A odisséia de 2001 ou Somos tão pequenos

Comecei em dezembro do ano passado o livro 2001: uma odisseia no espaço, conforme o post que publiquei. Eu não vi o filme. Tentei ver três vezes, três noites seguidas. Eu lembro da nave flutuando suavemente no espaço, ao som de Danúbio Azul, e isso teve sobre mim um efeito sonífero imediato, de maneira que pulava dessa cena direto pra cama e nunca vi o que havia em seguida. A leitura ignorante me fez levar um susto quando Hal (spoiler alert vale pra um filme tão velho?) mata o astronauta. Ei, não ria! Eu tinha ouvido falar que o original da história era ter um computador mentiroso, mas eu não sabia do que ele era capaz…

Demorei tanto pra terminar o livro porque até Hal animar as coisas, achei a história bastante parada. Agora que já li tudo, vejo que não poderia ser diferente. O autor quis nos fazer entrar no universo futurista, onde tudo é tão claro, automático e, principalmente, solitário. São longas descrições de plataformas que deslizam suavemente, objetos flutuando sem peso, superfícies perfeitamente homogêneas e ações calculadas. Quase como se fosse necessário o homem se libertar da sociedade para alcançar verdades maiores. Não posso deixar de falar: apenas mesmo o machismo da época que o livro foi escrito (1968) para explicar uma estação espacial ter dois homens solitários, que tinham namoradas na Terra e conversas íntimas com elas no início da missão e que foram rareando até acabar. Por que não imaginar mulheres tão competentes quanto os homens e uma população mista de astronautas? Como disse, só com o machismo da época…

Embora as ações de Hal (até onde eu saiba) sejam a parte mais famosa do filme, o livro cresce ainda mais depois que supera esse conflito. Aqui, entra a pergunta de quem não viu o filme: será possível que imagens tenham podido transmitir o deslumbre que Clarke nos passa?  Um homem representando toda a humanidade, tendo acesso ao que apenas vislumbramos teoricamente, fazendo parte da própria Criação. É muito bonito! Me disseram que ler o livro ajuda a entender coisas que não ficaram muito claras no filme. Eu vi mais de uma referência do quanto Júlio Verne fez os leitores que lhe eram contemporâneos serem transportados para outro mundo. As pessoas ainda andavam de trem quando Verne antecipou viagens pelo céu e pelo mar. 2001 é um livro com ambição (e efeito) semelhante.

Não sei se direi alguma besteira aqui, mas acredito que toda boa ficção científica seja assim, muito mais do que apenas falar do que pretendemos que um dia exista. Há uma mística, não sei até que ponto verdadeira, em torno de todos os olhares direcionados às estrelas: a capacidade de perceber o gigantesco que nos cerca e, com isso, perceber a transitoriedade do humano. É por este caminho que o livro 2001 nos leva. Somos um acaso ou uma criação ou uma conjunção de fatores inesperada, rica, belíssima – ou, de outro ponto de vista, violenta e incontrolável. Mas, ainda assim, apenas poeira diante do universo.

Para terminar, deixo aqui um insight maravilhoso que um astrofísico nos proporciona, muito dentro do espírito do livro. É uma aula do professor Neil deGrasse (vídeo que apareceu no meu FB graças a outro professor, o Farinatti).

Imagem de Amostra do You Tube

Pina Bausch: bela e visceral, trágica e esperançosa, sua arte renasce em filme

O filme Pina, de Wim Wenders, era para ser feito em parceria com Pina Bausch, que descobriu em si um câncer cinco dias antes das filmagens e morreu dois dias antes do início delas, em 30 de junho de 2009. Wenders desistiu imediatamente do projeto mas foi convencido pelos bailarinos da coreógrafa a ir em frente. Assim, Pina é, na verdade Ein film für Pina Bausch. A tradução do tíitulo para Pina, simplesmente Pina, no Brasil, é um empobrecimento do original: Um filme para Pina Bausch. Pois é isto mesmo, trata-se de um filme dedicado a Pina Bausch, uma homenagem. O resultado — que está em cartaz nas maiores capitais brasileiras — é excelente. O filme traz entrevistas com seus colaboradores e conta um pouco da trajetória da artista, mas, principalmente, permite que o público tenha a experiência de ver o seu trabalho. Foi filmado em 3D, o que finalmente dá sentido à existência dessa tecnologia. Pina já tinha experiência no cinema: atuou em La Nave Và (1983), de Fellini; colaborou com Almodóvar em Fale com ela (2002); foi tema de documentários, com destaque para Un jour Pina m’a demandé (Um dia Pina me perguntou), de Chantal Ackerman, e dirigiu um filme, o perturbador Die Klage der Kaiserin (O Lamento da Imperatriz, 1990).

Feminilidade, por Scarlett O´Hara

Peguei … E o vento levou com todos os preconceitos em torno da idéia de pegar pra ler um best seller que virou filme. Tudo graças às recomendações da Luciana, que disse que era uma leitura agradável. Pois digo que ela não fez justiça ao livro – ele é delicioso. Além dos personagens inesquecíveis e da história que todos nós conhecemos, o livro têm detalhes, costumes, uma percepção muito aguda do pensamento da época. O livro descreve os pais de Scarlett O´Hara, o que a torna uma mistura inusitada de todas as maneiras e sutilezas que uma grande dama deve ter, mas com a força do sangue irlandês paterno, tão forte que não conseguiu ser domado pela educação. Ela conhece e maneja muito bem os artifícios femininos, mas sempre com o cinismo de quem sabe quem usa uma fachada; Scarlett não se identifica e não se deixa enganar por eles. Apenas uma mulher que compreende o teatro da relação entre os sexos poderia dizer isto:

– Quisera Deus que eu já fosse casada! – murmurou enervada ao encetar as batatas doces. – Já não posso mais com esse constante constrangimento de não fazer nada do que me apraz. Estou cansada de fingir que me alimento como um passarinho; de andar devagar, quando a minha vontade é correr; de insinuar que quase perco os sentidos depois de cada valsa, quando poderia dançar dois dias seguidos sem me sentir cansada. Estou cansada de dizer: “Você é extraordinário!”, a uns idiotas que têm muito menos juízo do que eu; cansada de fingir ignorância, para que os rapazes se sintam cheios de si, e me ensinem o que estou farta de saber…
MITCHELL, Margaret. …E o vento levou. 5º ed.
São Paulo: Hemus, [1980] p.67

Ainda tão atual, não?

Viúvas na Índia

Li o Mahabharata porque cresci admirando o hinduísmo. Esse livro representa para os indianos o mesmo que a Bíblia para o resto do ocidente, com a vantagem de ser muito mais interessante. Uma das muitas histórias da complexa trama familiar do Mahabharata é a do rei Pandu.

O rei Pandu estava na floresta quando viu dois cervos se acasalando. Ele os acerta com as suas flechas. Só que o cervo, na realidade, era filho de um poderoso asceta. Ele (o filho) e sua esposa haviam se transformado em cervos pra ter um filho. Indignado com a crueldade do rei, o sábio/cervo lhe rogou uma praga: que no dia que Pandu cedesse ao seu desejo sexual, morreria. Desesperado, o rei decide viver sozinho na floresta. Mas suas duas esposas, Madri e Kunti, decidem acompanhá-lo e viver também uma vida de austeridade. A Rainha Kunti havia recebido do sábio Dvrvasa o dom de invocar um semi-deus e ter filhos através dele, e o uso desse dom permitiu a ela e a Madri continuar a linhagem dos Pandavas. Mesmo sendo uma pessoa de grande bondade, sabedoria e controle, o rei Pandu era humano*…

A floresta amável estava viva, com frutas e flores a desabrochar, e palmeiras, esplendorosos caramanchões, manga e campaka celestial. O cenário colorido cintilava com o frescor da Primavera, rios e lagos cheios de lotus, e enquanto Pandu contemplava a floresta, o intrometido Cupido surgiu em seu coração.

Vestida em trajes brilhantes, Madri viu Pandu desportivo como um semideus, sua bela face inspirava afeição, e ela seguia atrás dele. Pandu observava sua jovem esposa, em seu fino vestido, caminhando ao longo, e seu desejo agora crescia como um fogo que arde das profundezas do seu combustível. Sozinho com Madri naquele vale isolado, Pandu viu o mesmo fogo queimando no coração de Madri, e ao fixar-lhe nos olhos amáveis, ele não pôde controlar seu desejo, pois tomara conta de toda sua vida.

Nessa floresta secreta o monarca segurou sua esposa à força. A deusa torceu-se e lutou com toda sua energia para impedi-lo, mas o desejo já o havia possuído, e Pandu nada lembrava da maldição. À força ele foi para cima de Madri no ato de amor.

O rei morre logo depois de satisfazer seu desejo e Madri assume a culpa de tê-lo feito ceder – quem mandou ser tão jovem e bonita? Então, pede para Kunti cuidar dos seus filhos e decide se juntar ao rei na pira funerária.

O problema é que por fazer parte de um livro sagrado, essa história passou a servir de modelo e inspiração. Na Índia é costume que as esposas sejam queimadas ao lado do marido. Tenho certeza de que é para repetir o sacrifício da rainha Madri.

* A descrição que tenho, de Willian Buck, não comete a liberdade imperdoável de colocar o Cupido no meio da história. Mas esta é melhor.

Hairspray

Em uma palavra, Hairspray é filme de mulherzinha. Não digo isso de forma pejorativa, eu amo o filme. Ele é baseado num musical da Broadway. A trama não é profunda e nenhum conflito imprevisível ou angustiante; o forte são as cenas de canto, dança, os figurinos, ver a gordinha simpática triunfar. Tem John Travolta mostrando os seus dotes de bailarinos como uma mulher – conheço quem tenha visto o filme quatro vezes sem saber onde é que ele estava – e um elenco todo funciona bem. É um filme leve, daqueles que deixa a pessoa feliz e otimista depois que assiste.
A protagonista, Tracy (Nikki Blonsky), chama atenção desde o início por não ter o comportamento que esperamos de uma adolescente em cima do peso – ela gosta de si mesma do jeito que é, e nunca se coloca como a menina gorda. Ela é confiante e se propõe a ser estrela de um programa de dança e a conquistar o garoto mais desejado do colégio. E quase todo mundo reage de maneira positiva à sua confiança. A voz dissonante é a da vilã Velma (Michelle Pfeiffer) que impõe seu padrão de beleza magra e branca ao programa de TV que é o centro da história. E é aí que entra Tracy entra numa discussão maior do que apenas ser bonita ou ser gorda – ela conhece o racismo e do desrespeito às diferenças.

 

As músicas são excelentes. Elas funcionam no musical e também fora dele. The new girl in town contrasta a cultura branca e convencional, com a cultura negra, muito mais calorosa e requintada. Good Morning, Baltimore!, música de abertura do filme, mostra uma Tracy fofa, otimista, alegre, daquelas músicas que se pode dizer – “essa música me representa”. Ao mesmo tempo, ela não deixa de mostrar que a felicidade da protagonista se baseia na ignorância dos problemas que a cidade enfrenta. The Nicest Kids in Town dá vontade de fazer parte de tudo aquilo: o barato de assistir TV, de sonhar com as estrelas, ser diferente dos pais e faltar aulas – quem precisa ler e escrever quando se pode cantar e dançar? A última música do filme, que está incompleta no primeiro video que eu postei, é apoteótica. As músicas mais maduras são as cantadas pela representante negra do programa de TV, Motormouth (Queen Latifah). Em Big, blonde and beautiful ela discute os padrões de beleza e I know where I´ve been fala da luta contra o preconceito. Whitout love é romântica e ingênua, com metáforas pueris que combinam com o primeiro amor daqueles que a cantam. Minha canção preferida, que achei por acaso enquanto fazia este post, é esta:

 

Amor de filme

Um homem solteiro e uma mulher solteira, que não se conheciam ou nutriam de grande antipatia mútua, passam um período ligados por um compromisso importante. O que no início era uma tortura, com o convívio se torna amor. Qual o nome do filme? Qualquer um, porque essa é a essência de quase todos os filmes românticos. Não chega a ser uma ironia, acreditar que o amor pode surgir de um convívio sem escolha, nós que vivemos na época de maiores escolhas de parceiros? Não temos mais que casar em função de um sobrenome ou com parceiros escolhidos por nossos pais. Às mulheres, a liberdade econômica permitiu escolher um parceiro que lhe agrade, e não apenas que lhe garanta a sobrevivência. Graças à internet e às redes sociais, podemos entrar em contato, por dia, com muito mais pessoas do um homem medieval durante sua vida inteira. Quando alguém nos diz que o amor surge no convívio, como aconteceu com nossos antepassados, achamos pequeno; não permitimos mais qualquer interferência na escolha do parceiro – mas na hora de ver uma história de amor, nos emocionamos com casais que não se escolheram.

Uma visão pode ser a de que as pessoas não escolheram, mas que existe uma escolha. Essa escolha seria a do Destino. Isso retiraria a gratuidade do encontro. Os conflitos seriam superficiais; as pessoas envolvidas foram feitas uma para a outra e não percebem. Ou seja: os critérios que usamos para escolher os nossos parceiros são errados, ou não alcançam a essência. Ao buscar alguém de hábitos e idéias parecidas, estamos escolhendo algo que não reflete nossas reais necessidades. Quem sabe o que há por detrás da aparência é alguma coisa maior do que nós. Outro modo de ver a questão, é que homens e mulheres, se pudesse se conhecer em profundidade, se envolveriam com pessoas que elas nem imaginam. Nesse sentido os filmes românticos estariam propondo ao expectador sair da sua zona de conforto, que o que ele precisa não tem a ver com que ele acha que precisa. Viver um grande amor, mais do que encontrar a pessoa certa, seria se colocar na atitude correta: enfrentar o desconhecido, até se familiarizar e aprender a amá-lo. Uma atitude parecida com as dos nossos antepassados, pensando bem.

Talvez o problema esteja justamente no nosso imenso poder de escolha. Entrar em contato, ter milhares de amigos e seguidores, não é o mesmo que conhecer. Sabemos muito pouco daqueles com quem convivemos, vemos muitos rostos e quase todos eles não nos mostrarão muito mais do que isso. É tão fácil arranjar novos amigos, que frente à qualquer contrariedade basta apenas ir para outro. Não existe a necessidade de suportar alguém que tenha qualquer hábito irritante. Uma crônica bastante clara disso é o seriado Seinfield, onde os próprios personagens se impressionam com as pessoas que descartaram das suas vidas por motivos fúteis: porque gostava de um comercial idiota, tinha as mãos muito grandes, falava de si na terceira pessoa, não ria das piadas, etc. Como disse Bauman, ao escolher alguém, fazemos com base no presente. Ignoramos o futuro e mesmo assim o comprometemos. Hoje o nosso futuro é algo muito fluido. Como nos surgem tantos contatos diariamente, é muito difícil firmar esse compromisso.

Cisne Negro – parte 2

O controle, a determinação e a ambição levam à conquista de muitas coisas, mas matam a expressividade. É justamente a dedicação extremada que faz de Nina uma bailarina técnica. Ela vive para o ballet e ao mesmo tempo, não dança – não sente prazer, não se expressa. A arte tem essa característica de exigir a essência. Como muitas, Nina começou a dançar ballet por causa do sonho da mãe dela. Mesmo quando é a criança que pede, dançar ballet é principalmente um projeto dos pais. No ballet, assim como em outras modalidades artísticas, é necessário começar muito cedo. Os pais precisam se dispor a isso, a pagar escolas de ballet durante mais de dez anos. É um grande investimento de tempo e dinheiro. Até a filha crescer o suficiente, alguém precisa leva-la às aulas, aos ensaios, cuidar de suas sapatilhas. Os figurinos são caros e, dependendo do formato do pé, é preciso comprar pontas novas todo mês. A filha, por sua vez, se acostumará com a disciplina, tentará se manter sempre magra, usará roupas cor de rosa, assistirá videos e desejará representar as muitas princesas clássicas.

No caso da Nina, isso é especialmente forte porque sua mãe (Barbara Hershey) foi uma bailarina profissional. No filme, não fica claro o quanto sua mãe conseguiu com o ballet ou apenas fantasiou. O fato é que ela ainda se vê como uma bailarina e se veste como uma bailarina madura. Ela claramente joga na filha a culpa pelo fim da carreira. Nina foi (e talvez ainda seja) uma criança programada para amar o ballet. Ao tentar se realizar através de sua filha, Erica nutre por ela sentimentos ambíguos. Há momentos em que é difícil separar a mãe superprotetora da rival. A mãe controla Nina, que por sua vez se controla para fingir que não nota os choros escondidos, as reações exageradas, o preço caro que paga para manter a paz entre as duas. A mãe é toda família que ela tem, a única pessoa com quem ela realmente se relaciona. Ela, o ballet e a mãe se misturam num mundo de espelhos, pelúcias e sapatilhas, um mundo que a cerceia e infantiliza.

Diante de tudo isso, Thomas tem a difícil missão de transformar uma menina no Cisne Negro – um dos personagens mais interessantes dos ballets românticos. O Cisne Negro é sensual, sedutor, malvado, egoísta, traiçoeiro. Ironicamente, é a necessidade de estar à altura desse papel que desperta o lado negro de Nina. Beth e os outros bailarinos insinuam o tempo todo que Thomas torna as solistas suas amantes (posso dizer que isso também acontece na vida real? Ops!). Quando ela vai pedir o papel a Thomas, de cabelos soltos e batom (que pertencia a Beth), é possível pensar que ela estava disposta a pagar esse preço, se fosse preciso. Mas ela é tão tímida e passiva que a sedução é apenas adivinhada. Ela é claramente uma princesa a ser conquistada, não uma sedutora. Thomas percebe tudo isso e, seja por ser hábito ou pelas circunstâncias, ele seduz Nina e desperta seus desejos. Ele puxa – como diretor artístico e como homem – Nina para um doloroso processo de auto-descoberta.

É dentro desse grande rompimento interno que a história se desenvolve. Externamente, ela se machuca, sangra, se coça, quase arranca a pele do dedo, das unhas, das costas. É troca de pele – como vemos na textura que a pele adquire no dia do espetáculo. Em meio a esse turbilhão, surge a figura de Lily (Mila Kunis). Nina projeta em Lily toda a liberdade e expressividade que não consegue ter; ela a admira, a deseja e a teme. As cenas de ballet diminuem e os delírios aumentam. Nina aparece cada vez mais pálida e cansada, totalmente mergulhada na crise. Ela joga suas bonecas fora, briga com a mãe, fantasia com Lily. Até sua imagem no espelho se desloca, ela não sabe mais o que verá. Nas poucas cenas de ensaios, vemos ela procurar ansiosa o olhar do Thomas, que a cada dia se dirige menos a ela. Alguma coisa está acontecendo por fora, mas ela ainda não sabe o quê. Quando, durante o ensaio da morte do Cisne, Thomas descreve a perda de todos os referenciais e o sentimento de desesperança, percebemos que Nina está vivendo o mesmo sofrimento do Cisne. Assim como a estréia é o ponto alto de toda preparação dos ensaios, na noite anterior os delírios atingem seu auge. Nesse ponto, (exagerado, na minha opinião) ela vive momentos de puro terror.

Nas últimas cenas, ela e os cisnes já são um só. Ela surge frágil e temerosa quando cisne branco; já de cisne negro, mata a rival que tenta tomar o seu lugar. Depois entende que a única a morrer em todo essa história foi ela mesma, e essa dor vai ao palco e se transforma em arte. A cena dos deboulés do cisne negro, que a transformam gradualmente, é maravilhosa. Ela finalmente se tornou uma solista.


Pas de deux do cisne negro- La Scala Ballet, com Polina Semionova e Roberto Bolle.

Cisne negro – parte I

Uma companhia de ballet seleciona seus membros pra garantir uma qualidade mínima. Quando mais prestigiosa e quanto mais ela puder oferecer aos seus bailarinos, mais exigente ela pode ser. Existem coisas que toda bailarina profissional deve ter: o físico magérrimo, um alongamento bastante acima da média, uma boa ponta e saber executar os pouco mais de duzentos passos principais que, em conjunto, formam as coreografias de ballet. Mas, mais do que isso, uma companhia de ballet precisa de bailarinos talentosos formam o seu primeiro time, os solistas. Os solistas precisam ser superiores aos outros bailarinos em todos os aspectos. Eles representam a companhia, têm seus nomes reconhecidos e muitas pessoas vão a um espetáculo especialmente para vê-los.

A pessoa que está à frente no palco acaba puxando todas as outras. Se ela erra, os outros também errarão. Estar no lugar mais importante do palco, cara a cara com o público, requer muita segurança. Quem já subiu num palco sabe: pode ser inebriante, pode ser aterrorizante, pode ser as duas coisas juntas. É preciso técnica e algo além da técnica. Dizer a um artista que ele é bastante técnico pode soar como elogio ou xingamento. Porque técnica é algo que tem a ver com esforço, com horas trabalhadas, com bons professores, com a capacidade do corpo em responder o que é exigido dele. Mas não tem, necessariamente, a ver com o talento. Alguém com excelente técnica pode fazer a passagem mais difícil ou mais emocionante e o público bocejará. Existe uma comunicação invisível entre artista e platéia que não depende da quantidade de horas trabalhadas. É algo que faz parte da essência do artista, do que ele é o que consegue transmitir. A única coisa que ele pode fazer pra tentar crescer nesse aspecto é viver, porque para transmitir é preciso ter muito dentro de si.

Por tudo isso, dá pra imaginar o quanto é problemático substituir uma solista. Muita gente boa larga o ballet todos os anos, porque todos querem ser solistas e não existe solo pra todos. Não ser solista significa dançar pelo coletivo, jamais ter as luzes apenas para si. Isso é especialmente cruel no ballet clássico, onde as coreografias mais tradicionais colocam quase todo corpo de baile com roupas iguais e pelos cantos. Existem mais pessoas desejosas do que merecedoras desse destaque. Uma nova solista dá uma nova cara a companhia; é um momento de mudança e, como tal, um momento de crise. E é assim que se inicia Cisne Negro, num momento de crise. A aposentadoria de Beth (Winona Rider) inicia uma crise na companhia, que por sua vez desencadeia uma crise pessoal naquela que foi escolhida para o posto: Nina (Natalie Portman, simplesmente maravilhosa).

Podemos dizer que numa companhia de ballet todo mundo tem um pouco de diretor artístico. Todos se conhecem, fazem aulas juntos e ensaiam diariamente. O público pode ter ilusão de uniformidade, de que cada um no palco é excelente; mas para quem está lá dentro existe uma escala silenciosa. Cada pessoa lá dentro têm seus favoritos, sua própria opinião sobre quem merece estar em que papel. Em outras áreas, é possível conseguir um emprego e enganar as pessoas sobre sua real capacidade durante muito tempo; basta ter um bom currículo e impressionar no processo de seleção. Na dança, todo o processo é feito com base em audições. Não importa de onde você veio, se de uma escola de bairro ou do Bolshoi – quando a música toca e você começa a fazer a coreografia, não há o que esconder. Seus movimentos denunciarão a sua precisão, o seu domínio e a sua interpretação. Para olhos treinados, tudo isso se revela em poucos minutos. Não é apenas Thomas (Vincent Cassel) que sabe que Nina é apenas um Cisne Branco – toda companhia sabe.

Para a nova solista, Thomas escolheu sua melhor opção – mas ser a melhor opção não é sinônimo de ser o ideal. Por fazer parte da companhia há muito tempo, todos sabem o que esperar de Nina: técnica. O ballet exige muita técnica, mas todos eram profissionais; ela certamente não era muito melhor que as outras que participaram da audição. Em outras palavras, Nina não é convincente o suficiente para ser solista. E estar numa posição desejada por todos sem ser claramente merecedor não é confortável pra ninguém. As pessoas ficam insatisfeitas, se sentem injustiçadas e questionam os critérios de escolha. Quando é uma mulher, sempre existe a suspeita de que ela dormiu com o chefe… Surgem os boatos, as especulações, as hostilidades. A credibilidade do diretor artístico é colocada em dúvida e a escolhida sente que a qualquer momento pode perder seu papel. Qualquer atraso num ensaio ou um momento de fraqueza podem colocar tudo a perder. Nina percebe isso e se sente perseguida. Aí começa a surtar. Ela precisa provar para sua própria companhia que merece ser a Rainha Cisne. Essa pressão faz desmoronar o que a levou ao topo e que, ao mesmo tempo, a impede de ser uma artista completa: o controle.

Leia também a Parte II

Imagem de Amostra do You Tube
Pas de Deux do cisne branco – Bolshoi, Anastasia Volochkova e Evgeny Ivanchenko

Joana D´arc de Luc Besson

Comecei a gostar de filmes de época quando vi Ligações Perigosas. O filme me impressionou tanto que revi incontáveis vezes de li o livro umas duas ou três vezes. Minha impressão foi tão boa que esperava encontrar em outros filmes de pessoas com perucas brancas e vestidões o mesmo estranhamento dos diferentes costumes, em meio a uma boa trama. Não preciso dizer que quase tudo que vi depois foi uma decepção. E a cada ano que passa, a decepção tem sido maior: detesto ver os valores e costumes próprios da nossa época transpostos para outra. Muda o cenário, muda o figurino, mas os personagens agem e pensam como se estivessem na era da internet. Tem gente que não liga, acha que é liberdade poética, etc. Eu não gosto, considero apenas um filme ruim.

Nunca esqueci da dor no bolso que senti por ter visto Joana D´arc de Luc Besson no cinema. É um filme que não merece nem Sessão da Tarde. Em uma só cena, logo no início do filme, já pude perceber que seriam longos (e cheios de indignação) os minutos sentada naquela poltrona. O filme começa com a pequena Joana vendo a família ser dizimada e vai viver com parentes. Na cena em questão, o casal a coloca sozinha no quarto e conversa discretamente sobre o evento – só faltou usarem a palavra “traumático” – que ela viveu. Medievais que conviviam com a fome, a morte e a violência de maneira muito mais próxima, com baixa perspectiva de vida, que destrinchavam animais à mesa, achando brutal uma menina ver a morte de perto? (Ok, não era qualquer coisa, mas não tinha a dimensão que teria hoje, numa época em que a maioria das pessoas nunca vestiu um cadáver). Medievais achando que uma criança deve ser preservada, como se naquela época Freud já tivesse dito que nossa personalidade é formada na primeira infância, que tudo o que acontece naquela época pude gerar consequencias no futuro a que chamamos de traumas? Medievais oferecendo o privilégio de um quarto a… alias, como é que eles tinham quarto pra oferecer?

Ainda sobre Joana D´arc, é difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja nessa história de ouvir vozes um sintoma puro e simples de esquizofrenia. E dá pra perceber que Luc Besson pensa exatamente assim. Em todos os momentos do filme, vemos Joana (vivida pela péssima Milla Jovovich) com os olhos esbugalhados, enquanto os outros a olham com suspeita, com cara de “nossa, que mulher louca”. O Dustin Hofman aparece num papel de consciência e pergunta a ela coisas que uma pessoa racional perguntaria. O filme dá a entender que o único motivo dela ter recebido apoio foi conveniencia, manobra política. Se todos a olhavam como louca, quem acreditava nela e a considerava inspiradora? No filme não aparece um. Quem vê o filme não se dá conta que a Igreja Católica estava no seu ápice enquanto influência cultural, que quem não era católico estava desgraçado no mundo, que as pessoas acreditavam piamente em milagres. Homens medievais não eram racionais, não no sentido que entendemos hoje. E sem entender isso, toda história de Joana D´arc não faz sentido. Ou seja, o filme inteiro é uma baboseira sem sentido.