classes no Brasil são tão gritantes que duas pessoas que nunca se viram, trancadas durante poucos minutos numa mesma sala, já são capazes de adivinhar com uma grande probabilidade acerca as origens uma da outra. Nossas diferenças de classe são mais sofisticadas do que uma mera diferença racial – elas invadem o tipo físico, as roupas, a maneira de gesticular, de se portar, de olhar. A linguagem falada é diferente e escrita ainda mais. Criamos tantos e tão sofisticados códigos que o indivíduo não consegue, conscientemente, dominar todos – com isso a mobilidade social se torna cada vez mais difícil. E é essa falta de domínio dos códigos padronizados pela elite cultural e econômica que serve de justificativa para a manutenção de privilégios; os outros são burros, não sabem votar, são manipulados, precisam ser protegidos de si mesmos, não precisam de quase nada.

Ao mesmo tempo que demonstra o quão fenomenal o que conseguimos como espécie, as projeções que Harari faz estão muito mais para distopias. Ele alerta que quando fala na busca por eternidade, felicidade e divindade está apontando tendências, o que não quer dizer que as aprova. Sua ambição é, tal como aconteceu com o marxismo, que a própria leitura dos seus livros influencie o futuro e faça com que ele não aconteça da forma prevista. Se levarmos em conta que os livros são best sellers mundiais e lidos por gente como Barack Obama e Mark Zuckberg, quem sabe seja possível.

Dois grandes problemas das minorias

O livro Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade é daquelas referências que todo mundo deveria ter, especialmente aqueles que se identificam e lutam por qualquer minoria. Não apenas por colocar em palavras o que se sente na pele – por que se uma mulher ou um negro ou um gay comete um erro, ele repercute de maneira tão grande? – mas também por trazer insights que podem surpreender até os ativistas. Pelo menos foi isso o que eu senti quando o livro afirma que não é a diferença que define o preconceito, e sim que a eleição da diferença dá vazão a um desejo prévio de excluir. O grupo mais forte cria para si uma ideologia que atribui a si próprio todo carisma e vantagens sociais; aos diferentes são creditadas todas as desvantagens, que mais tarde adquirem status de diferenças étnicas, raciais, sexuais, etc.

Esse argumento, aparentemente tão radical e difícil de provar, surge quando Elias & Scotson tem a oportunidade de estudar o surgimento de dois bairros de trabalhadores num povoado industrial da Inglaterra, denominada (nome fictício) de Winston Parva. De acordo com dados relativos à renda, educação ou ocupação de seus habitantes, aquela seria considerada uma região homogênea. Mas os seus habitantes se viam de forma completamente diferente. Havia um grupo que se via como estabelecido, e encarnava os valores da boa sociedade, enquanto os moradores da outra região eram outsiders e eram estigmatizados com atribuição de delinquência, desorganização, etc. A base para a crença de serem os estabelecidos era sua antiguidade. Como ocuparam aquela região antes, criaram laços sociais que justificavam sua própria visão de superioridade. Os outros, mais recentes, ainda não haviam tido tempo de formar uma rede, e ao chegar já eram rotulados. Na falta de uma rede de apoio mútuo e sem a possibilidade de se defender, o grupo excluído passou a acreditar nessas atribuições negativas. Ou seja, muito mais do que nas diferenças raciais, sexuais ou culturais, o preconceito nos fala de relações de poder. As diferenças são justificativas e não causas. Muitas vezes – alerta o livro – as condições sociais de origem podem ter se modificado e os estereótipos persistem.

O grupo mais forte cria para si uma ampla rede de naturalização dessas relações. No caso das comunidades do livro, a fofoca era uma das principais armas. Imagine o que é possível fazer em grupos maiores e antigos. Não é preciso ir muito longe para lembrar que até a ciência já “explicou” a inferioridade de grupos. O objetivo dessas estratégias é a manutenção da diferença, fixar a distância. O grupo mais forte se protege: qualquer erro cometido por um dos seus membros não repercute ou encontra justificativas. Já o mesmo erro cometido por alguém do grupo outsider respinga em todo grupo e reforça o preconceito. No grupo estabelecido, um jovem que comete um delito é apenas um sujeito isolado, talvez com problemas, que errou. No grupo outsider, ele é o representante de uma coletividade – agiu conforme sua natureza, são todos assim, é o que eles fazem sempre. Isso soa familiar? A regra também vale ao contrário: um comportamento louvável de um indivíduo do grupo mais forte repercute sobre todos e confirma sua superioridade, enquanto uma atitude louvável no grupo mais fraco é uma exceção, um apesar de.

Na minha opinião, esses dois insights – o grupo excluído acreditar nas atribuições negativas do grupo mais forte e a maneira como qualquer atitude negativa de um de seus membros repercute sobre todos – são as maiores dificuldades dos movimentos pelas minorias. A exclusão é criada pelo grupo mais forte e o favorece amplamente; logo, cabe aos grupos excluídos buscarem a contra-estigmatização. Há a dificuldade de se reconhecer como excluído, porque o efeito imediato disso é abraçar desvantagens. O discurso do grupo mais forte é dominante. Esse discurso não é apenas algo que vem de fora – muitas vezes é a maneira como fomos criados, nossos critérios de beleza, nosso julgamento moral, a própria forma como nos relacionamos com o mundo. É uma luta que pode deixar o sujeito temporariamente sem lugar – ele abre mão do valor dominante em troca de valores que talvez ainda não existam. E, como minoria, o sujeito se vê sempre jogado na posição de representante. Se milita, mais ainda. É difícil ser julgado da forma mais rigorosa, ter que ter a conduta mais ilibada, não poder cometer um erro sem que isso confirme todos os julgamentos. É quase uma exigência de santidade: fale, mas não eleve a voz; se indigne, mas dentro da lei; lute, mas nunca se descontrole.

Uma teoria pessoal sobre moda

Antes, uma historinha: Uma amiga minha, recentemente, estava na sauna do clube Curitibano. Para quem é de fora, o clube Curitibano é o clube mais fresco e tradicional da cidade. Ela estava reclinada com uma toalha em cima dos olhos, o que dava aos outros a impressão de que estava dormindo, mas por debaixo da toalha ela via tudo o que estava acontecendo. Entrou na sauna uma mulher com roupa de ginástica, que provavelmente havia saído da musculação. Era uma mulher bonita, por volta dos seus quarenta anos, cabelo loiro-comprido-liso e conjunto de ginástica colorido. Ok. Aí à medida que a mulher foi tirando a roupa, minha amiga não acreditou no que estava vendo: por debaixo da roupa de ginástica, ela estava com um modelador. Não, ela não havia feito plástica recentemente – era apenas para ficar bem dentro da roupa de ginástica.

Eu vivi os anos 80, vi videos dos anos 70 e agora estou viciada em Downton Abbey e, por incrível que pareça, encontrei algo similar em todas essas modas. Ou, dito de outra maneira, vejo mais semelhanças nos charmosos vestidos de Downton Abbey e as ombreiras que usei na infância do que com o que vestimos hoje. Pense comigo: antigamente os corpos eram mais parecidos. Mesmo se pensarmos que a gordura foi mais valorizada em uma época do que outra, não era tanta gordura assim. As diferenças de peso não variavam pra muito mais de cinquenta quilos, não com o que se comia naquela época, não sem as facilidades que a tecnologia nos oferece. As crianças gordinhas da minha infância hoje nem seriam consideradas gordinhas. A diferença entre as classes, dentre outras coisas, era bastante demarcada pela roupa. A roupa e seus detalhes, tecidos diferentes, costuras e caimentos eram extremamente elaborados. O corpo que havia dentro delas variava muito pouco.

Hoje estamos num padrão de beleza tal, que é impossível chegar a ele sem um investimento pesado de tempo e dinheiro. O tal corpo de academia, com a barriga negativa, a coxa enorme e o peitão não são o corpo de ninguém, não se nasce daquela forma e em nenhum momento da vida o corpo se encaminha para aquela forma. O “corpão” é resultado de alimentação com suplementos e restrições, horas de treinamento específico e diário na academia e cirurgia plástica. Tudo isso numa época em que ser simplesmente magro, como éramos antigamente, já é difícil. Tudo – o avanço da tecnologia, a vida sedentária, alimentos industrializados, medicalização – contribui e nos levou a uma epidemia mundial de obesidade.

Por outro lado, nossas roupas estão cada vez mais simples: um nada de um tecido que estica preso a duas costuras laterais e já temos uma roupa. Sem dizer que a China copia rapidamente e vende a versão barata do que apareceu ontem na loja cara. São roupas que tem um desenho, cuidado e caimento mínimos. Elas esticam. Tudo porque, na verdade, elas não são importantes. O caimento é o corpo, e não a roupa. Mortais comuns ficam horríveis nelas, que de tão coladas exibem com crueldade qualquer “dobrinha”. Não tem sentido cobrir de tecido, volume e curvas um corpo que sofreu tanto investimento. O corpo, sua magreza, seu silicone e suas plásticas é que são ostentados.

Os resíduos do dia, de Kazuo Ishiguro (e um tico de Que horas ela volta?)

Ler Os resíduos do dia tem tudo a ver com o momento atual, em que o filme Que horas ela volta? será representante do Brasil no Oscar e tem constrangido os brasileiros no exterior, ao mostrarem para os estrangeiros o quanto ainda somos escravocratas. Essencialmente, ambos expõem a crueldade das relações com empregados “quase da família”. No caso do livro, na Inglaterra do século XX. Há um filme sobre esse livro, de 1993, com Anthony Hopkins no papel principal.

Durante um ou dois minutos, não fiz ideia do que meu patrão estava dizendo. Então percebi que estava fazendo alguma piada e me esforcei para sorrir como era devido, embora desconfie que algum resto de confusão, para não dizer choque, deva ter continuado visível na minha expressão.

Ao longo dos dias seguintes, porém, aprendi a não mais me surpreender com tais observações de meu patrão, e sorria do jeito certo sempre que detectava aquele tom de brincadeira em sua voz. Mesmo assim, nunca tenho muita certeza do que ele espera de mim nessas ocasiões. Talvez eu devesse rir com gosto, ou até responder com alguma observação minha. Esta última possibilidade tem me ocupado durante estes meses, e é algo que ainda me deixa indeciso. (p.24)

O livro, todo escrito em primeira pessoa, é um diário de viagem do mordomo Stevens. Estimulado pelo seu novo patrão, um americano, ele, pela primeira vez, viaja para Inglaterra sozinho de carro, e vai à busca da antiga governanta da casa, Miss Kenton. Enquanto viaja, ele reflete sobre a sua profissão, as mudanças políticas que assistiu nos salões, deixa adivinhar sua paixão por Miss Keaton e, principalmente, sobre a maneira como ser mordomo e os valores associados a essa profissão lhe são caros.

Certa tarde, para sua própria tristeza e vergonha, Mr. Charles permitiu-se ficar bêbado na companhia de dois outros hóspedes, cavalheiros que chamarei apenas de Mr. Smith e Mr. Jones, uma vez que é possível que ainda sejam lembrados em certos círculos. Depois de uma hora e tanto bebendo, os dois cavalheiros resolveram dar um passeio de carro por algumas aldeias vizinhas. O automóvel ainda era uma espécie de curiosidade à época. Convenceram Mr. Charles a acompanhá-los e, como seu chofer estava de folga naquele momento, convocaram meu pai para dirigir o carro. (….)

Porém, a atenção de Mr. Smith e Mr. Jones havia se voltado então para meu pai e, sem dúvida, entediados pela vista que o local tinha a oferecer, passaram a se divertir gritando observações desagradáveis sobre o “erro” do motorista. Mr. Charles ficou deslumbrado com a maneira como meu pai não demonstrou nenhum indício de raiva ou desconforto, continuando a dirigir com uma expressão em perfeito equilíbrio entre a dignidade pessoal e a prontidão para obsequiar. (p.48-49)

Essa é parte difícil e a maestria do livro. Na própria linguagem do mordomo e nas suas observações, percebemos seu enrijecimento pessoal, sua adesão a um papel onde a noção de “dignidade” se confunde com a capacidade de sofrer grandes humilhações sem demonstrar. Sofremos com relatos que ele mesmo não coloca como sofrimento, e sim como exemplo de grande profissionalismo. A governanta Miss Kenton, para o leitor, atua como um sopro de vida, alguém consegue olhar com crítica e afeto o que acontece à sua volta. O mordomo Stevens, tal como na empregada “parte da família” vivida pela Regina Casé, é a personificação de um sistema bem azeitado, onde os dominados compram o discurso e os valores dos seus dominadores, o que naturaliza a relação entre patrões e empregados como se fosse uma diferença de humanidade. São personagens que nos deixam sem saber se amamos ou odiamos na sua adesão; ora sofremos por eles, ora nos enraivecemos por atuarem contra seus próprios interesses. Mas, ao mesmo tempo, seu próprio descompasso com o que acontece à sua volta – “mordomos menores abandonam seus seres profissionais em prol da vida pessoal à menor oportunidade” (p.54) – sinalizam a mudança. Ainda bem. Que o desconforto de leitores e espectadores diante de antigos papéis seja o início de uma nova atitude.

Propriedade privada

Antes de visitar a casa dela, eu achava que aquelas casas da revista Casa Claudia eram bonitas e chiques. Por isso posso dizer que nem estava preparada para visitar um lugar tão bonito. A casa foi construída ao pé de uma montanha e tem a vista inteira voltada a uma cachoeira, em frente a um dos parques mais bonitos de Curitiba. Móveis orientais, detalhes em cada parede, jardim de inverno, ofurô envidraçado com visão magnífica, tudo distribuido em três pavimentos integrados. Na parte da frente da casa, sacadas e varandas com toda estrutura para receber os amigos. Não é de se admirar que um dia a casa tenha sido invadida, e ela ainda teve sorte que os ladrões levaram apenas os eletrônicos. Sinal de que eram ladrões respeitadores e burros, porque os artigos de decoração e móveis valiam muito mais do que qualquer TV de tela plana.

Assustada, ela resolveu arranjar um cachorro, um filhote de rottweiller. Eles passeiam juntos no parque. E deve ter sido num desses passeios que ela travou o diálogo que a fez soltar fogo pelas ventas de indignação. A coisa chegou a mim em forma de reclamação:

– Porque esse país onde nós vivemos é cada um por si. O governo não nos dá nada, não cuida de nada, ninguém está nem aí com a nossa segurança. Você acredita que eu fui reclamar da segurança pro guarda do parque e ele me respondeu que “tem família”? Então ele não vai me proteger porque “tem família”? Que tivesse procurado outra profissão, então!

Isso aí. As classes D e E tinham mais é que dar a vida para proteger a propriedade privada das suas elites.