A pesquisa que eu fraudei

No segundo ano de psicologia havia a matéria de Métodos de Pesquisa. A disciplina era dada apenas por uma professora, a Pesquisadora do PauOco. Ela era uma das mais produtivas do departamento; por ser uma das mais produtivas, uma das mais importantes e que trazia mais dinheiro. Não demorei a descobrir o porquê – através da disciplina de métodos, há mais de uma década ela obrigava o curso inteiro a trabalhar pra ela. O pretexto era que tivéssemos uma vivência em pesquisa, que colocássemos em prática o que aprendíamos em sala de aula. Na realidade, éramos tão somente mão de obra não-remunerada para inúmeros projetos pessoais. No primeiro dia de aula, a PauOco escreveu no quadro o nome das quatro pesquisas desenvolvidas por ela no momento. Cada aluno deveria se voluntariar a pelo menos uma. Quem não o fizesse não passava na disciplina de Métodos, e por consequencia não tinha pré-requisito pra quase o curso inteiro. Quis fazer a que me parecia mais inocente, a de mulheres com TPM. Não chegamos a dez “voluntárias”.

A pesquisa já estava sendo desenvolvida há uns dois anos. Nossa tarefa aplicar o instrumento, que consistia em duas folhas. Na primeira, a dos dados, constavam o nome completo das mulheres, telefone, idade e profissão. O outro era uma tabela com trinta e um dias e a descrição de uns cinquenta sintomas de TPM. Era tanto sintoma que só faltava unha encravada: dor lombar, aumento do apetite sexual, diminuição do apetite sexual, choro, irritabilidade, inchaço na mama, pele oleosa, etc. A mulher deveria preencher o primeiro dia da tabela no primeiro dia da menstruação e marcar dia a dia quais dos mais de cinquenta sintomas ela teve. Para complicar mais a coisa, ela deveria marcar os sintomas em graus de intensidade, onde deixar em branco significava que ela não teve, 1 que o teve numa intensidade baixa, 2 que apresentou o sintoma moderadamente e 3 que apresentou o sintoma com muita intensidade. Ela deveria parar de preencher a tabela no início da menstruação seguinte, ou seja, a maioria das mulheres não chegaria nos trinta e um dias. No fim desse período, eu pegaria a tabela de volta. Acho que deu pra perceber o quão complicado e pouco funcional era preencher aquilo.

O projeto acabara de ser aprovado em algum financiamento, então nós (as alunas) precisamos fazer algumas correções. Foi até engraçado, porque o projeto não tinha nada a ver com a realidade. Lá dizia que os dados seriam coletados por uma equipe de pesquisa. Que receberiamos informações sobre a TPM. Que fariamos ligações semanais a todas as nossas entrevistadas. Que as apoiariamos e estariamos aptas a responder suas dúvidas. E, principalmente, que seriamos pagas pra fazer tudo isso. Claro que nenhuma de nós recebeu qualquer salário. Alias, isso era prática comum no departamento: eles pediam bolsa e conseguiam uma ou duas. Com base no número de bolsas oficiais, um ou dois alunos eram inscritos, sendo que na verdade tinha sempre muito mais gente trabalhando. Algumas pesquisas chegavam a ter vinte alunos. Isso porque todos os alunos do curso, de uma maneira ou de outra, eram obrigados a estar em alguma pesquisa. O aluno que oficialmente recebia bolsa podia virar escravo particular ou ter que dividir o valor dela com outros, ficava a critério do professor. Para estimular tanta gente trabalhando de graça, eles diziam que aquilo enriquecia nosso curriculo. Tudo era feito em prol dos nossos curriculos. Lembro que a PauOco fez questão de anotar nossos nomes, porque eles constariam na publicação da pesquisa sobre TPM.

Como não tinha outra maneira, lá fui eu, de posse dos instrumentos, arranjar mulheres. Fui atrás de outras amigas de curso, de amigas da escola de música, de parentes, de amigas do grupo de teatro de um amigo. Expliquei direitinho o que elas tinham de fazer, todas entenderam e estavam dispostas a participar. Consegui distribuir umas vinte tabelas. Cheguei na primeira supervisão tranquila, diria até mesmo orgulhosa. Quando a PauOco perguntou quantos questionários foram distribuidos, pasmem – o meu foi o menor número. Teve gente que distribuiu mais de cem. Eu literalmente passei vergonha. Foi como aparecer de jeans num casamento, ou ser uma mulher comum no meio de misses, ou um homem de proporções normais no meio de atores pornôs avantajados. Foi péssimo e a PauOco me repreendeu. Como minhas colegas conseguiram tantas entrevistas e eu trazia aquela mixaria. Certamente eu não havia me empenhado, não estava levando a pesquisa à sério. Que procurasse mais pessoas. Vi que teria que partir para desconhecidas, porque o meu círculo de relações eu já havia esgotado.

No fim de semana seguinte, contei com a ajuda do porteiro e fiz uma varredura em todas as moradoras do meu prédio. Fui de apartamento em apartamento, em todos os vinte e três andares, com seis apartamentos por andar. Entre os que me atenderam, os apartamentos em que não moravam apenas homens, as moradoras que não estavam na menopausa e as que aceitaram participar, consegui a marca de quarenta tabelas distribuidas. Dessas, um mês depois, só consegui recuperar uma. Lembro que a folha estava quase em branco, com um X num sintoma qualquer bem no meio da tabela. Tentei falar alguma coisa, mas a mulher estava orgulhosa do que ela havia feito em nome da ciência. Não fazia o menor sentido, mas o que eu ia fazer, mandar preencher de novo? Agradeci e peguei.

As reuniões com a PauOco eram quinzenais. Cheguei novamente confiante, porque tinha realmente me empenhado – falei com desconhecidas, dobrei o meu número de mulheres. Quando as outras começaram a falar de quantos tabelas distribuiram… Foram números estratosféricos, todas haviam distribuido mais de cem. Uma delas distribuiu quinhentas! Ela alegou que era porque morava na Casa da Estudante. Eu já podia dizer adeus ao meu diploma pelo olhar que a PauOco me lançou. Já eu olhei indignada para as minhas colegas, aquele bando de mentirosas. Claro que nada daquilo era verdade, era impossível arranjar tantas mulheres e com tanta facilidade. Nem que a fulana morasse no Copan ela arranjaria quinhentas mulheres no espaço de alguns dias. Quase explodi. Mas aí me toquei do que estava acontecendo, que a única ingênua ali era eu. Claro que a PauOco sabia que aqueles números não eram verdadeiros. Nem se recebessemos o salário que o projeto dizia que receberíamos. Ela não estava nem aí pra como e quando eu trouxesse aquelas folhas, desde que tivessem nomes de mulheres e fosse em grande número.

Entrei no esquema. Na época minha mãe trabalhava atendendo o público, então ela virava pras mulheres e perguntava: “Quer ajudar numa pesquisa sobre TPM? Então preencha nessa tabela os sintomas que você tem.” Assim conseguimos vários nomes. Mas eram questionários demais. Toda reunião a PauOco nos cobrava centenas de folhas e anotava nossos resultados, igual avaliação de desempenho. Comecei a usar nomes de mulheres conhecidas, mesmo sem ter falado da pesquisa com elas. Pessoas cujo nome eu apenas sei, mulheres que um dia fizeram parte da minha vida. Apelei para mulheres que por acaso apareciam na TV falando do seu bairro, mulheres que já morreram, nomes inventados, listas telefônicas. Centenas de mulheres participaram da minha pesquisa de TPM sem saber. Minnie Mouse só não revelou se tem cólica porque mora em outro país. Criar tantos nomes era um verdadeiro pesadelo, que só acabou no fim do ano letivo. Todas nós passamos de ano.

Muitos anos depois, acabou caindo nas minhas mãos a pesquisa já publicada, numa revista científica. A PauOco era a única autora. Na última página, em itálico, estava escrito: Um agradecimento especial às alunas do curso de Psicologia da Universidade X.