O que torna uma vida boa?

Durante 75 anos, a Universidade de Harvard tem acompanhado as mudanças físicas, relacionais, financeiras, desejos e realizações de 174 homens. No caminho tortuoso e imprevisível da vida desses homens, os pesquisadores encontraram alguns insights interessantes sobre a questão mais importante da vida humana: o que nos torna felizes.

(ative as legendas na barra, à direta)

Vergonha

Há trechos belíssimos no romance Vergonha. Alguns por resumirem a trajetória dos personagens em poucas frases poéticas, outros por serem de grande sensibilidade. A cultura muçulmana e oriental aparece ora como exótica, ora como muito próxima; ela remete o leitor a uma sensação de pertencimento mesmo àquilo que nunca viu. Ao escolher a vergonha como tema, e pela maneira como a descreve, Salman Rushdie nos convence da importância desse sentimento, na força cultural que existe por detrás dele e na armadilha infeliz que ele prende todos seus envolvidos. O trecho a seguir, para mim, resume o conceito de cultura de uma forma extraordinária. A cultura é mais do que trajes, preferências ou uma escolha – ela determina nossa maneira de reagir e torna inevitáveis comportamentos que podem ir contra o nosso próprio bem estar. Mesmo que comumente coloque a mulher numa posição de vítima – quem sabe pudéssemos afirmar que ao homem cabe a honra e à mulher sua contrapartida, a desonra – a cultura enquanto vergonha atinge homens e mulheres de forma dolorosamente complementar.

Não muito tempo atrás, no East End em Londres, um pai paquitanês matou sua única filha porque, ao fazer amor com um rapaz branco, ela atraíra tamanha desonra para sua família que só o seu sangue poderia lavar a mancha. A tragédia foi intensificada pelo enorme e evidente amor pela filha abatida e pela cerrada relutância de seus amigos e parentes (todos “asiáticos” para usar o termo confuso destes dias difíceis) em condenar sua ação. Entristecidos, eles disseram aos microfones das rádios e às câmeras de televisão que compreendiam o ponto de vista do homem e continuavam a apoiá-lo mesmo quando se soube que a garota não tinha “ido até o fim” com seu namorado. A história me horrorizou quando a ouvi, horrorizou-me de um jeito bastante óbvio. Eu recentemente havia me tornado pai e portanto acabara de ser capaz de avaliar quão colossal tem de ser a força necessária para fazer um homem voltar uma faca contra sua própria carne e sangue. Mas ainda mais horrorizado fiquei ao me dar conta de que, como aqueles amigos entrevistados etc., eu também me descobri entendendo o assassino. A notícia não me pareceu alheia. Nós que crescemos numa dieta de honra e vergonha ainda somos capazes de captar o que deve parecer impensável para pessoas que vivem pós-morte de Deus e da Tragédia: que homens sacrifiquem seu mais querido amor no implacável altar de seu orgulho. (E não só homens. Depois ouvi falar de um caso em que uma mulher cometeu um crime idêntico por idênticas razões.) Entre a vergonha e a falta de vergonha há um eixo em torno da qual nós giramos; as condições metereológicas nesses dois pólos são do tipo mais extremo e feroz. Falta de vergonha, vergonha: as raízes da violência.

p. 147-148

Por esses motivos, adoraria derramar elogios sobre o livro, que se propõe a muitas coisas: trechos confessionais e biográficos, formação do Estado do Paquistão, história de duas famílias destinadas a desgraçarem-se mutuamente, heróis atípicos. A narrativa vai e volta constantemente, antecipando o que está por vir, misturando as histórias reais e fantásticas e discutindo questões culturais. Mas o resultado de tudo isso é confuso e truncado durante quase todo o livro. Seja pela falta de intimidade com os nomes ou pelo total desconhecimento da questão paquistanesa, pra mim a leitura levou muito tempo para engrenar. Apenas depois da página 150 o autor diz – agora cheguei na personagem e na história que eu quero contar. Quem procurar o resumo da contracapa do livro, lerá sobre o que acontece a partir daí. Ou seja, o leitor tem que enfrentar heroicamente uma introdução de mais de cem páginas… Coincidência ou não, é depois desse momento que ele o livro se torna devorável. Adorei os trechos, as histórias, os contrastes; só que para um livro que se propunha a apresentar o nascimento de um Estado, eu continuei ignorante.

Paternidade voluntária

Já escrevi aqui falando das mães, e do quanto esse papel é pesado. A paternidade está livre de todas essas sanções. É possível para o homem ser apenas doador de esperma. A partir da concepção, ele pode sumir a qualquer momento: pode não estar presente na gravidez, pode não acompanhar o nascimento do filho, pode negar a ele seu sobrenome e direitos legais, pode sumir na infância e pro resto da vida. Mesmo para aqueles que não somem, é sempre possível ser um pai que acompanha apenas os momentos gostosos, e reserva à mãe toda a tarefa desagradável de exigir limpeza, pontualidade, lições de casa, enfim, a tarefa de transformar um filho num civilizado, num cidadão. Há um episódio do New Adventuries of Old Christinne que trata disso: o filho dela passa a semana inteira esperando pelo fim de semana, quando encontra seu pai e se diverte muito. Estar com ela era fazer as coisas chatas – mas ao mesmo tempo, era estar in home.

Sou filha de pais separados e vivi algo que infelizmente é bastante comum: pais que levam os filhos a escolherem um lado. Vivi isso na minha infância, vi na infância de outras pessoas da minha família, vejo na sobrinha do Luiz. E vejo até em casais casados há muitos anos, mas que mantém o casamento por interesses muito diferentes do amor. Como os filhos geralmente moram com a mãe, mesmo sem perceber escolhem o lado dela; eles acreditam na razão da mãe ou que a família dela possui os melhores valores. Entendo que é difícil deixar de viver com alguém e ainda sentir admiração pelo outro – ou pelo menos não deixar transparecer a raiva e o desprezo. Some-se isso à tendência dos mais jovens a verem o mundo em preto e branco, com vilões e mocinhos, e está feito: o pai é o mau, o inútil, o dispensável. Em casos assim, há a tendência a passar um vida inteira de mágoa e acusação com o pai, para apenas na idade adulta conseguir ver as coisas em perspectiva. Depois, lamenta-se tantos anos de equívocos e afastamento. Acho tão triste, porque fiz com o meu e não consigo evitar que façam com os pais dos outros. Levar uma vida para entender o pai parece ser um caminho inevitável para muitos. Existe até um termo técnico para isso: síndrome da alienação parental.

É fácil se afastar sendo pai, é fácil afastar a figura do pai. Justamente por essas facilidades a paternidade assumida se torna tão bonita. Eles não precisam e podem não ser tantos quanto gostaríamos, mas existem sim pais que fazem de tudo para estar com os filhos. Pais completamente babões, apaixonados, que planejam suas vidas de maneira a estarem presentes o máximo possível. Um dia estava no ônibus e senti lagrimas saltarem aos olhos ao ver o pai com um filho – o menino, bastante desajeitado, fazia questão de sentar sozinho no banco que ainda era alto pra ele. O pai o acompanhou com olhos amorosos, e teve cuidado de deixar o menino se virar sozinho. Esse pai me fez lembrar de todo o imaginário que cerca esse papel, da mãe com suas asas quentinhas e o pai que prepara para o mundo. É um alívio uma mulher não ter que assumir tudo, e é muito bonito quando um homem se dispõe a ser essa figura.

Família desestruturada

Quando a profa Marlene disse em sala de aula que essa idéia de família desestruturada é uma falácia teórica, que não tem o menor sentido e comprovação, foi como uma revelação. Era tão óbvio! Ao mesmo tempo, é uma idéia tão arraigada, tão repetida. No dia a dia, nunca fez sentido: não existem diferenças significativas entre filhos de pais separados ou não, em nenhum aspecto. Meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos e, bem, não preciso dizer que não sou nenhuma marginal. Filhos de pais separados não têm tiques nervosos, não são fracassados, não são piores, viciados ou mais inseguros. Por outro lado, filhos de pais casados não são mais bonitos, mais inteligentes, bem-sucedidos ou guiados por princípios éticos superiores. Então porque continuamos a acreditar nisso, a fazer estatísticas sobre isso, a procurar essa informação quando algo dá errado?

Não precisa pensar muito pra concluir que a família desestruturada é fruto da super estruturada família burguesa. Aquela que hoje nos parece muito natural, mas que nem sempre foi assim: religiosa, com o pai provedor, a mulher fiel que se dedica aos filhos. A essa família burguesa corresponde à casa burguesa dividida em cômodos, com quartos que garantem privacidade e resguardam a vida sexual no casal. Uma família em quem ninguém mete a colher. Bem ao contrário da classe dominante anterior, a nobreza: que não via o trabalho como um valor, fazia vista grossa à amantes, não prendia a mulher à prole e era voltada para o status e a vida social. Havia um grande número agregados e empregados; os quartos dos conjuges eram separados e a privacidade entendida de outra forma. Com a família nuclear burguesa, os marido passa a controlar de perto os passos da esposa, que por sua vez controla de perto os passos dos filhos. É isso que supomos quando falamos de famílias desestruturadas: é uma família com pouco controle sobre seus membros. E, interiormente, está a idéia freudiana de que é a repressão que nos torna civilizados.

Para provar continuamente a importância da família estruturada, para qualquer problema que envolva jovens e crianças, buscamos estatísticas sobre as famílias delas. Nesse instante, a família desestruturada passa a ser sinônimo de pais separados. É família desestruturada ou casamento desfeito? O suporte de outras pessoas não parece remediar o efeito desastroso da separação dos pais, pelo menos nas estatísticas. Aí surgem dados como “36,3% dos menores encontrados usando drogas na escola são de famílias desestruturadas”. Mas nunca ficamos sabendo o número de casais separados na média da população ou de outras populações semelhantes… Desse mesmo universo – menores encontrados usando drogas na escola- , eu também poderia dizer que 41,7% passam de 3 a 5 horas por dia vendo TV, que 18,9% deles jogam futebol ou que 79,7% bebem de 10 a 20 litros de coca-cola por semana. Isso prova que a coca-cola ou televisão influencia mais no comportamento drogadito do que a separação dos pais? Prova que estatísticas são fáceis de produzir, basta considerar e buscar um dado. Mas concluir que eles demonstram uma relação de causa e efeito é outra história.

A data de validade dessa noção expirou há muito tempo, mas ainda consegue gerar culpa. Por necessidades econômicas, mesmo quando casados, homens e mulheres não conseguem se produzir uma família totalmente “ajustada” – ele por não ser provedor, ela por não conseguir estar perto dos filhos o dia inteiro. Já não temos um único modelo de casamento, não sabemos e não conseguimos controlar as crianças como antigamente, duvidamos dos papéis atribuidos a homens e mulheres e sabemos que a privacidade absoluta tem gerado muitos abusos. É uma discussão importante, que não conseguirá avançar enquanto olharmos para a família buscando a mera adaptação a um ideal.