Mundo incompleto

A qualificação é temida injustamente por quem está escrevendo uma dissertação. Ela é uma das poucas oportunidades em que o nosso trabalho será lido com interesse minucioso e receberemos sugestões válidas. Das várias sugestões e correções que eu recebi ao meu trabalho, a que mais me surpreendeu foi, na verdade, a correção de uma idéia de Goffman:

Entre seus iguais, o indivíduo estigmatizado pode utilizar sua desvantagem como base para organizar sua vida, mas para consegui-lo deve se resignar a viver num mundo incompleto. Neste, poderá desenvolver até o último ponto a triste história que relata a possessão do estigma.

(p.30)

Naquelas alturas, depois de entrevistar onze pessoas que ficaram cegas em diversas fases, eu tinha conseguido provar de maneira muito consistente o quanto perder a visão é radical. Mas não radical num sentido físico, como no pesadelo de nós que enxergamos; meus entrevistados que já eram cegos há mais tempo encaravam o fato com muita naturalidade. Acostuma, nas palavras deles. A parte mais radical da experiência de ficar cego é o preconceito gigantesco e persistente que essas pessoas passam. É maior do que ser feio, gordo, negro, pobre ou analfabeto. Digo isso porque um colega de mestrado ouviu algumas histórias das entrevistas e me perguntou:

– Pra um homem, seria como ser muito feio, então? As mulheres já te colocam em último lugar?
– Não, é pior porque é uma categoria à parte. Existe o bonito, o feio e o cego. Pode até ser um cego bonito, mas ele simplesmente não entra na avaliação. Ele é café-com-leite.

É difícil e talvez impossível se acostumar com isso. Não para alguém que já enxergava antes, que sabe do que é capaz e como era tratado antes. É um preconceito que jamais deixa de ser percebido, porque jamais deixa de ser manifestado pelos outros. Existem poucas pessoas que sabem lidar com eles e poucas maneiras de esconder o seu defeito (a resistência em usar bengala é um deles). Essas características fazem com que a cegueira encaixe com perfeição na definição de estigma, de Goffman:

Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o torna diferente de outros que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos desejável – num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim, deixamos de considerá-lo uma pessoa comum e total, reduzindo-a a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando seu efeito de descrédito é muito grande. (pág 12)

Sendo esse contato com os “normais” tão difícil, Goffman fala do quanto é mais fácil lidar com pessoas com sofrem o mesmo problema ou que já saibam lidar com o problema (a que ele chama de “informados”). Um dos meus entrevistados falou do quanto ter uma turma de amigos cegos o ajudava, do entendimento profundo de poder falar que bateu a testa no orelhão e o outro dar risada ao invés de ficar com pena. Ou o problema de atendentes de loja se dirigirem sempre à outra pessoa, ou de abordar um estranho e ele achar que é pra pedir esmolas. Não tem como negar que isso deve ser muito desgastante. Falar apenas com quem não faz isso com você deve ser quase uma tentação. É disso que Goffman fala (naquele primeiro trecho que citei) sobre a possibilidade de viver num mundo incompleto – usar o seu problema como critério para estabelecer todas as suas relações. Ignorar o mundo que ignora a sua humanidade. Ser um cego e só andar com cegos, ou pessoas que sabem lidar com cegos seria esse mundo incompleto.

Aí fui alertada, durante a qualificação, que todos nós vivemos num mundo incompleto. Que nenhum de nós domina a amplitude da vida social, ninguém lida com todos os universos, conhece todos os tipos de pessoas. Podemos não escolher baseados num estigma, mas também escolhemos nossas relações de acordo com critérios. Andamos sempre com aqueles que compartilham nosso universo cultural, que frequentam nossos ambientes, que têm os nossos hábitos. Não precisa ir muito longe pra perceber: engenheiros andam com engenheiros, atores andam com atores, adolescentes andam com adolescentes. Às vezes achamos que somos radicais, que inovamos muito e conversamos com outro universo, sendo que na verdade o diferente em questão é quase igual.

Foi o que eu descobri, de maneira radical, quando abandonei o meio universitário e comecei a dançar. Eu me achava muito diferente por ter casado com um engenheiro: ele é exatas e eu humanas, ele é de direita e eu de esquerda. Na dança, entendi que somos dois universitários, que a diferença entre as carreiras acadêmicas é pequena com relação ao universo fora da academia. Na dança aprendi a reconhecer universitários pelo físico, pela maneira de vestir: sempre contido, quase imóvel, meio fora de moda e discreto, jamais sensual (por isso que Geysi Arruda pareceu tão agressiva de vestido rosa). Universitários mostram na sua maneira de vestir e andar que não é no corpo que sua identidade está. Descobri um mundo onde as pessoas não acham importante ler jornal, mas sim ser consciente de cada detalhe do seu corpo ao executar um movimento. É um nível de concentração e conhecimento da sua estrutura física que um universitário não faz idéia que existe. Ser belo, ter carisma e preciso ao se mover mostra quem você é, na dança e na vida. Enquanto um universitário carrega seu corpo, o bailarino é o seu corpo.

Mas é claro que são coisas diferentes: escolher suas relações tomando um estigma como base ou escolher suas relações por posições (em grande parte inconscientes) que temos na nossa vida social. A questão foi resolvida colocando uma nota de rodapé explicando essa diferença. Cegos ou não, vivemos todos em mundos incompletos.