Carmen Miranda, de Ruy Castro

Em termos de pesquisa, esta é a biografia mais impressionante que eu já li, e olha que sou apaixonada pelo gênero e li muita coisa boa. Ruy Castro se adianta a toda a qualquer curiosidade que o leitor possa ter e cobre todos os aspectos de tudo o que cerca Carmen: ficamos sabendo como era rua da primeiro endereço da família Miranda, o que a mãe de Carmen servia nos almoços, o que se ouvia nas rádios, o que era normal e permitido na época, a graduação formação daquele que seria do estilo Carmen – plataformas, turbante, barriga de fora, acessórios, cores e a alegria esfuziante – os namoros, as rotinas em shows e gravadoras. Da fase americana, ele nos informa dos gostos do público, descreve os locais onde Carmen cantava, opina sobre cada um dos seus filmes, conta fatos da vida de cada uma das muitas estrelas hollywoodianas que passaram pela vida dela, o impacto de Carmen na moda e as exigências que a vida nos EUA lhe impuseram. O resultado é uma qualidade de leitura que nos parece um romance, onde o leitor se vê transportado pra uma época nos seus detalhes mais deliciosos.

Por ser “alegre, bonita e comunicativa”, Caruso promoveu-a da oficina para o balcão, onde ela se tornou sua melhor funcionária, capaz de vender qualquer peça. Diante de uma cliente em dúvida sobre se um determinado chapéu lhe ficava bem, Carmen fazia uma demonstração: sacudia a cascata de cabelos, prendia-os e experimentava o chapéu em si mesma. Como tudo assentava em Carmen, a cliente se via como em um espelho, convencia-se de que ficaria linda e acabava levando o objeto. Certo dia, aconteceu de Carmen estar andando na rua, usando um chapéu de sua própria invenção, e ser abordada por uma mulher que lhe perguntou onde o tinha comprado. Ao saber que ela o havia criado, fez-lhe ali mesmo, na calçada, uma oferta por ele – que Carmen, achando graça, aceitou. (p.24)

Em entrevista pro Roda Viva, Ruy Castro diz que um dos requisitos fundamentais para fazer uma biografia é que o personagem de alguma forma o apaixone. E quanto mais detalhes ele nos revela sobre Carmen, mais apaixonado o leitor fica. Linda, generosa, divertida, inteligente, rápida, apaixonada, parecia ser impossível ficar indiferente ao charme dessa mulher. Dá a impressão de que ela seria a melhor no que quer que fizesse, nem que fosse virar fabricante de chapéus. Sua presença transformava qualquer lugar numa embaixada do Brasil, reunindo o talento em torno de si e transbordando calor. Como profissional, mereceu e trabalhou duro por cada palmo do que conquistou – excelente cantora, podia conhecer a música no próprio estúdio, pouco antes de entrar, e a gravação ficava perfeita. Nos filmes, era conhecida por ser a “garota de um único take” pelo mesmo motivo. Nunca faltava um compromisso, por pior que fosse a logística – seus adereços exigiam organização e espaço para serem transportados – ou seu estado de saúde.

Ali, as paredes do Broadhurst esqueceram-se de que já tinham ecoado os textos de Ibsen, Shaw e O´Neill, e trataram de se adaptar aos novos tempos. Carmen “cantava” com as mãos, os olhos, os quadris, os pés – “O que é que a baiana tem?”, “Touradas em Madrid” e “South American Way”, pela nova ordem – e todo um repertório de meneios, dengos e chamegos que dispensavam tradução. Ninguém entendia uma sílaba do que ela dizia, exceto o verso “Souse american way”, que arrancou as infalíveis gargalhadas. E nem era preciso. Carmen estava falando numa língua que a platéia de Nova York, habituada às grandes estreias, estava farta de entender: a do talento, talvez do gênio. A Broadway já operara aquela química muitas vezes – entre duas cortinas, transformar uma estreante numa deusa. Quase dez minutos depois, o número de Carmen e o primeiro ato de Streets of Paris terminaram e apoteose e consagração. Entre drinques, cigarros e cafés do intervalo, e já vazando para as ruas em volta do teatro, só um assunto interessava: Carmen Miranda. (p.210)

Ela sonhava em casar e ter filhos, mas como resistir aos apelos do mundo que a puxavam cada vez mais alto? Jamais foi esquecida pelos seus grandes amores Mario Cunha, Carlos Alberto da Rocha Faria e Aloysio de Oliveira, mas nenhum deles a assumiu. O dinheiro não parava de entrar, os filmes, shows e convites tornavam sua rotina impossível. Um dos motivos da morte prematura de Carmen foi o fato de jamais ter conhecido a decadência, que a teria dado tempo de parar. Quando sua carreira nos EUA estava começando a decair, a Europa a reacendeu, ávida por encontrar os ídolos dos filmes que viam durante a guerra. As férias e as visitas ao Brasil eram sempre adiadas, assim como a necessidade de cuidar da sua saúde.

Eram quase quinze anos de um processo longo e inexorável. Começara no dia em que uma cápsula para dormir exigira outra para acordar. Tempos depois, a cápsula para dormir exigira outras cápsulas para dormir; e a cápsula para acordar, outras cápsulas para acordar. Um drinque cancelara uma cápsula e exigira outra cápsula. Essa cápsula cancelara o drinque e exigira outros drinques. Em meio à ciranda, as cápsulas e os drinques haviam cancelado uma quantidade de neurônios e, apesar dos recentes esforços de seu médico no Rio, Carmen já não sabia onde ficava a entrada a ou saída do infernal labirinto em que sua vida se convertera. (p.541)

Como outros artistas da sua geração – Marilyn Monroe e Judy Garland, por exemplo – Carmen foi vítima da união de dois fatores: a massacrante indústria do cinema e o abuso de remédios, cujos efeitos se desconheciam na época. De mulher saudável, forte e bem humorada, aos quarenta ela foi convertida a uma pessoa doente, com alterações de humor, crises de paranoia e aspecto envelhecido. O livro é belíssimo até mesmo no desfecho: somos conduzidos até aquela última noite, cheia de planos e o insuspeito fim – exatamente como a morte costuma ser. E o leitor acorda para um dos maiores nomes que a música brasileira já teve, tão presente nas milhões de figuras caricatas e turbantes que até nos esquecemos o porquê.

Dois insights sobre a fama

Mozart morreu com a certeza de que tinha sido um fracasso, porque sua música não fazia sucesso no círculo que ele esperava que fizesse, a corte de Viena. Enquanto isso, em outras cidades da Europa, suas óperas alcançavam sucesso e se tivesse vivido um pouco mais, possivelmente Mozart teria sido aclamado ainda em vida. O que me parece interessante nessa história é perceber que a noção de sucesso e fama não existe de maneira absoluta; ela está ligada, principalmente, ao reconhecimento dos que nos estão próximos, ou daqueles cuja opinião valorizamos (que nem sempre são o mesmo grupo). É possível alegar que hoje, com a internet e a televisão, as coisas tenham mudado e a repercurssão nesses meios mostre a verdade. Quando lembro da surpresa da Amy Winehouse ao receber o Grammy, não me parece que as coisas sejam assim tão claras.YouTube Preview Image

O vídeo mostra a performance toda do Grammy. A partir do minuto 5:49, o anúncio do prêmio e a reação de Amy.
Pesquisas, cópias vendidas, referências no Google e todos os outros dados são apenas números. A percepção que cada um tem do seu reconhecimento é dado pelas pessoas que lhe são próximas. Uma possível fama num país distante, com pessoas que nunca vistas, é muito abstrata. Lucélia Santos, graças à primeira versão da novela Escrava Isaura, era muito conhecida na China e aqui ninguém ficou sabendo. Apesar de tantas mudanças, se sentir famoso ainda é o calor do contato humano, é ser reconhecido nas ruas e dar autógrafos. É possível que se sinta mais famoso alguém conhecido na sua cidadezinha do que um autor ou um blogueiro com muitos leitores que jamais conhecerá.

Depois de um vídeo aparecer no Te dou um dado, Lucas Celebridade realmente se tornou uma celebridade, pelo menos nos meios virtuais. Esse video gerou um vaquinha que reformou a casa dele.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a entrevista do cantor Lobão ao portal UOL. Como era um programa ao vivo, para manter a interatividade, o entrevistador Mauricio Stycer a todo instante lia mensagens dirigidas ao cantor. Todas faziam referência ao fato dele ser “muito loco”, “surtado” e coisas desse teor. O próprio cantor se irrita com isso. Então ele declara (37:08): “Você não consegue ter uma interlocução. O cara que te detesta, ele não entende porra nenhuma. Geralmente o cara que te gosta, te gosta pelo motivo mais equivocado do mundo. Então não há forma de solidão mais cruel do que estar no meio desse tiroteio.“. Ser famoso, nesse sentido, é ser também muito desconhecido. Ter o nome e o rosto reconhecido não quer dizer que as pessoas têm noção do que você faz, ter fãs não quer dizer que eles saibam realmente quem você é. Conheço uma frase, atribuida a várias pessoas diferentes – ou seja, a frase se tornou mais famosa que seu dono – que diz que a fama é uma série de equívocos em torno do nome de alguém.