O encontro do velho e do novo, por George R. R. Martin

got vol 3Chega de Game of Thrones, eu sei. É que esse trecho não diz respeito especialmente ao livro, à série. Os nomes e as os eventos citados são apenas ilustrações. Esta cena, que revela pouco ou quase nada da história, tem outra importância. Ela expressa o encontro do futuro e do passado, do que é e o que foi, o velho e o novo. Ela mostra o que acontece quando o mais experiente tenta dizer algo para o cheio de possibilidades. O mais velho se reconhece no mais novo, que se acredita o primeiro do mundo. De um lado, existe o incômodo e o desejo de provar alguma coisa; do outro, a arrogância de quem está apenas começando. Começos são tão belos, tão promissores… Já o fracasso é coisa de gente velha – ou nos envelhece, não sei. O diálogo entre jovens e velhos costuma ser tão desencontrado que esta cena me parece uma anedota que estamos condenados a repetir sempre, enquanto existir humanidade.

Esguio como uma espada, ágil e em forma, Sor Loras Tyrell usava uma túnica de linho branca como a neve e calções brancos de lã, com um cinto dourado em volta da cintura e uma rosa de ouro prendendo seu manto de seda fina. Os cabelos eram de um suave desarranjo castanho, e os olhos também eram castanhos, e brilhantes de insolência. Ele acredita que isso é um torneio e acabaram de anunciar sua justa.

– Dezessete anos e um cavaleiro da Guarda Real – disse Jaime – Deve se sentir orgulhoso. Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, tinha dezessete nos quando foi nomeado. Sabia disso?

– Sim, senhor.

– E sabia que eu tinha quinze?

– Isso também, senhor. – e sorriu.

Jaime odiou aquele sorriso.

– Eu era melhor do que você, Sor Loras. Era maior, mais forte e era mais rápido.

– E agora é mais velho – disse o rapaz. – Senhor.

Teve que rir. Isso é absurdo demais. Tyrion riria de mim sem dó se me ouvisse agora, comparando o pinto com esse rapazinho verde.

– Mais velho e mais sábio, Sor. Devia aprender comigo.

– Tal como você aprendeu com Sor Boros e Sor Meryn?

Aquela flecha se aproximou demais do alvo.

– Aprendi com Touro Branco e Barristan, o Ousado – disse bruscamente Jaime – Aprendi com Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã, que conseguiria matar vocês cinco com a mão esquerda enquanto mijava com a direita. Aprendi com o Príncipe Lewyn de Dorne com Sor Oswell Whent e Sor Jnothor Darry, todos eles homens bons.

– Todos eles homens mortos.

Ele sou eu, compreendeu Jaime subitamente. Estou falando comigo mesmo tal como eu era, cheio de uma arrogância convencida e de uma cavalaria sem base. Isso é o que acontece quando se é bom demais e novo demais.

Game of Thrones vol.3 p.690

Expectativas, rejeição e sabedoria em Tyrion, um Lannister com defeito

Ser o que se espera – só não digo que é uma sensação deliciosa porque só nos apercebemos dela quando perdemos. Um exemplo muito simples é a experiência de estar usando uma roupa inadequada numa festa. Ficamos subitamente cônscios dos nossos gestos, das nossas diferenças, dos olhares. Estar errado em algum momento é um desconforto simples, e ele nos ocorre muitas vezes durante a vida. Fazemos de tudo para evitá-lo: procuramos saber quais são as roupas, quem estará lá, o que se faz naquela situação, que pessoas estarão. Sondamos o terreno, procuramos conhecer as regras. Há graus diferentes de desconforto – se estar com o traje de festa errado é ruim, imagine qual a sensação de ter nascido no sexualidade “errada”, ou no corpo errado. Essas coisas são possíveis porque sentimos que existe uma distância entre quem somos e o que os outros buscam ao nos olhar. Todos julgamos e somos julgados, atuamos o tempo todo, de maneira consciente e inconsciente. O descompasso entre o que somos e o que deveríamos ser nos obriga a buscar soluções. É normal tentar se encaixar; nem sempre é possível. Mais: nem sempre é desejável.

(Contém spoilers da primeira temporada de Game of Thrones)

lannistersA casa Lannister de Game of Thrones tem como símbolo o leão dourado, e o lema: Ouça-me rugir. Além disso, todos sabem que “um Lannister sempre paga suas dívidas”, o que pode tanto significar subornos como retaliações. No início da trama, onde fica difícil guardar quem é quem, a que casa cada um pertence e o que faz, uma coisa fica muito clara: os Lannisters são os vilões. Eles são tão ricos, loiros e bonitos quanto ambiciosos, frios e inescrupulosos. O patriarca da família, Twyin Lannister, é tão frio e calculista que nem ao menos sorri. Todas suas atitudes visam apenas aumentar o poder e honra de sua casa. A Rainha Cersei, sua filha, segue pelo mesmo caminho. A diferença entre pai e filha é apenas nas armas usadas. Como mulher, Cersei precisa agir nos bastidores, com informantes e chantagens. Seu irmão gêmeo e amante, Jaime, é conhecido como Regicida, por ter como função proteger o rei e ter abusado dela ao assassinar o rei Aerys Targaryen. Para manter em segredo o seu caso com a irmã, Jaime não hesita em jogar Bran Stark pela janela. Um dos frutos dessa relação incestuosa, o Rei Joffrey, revela-se vaidoso, mentiroso e sádico desde o início.

Com Tyrion, o filho mais novo de Lorde Twyin, as coisas dão errado. Ele é um anão e sua Tyrion_Lannistermãe morre durante o parto. Game of Thrones descreve um mundo medieval, então os personagens não têm para com Tyrion os pudores e gentilezas que hoje consideraríamos corretos. Ele é claramente acusado, por parte da sua irmã, de ter matado sua mãe. As pessoas não se cansam de chamá-lo de anão, duende, meio-homem, etc. Mais de uma vez, ele diz que se não fosse seu elevado nascimento, teria sido jogado fora, transformado em bobo ou atração de algum circo de aberrações. Ser o Lannister “defeituoso” faz com que ele viva a situação de não pertencer inteiramente à sua família, àquele mundo.

(Tyrion) Deixe-me dar alguns conselhos, bastardo. Nunca esqueça o que você é. O resto do mundo nunca se esquecerá. Use isso como uma armadura e isso nunca poderá usado para machucar você.
(Jon) O que diabos você sabe sobre ser um bastardo?
(Tyrion) Todos os anões são bastardos aos olhos dos seus pais.
(retirado daqui)

O sentimento de estar desencaixado no mundo é comum àqueles que, por um motivo ou outro, não podem ou não conseguem se enquadrar. Tyrion, com seu nanismo, se enquadra no conceito de estigma. Estigma é quando o sujeito possui um atributo considerado extremamente negativo por aqueles que o cercam. Esse atributo, de tão marcante, faz com que todas as suas relações sociais sejam dominadas por ele. Ser anão – assim como ser loiro ou moreno, olhos azuis ou negros – não determina qualquer déficit de caráter, capacidade ou inteligência. Mas ser tratado de maneira diferente, ser julgado e desconsiderado a todo instante, sim. Quem possui um estigma físico não consegue se esconder e é desqualificado sempre que se apresenta. A Tyrion, por seu nascimento, estava reservado um lugar nobre; seu nanismo o condena a ser um outsider. Isso cria nele uma sensibilidade e uma identificação com os mais fracos, que nunca seria possível atribuir a um Lannister: “Eu tenho um lugar sensível no meu coração para aleijados, bastardos e coisas quebradas.”

tyrion jesus

Se por um lado a rejeição e o sentimento de desencaixe são dolorosos, eles permitem ao estigmatizado um olhar crítico sobre sua realidade. Um estigmatizado não pode, devido à sua própria condição, alimentar ilusões sobre a maneira como o mundo funciona. Nunca pertencer inteiramente aos seus e estar sempre fora das expectativas pode ser uma experiência enriquecedora, uma forma de sabedoria. Tyrion é uma prova disso. A sua inegável inteligência, o reconhecimento de suas limitações e o senso de humor, faz com que Tyrion consiga transitar entre todos, tire vantagem das situações e seja um dos personagens mais interessantes da série. São deles os momentos mais espirituosos e engraçados, os desejos e as dores mais humanas, as reviravoltas mais surpreendentes. Em meio à luta desmedida pelo poder de sua família, ele se mostra capaz de se colocar à parte da disputa e olhar para os envolvidos tais como eles são. Ao mesmo tempo, ele é hábil o suficiente para jogar o jogo e não se deixar manipular. Quando tem algum poder em mãos, Tyrion sempre procura a solução mais justa dentro das possibilidades. Sua ação não busca o Bem acima de tudo, como fazia Eddard Stark; ele procura equilibrar o que é possível fazer sem perder sua posição. Por isso mesmo, Tyrion consegue sobreviver e é muito mais eficiente. Em resumo, é impossível não amar Tyrion Lannister. A popularidade desse personagem é tamanha que chegou até o ator que o vive, Peter Dinklage. Popular, adorado e sexy, Dinklage ganhou um Emmy (20011) e Golden Globe (2012) graças a Tyrion.

peter dinklage

(Contém spoilers da terceira temporada de Game of Thrones)

A série reservou reviravoltas interessantes, e uma delas é o destino de Jaime Lannister. Enquanto Tyrion era o irmão feio e indesejado, Jaime sempre foi tudo o que se esperava de um Lannister. Sua beleza, sua habilidade como cavaleiro, seus modos arrogantes, seu caso incestuoso com a irmã – tudo nele apontava para um vilão. Logo no início da série ele se mostra debochado, desrespeitoso e sem qualquer empatia com o sofrimento alheio. Dá para perceber que Jaime se sente muito bem dentro da sua própria pele, ele vê o mundo de cima. Tudo isso desmorona, pouco a pouco, quando ele é capturado e posteriormente levado por Brienne para ser trocado por Sansa e Arya. Nesse longo caminho de volta para casa, Jaime aprende a admirar Brienne, é torturado e tem sua mão direita cortada. Jaime se vê destituído da segurança que sempre teve por ser um Lannister, e da admiração que sua beleza e perfeição física sempre lhe deram. O homem que surge (Atenção: situação ainda não explicitada na terceira temporada, apenas no livro) em meio a Jaime Lannisteresse sofrimento busca o amor de sua família, especialmente da irmã, e quer viver de maneira coerente aos seus sentimentos. Jaime aprende a ver por detrás das aparências e a se importar com o sofrimento alheio, sendo capaz de grandes gestos de heroísmo. Ou seja, à sua maneira, ele se aproxima de Tyrion, em quem pensa constantemente depois que tem sua mão cortada. Agora Tyrion e Jaime possuem um novo laço: o problema físico, o estigma. Jaime é a prova de quem somos é um frágil reflexo das alternativas que a realidade nos oferece.

Masculino e feminino em Arya e Sansa Stark

(Contém spoilers da primeira e segunda temporadas de Game of Thrones)

Duvido que exista alguém que acompanhe ou leia Game of Thrones e goste mais de Sansa do que de Arya Stark. As duas filhas de Eddard Stark se mostram diferentes logo nas primeiras páginas: Sansa é bonita, borda bem, gosta de contos de cavalarias e de ser agradável; Arya é indomável, inábil em trabalhos manuais e gostaria de ela mesma ser um cavaleiro. Enquanto uma sonha em ser princesa, a outra rejeita a idéia de casar; uma gosta do luxo e do conforto enquanto a outra quer explorar o mundo. O desejo de ambas é atendido quando Eddard Stark morre pouco antes de fugir do castelo com as filhas. Sansa fica e Arya foge. Ao fugir, por razões de segurança, Arya passa a fingir que é um menino – confusão que ela já causava antes, por causa de suas atitudes. O destino que elas seguem mostram as dificuldades e as diferenças dos caminhos esperados por homens e mulheres.

Arya, agora chamada de Arryn, passa a estar sempre em movimento. Logo ao abandonar o castelo, fica pelas ruas e assiste, da praça, a morte do seu pai. Yoren tenta protegê-la levando-a para Muralha, mas morre ao ser atacado por uma patrulha de Lannisters. A partir daí ela toma papel ainda mais ativo na sua fuga, e passa a proteger mais do que ser protegida. Ela lidera Torta Quente e Gendry (o bastardo do rei Robert) na fuga de Harrenhal, toma sozinha a decisão sobre as três mortes que Jaqen H’ghar lhe oferece, tenta a todo custo ir a Correrrio, é capturada, tenta fugir de novo… Ela demonstra a força, a coragem e o destemor que associamos aos homens e só consegue fazer tudo isso porque se coloca como homem. No papel de menino, sofre, apanha, passa fome. Mesmo quando descoberta, é assim que ela tenta ser vista pelos que estão ao seu redor e volta para esse papel masculino sempre que pode. Ser mulher nos contextos violentos que ela foi colocada significava duas coisas: ser estuprada ou ser capturada.

Enquanto o masculino é associado ao exterior, ao movimento e ao dia (A dominação masculina, Bourdieu), Sansa cumpre bem seu papel feminino de dentro, imóvel, escondido. Ela é guardada na corte, representa uma valiosa moeda de troca quando a guerra começa. Sua proteção é também sua prisão, serve mais aos outros do que a si mesma.  Sansa é quem se ajoelha e pede para Joffrey poupar a vida de seu pai. Nesse momento e em outros, ela deposita sobre os homens todo poder de decisão sobre seu destino. Suas expectativas e seu amor são frustrados quando Joffrey faz com que seu pai executado na sua frente. O impacto da morte de Eddard é ruim para suas duas filhas, mas de maneiras totalmente diferentes. Para Arya, o mundo; em Sansa, uma mudança interna. Ela continua noiva de Joffrey, só que já não o suporta. No seu sadismo, Joffrey faz questão de ter Sansa por perto, de fazê-la sofrer e jamais poder demonstrar sua insatisfação. Ela apanha e precisa cobrir seus hematomas, assumindo para si a vergonha de apanhar. Por fora, Sansa vive no melhor dos mundos – prometida do rei, dorme em camas confortáveis, vive num castelo, é bela. Só que o preço a pagar é ser impedida de buscar o que quer, vigiar seu comportamento e suas palavras constantemente. Qualquer passo em falso e ela pode perder o pouco que tem. É uma maneira silenciosa e difícil se ser forte. É uma maneira feminina.

A trajetória de Sansa me lembra uma das histórias do livro Os cisnes selvagens: três filhas da China. A primeira mulher retratada nesse livro ascende socialmente ao se tornar concubina de um homem importante, que a instala numa confortável casa em outra cidade. Durante toda união, ele foi visitá-la apenas duas vezes. Esse homem não lhe devia qualquer explicação, apenas o sustento. Então, enquanto ele decidia se a visitava ou não, ela tinha obrigação de ficar esperando. Apenas esperar, deve ser fácil, é o que se pensa. Mas esse esperar implicava ficar trancada em casa e manter toda a compostura de uma mulher comprometida. A casa onde ela vivia era cheia de empregados. A reputação da mulher sozinha em casa era tão frágil e os empregados tão poderosos, que bastava que eles espalhassem ou mentissem sobre o  que uma mulher fazia para que ela fosse colocada na rua. Na prática, a concubina era refém dos seus empregados, e precisava bajulá-los constantemente, oferecer presentes, agradar, conquistar sua simpatia. Em suma, uma prisão sem grades e uma guerra feita de sorrisos.

Não há canções e nem aventuras na maneira feminina mais tradicional de sobreviver. É um caminho que não faz mudar de cenário, não tem atitudes avassaladoras e nem atos de heroísmo. Não faz conhecer pessoas e mundos novos; geralmente nem sai do portão de casa. Por fora, deve parecer suave. É um esforço que existe mais no que não é dito, no que não é feito, na espera, na manutenção. Pouca gente o escolheria se pudesse. Tanto é assim que as mulheres têm reivindicado, sempre que podem, maior controle sobre suas vidas. Arya é mil vezes mais interessante do que Sansa. No fim, é possível que Arya consiga conciliar masculino e feminino, tenha aventuras e um grande amor, talvez vire até uma rainha. Já Sansa… quem se importa? Só que eu não posso terminar o texto sem um acréscimo: o caminho feminino não apenas negação, não é tão destituído e frágil quanto a trajetória de Sansa. Ela não sabe jogar o jogo, ela se deixa levar pelos contos de cavalaria e tenta obter a piedade masculina. “Lágrimas não são as únicas armas de uma mulher. A melhor arma está entre as pernas. Aprenda a usá-la”, lhe diz Cersei num arroubo de sinceridade. A Rainha Cersei, assim como Melisandre (Sacerdotisa Vermelha), mostram que o jogo de bastidores pode ser tão ou mais importante do que o jogo dos tronos.