A questão do duplo em Black Mirror

Alerta de spoiler: este texto fala livremente de histórias dos episódios das temporadas 2, 3 e 4 de Black Mirror. Se você ainda não viu e não gosta de spoiler, corre lá pra ver e volta!

jon hamm black mirror

A ovelha Dolly, criada em 1996, foi o primeiro ser vivo a ser duplicado geneticamente. Na época surgiram muitas discussões, lembro que uma pergunta frequente: será possível, em algum lugar, alguém recriar Hitler? A resposta é que, mesmo que um dia a genética consiga recriar um corpo humano de um DNA pré-existente, seria inútil pretender que Hitler, ou de qualquer outra pessoa, revivesse com isso. Uma pessoa não é, apenas, sua genética. Uma pessoa é um conjunto de contingências, familiares e sociais; é a soma da intimidade e a cultura da sua época, interações impossíveis de serem recriadas. Muito antes da Dolly a ficção já se questionava sobre a possibilidade de duplicar seres vivos. Na série original Netflix, Black Mirror, que se caracteriza quase inteiramente por uma visão pessimista do avanço tecnológico, a questão de criar um duplo é um dos temas recorrentes. Lá, os duplos ora são o simples desligamento da realidade objetiva, ora são substitutos idênticos de seus donos; ora são replicações auto-conscientes, assim como podem ser pura consciência; às vezes são servos e podem ser ignorados pelo próprio dono do DNA.

Em dois episódios o próprio sujeito permite que seu Eu seja mergulhado numa realidade virtual. No episódio Playtest (temporada 3, episódio 2), um homem se oferece como cobaia para o desenvolvimento de jogos de computador. Ele fornece à empresa a informação dos seus medos mais íntimos e lhes dá permissão de ser desligado do mundo material. O jogo constrói realidades múltiplas e se torna uma espécie de pesadelo, onde não sabemos mais o que é intencional ou fora de controle, o que é vida ou morte. Já em San Janupero (temporada 3, episódio 4), na realidade virtual estão misturados os que possuem uma vida corpórea e aqueles que são apenas consciência, ou seja, já estão mortos. San Janupero representa a possibilidade de viver além de suas limitações físicas, seja problemas de saúde, idade avançada ou até mesmo a morte. Nos dois episódios o duplo não está ligado à noção de DNA e sim de consciência, como um ente independente do físico que pode construir outro mundo para si. Como o mundo material é apenas uma referência, no mundo criado as regras são flexíveis e alteradas conforme a conveniência – em Playtest, de forma hostil; em San Janupero, com a possibilidade de ser sempre jovem e belo. O protagonista de Playtest, submetido a uma situação estressante, está sempre se relembrando da irrealidade do que o cerca, como forma de proteção. Em San Janupero, o mundo virtual se pretende como uma espécie de paraíso, com acesso ilimitado a todos os prazeres. A questão com que a personagem se depara, ao escolher entre a morte física e San Janupero é muito mais filosófica: existe felicidade infinita?

Muito menos sorte tem a mulher de segunda história de Black Museum (temporada 4, episódio 6). Do coma, a consciência dela é transferida para o cérebro do marido. Por incrível que pareça, assim como nos casos anteriores, ela quem pede isso, num sistema arcaico que lhe permitia responder Sim ou Não quando estava presa ao seu corpo. Para ela, nenhuma nova realidade é criada, ela é trazida ao mundo atual. A mulher está consciente sem poder atuar; mas ao contrário de quando estava presa ao próprio corpo, ela vê e sente com os olhos do marido, fala através da consciência dele e pode acompanhar o crescimento do filho. Mas o duplo não dá certo (claro!) e o marido a sente como um voyeur constante e desagradável. Mas mesmo assim ele não tem coragem de deixá-la partir e sua falta de coragem leva a uma solução cruel: a mulher é transferida para um urso de pelúcia, que só pode dizer Sim ou Não, agora em forma de Eu Te Amo ou Me dê um Abraço. Nesse mesmo episódio, na terceira história, descobrimos que existem destinos piores para uma consciência sem corpo. Um condenado permite que sua consciência seja recolhida do seu corpo quando é executado na cadeira elétrica. Ele é revivido para uma outra prisão, agora perpétua, como curiosidade num museu. Não apenas a dor da execução é recriada para satisfação dos visitantes como é possível ter um duplo do duplo, um souvenir do seu momento de agonia. Novamente, vemos Black Mirror levantar a questão do quanto é legítimo sentir prazer com o sofrimento do outro quando ele é mau, questão que discuti AQUI.

Em Be Right Back (temporada 2, episódio 1) o propósito de criar um duplo é bem mais nobre. Uma mulher grávida perde seu namorado num acidente de carro. Um serviço online cria uma versão virtual dele, através das informações que ele mesmo compartilhou durante anos em redes sociais. Essas informações, somadas às novas interações com a namorada, permitem que o cálculo de suas reações prováveis seja cada vez mais sofisticado, e o duplo evolui de interação por escrito para uma voz, e por fim um corpo sintético. O duplo neste caso não foi idealizado pelo seu original e de nada lhe serve. Nos episódios discutidos anteriormente, o duplo era o próprio sujeito, único, enquanto aqui temos uma projeção que trabalha com informações. Mas, apesar da perfeição na aparência, voz e uso de expressões, é justamente no uso das probabilidades que o programa se mostra falho – ao gostar de uma música diferente, por precisar ser sempre ensinado e nunca fazer nada novo, o duplo não alcança jamais o seu original. Há algo de imprevisível na vida que a tecnologia não alcança. Tal como o marido que prendeu a mulher no ursinho, aqui a namorada também não consegue se desfazer do duplo, por mais que reconheça suas falhas. Sem ocupar inteiramente o papel do outro e sem deixá-lo partir, o duplo impede a vivência total do luto.

Talvez relações humanas sejam complicadas demais e a vantagem de recriar duplos seja justamente a possibilidade de fazer valer sua vontade. Em USS Callister (temporada 4, episódio 1), os duplos derivam de um material genético coletado sem autorização de colegas de trabalho. Um programador cria uma versão pessoal do seu programa preferido, a USS Callister (uma clara referência a Star Trek). Nela, como tripulação, estão seus colegas, e naquele ambiente ele pode descontar a necessidade de reconhecimento e vinganças que não são possíveis no mundo real. Os duplos, quando o programa não é acessado, vivem uma existência tediosa, como se fossem atores que não tem o que fazer no intervalo entre cada peça. Como pessoas consciente e oprimidas, odeiam estar nessa posição e lutam para conseguir a liberdade. As pessoas originais não sabem que existe uma versão delas dentro de um jogo, que sofrem e tem anseios, mesmo quando as ajudam. Para o mundo real nada acontecia, e quem sabe o jogo garantisse que o programador jamais se rebelasse no seu ambiente de trabalho. Para os duplos ele era um vilão, mas será que isso conta? Algum princípio ético é ferido quando se abusa da projeção que fazemos dos outros? De certa forma, é o que fazemos o tempo todo em nossos pensamentos e desejos mais privados. A diferença é que a USS Callister era mais sofisticada.

O episódio White Christmas (temporada 2, episódio especial) é, para mim, o mais interessante sobre o tema dos duplos. O nerd de USS Callister tem problemas de relacionamento e faz um uso muito privado da possibilidade de criar duplos – já o personagem Matt Trent faz da exploração dos duplos um meio de vida. Ele tem uma empresa que, através do DNA, desenvolve programas personalizados que atendem às mínimas exigências dos seus donos. Para aquele que colhe seu material genético e entrega para a empresa, é apenas um software avançado. Como no filme The Island, o que seus usuários ignoram é que o duplo gerado pelo seu material genético é um ser consciente. O duplo criado pela empresa como software atende sua versão real sob tortura, em meio ao tédio e da solidão. O ajuste de software nada mais é do que levar o duplo à obediência ao mostrar a ele sua falta de opção: ele é uma pessoa num cenário todo vazio com um computador, operá-lo é a única maneira de preencher o tempo. No final do episódio, descobrimos que os dois protagonistas não estão conversando numa cabana isolada num posto avançado, e sim que são duplos plantados por Matt Trent com a finalidade de obter a confissão de um crime. Só então descobrimos o grau de controle que se tem sobre o duplo e seu entorno, o que torna a exploração deles ainda mais chocante.

(Nos episódios USS CallisterWhite Christmas, o processo de criação dos duplos é igual a dar crtl+C, crtl+V em um arquivo. Através do material genético de um pouco de saliva, surge uma outra pessoa com o mesmo grau de consciência da original até o momento da coleta. Eu sei que é uma liberdade poética BEM grande, mas se fosse para ser rigorosamente científico com o tema, não dava nem pra começar a escrever…)

O ineditismo da abordagem em Black Mirror está, me parece, em nos colocar empáticos com os duplos e não nos originais. Mesmo em Blade Runner, com andróides com senso de preservação e que se acreditam humanos por terem uma memória falsa, e que de tão perfeitos o próprio caçador de androides começa a duvidar da sua própria humanidade, estamos sempre vendo o lado dos humanos. A Janet, o sistema operacional da série The Good Place, brinca muito com a associação entre senso de preservação e seres vivos. Quando prestes a ser reiniciada, Janet pede por sua vida, se ajoelha, argumenta, mostra fotos de filhos; quando o perigo passa, não apenas volta à calma habitual como relembra que todas suas atitudes foram apenas programação, que ela não sente nada porque não é um ser vivo. O que Black Mirror parece nos dizer com os duplos é que, por mais que as pessoas acreditem que não gostam de causar sofrimento, a sua busca pelo prazer leva a um desenvolvimento de tecnologia que causa sofrimento. Mas como esse sofrimento é um efeito secundário invisível ou recai sobre “pessoas más”, ele nos é indiferente. Aceitamos de bom grado o sofrimento, desde que alheio. Como diria Harari, o capitalismo não mata por crueldade e sim por indiferença. Que o digam todas as outras espécies do planeta, o próprio planeta, e até mesmo seres humanos de grupos fragilizados.

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A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

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Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

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A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

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* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Uma visão sobre o Comandante d´O Conto da Aia

Alerta de spoiler: O livro é de 1985 e tem filme, série, peça de teatro, desenho. Aqui os spoilers abundam por ser uma discussão e não uma resenha.

“Beije-me como se sentisse vontade”, pede o Comandante a Offread. O Conto da Aia é narrado em primeira pessoa e Offred, sua protagonista, oferece ao leitor uma visão tão limitada da sua realidade quanto o que ela mesma vê: um quarto onde precisa ficar trancada, uma janela com uma pequena visão do jardim, palavras ríspidas de mulheres, olhares cobiçosos dos homens. Tudo parece uma espécie de prisão de luxo, tanto que às vezes a própria Offread faz menção ao fato de ser um privilégio ter o que comer e estar naquela posição – o que nos faz adivinhar o que há algo pior ao mesmo tempo que isso seja difícil de imaginar. Como em qualquer sistema opressivo dos bons, as contradições estão em toda parte: ela veste vermelho e se cobre, ela serve ao sexo e não pode sentir prazer, ela é uma privilegiada e não tem liberdade nenhuma. Nada pertence a Offread, nem o seu próprio nome, que é ligado à família onde está e deve ser dado à outra, quando o prazo dela estar naquela casa e tentar gerar um filho se esgotar.

Há tempo de sobra. Esta é uma das coisas para as quais não estava preparada – a quantidade de tempo não preenchido, o longo parênteses de nada. Tempo como som de ruído fora de sintonia. Se ao menos eu pudesse bordar. Tecer, tricotar, alguma coisa para fazer com as mãos. Quero um cigarro. Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco a fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas agora vejo o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio.

Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.

Parte V, capítulo 13

São pelo menos quatro mulheres na casa, e elas junto com o motorista servem apenas ao bem estar de um homem: o Comandante. De acordo com o ritual, ele deveria usar a aia apenas em dias prescritos, com a presença da sua esposa, as duas unidas como uma só carne, uma como a verdadeira companheira e a outra apenas como depositária do futuro filho de ambos. Da fora mais deserotizada possível, ele penetra uma aia impassível e ejacula. Mas, para a surpresa do leitor, o Comandante subverte as regras e, apesar de poder pedir o que quiser, leva a aia para o seu lugar mais privado da casa e se aproxima dela amigavelmente. Pede para jogar no tabuleiro, observa enquanto ela lê uma revista, conversa com ela. Ele lhe pede com olhares tristes o carinho que vai além da obrigação e passa a olhar para ela durante o sexo, o que a constrange, porque traz de novo ao ato que era mecânico uma presença. O Comandante se esforça para agradar e ser amado e parece ser, da mesma forma que Offread, um prisioneiro do seu papel. Nessa parte, rola uma paixãozinha enquanto a gente vai lendo.Como as feministas alertam: o machismo afeta os dois lados. Na prática, a divisão entre esposa e aia faz com que ele não seja próximo de nenhuma das duas. Os mesmo papéis que servem também isolam os homens em seu poder.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Parte IV, cap.15

Mas qualquer possibilidade de uma paixão vai embora quando sabemos mais sobre o Comandante: que ele havia feito esse jogo antes e que a aia anterior tinha cometido suicídio; que ele foi um dos responsáveis pela implementação daquele regime e que o justificava dizendo: “Queríamos transformar o mundo num lugar melhor. Melhor nunca significou bom para todos, sempre fica pior para alguns”. Alguns, no caso, é apenas toda população feminina…Ele foi um dos responsáveis por tirar de Offread até mesmo o direito de ter seu nome; ele sabia que aquele jogo podia ser mortal para ela, que arcaria com todos os ônus. Ele não fazia nada que pudesse ajudá-la individual e coletivamente e no entanto, ainda queria o seu calor. De sensível e oprimido, descobrimos no Comandante um homem vaidoso e voltado apenas para o seu prazer. Porque, apesar de ser meio sem graça aqui e ali, a submissão feminina é muito confortável. Offread sinaliza que mesmo o mais liberal dos homens ainda pode se sentir assim quando narra que seu marido Luke, o homem da época que ela era alguém, quis fazer sexo com ela no mesmo dia que todas as mulheres perderam seus empregos e o direito de usarem dinheiro. Offread estava totalmente abalada mas “pelo menos nós temos um ao outro” – se Luke iria cuidar dela, então tudo estava bem. Eu me lembrei do Livreiro de Cabul, com homens desejosos que as mulheres que usam burca e seguem estritas normas de conduta agissem – apenas e tão somente na hora do sexo – como as mulheres que aparecem nos filmes ocidentais. Em pouco tempo é isso que o Comandante faz: traz para Offread uma lingerie, a leva para a Casa de Jezebel e para a cama, em busca de uma relação sexual completa.

Mulheres com direitos cortados por canetada, mulheres colocadas sob a tutela masculina, mulheres divididas por funções, mulheres mantidas na ignorância, mulheres vigiadas, mulheres reduzidas ao desejo masculino – o livro é extremamente perturbador para qualquer mulher que o leia. Talvez a gente adivinhe, como a autora Margaret Atwood afirmou, que tudo aquilo já aconteceu de uma forma ou de outra – ou ainda pode acontecer. Até o Comandante levar Offread para o bordel, esta distopia ainda não havia me convencido. Em palavras, a minha crítica era: oprimir as mulheres ok, mas dessexualizar totalmente as relações e fazer delas apenas máquinas para fazer filhos não faz sentido, os homens não abririam mão do prazer que lhes é mais caro, o de dispor do corpo feminino. Aí quando surge a lingerie e o bordel, o quadro se completou para mim. Será que toda opressão e hipocrisia andam juntas? A esposa do comandante e a aia, colocadas em campos opostos, assim como as mulheres na cozinha, perdiam tempo com antipatias mútuas sem se dar conta de que eram todas vítimas. A conclusão do livro é óbvia: somos todas mulheres e não podemos deixar acontecer.

Julgamento e punição em Black Mirror

Eu acredito que a série Black Mirror já virou uma referência cultural obrigatória. As três temporadas disponíveis (até a publicação deste post) possuem episódios com histórias e durações diferentes, que fazem pouca ou nenhuma referência entre eles, mas tem em comum o uso da tecnologia. Às vezes a tecnologia está implantada nos corpos dos personagens, mas sempre está nas vidas. É também através da tecnologia que existem as redes sociais, que tem como característica o imediatismo e a possibilidade de um julgamento público. É sobre as questões levantadas na série acerca de julgamento e punição que eu gostaria de falar. Antes de continuar, o spoiler alert obrigatório: falarei sobre os episódios indistintamente, entregando a história, então não leia se quiser descobrir sozinho.

Acho que o episódio punitivo por excelência é do Urso Branco (episódio 2, 2º temporada). Uma mulher acorda sem memória, num mundo dividido entre presas, caçadores e uma multidão de indiferentes que gosta apenas de olhar enquanto os dois primeiros grupos morrem. Depois de um dia terrível, descobrimos que tudo aquilo não passa de um imenso teatro televisionado que tem por objetivo punir a moça, que havia sido responsável pelo sequestro seguido de morte de uma criança. Várias coisas que ela foi encontrando ao longo do dia faziam referência à sua história, apesar de ela não lembrar porque teve a memória apagada: o símbolo usado nas telas, a fuga na floresta, cordas de enforcamento, imagens pelo celular, o termo Urso Branco. Depois de tudo revelado, ela é colocada de volta e entendemos que ela vive aquilo em looping, como punição. O mais chocante é quando vemos, depois dos créditos, a diversão que aquilo se torna àqueles que fazem o papel de público e pagam ingresso. Há até um carro especial que torna possível vê-la e odiá-la enquanto está amordaçada e confusa numa cadeira. Como ela é claramente culpada, então está liberado torturar e se divertir com isso.

Acho que não foi por acaso que as histórias que envolvem punição tem crianças envolvidas, porque ninguém nos parece mais monstruoso do que aquele que fere crianças. No Manda Quem Pode (episódio 3, 3º temporada) – o episódio menos futurista de todos – vemos um adolescente ser chantageado e, junto a outras pessoas também chantageadas, ter seus limites testados. O maior medo dessas pessoas é ter seus segredos revelados; no caso do adolescente, um vídeo onde se masturba. Com o que conhecemos a respeito dele e suas dificuldades de relacionamento, seu medo parece bastante coerente. Apenas no final o espectador fica sabendo que não foi uma masturbação qualquer: ele estava vendo pornografia infantil. Até então, tínhamos pena dele. Esse final parece lançar a pergunta: você continua com pena? Sendo o adolescente um provável futuro pedófilo, ele mereceu ou não o que fizeram com ele? A chantagem, nesse caso, adquire ares de justiça porque tendemos a dizer que Sim, que quem faz mal a uma criança é um monstro que merece sofrer. Nos minutos finais do Natal (episódio 4, 2º temporada), o policial se permite torturar por puro sadismo o duplo do assassino confesso que deixou uma criança morrer. Uma criança que ele pensou durante anos que fosse sua filha e que morreu por negligência e não por maldade deliberada. Ou seja, vemos o argumento da punição adquirir sutilezas: fazer mal a uma criança é sempre monstruoso ou existem gradações? A natureza do mal e como combatê-lo é um tema discutido no Engenharia Reversa (episódio 5, 3º temporada). Ao fazer com que os policiais vissem o seu alvo como “baratas”, desfigurados, meio zumbis, retirando deles a humanidade até mesmo nos cheiros e fluidos, tornava seu trabalho mais fácil – isentava da culpa de matar um igual. Retirar do outro a sua humanidade permitia devolver o mal com mais mal e violência. No episódio o olhar dos policiais era alterado por um aplicativo, mas cabe lembrar que, por definição, toda cultura é uma forma de olhar.

Black Mirror aponta as redes sociais como um amplificador imediato das vozes da maioria. E se as pessoas fossem avaliadas constantemente pelos outros e as que fossem melhores pessoas fossem premiadas pelo seu bom comportamento? Essa é a premissa, que à princípio soa como muito válida, do Queda Livre (episódio 1, 3º temporada). Nesse mundo, as cinco estrelinhas com que avaliamos alguns serviços são extrapoladas e entram como critério em valores de alugueis, passagens de avião, convites para festas. A personagem, na sua ansiedade em agradar, acaba se tornando irritante pelo seu visual rosa, sorriso constante e um tom de voz bonzinho – ansiedade essa presente em quase todos à sua volta, o que dá um tom falso e meio histérico às interações no episódio. Mesmo esse esforço constante não impede que a personagem receba avaliações negativas, algumas por circunstâncias injustas, como esbarrar em alguém na rua ou ser mal atendido. Essa pressão de agradar a maioria é manipulada pelo sequestrador do antológico Hino Nacional, o episódio 1 da 1º temporada. A princípio, ninguém achava que o primeiro ministro deveria ceder à pressão de fazer sexo com um porco, mas todos mudam de ideia após a divulgação do vídeo do sequestrador retirando o dedo da princesa. O que antes era absurdo se torna uma obrigação. Depois ficamos sabendo que o dedo não era da princesa e que ela foi solta antes mesmo do primeiro ministro se submeter às exigências. O sequestrador sabia que, ao contrário da história de Lady Godiva, o país pararia para ver aquilo – chocado, indignado, mas morbidamente curioso e sem poder ficar de fora do “acontecimento do ano”.

Numa visão bastante pessimista do que são as opiniões da maioria, em Black Mirror elas tendem pro imediatista, manipulado, violento e pornográfico. Quando começa o Quinze Milhões de Méritos (episódio 2, 1º temporada), a primeira sensação é que o protagonista, Bing, é alguma espécie de condenado, por ter que viver num espaço tão pequeno e ser forçado a assistir uma programação que claramente não é escolhida por ele. Depois descobrimos que não é assim, que o que nos parece castigo é uma forma de vida até mesmo privilegiada. Ele e os outros são os sujeitos que passivamente alimentam uma engrenagem complexa de consumo que não entendemos ao certo, mas que tem como um dos ideais estar dentro da tela, ser famoso, principalmente por ter triunfado numa espécie de X Factor. Cada um, dentro de seu cubículo, participa virtualmente da platéia desse programa, e é essa platéia que pressiona a jovem Abi a se submeter aos jurados que não a vêem como cantora e sim como uma excelente futura pornstar. Insensíveis à beleza e à pureza, como diria o protagonista mais adiante, a platéia se baseia apenas nos seus desejos e curiosidade para submeter a moça à industria pornográfica. Quando, mais tarde, Bing aparece no mesmo programa para ter voz e denunciar o modo de vida massificante e vazio a que todos estão submetidos, ele mesmo se torna uma estrela – seu discurso é aproveitado e esvaziado pelo próprio consumismo que ele tentou combater. Impossibilitado de salvar a todos, ele opta por salvar apenas a si mesmo.

O vilão de Odiados pela nação (episódio 6, 3º temporada) é justamente alguém indignado com a truculência da maioria e que procura fazer com que o ódio que ela nutre pelos inocentes da vez se volte contra elas. Usando abelhas eletrônicas, ele condena à morte todos aqueles que, irresponsavelmente, condenavam à morte pessoas que recebiam destaque negativo nas redes sociais. Com esse pressuposto de que quem deseja a morte merece morrer, isso promoveria uma verdadeira limpeza, apenas os maus seriam atingidos pelas abelhas. Novamente a encontramos a noção de mérito e eugenia, mas desta vez contra aqueles que normalmente são platéia. Mas, se as abelhas atacaram apenas os indivíduos violentos, por que no final do episódio vemos uma multidão furiosa em torno do carro da policial encarregada do caso? O assassino, ao condenar a morte todos os que usavam a hashtag mortífera, agiu dentro da mesma lógica daqueles que pedem chacinas e extermínio de condenados: como se a maldade fosse isolável, presente em alguns indivíduos e não em outros, e com a morte dos que possuem essa característica, ela seria eliminada da mesma forma que se isola e elimina uma doença. Não funcionou no episódio, nunca costuma funcionar em sociedade. A maldade, como mostraram os episódios anteriores, está difundida, massificada, recheada de desejos e ignorância, representada por uma multidão anônima que não tem noção e nem responsabilidade por suas consequências.

 

Ubik, de Philip K. Dick

Saber que Philip K, Dick era um escritor bastante adaptado para o cinema, que dele são Blade Runner e o Vingador do Futuro, ao invés de me animar a ler deram aquela preguiça, a mesma que a gente se vê tendo com Jorge Amado: se eu já vi na TV, já sei o que acontece, então vou dedicar o meu tempo lendo algo diferente. Mas como sou fã de ficção científica, foi se tornando obrigatório para mim ler PKD. Peguei Ubik sem ter a menor ideia do que se tratava, apenas pela capa, que dizia: na lista dos cem melhores romances em língua inglesa da Time. E sabia que não tinha virado filme.

Refletindo, Pat disse:

-Parece uma coisa tão… negativa. Eu não faço nada. Não faço os objetos mexerem, não transformo pedras em pão, nem dou a luz sem fecundação ou reverto processos patológicos em pessoas doentes. Nem leio mente. Nem vejo o futuro, nenhum talento comum do tipo. Só anulo a habilidade de outra pessoa. Parece… – Ela gesticulou. -Bestificante.

-Como fator de sobrevivência da raça humana – explicou Joe – , é tão útil quanto os talentos psi. Especialmente para nós, Padrões. O fatos antipsi é uma restauração natural do equilíbrio ecológico. Um inseto aprende a voar, então outro aprende a construir uma teia para prendê-lo. Isso é o mesmo que não saber voar? Os mariscos desenvolveram conchas duras para se protegerem. Portanto, pássaros aprenderam a voar com o marisco para o alto e largá-lo numa rocha. Nesse sentido, você é uma forma de vida predadora para os Psis, e os Psis são formas de vida que têm como presa os Padrões. Isso faz de você uma amiga da classe dos Padrões. Equilíbrio, o ciclo completo, predador e presa. Parece ser um sistema eterno, e, francamente, não vejo como poderia ser melhorado. (p.33-34)

É um livro perturbador. Primeiro porque, como em toda ficção científica, a gente se vê num mundo diferente e se apega nos poucos indícios que o autor nos dá – fechaduras que exigem 5 centavos para abrir, mortos que mantém a consciência por sistemas de meia vida, viagens a longa distância feitas com facilidade – para entender no que aquele mundo difere do nosso. PKD localiza esse livro na década de 90, mas obviamente ela não é os anos 90 que nós vivemos. Estamos ainda nos acostumando com uma guerra entre talentos de espionagem entre empresas, feitas por pessoas com capacidade de ler pensamentos e influenciar decisões, quando surge uma moça com um talento difícil de entender e que modifica o passado. Depois de um acontecimento chave, toda realidade em torno do protagonista – que também não é claro logo nas primeiras páginas – deixa de fazer sentido. A moça e seu talento misterioso têm algo a ver com isso? O acontecimento chave alterou a relação espaço/tempo? Os fatos envolvem apenas os personagens ou é um acontecimento de escala global? Parece difícil que o autor consiga dar um final satisfatório a tantas questões e ele dá. Na verdade, mais de um, as informações parecem surgir como caixas dentro de caixas. Não tem como não terminar o livro rendido à mente de Dick: o sujeito era um gênio.

Contato, de Carl Sagan

Esse livro me decepcionou de tal forma que resisti à ideia de escrever sobre ele. Não, não estou dizendo que o livro é ruim, e talvez seja justamente isso que me aborreça. É um ótimo livro. O começo, que nos faz conhecer a protagonista Ellie, solitária por ser uma mulher com uma enorme inteligência matemática, é apaixonante. A história, caso alguém não tenha visto o filme, é muito boa: Ellie trabalha num centro responsável por captar ondas de rádio vindas do espaço, em busca de padrões que demonstrem vida inteligente. E finalmente encontram. Como é justo pensar, essa vida inteligente e a linguagem utilizada não seriam a nossa, então existe um problema científico de destrinchar esses sinais, de pensar no que significa, quais suas consequências, coisa que Carl Sagan faz como ninguém. E há fascinantes descrições sobre o espaço, como esta:

A algumas centenas de quilômetros de altitude, a Terra enche metade do céu, e a faixa de azul que se estende de Mindanao a Bombaim, e que a vista discerne num único olhar, é de uma beleza estonteante. Minha terra, você pensa. Minha Terra. Esse é o meu mundo. É a ele que eu pertenço. Todas as pessoas que conheço, todas as-pessoas de quem já ouvi falar, cresceram aí, sob aquele azul implacável e lindo.

Você corre de horizonte a horizonte, em direção a leste, de alvorecer a alvorecer, circundando o planeta em uma hora e meia. Depois de algum tempo, passa a conhecê-lo, estuda suas idiossincrasias e anomalias. Pode-se ver tanta coisa a olho nu! Em breve a Flórida aparecerá outra vez. Por acaso, aquela tempestade tropical que você viu na última órbita, rodopiando e correndo pelo Caribe, já alcançou Fort Lauderdale? Estarão algumas das montanhas do Hindu Kuch livre de neve este verão? Você admira os recifes do mar de Coral. Contempla as geleiras da parte ocidental da Antártida e imagina se seu desaparecimento realmente inundaria todas as cidades litorâneas do planeta.

De dia, é difícil vislumbrar qualquer sinal dos habitantes. À noite, porém, tudo que você vê, com exceção da aurora polar, se deve aos seres humanos. Aquela faixa de luz é a costa leste dos Estados Unidos, um clarão contínuo de Boston até Washington. Do outro lado do mundo, vê-se a queima de gás natural na Líbia. As luzes ofuscantes da frota camaroneira do Japão movem-se na direção do mar da China Meridional. A cada órbita, a Terra conta novas histórias. Você avista uma erupção vulcânica em Kamtchatka, uma tempestade de areia proveniente do Saara aproximando-se do Brasil, uma excepcional queda de temperatura na Nova Zelândia. Você passa a pensar na Terra como um organismo, uma coisa viva. Passa a se preocupar com ela, a lhe querer bem. As fronteiras nacionais são tão invisíveis quanto os meridianos ou os trópicos de Câncer e Capricórnio. As fronteiras são arbitrárias. O planeta é real. (p.270-271)

O meu problema com o livro é que ele é mal acabado. Li em algum lugar (desculpe não te referenciar, realmente não lembro onde foi) que os autores americanos escrevem livros tão grandes porque ganham por página. Contato poderia cortar umas duzentas sem fazer a menor falta. Há personagens inteiros inúteis, conversas sem fim que não levam a lugar nenhum, descrições e descrições de coisas sem qualquer importância. Da metade pro final o livro se arrasta. Até mesmo o par romântico de Ellie some da história sem que seja dada a menor explicação sobre o que aconteceu. E o fim do livro, com surpresinha, tampouco me caiu bem. Muito melhor foi a abordagem dada no filme. Sempre fui da teoria “o livro é melhor”, mas desta vez terei que mudar de ideia.

Um certo probleminha com a ficção científica

Eu me animo com as minhas próprias indicações, e desde que publiquei textos a respeito, continuo lendo Nietzsche e ficção científica. Estou no 3001. Depois do 2001, li o excelente 2010. Só que, se me permitem comentar rapidamente a continuação, foi como terminar Matrix e ver Matrix 2 – já vou adiantando que não detesto Matrix 2, como parece ser o caso da maioria dos fãs. Enquanto 2001 é um livro que se arrasta no início e depois nos abre a mente e nos faz sonhar, 2010 é um livro que começa emocionante e cheio de aventuras desde o início. Mas ele é mais isso, um livro de aventuras. Parece que as continuações têm esse problema, que quebrarem a mágica dos livros/filmes que lhe deram origem. Minha teoria é que as continuações dão respostas, e interessantes mesmo são as perguntas. Depois de 2010 vem o 2061 que, conforme meu amigo Bruno que leu toda série e é fã de ficção científica me explicou, teve a data inspirada na segunda passagem do cometa Halley, que agitou tanto os anos 80 e nem deu pra ver. Foi graças ao Bruno que não parei a série ao não encontrar com 2061 na biblioteca. Parti logo para o 3001, que ignora completamente o livro anterior.

Essa introdução toda foi só pra dizer que estou no 3001. Lembram dos dois astronautas da Discovery, Poole e Bowman? HAL acerta uma nave em Poole e ele flutua pelo espaço, enquanto Bowman se vira para completar a missão, encontra o monolito e etc? Em 3001 descobrimos que Poole não morreu! Ele é reencontrado e reanimado mil anos depois. Ele encontra uma sociedade muito diferente daquela onde vivia e precisa se readaptar. Aí começa aquele enorme risco que é quando um autores de ficção científica jogam as coisas muito para o futuro. Uma coisa é falar de uma estação espacial e de uma nova, outra é imaginar a organização social. O mundo do ano 3000 imaginado por Clarke tem grandes estações espaciais, combustíveis a vácuo, naves conduzindo cometas, capacetes que leem as informações direto do nosso cérebro. Mas também há um armazenador de informações pessoais tão pequeno que tem “o tamanho de um disquete, só que mais grosso” ou comunicações unilaterais via rádio, que levam horas pra chegar.

Só que não é isso o que mais chama atenção e realmente me incomoda. São projeções do futuro que pecam pelo excesso de racionalidade. Para usar com mais conforto o tal capacete que lê informações cerebrais, todos – homens e mulheres – fazem uma depilação definitiva no couro cabeludo e usam peruca. Como várias religiões davam muitas brigas, a sociedade decidiu abandonar tudo e são apenas teístas (“acreditam não existir mais que um só deus”) ou deístas (acreditam “não haver menos que um só deus”). O consumo de carne é abandonado porque despende muitos recursos naturais e passa a ser considerado uma coisa bárbara. Acho que nem preciso mencionar que existe apenas uma única língua universal, que mistura inglês, francês, mandarim e germanismos. Muito melhor. Tão fácil fazer isso, é só juntar os maiores linguistas de mundo, criar uma língua e ensinar todo mundo, certo?

Nessas visões a humanidade consegue olhar para si mesma, abandonar suas irracionalidades sozinha e entrar em acordos que facilitem a vida de todos. Eu não consigo acreditar nisso. Não vejo acontecendo nem em confraternização de fim de ano, quanto mais em escalas mundiais. Não acredito nesse homem tão racional, não acredito no avanço tecnológico acompanhado de um “crescimento” na parte emocional e instintiva. Ao invés de me ver parecida com a humanidade de 3001, sinto um parentesco muito maior com qualquer romance do século XVI. Pega Cervantes, Balzac, Machado, Faulkner e outros e diz se aquilo não diz a verdade. O entorno pode ser diferente mas a humanidade está toda lá: paixão, ciúme, inveja, ira, vaidade, desejo de poder. A racionalidade é apenas um pedaço, e dos pequenos. O monolito ficaria decepcionado.

A odisséia de 2001 ou Somos tão pequenos

Comecei em dezembro do ano passado o livro 2001: uma odisseia no espaço, conforme o post que publiquei. Eu não vi o filme. Tentei ver três vezes, três noites seguidas. Eu lembro da nave flutuando suavemente no espaço, ao som de Danúbio Azul, e isso teve sobre mim um efeito sonífero imediato, de maneira que pulava dessa cena direto pra cama e nunca vi o que havia em seguida. A leitura ignorante me fez levar um susto quando Hal (spoiler alert vale pra um filme tão velho?) mata o astronauta. Ei, não ria! Eu tinha ouvido falar que o original da história era ter um computador mentiroso, mas eu não sabia do que ele era capaz…

Demorei tanto pra terminar o livro porque até Hal animar as coisas, achei a história bastante parada. Agora que já li tudo, vejo que não poderia ser diferente. O autor quis nos fazer entrar no universo futurista, onde tudo é tão claro, automático e, principalmente, solitário. São longas descrições de plataformas que deslizam suavemente, objetos flutuando sem peso, superfícies perfeitamente homogêneas e ações calculadas. Quase como se fosse necessário o homem se libertar da sociedade para alcançar verdades maiores. Não posso deixar de falar: apenas mesmo o machismo da época que o livro foi escrito (1968) para explicar uma estação espacial ter dois homens solitários, que tinham namoradas na Terra e conversas íntimas com elas no início da missão e que foram rareando até acabar. Por que não imaginar mulheres tão competentes quanto os homens e uma população mista de astronautas? Como disse, só com o machismo da época…

Embora as ações de Hal (até onde eu saiba) sejam a parte mais famosa do filme, o livro cresce ainda mais depois que supera esse conflito. Aqui, entra a pergunta de quem não viu o filme: será possível que imagens tenham podido transmitir o deslumbre que Clarke nos passa?  Um homem representando toda a humanidade, tendo acesso ao que apenas vislumbramos teoricamente, fazendo parte da própria Criação. É muito bonito! Me disseram que ler o livro ajuda a entender coisas que não ficaram muito claras no filme. Eu vi mais de uma referência do quanto Júlio Verne fez os leitores que lhe eram contemporâneos serem transportados para outro mundo. As pessoas ainda andavam de trem quando Verne antecipou viagens pelo céu e pelo mar. 2001 é um livro com ambição (e efeito) semelhante.

Não sei se direi alguma besteira aqui, mas acredito que toda boa ficção científica seja assim, muito mais do que apenas falar do que pretendemos que um dia exista. Há uma mística, não sei até que ponto verdadeira, em torno de todos os olhares direcionados às estrelas: a capacidade de perceber o gigantesco que nos cerca e, com isso, perceber a transitoriedade do humano. É por este caminho que o livro 2001 nos leva. Somos um acaso ou uma criação ou uma conjunção de fatores inesperada, rica, belíssima – ou, de outro ponto de vista, violenta e incontrolável. Mas, ainda assim, apenas poeira diante do universo.

Para terminar, deixo aqui um insight maravilhoso que um astrofísico nos proporciona, muito dentro do espírito do livro. É uma aula do professor Neil deGrasse (vídeo que apareceu no meu FB graças a outro professor, o Farinatti).

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Vida em outros universos

Quote

Meu contato com a ficção científica sempre se deu principalmente via Asimov, que nunca me pareceu um escritor que gostasse da escrita. Quando digo gostar da escrita, falo do prazer (ou necessidade) que o escritor tem de combinar as palavras de maneira a se expressar da maneira mais bela, perfeita e/ou precisa. Asimov sempre me pareceu ter muitas histórias para contar, e infelizmente o único meio possível para transmiti-las era esse, escrever. Se ele pudesse, nos transmitiria as ideias via USB. Nenhum parágrafo dele me parece ser escrito com ou para dar prazer, apenas para comunicar. E quando não está contando fatos e se vê obrigado a colocar um pouco de subjetividade – como no caso das cenas de sexo -, Asimov fica claramente ruim.

Por causa de Asimov fiquei com a impressão de que escritores de ficção científica não são capazes de escrever com beleza. Estava enganada. Olha que belo prefácio tem o livro 2011: uma odisseia no espaço:

Por detrás de cada homem vivo hoje estão trinta fantasmas, pois essa é a proporção pelo qual os mortos superam os vivos. Desde a aurora do tempo, aproximadamente cem bilhões de seres humanos já caminharam sobre o planeta terra.

Ora, esse é um número interessante, pois, por uma curiosa coincidência, existem aproximadamente cem bilhões de estrelas em nosso Universo local, a Via Láctea. Então, para cada homem que já viveu, brilha uma estrela nesse Universo.

Mas cada uma dessas estrelas é um sol, muitas vezes bem mais brilhante e glorioso do que a pequenina estrela próxima que, para nós, é o Sol. E muitos – talvez a maioria – desses sóis alienígenas têm planetas girando ao redor deles. Então, quase certamente existe Terra suficiente no céu para dar a cada membro da espécie humana, desde o primeiro homem-macaco, seu próprio paraíso – ou inferno – do tamanho de um mundo.

Quantos desses paraísos ou infernos em potencial são hoje habitados, e por quais espécies de criaturas, não temos como saber. O mais próximo fica um milhão de vezes mais distante do que Marte ou Vênus, estes objetivos ainda remotos da próxima geração. Mas as barreiras da distância estão desmoronando; um dia encontraremos nossos iguais, ou nossos senhores, entre as estrelas.

Os homens têm levado muito tempo para encarar essa perspectiva; alguns ainda esperam que ela jamais venha a se tornar realidade. Cada vez mais pessoas, entretanto, estão se perguntando: ” Por que esses encontros ainda não aconteceram, já que nós mesmos estamos prestes a nos aventurar no espaço?”

Realmente, por que não? Eis aqui uma possível resposta a essa pergunta muito sensata. Mas, por favor, lembrem-se: esta é apenas uma obra de ficção.

A realidade, como sempre, será muito mais estranha.

Arthur C. Clark

Eu, Robô

Quando me propus a ler Asimov, eu fiz tudo errado. Comecei por Fundação, que lá pelo meio do livro fica muito chato, e leva mais de cem páginas pra recuperar o ritmo. Depois li Fim da Eternidade e Nêmeses, que são histórias menores. Deveria ter começado por Eu, Robô – uma história dinâmica, criativa e inesperada. Esse livro justifica toda adoração por Asimov. Esqueça o filme com Will Smith, que não tem nada a ver com o livro, fora o fato de citar As Três Leis da Robótica:

1- Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2- Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

3- Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Essas leis, que parecem tão simples quando lemos, são destrinchadas por Asimov em cada uma de suas possíveis complicações. Há um fio condutor, mas na verdade o livro é constituído de várias histórias de problemas de relacionamento com os robôs, quase sempre por causa das leis. Sobre ferir um ser humano, isso pode ser tanto no aspecto físico quando psicológico? E quando esse cuidado de não permitir que o ser humano sofra qualquer mal é tomado tão literalmente que impede o uso de robôs em lugares de risco? Como um robô reagiria de posse de informações desejadas mas que se fornecidas podem gerar algum mal? O que nos parece claro pode não ser quando pensamos numa programação – tal como acontece de verdade. O autor levanta essas questões e cria histórias, suas consequencias e soluções. O final é uma verdadeira provocação científica e uma confissão de fé. As quase trezentas páginas passam sem sentir e eu estou louca para ler Nós, Robôs.