A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

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Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

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A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

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* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Uma visão sobre o Comandante d´O Conto da Aia

Alerta de spoiler: O livro é de 1985 e tem filme, série, peça de teatro, desenho. Aqui os spoilers abundam por ser uma discussão e não uma resenha.

“Beije-me como se sentisse vontade”, pede o Comandante a Offread. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa e Offred, sua protagonista, oferece ao leitor uma visão tão limitada da sua realidade quanto o que ela mesma vê: um quarto onde precisa ficar trancada, uma janela com uma pequena visão do jardim, palavras ríspidas de mulheres, olhares cobiçosos dos homens. Tudo parece uma espécie de prisão de luxo, tanto que às vezes a própria Offread faz menção ao fato de ser um privilégio ter o que comer e estar naquela posição – o que nos faz adivinhar o que há algo pior ao mesmo tempo que isso seja difícil de imaginar. Como em qualquer sistema opressivo dos bons, as contradições estão em toda parte: ela veste vermelho e se cobre, ela serve ao sexo e não pode sentir prazer, ela é uma privilegiada e não tem liberdade nenhuma. Nada pertence a Offread, nem o seu próprio nome, que é ligado à família onde está e deve ser dado à outra, quando o prazo dela estar naquela casa e tentar gerar um filho se esgotar.

Há tempo de sobra. Esta é uma das coisas para as quais não estava preparada – a quantidade de tempo não preenchido, o longo parênteses de nada. Tempo como som de ruído fora de sintonia. Se ao menos eu pudesse bordar. Tecer, tricotar, alguma coisa para fazer com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco a fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas agora vejo o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio.

Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.

Parte V, capítulo 13

São pelo menos quatro mulheres na casa, e elas junto com o motorista servem apenas ao bem estar de um homem: o Comandante. De acordo com o ritual, ele deveria usar a aia apenas em dias prescritos, com a presença da sua esposa, as duas unidas como uma só carne, uma como a verdadeira companheira e a outra apenas como depositária do futuro filho de ambos. Da fora mais deserotizada possível, ele penetra uma aia impassível e ejacula. Mas, para a surpresa do leitor, o Comandante subverte as regras e, apesar de poder pedir o que quiser, leva a aia para o seu lugar mais privado da casa e se aproxima dela amigavelmente. Pede para jogar no tabuleiro, observa enquanto ela lê uma revista, conversa com ela. Ele lhe pede com olhares tristes o carinho que vai além da obrigação e passa a olhar para ela durante o sexo, o que a constrange, porque traz de novo ao ato que era mecânico uma presença. O Comandante se esforça para agradar e ser amado e parece ser, da mesma forma que Offread, um prisioneiro do seu papel. Nessa parte, rola uma paixãozinha enquanto a gente vai lendo.Como as feministas alertam: o machismo afeta os dois lados. Na prática, a divisão entre esposa e aia faz com que ele não seja próximo de nenhuma das duas. Os mesmo papéis que servem também isolam os homens em seu poder.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Parte IV, cap.15

Mas qualquer possibilidade de uma paixão vai embora quando sabemos mais sobre o Comandante: que ele havia feito esse jogo antes e que a aia anterior tinha cometido suicídio; que ele foi um dos responsáveis pela implementação daquele regime e que o justificava dizendo: “Queríamos transformar o mundo num lugar melhor. Melhor nunca significou bom para todos, sempre fica pior para alguns”. Alguns, no caso, é apenas toda população feminina…Ele foi um dos responsáveis por tirar de Offread até mesmo o direito de ter seu nome; ele sabia que aquele jogo podia ser mortal para ela, que arcaria com todos os ônus. Ele não fazia nada que pudesse ajudá-la individual e coletivamente e no entanto, ainda queria o seu calor. De sensível e oprimido, descobrimos no Comandante um homem vaidoso e voltado apenas para o seu prazer. Porque, apesar de ser meio sem graça aqui e ali, a submissão feminina é muito confortável. Offread sinaliza que mesmo o mais liberal dos homens ainda pode se sentir assim quando narra que seu marido Luke, o homem da época que ela era alguém, quis fazer sexo com ela no mesmo dia que todas as mulheres perderam seus empregos e o direito de usarem dinheiro. Offread estava totalmente abalada mas “pelo menos nós temos um ao outro” – se Luke iria cuidar dela, então tudo estava bem. Eu me lembrei do Livreiro de Cabul, com homens desejosos que as mulheres que usam burca e seguem estritas normas de conduta agissem – apenas e tão somente na hora do sexo – como as mulheres que aparecem nos filmes ocidentais. Em pouco tempo é isso que o Comandante faz: traz para Offread uma lingerie, a leva para a Casa de Jezebel e para a cama, em busca de uma relação sexual completa.

Mulheres com direitos cortados por canetada, mulheres colocadas sob a tutela masculina, mulheres divididas por funções, mulheres mantidas na ignorância, mulheres vigiadas, mulheres reduzidas ao desejo masculino – o livro é extremamente perturbador para qualquer mulher que o leia. Talvez a gente adivinhe, como a autora Margaret Atwood afirmou, que tudo aquilo já aconteceu de uma forma ou de outra – ou ainda pode acontecer. Até o Comandante levar Offread para o bordel, esta distopia ainda não havia me convencido. Em palavras, a minha crítica era: oprimir as mulheres ok, mas dessexualizar totalmente as relações e fazer delas apenas máquinas para fazer filhos não faz sentido, os homens não abririam mão do prazer que lhes é mais caro, o de dispor do corpo feminino. Aí quando surge a lingerie e o bordel, o quadro se completou para mim. Será que toda opressão e hipocrisia andam juntas? A esposa do comandante e a aia, colocadas em campos opostos, assim como as mulheres na cozinha, perdiam tempo com antipatias mútuas sem se dar conta de que eram todas vítimas. A conclusão do livro é óbvia: somos todas mulheres e não podemos deixar acontecer.

Madonna, Tina Turner e o envelhecimento

No último dia 2 de maio, Madonna compareceu a um tapete vermelho com um modelo Givenchy e recebeu muitas críticas. Basicamente, ela foi acusada de ser velha demais para expor o seu corpo desta maneira:

E rebateu as críticas com o seguinte texto (disponibilizado por Denise Arcoverde, no Facebook):

Nós sempre lutamos e continuaremos lutando por direitos civis e gays ao redor do mundo. Quanto aos direitos das mulheres, nós ainda estamos na era das trevas. Meu vestido no MET Gala foi uma manifestação política, assim como uma manifestação fashion. O fato de algumas pessoas ainda acreditarem que uma mulher não pode expressar sua sexualidade e ser aventureira após uma certa idade é a prova de que ainda vivemos em uma sociedade etarista e sexista. Eu nunca pensei de uma forma limitada, e não vou começar agora. Nós nunca estaremos provocando mudanças, a menos que aceitemos os riscos de sermos destemidos e passarmos a percorrer a estrada menos percorrida. É assim que mudaremos a história. Se você tem algum problema com a forma como eu me vesti, isso é apenas uma reflexão do seu próprio preconceito. Eu não tenho medo de abrir caminhos para as garotas que vêm depois de mim. Assim como Nina Simone disse uma vez, a definição de liberdade é ser destemido. Se junte à minha luta pelo gênero. Igualdade!

Em primeiro lugar, quero deixar claro que endosso tudo o que está escrito acima. Madonna tem toda razão no que diz respeito ao preconceito e reivindicar, através da sua roupa, uma igualdade de gênero. Basta lembrar que ela tem a mesma idade que Brad Pitt, que nunca vi citado em lugar nenhum como homem velho e sim como sexy.

Ao mesmo tempo, tenho dificuldade de repassar e aplaudir esse texto. Um lado meu concorda e o outro se sente incomodado. Ao mesmo tempo que me parece justo, a sua preocupação fala de um caminho que temos seguido, de uma eleição de prioridades. Madonna ousa se vestir dessa forma porque ainda está “gostosa”, “com tudo em cima”. Ela discute o direito à sexualidade e beleza femininos, mas vejo também uma questão anterior e mais profunda, acima de questões de gênero. Mais profunda e mais cercada de tabus, praticamente sem defensores: o direito ao envelhecimento.

Existem, por toda internet, muitas fotos de Antes e Depois, que comparam as celebridades consigo mesmas nas versões jovens e velhas. E, quase sempre, essas comparações concluem que a pessoa está péssima, feia, velha, uma sombra do que um dia foi. Felizmente, essas comparações tem gerado revolta e é fácil concordar que não faz sentido acusar a pessoa de ser uma versão feia de si mesma vinte anos depois. Então proponho o contrário, pensar em quando um Antes e Depois é elogioso. Tina Turner é um desses casos raros:

Essencialmente, o que esse elogio quer dizer, por que Tina Turner sai “vitoriosa” no seu Antes e Depois? Um Antes e Depois elogioso nada mais é do que comemorar que a pessoa mudou pouco. Que mesmo muito mais velha, ela ainda parece com quem ela foi na juventude. Seja através de exercícios, plásticas ou genética, a passagem do tempo deixou poucas marcas visíveis na sua aparência. Digo na aparência e não no corpo porque, ao olhar essas fotos, ninguém se pergunta do preço, das dores ou da saúde. Menos ainda em mudanças de personalidade ou expressão artística. Estamos falando apenas da fachada.

Gosto de pensar que homens e mulheres têm direito à sexualidade e beleza, em qualquer idade. Mas não gosto que sexualidade e beleza estejam ligados sempre à manutenção da juventude. Ou que sexualidade e beleza tenham primazia sobre todas as outras facetas da vida. O tempo nos afasta de quem somos quando temos vinte anos, no corpo e na alma. E essa mudança só é ruim porque atualmente classificamos assim. Não discutirmos a biografia por detrás do Antes e Depois é muito revelador – não importa se o artista melhorou ou sumiu, se foi preso ou lançou disco novo, o chamariz é a feiura. Perdemos o respeito pela experiência e vemos na velhice apenas decadência. As características associadas à idade – paciência, experiência, parcimônia, sabedoria – estão desvalorizadas, então não é à toa que não queremos e não sabemos envelhecer. Em nome do ideal de aparência dos vinte anos, estamos nos encaminhando para uma cobrança de desempenho e luta constantes contra o próprio corpo. Negar a passagem do tempo é negar justamente o que há de mais básico e infalível da vida orgânica.

Belo ou não, o corpo cansa. Enruga, cai, fica mais lento, dói, demora para se recuperar. Há uma fase da vida em que os anos atrás são muito mais vastos do que os que estão pela frente, em que há muito mais o que ser relembrado do que ser sonhado. Mesmo num corpo rejuvenescido e emplasticado, quem está dentro da pele sabe que não é mais o mesmo. Que se tenha o direito de cansar, de diminuir, de envelhecer por dentro e por fora, de ser apenas o que se é. Madonna, Brad Pitt, Tina Turner, eu, você – não somos os mesmos. Eu acho bom, estranho seria se ainda fôssemos. Que os meus vinte anos não sejam meu molde físico, tal como não é o meu molde psicológico.

Dois grandes problemas das minorias

O livro Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade é daquelas referências que todo mundo deveria ter, especialmente aqueles que se identificam e lutam por qualquer minoria. Não apenas por colocar em palavras o que se sente na pele – por que se uma mulher ou um negro ou um gay comete um erro, ele repercute de maneira tão grande? – mas também por trazer insights que podem surpreender até os ativistas. Pelo menos foi isso o que eu senti quando o livro afirma que não é a diferença que define o preconceito, e sim que a eleição da diferença dá vazão a um desejo prévio de excluir. O grupo mais forte cria para si uma ideologia que atribui a si próprio todo carisma e vantagens sociais; aos diferentes são creditadas todas as desvantagens, que mais tarde adquirem status de diferenças étnicas, raciais, sexuais, etc.

Esse argumento, aparentemente tão radical e difícil de provar, surge quando Elias & Scotson tem a oportunidade de estudar o surgimento de dois bairros de trabalhadores num povoado industrial da Inglaterra, denominada (nome fictício) de Winston Parva. De acordo com dados relativos à renda, educação ou ocupação de seus habitantes, aquela seria considerada uma região homogênea. Mas os seus habitantes se viam de forma completamente diferente. Havia um grupo que se via como estabelecido, e encarnava os valores da boa sociedade, enquanto os moradores da outra região eram outsiders e eram estigmatizados com atribuição de delinquência, desorganização, etc. A base para a crença de serem os estabelecidos era sua antiguidade. Como ocuparam aquela região antes, criaram laços sociais que justificavam sua própria visão de superioridade. Os outros, mais recentes, ainda não haviam tido tempo de formar uma rede, e ao chegar já eram rotulados. Na falta de uma rede de apoio mútuo e sem a possibilidade de se defender, o grupo excluído passou a acreditar nessas atribuições negativas. Ou seja, muito mais do que nas diferenças raciais, sexuais ou culturais, o preconceito nos fala de relações de poder. As diferenças são justificativas e não causas. Muitas vezes – alerta o livro – as condições sociais de origem podem ter se modificado e os estereótipos persistem.

O grupo mais forte cria para si uma ampla rede de naturalização dessas relações. No caso das comunidades do livro, a fofoca era uma das principais armas. Imagine o que é possível fazer em grupos maiores e antigos. Não é preciso ir muito longe para lembrar que até a ciência já “explicou” a inferioridade de grupos. O objetivo dessas estratégias é a manutenção da diferença, fixar a distância. O grupo mais forte se protege: qualquer erro cometido por um dos seus membros não repercute ou encontra justificativas. Já o mesmo erro cometido por alguém do grupo outsider respinga em todo grupo e reforça o preconceito. No grupo estabelecido, um jovem que comete um delito é apenas um sujeito isolado, talvez com problemas, que errou. No grupo outsider, ele é o representante de uma coletividade – agiu conforme sua natureza, são todos assim, é o que eles fazem sempre. Isso soa familiar? A regra também vale ao contrário: um comportamento louvável de um indivíduo do grupo mais forte repercute sobre todos e confirma sua superioridade, enquanto uma atitude louvável no grupo mais fraco é uma exceção, um apesar de.

Na minha opinião, esses dois insights – o grupo excluído acreditar nas atribuições negativas do grupo mais forte e a maneira como qualquer atitude negativa de um de seus membros repercute sobre todos – são as maiores dificuldades dos movimentos pelas minorias. A exclusão é criada pelo grupo mais forte e o favorece amplamente; logo, cabe aos grupos excluídos buscarem a contra-estigmatização. Há a dificuldade de se reconhecer como excluído, porque o efeito imediato disso é abraçar desvantagens. O discurso do grupo mais forte é dominante. Esse discurso não é apenas algo que vem de fora – muitas vezes é a maneira como fomos criados, nossos critérios de beleza, nosso julgamento moral, a própria forma como nos relacionamos com o mundo. É uma luta que pode deixar o sujeito temporariamente sem lugar – ele abre mão do valor dominante em troca de valores que talvez ainda não existam. E, como minoria, o sujeito se vê sempre jogado na posição de representante. Se milita, mais ainda. É difícil ser julgado da forma mais rigorosa, ter que ter a conduta mais ilibada, não poder cometer um erro sem que isso confirme todos os julgamentos. É quase uma exigência de santidade: fale, mas não eleve a voz; se indigne, mas dentro da lei; lute, mas nunca se descontrole.

Vida querida, de Alice Munro

Uma literatura de mulheres, feita por mulheres, para mulheres. Quando li essas reivindicações pela primeira vez, fiquei na dúvida. Claro, temos um número desproporcional de escritores homens e seus personagens de ficção masculinos. Às mulheres, na literatura e fora dela, sempre foram destinados os papéis mais secundários. A minha dúvida é se seria possível sentir a diferença entre bons personagens femininos construídos por homens de bons personagens femininos escritos por mulheres. Logo nos primeiros contos do Vida Querida, de Alice Munro, a resposta é um sonoro SIM.

Ler Munro é o prazer de ler uma literatura feminina, mesmo sem saber que diferença de sabor é essa. Talvez possamos pensar na diferença entre as duas literaturas analisando os personagens masculinos da própria Munro. Dos quatorze contos, em apenas dois os personagens principais são homens. Um deles, Trem, começa com um ex-soldado que pula de um trem para fugir não sabemos do quê, e o desenvolvimento da história é desinteressante. Ao contrário dos outros contos, achei que nesse a autora não conseguiu nos envolver e acreditar nas  motivações do personagem. O outro conto, Orgulho, parte do ponto de vista de um homem que nasceu com lábio leporino. Pelos seus questionamentos e, principalmente, pelas coisas que omite, percebemos que por conta dessa característica ele foi relegado, desde sempre, a um papel menor e assexuado. A maneira correta e pouco ambiciosa que ele leva a vida, sua amizade intensa e pura com uma mulher, seu envelhecimento muito anterior ao físico – tudo nele remete ao feminino. Em quantas mulheres não reconhecemos essas características, mulheres que foram criadas para pouco, limites em que a mulher é reduzida a um horizonte muito estreito? Me pareceu muito significativo que o único protagonista homem realmente interessante do livro seja uma outra forma de mulher, ou a forma machista como se vê uma mulher: um homem limitado, com defeito.

Meu pai, que era muito mais estimado que a minha  mãe, era um homem que acreditava em aceitar as cartas que lhe caíssem nas mãos. Minha mãe, não. Ela tinha ascendido da sua vida de menina de fazenda para se tornar professora, mas isso não era o bastante, não havia lhe dado a posição de que ela gostaria de ter na cidade. Ela estava morando no lugar errado e não tinha dinheiro, mas de qualquer maneira não estava preparada. Ela sabia jogar euchre, mas não bridge. Ficava ofendida pela visão de uma mulher fumando. Tenho a impressão de que as pessoas a achavam intrometida e excessivamente gramatical. Ela dizia coisas como “independente disso” e “deveras”. Ela soava como se tivesse nascido numa família esquisita que sempre falava dessa maneira. E não tinha. Eles não falavam assim. Lá na fazenda, as minhas tias e tios falavam como todo mundo. E eles não gostavam muito de minha mãe também. (Vozes, p.286)

Alguns contos tem momentos tão belos que chegam a doer, incompreensões e estratégias de sobrevivência tão femininas. Parece que o olhar mais familiar da autora é o infantil, que permite assistir a realidade e ao mesmo tempo entender tão pouco sobre ela. O olhar de menina nos permite conhecer mães que querem mais do que a sua classe social permite, que abandonam maridos por amores ou que se deixam dominar por eles, que se conformam com amizades e das ilusões que se engole para ter um homem; quem mais, além de uma mulher, poderia falar de mães que insistem em fazer cachinhos fora de moda, de amigas mais velhas que admiramos e só querem  ir pro baile pra dançar, da dor sem reação de ser abandonada por um homem que até ontem dizia que nos amava? A maior parte das histórias é de longa duração e mostra o efeito do tempo sobre cidades, relacionamentos e opiniões. Como todo livro de contos, uns são melhores do que os outros e notamos a persistência de certas abordagens. Mas Alice Munro vale muito a pena e faz jus à fama.

Gabriela, cravo e canela

gabriela-cravo-e-canela-jorge-amadoEu não vi nenhuma das três novelas e não vi o filme. Muito menos me interessei pela  minissérie, com Juliana Paes no papel título e Humberto Martins como Nacib. Mas eu achava que sabia tudo sobre Gabriela. Ela era Sonia Braga pendurada no telhado pra pegar uma pipa, despreocupada com a calcinha à mostra e os homens babando embaixo. Era um livro sobre uma mulher que enlouquecia os homens na machista Ilhéus. Se quisesse saber mais detalhes, bastava assistir o filme na íntegra no youtube.

Assisti uma palestra em que uma tradutora se queixava de que as pessoas não se davam mais ao trabalho de ler alguns clássicos infantis no original por causa dos desenhos da Disney. Se há uma adaptação Disney, supõe-se que já está tudo lá e a história está esgotada. E nem sempre – e ela alertou com exemplos muito interessantes do Pinóquio – o espírito da obra se mantém, tamanhas adaptações. Tenho a impressão de que Jorge Amado sofre do mesmo mal.

Muita coisa recordava ainda o velho Ilhéus de antes. Não o do tempo dos engenhos, das pobres plantações de café, dos senhores nobres, dos negros escravos, da casa ilustre dos Ávilas. Desse passado remoto sobravam apenas vagas lembranças, só mesmo o Doutor se preocupava com ele. Eram os aspectos de um passado recente, do tempo das grandes lutas pela conquista da terra. Depois que os padres jesuítas haviam trazido as primeiras mudas de cacau. Quando os homens, chegados em busca de fortuna, atiraram-se para as matas e disputaram, na boca das repetições e dos parabéluns, a posse de cada palmo de terra. Quando os Badarós, os Oliveiras, os Braz Damásio, os Teodoros das Baraúnas, outros muitos, atravessaram os caminhos, abriam picadas, à frente dos jagunços, nos encontros mortais. Quando as matas foram derrubadas e os pés de cacau plantados sobre cadáveres e sangue. Quando o caxixe reinou, a justiça posta a serviço dos interesses dos conquistadores de terra, quando cada grande árvore escondia um atirador na tocaia, esperando sua vítima. Era esse passado que ainda estava presente em detalhes da vida da cidade e nos hábitos do povo. Desaparecendo aos poucos, cedendo lugar às inovações, a recentes costumes. Mas não sem resistência, sobretudo no que se referia a hábitos, transformados pelo tempo quase em leis.

p.25

Tive com Jorge Amado o mesmo problema que tive com Virginia Woolf, após ler Orlando. Orlando para mim era um livro tão perfeito, que durante muitos anos me recusei a ler qualquer outra coisa de Woolf, acreditando que a decepção era inevitável. No caso de Jorge Amado, o livro que me deixou assim foi Dona Flor e seus dois maridos. Também demorei a ler esse livro por causa das imagens conhecidas, da Sonia Braga, da mão na bunda na saída da igreja, acompanhada de Zé Wilker nu. Eu me surpreendi, em Dona Flor, com um livro sensível, sobre amor e casamento, sobre o que é necessário e a busca pela felicidade. Um livro com uma personagem feminina forte, doce e séria, ao mesmo tempo que sensual e apaixonada. Temi encontrar em outra obra de Jorge Amado apenas uma repetição dos mesmos temas. O que eu não poderia imaginar é o quanto Gabriela vai além da sensibilidade de Dona Flor. Gabriela tem muitas tramas paralelas, todas interessantes. Além disso, nos faz conhecer até um pouco da história do Brasil, ao descrever mentalidades e costumes da época (será que apenas daquela época?)

, claro, o amor de Nacib e Gabriela. Há ali uma história de amor, a busca de um encaixe de indivíduos e expectativas diferentes. Gabriela é toda instinto, felicidade e prazer, alguém difícil de se identificar. Já Nacib é um personagem adorável; é a personificação do homem que vive e sofre as exigências da masculinidade. Como estrangeiro, e simbolicamente podemos pensar que um estrangeiro é sempre alguém fora do lugar, que não pertence por inteiro aos valores de onde está. Um lado de Nacib atende ao que se espera de um homem, com sua ambição, suas paixões e seu horror à infidelidade feminina. Por outro, o apego que ele tem às coisas simples da vida, ao comer bem e dormir, as fofocas do bar, o carinho dos amigos e, sobretudo, ao seu imenso coração, fazem de Nacib um crítico. Mesmo que não diga, ele reconhece o direito à busca da felicidade, mesmo às mulheres, e se compadece de todo aquele que sofre nessa busca. Nacib é um homem que tenta ser como se espera dele e nem sempre consegue. E é justamente esse desajuste que faz de Nacib querido e acertado. Ele consegue resolver sua situação de forma muito melhor que Jesuíno, o fazendeiro que que mata sua esposa Sinhazinha e seu amante, Osmundo, logo no início da trama.

É com essa morte que o livro começa e termina, como se a história de Jesuíno e Sinhazinha fosse madrinha do amor de Nacib e Gabriela. O contraste entre as duas histórias e a maneira como seus protagonistas as resolvem, representa um processo maior, que de certa forma é também o tema do livro: o progresso de Ilhéus. No agitado ano de 1925, de safra recorde, Ilhéus vive intensamente a mudança. Na política, ela motivada pelo embate de Mudinho Falcão e Ramiro Bastos; o primeiro buscando o progresso e o outro, pioneiro na construção de Ilhéus que luta pela manutenção do status quo. Vemos uma cidade que quer expandir seu porto, abre clubes, funda jornais, recebe artistas, realiza saraus e, ao mesmo tempo, ainda resolve as coisas com jagunços, ameaças, tiros, surras. Nas relações entre os gêneros, Malvina, a filha do coronel Melk, representa a mudança feminina, que quer mais do que os papéis que lhe são tradicionalmente reservados: esposa, que tem seus direitos e deveres ligados ao lar; concubina, sustentada por homens ricos e também devedoras a eles; e as livres e marginalizadas prostitutas. Malvina, escolarizada e inteligente, quer ser livre num sentido profundo, e não apenas à serviço do homem que a sustenta. Para resolver esse conflito, ela é obrigada a se retirar. Mas os que ficam, como Josué e Glória e o próprio casal Nacib e Gabriela, mostram que a ainda há espaço para negociação; eles se tornam pioneiros de uma maneira nova (e um pouco mais aberta) de se relacionar.

A maior riqueza do livro está, a meu ver, na maneira como somos conduzidos a acompanhar mudanças sociais profundas do ponto de vista no seu dia a dia. São personagens, pessoas comuns, que na busca pelos seus interesses, modificam o lugar onde vivem e o influenciam. Eles agem conforme suas bases culturais e os costumes que os cercam, ora cedendo, ora negociando. No fim daquele ano – ano de Gabriela, ano de Mudinho Falcão, ano do porto de Ilhéus, um ano definitivo – muitas coisas acontecem. E mesmo as que aparentemente voltaram pro seu lugar estão diferentes, mais modernas.

Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.

Mulher de poderoso

(O post se referia à entrevista de Andressa Mendonça ao Fantástico. Ela foi retirada do youtube)
O que chama a atenção nessa entrevista, pelo menos entre as pessoas com quem conversei, é que a mulher do Cachoeira é tão linda quanto burra. A mim isso não surpreende, ao contrário: acho que para estar ao lado de um homem poderoso, as duas características acabam sendo pré-requisitos. Lembro de um amigo do meu pai, riquíssimo, que trouxe uma mulher do interior do Alagoas, mais nova do que eu (na época eu tinha vinte e poucos anos) para viver com ele no flat. Burra de dar dó. Eu não conseguia conversar com ela, ela não tinha assunto. Isso de maneira alguma o incomodava; para conversar, ele tinha o meu pai. Mulher era pra outra coisa. Como, por exemplo, exibir com um vestido lindo no Réveillon mais caro de Salvador.
É como se a mulher tão forte e inteligente quanto o homem fosse uma necessidade de classe média. As que estão muito acima e muito abaixo da pirâmide ainda parecem ver na beleza, no corpo e no casamento as melhores maneiras de ascender socialmente. Penso nas mulheres-frutas, tão felizes com suas plásticas e a bunda na televisão. Não é desses segmentos que as feministas vêm. Para as feministas, mulheres como Andressa Mendonça são um retrocesso; para elas, não há vantagens o suficiente nessa tal libertação feminina.

Propaganda e uma desilusão

Não lembro se recebi por e-mail ou comentei na época que essa publicidade saiu:

Acusei a propaganda de ser machista, de ver a mulher como objeto, de chamar as mulheres de prostitutas e vários argumentos que passam pela cabeça de uma mulher instruída quando vê isso. Estava em meio à minha revolta, quando um amigo calmamente me disse:
– Mas funciona. Poucas mulheres deixariam de abrir as pernas depois de ganhar uma jóia.

Tive que ficar quieta e reconhecer que é verdade. Podemos dizer que não é pela jóia em si e sim pelo que o gesto de comprar algo tão caro significa… Ou podemos achar que é pela jóia sim, como uma troca. Isso torna a mulher uma vagabunda? O que abrir as pernas porque ganhou uma jóia revela?

Revela que na relação entre os sexos, há muito, a mulher entra com o seu corpo, a sua juventude e a sua aparência, e o homem entra com o poder e o dinheiro. Os homens acusam as mulheres de serem interesseiras e as mulheres acusam os homens de só pensarem em sexo. Os dois têm seus motivos, são as maneiras mais tradicionais de se atuar. Maneiras que hoje as feministas criticam, apesar da resistência de outras mulheres. Talvez não estejamos todas lutando ao lado do feminismo porque, quando se abandonam as armas da sedução, talvez não haja tanta coisa nos esperando.

O que eu posso dizer em favor do feminismo: vejo mais mulheres dispostas a agir de outras formas do que homens dispostos a abrir mão da beleza e juventude feminina.

Feminilidade

A feminilidade não está restrita à juventude, aos traços faciais, à cor do cabelo, ao tamanho dos seios, dos quadris ou a qualquer outro tamanho. A visão binária que divide o mundo em masculino e feminino, claro e escuro, reto e redondo, ativo e passivo, público e privado, sempre nos foi muito negativa. Mas a crueldade para com as mulheres que vivemos hoje atingiu um nível muito mais profundo porque nos disseram – e nós acreditamos – que a feminilidade é um atributo físico, que pode ser perdido, que precisa ser comprado. Agora as mulheres correm para transformar seus corpos, assim. E nunca se sentem seguras o suficiente, por mais que invistam, porque na verdade estão procurando no lugar errado.

Ver La Truco, uma das grandes bailaoras da atualidade, me relembra isso. Ela não tem corpinho ou idade de modelo. Mas – ou será justamente por isso? – transpira feminilidade.