Feminilidade

A feminilidade não está restrita à juventude, aos traços faciais, à cor do cabelo, ao tamanho dos seios, dos quadris ou a qualquer outro tamanho. A visão binária que divide o mundo em masculino e feminino, claro e escuro, reto e redondo, ativo e passivo, público e privado, sempre nos foi muito negativa. Mas a crueldade para com as mulheres que vivemos hoje atingiu um nível muito mais profundo porque nos disseram – e nós acreditamos – que a feminilidade é um atributo físico, que pode ser perdido, que precisa ser comprado. Agora as mulheres correm para transformar seus corpos, assim. E nunca se sentem seguras o suficiente, por mais que invistam, porque na verdade estão procurando no lugar errado.

Ver La Truco, uma das grandes bailaoras da atualidade, me relembra isso. Ela não tem corpinho ou idade de modelo. Mas – ou será justamente por isso? – transpira feminilidade.

Carmen, Carlos Saura

Se qualquer espetáculo já fica muito mais interessante quando temos um conhecido nele, imagine como é fazer parte do espetáculo. A melhor visão é sempre a das coxias, num sentido muito amplo: ver a coisa nascer e se desenvolver, as mudanças, a divisão dos papéis e até mesmo as rixas internas. Carlos Saura parece concordar comigo, porque ele adora fazer filmes sobre esse processo. Assim é o maravilhoso Ibéria (2005), uma verdadeira ode à cultura flamenca, e assim é o mais antigo Carmen (1983), inspirado na ópera de Bizet.
Como ele é inspirado na ópera, é um filme recomendável para quem a conhece. A amiga que me emprestou o filme não tinha visto a ópera Carmen e o descreveu como “uma história meio chata, uma mulher bem vagabundinha e cenas incríveis de sapateado”. Para quem viu Carmen, o filme é um mosaico interessante, onde você procura se antecipar às cenas ou as encaixa na medida em que são representadas. O grande bailaor Antônio montará o espetáculo Carmen, e procura a mulher ideal para viver o papel. A ele pertence o papel de José. Nessa procura, ele conhece Carmen, uma bailaora inexperiente. Ela corresponde física e psicologicamente ao papel. À medida em que o espetáculo vai amadurecendo, os dois revivem dentro e fora dele a história de José e Carmen.
Para quem admira o flamenco, o filme fica especialmente bom pelos detalhes. As diversas cenas de canto e palmeo; os bailaores fazem exercícios, atravessam o palco com sapateados, há uma aula com castanholas, um momento dedicado apenas aos braceos. Carmen pede para Antonio seduzí-la, dançando uma farruca – uma das danças tipicamente masculinas. Há um confronto com martinete. Até os momentos em que eles terminam de ensaiar e deitam no chão me fazem pensar no quanto o flamenco maltrata a lombar… Numa cena, o elenco está comemorando um aniversário. O guitarrista começa uma canção, o cantaor corresponde, quem está por perto acompanha com palmas e as pessoas começam a bailar, brincando com os papéis da própria ópera – é a festa e espontaneidade que o flamenco possui na Espanha, como são as nossas rodas de samba.
Minha cena preferida é a da Tabacaria. A antagonista de Carmen nessa cena é uma das coreógrafas do espetáculo. Ela é superior à Carmen em todos os sentidos, e não foi escalada para o papel por não corresponder ao biotipo. Por profissionalismo ela ensina a rival, mas é uma tarefa amarga. Nesta cena, quando elas se encaram, sabemos que está no palco um antagonismo que transcendo os papéis. Ensaio e realidade se misturam. No final do confronto ficamos em dúvida se Carmen realmente a feriu. E assim são os espetáculos, os bons espetáculos: representações mentirosas de sentimentos de verdade.