Bradbury e Murakami: dois livros e dois processos de escrita

Uma vez eu estava conversando no MSN com um psicólogo. Era o tempo do orkut e tínhamos conhecidos em comum. Foi a nossa primeira e última conversa. Eu estava falando do tempo que fui escultora. Disse a ele que o meu processo de trabalho era bastante infantil. Logo em seguida ele me deu uma patada – por isso que as pessoas não gostam de você, psicólogos – dizendo que eu me diminuía, que eu não tinha auto-estima, etc. Levei muito tempo tentando entender de onde ele havia tirado aquilo, até descobrir que foi a palavra infantil. Eu não estava me diminuindo, muito pelo contrário. Quem já tentou um trabalho criativo sabe como é duro ser adulto: racionalizar antes mesmo de começar, ter plena consciência das dificuldades, saber que não há nada sob o céu que já não tenha virado tema, enfim, colocar tanta ansiedade antes mesmo de começar que fica difícil sair do lugar.

Ray Bradbury, no seu O Zen e a arte da escrita, mostra que ele tem o processo infantil. Os seus artigos são todos apaixonados e num determinado momento ele fala que insistiram demais em dizer que o processo de escrever é difícil e é preciso ter prazer. No começo, achei que o tom grandiloquente dele fosse estilo, uma maneira de imprimir otimismo no leitor; depois, à medida que ele contou como escreve, eu me convenci que para ele é fácil mesmo. Na disciplina que ele se impôs, um conto sai em uma semana: segunda ele escreve, terça e quarta revisa, etc. Domingo as ideias fermentam. Nós os conhecemos como o sujeito que escreveu o livro que se tornou o filme Farenheit 451, mas a produção dele é enorme e inclui traduções, teatro, quadrinhos e até mesmo a construção do Epcot Center. Ele se propõe uma pergunta absurda (“e se ao invés de apagar incêndios os bombeiros o provocassem?”) e à partir daí a imaginação voa. Diante da vivacidade e imaginação incríveis desse sujeito, eu só conseguia pensar numa coisa enquanto lia: Bradbury, acho que te odeio.

Não seria maravilhoso, por exemplo, jogar longe um exemplar da Harper´s Bazaar que você folheava no dentista e se lançar sobre sua máquina de escrever com uma fúria hilária para atacar a esnobação tonta e às vezes chocante dessa revista? Há alguns anos, fiz exatamente isso. Deparei com um artigo em que os fotógrafos da Bazaar, com seu pervertido senso de igualdade, mais uma vez utilizaram nativos do bairro de Porto Rico ao lado de modelos esquálidas que posavam em benefício de mulheres ainda mais esquálidas dos melhores salões do país. As fotografias me irritaram tanto que corri, não andei, para minha máquina de escrever e escrevi Sol e sombra, a história de um velho porto-riquenho que acaba com uma tarde de trabalho de um fotógrafo da Bazaar ao se intrometer em cada foto dele de calças arriadas.

Acredito que alguns de vocês gostariam de ter feito esse trabalho. Eu me diverti muito fazendo; era o efeito redentor da vaia, do berro e da intensa gargalhada. Provavelmente, os editores da Bazaar nem ouviram falar, mas vários leitores leram e gritaram:” Da-lhe, Bazaar! Da-lhe, Bradbury!”. Não proclamo vitória, mas havia sangue em minhas luvas quando liguei para eles.

A alegria da escrita (1973)

Algumas vezes as pessoas viram pra mim e dizem que vão escrever um livro. Que com todo material que só elas têm, o livro está ali e será muito interessante. Como sabem o quanto eu amo escrever e que, mesmo assim, o desejado livro nunca sai, eu noto que há algo diferente no olhar delas quando me dizem isso. Talvez temam que eu sinta inveja ou me sinta desafiada de alguma forma. Mas é justamente o contrário: escrevam, escrevam mesmo. Porque só se as pessoas realmente sentarem e levarem a sério o processo de escrever, vão entender o que eu passo.

O Do que eu falo quando eu falo de corrida, do Murakami, à princípio pode não parecer um livro sobre escrita e acho que a maioria dos leitores o busca para ler um livro de corrida. E é, é um excelente livro de corrida; mas caso além de gostar de praticar esportes, a pessoa também goste de escrever, esse livro será um prazer duplo. Sobre Murakami, só conseguia pensar: somos o mesmo tipo de gente. Não sei ao certo o que isso significa, apenas que nós somos. Para ele, escrever e correr são uma coisa só. Primeiro, porque ele passou a correr quando decidiu virar um autor. Antes ele era dono de um bar de jazz (!) e escreveu seu primeiro livro impulsivamente e ele fez sucesso. Quando decidiu escrever, passaria a ser mais sedentário e para se manter ativo passou a correr. Escrever e correr são seu estilo de vida; as duas atividades exigem o mesmo tipo de temperamento e disciplina. As três características fundamentais do escritor seriam talento e concentração. Embora o talento seja inato, ele pondera, aqueles que persistem – tal como ele que não tinha físico de atleta e começou a correr aos trinta – podem acabar encontrando águas profundas de tanto escavarem. E as duas atividades, embora não pareça, são exaustivas:

Escrever romances, para mim, é basicamente um tipo de trabalho braçal. Escrever, em si mesmo, é um trabalho mental, mas terminar um livro inteiro está mais próximo do trabalho braçal. Não envolve levantar peso, correr ou pular. A maioria das pessoas, contudo, enxerga apenas a realidade superficial da escrita e acha que os escritores vivem silenciosamente concentrados em um trabalho intelectual em seu gabinete ou escritório. Basta ter força para erguer uma xícara de café, imaginam, que você pode escrever um romance. Mas assim que você arregaça as mangas para começar, percebe que não é um trabalho tão tranquilo quanto parece. O processo todo – sentar em sua mesa, concentrar sua mente como se fosse um raio laser, imaginar alguma coisa em um horizonte vazio, criando uma história, escolhendo as palavras certas, uma a uma, mantendo todo fluxo da história nos trilhos – exige muito mais energia, por um longo período, do que imagina a maioria das pessoas. Pode ser que você não mova seu corpo de um lado para o outro, mas há um exaustivo e dinâmico trabalho operando dentro de você. Todo mundo usa a mente quando pensa. Mas um escritor veste um traje chamado narrativa e pensa com todo o seu ser; e para o romancista esse processo exige pôr em ação toda a sua reserva física, geralmente ao ponto da estafa.

Quatro: A maior parte do que sei sobre escrever ficção aprendi correndo todos os dias

Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami

Conheço fãs que gostam de tudo o que Murakami escreve, assim como também conheço quem tenha muitas reservas em relação ao autor; de ambos, ouvi que Kafka à beira-mar é seu melhor livro. Não li livros o suficiente dele para dizer se é o melhor ou não, fora esse li apenas outro que também é considerado excelente, o Caçando Carneiros. Mas, olha, que livro. Ele atende muitos critérios diferentes de um grande livro: a história se mostra cada vez mais interessante; o autor não enrola, quando o leitor capta as pistas, ele já parte para novas informações; não há uma única cena desnecessária; os personagens são cativantes; o final, as explicações e a falta de explicações são satisfatórios; o livro trata de temas profundos sem jamais se tornar piegas ou moralista. Murakami entrega aos seus leitores alguns prazeres específicos, como situações e formas de ver o mundo bastante japonesas, por mais que o mundo globalizado nos passe a ilusão de uniformidade, ainda há sim hábitos muito próprios em cada país. Oshima, a biblioteca, os personagens sempre acompanhados de uma garrafa de chá quente, é desse tipo de detalhe que estou falando. E tem as músicas. Os personagens ouvem algumas músicas e, quando fui atrás delas no youtube, os comentários eram: “Dá um like se você veio parar aqui por causa do Kafka à beira-mar”. Uma delas já entrou no meu panteão de preferidas. Não vou dizer quais são as músicas, descubra (e dê um like) você também.

A profecia é água escura e misteriosa, sempre presente.

Normalmente, ela fica submersa em algum lugar desconhecido. Mas, quando o momento chegar, a água transbordará e, silenciosa, banhará em gelo cada uma de suas células, irá afogá-lo num turbilhão cruel que o fará ofegar. Você se agarra ao respiradouro existente no alto, próximo ao teto, e busca desesperado o puro ar externo. Mas o ar que lhe vem dali é seco e quente, queima sua garganta. Água e sede, frio e calor: elementos que deviam se opor juntam-se então para atacá-lo simultaneamente.

Tanto espaço neste vasto mundo, mas você não encontra – e bastava um, bem pequeno – nenhum capaz de acomodá-lo. E, quando ansiar por uma voz, ali encontrará apenas o silêncio, ali encontrará a voz da profecia sussurrando sem parar. E pode ser que um dia essa voz aperte algo semelhante a um interruptor misterioso, oculto nalgum lugar dentro de sua cabeça.

Sua alma se assemelha a um rio cujas águas a chuva incessante transformou em caudal. A correnteza submergiu e ocultou todas as placas de sinalização terrestre e provavelmente já as carregou para um lugar escuro. Mas a chuva, copiosa, continua a cair sobre o rio. E toda vez que você vir em noticiário tais cenas de inundação, você pensará: Realmente, assim é a minha alma.

Capítulo 1/ Posição 212 de 9572

O livro conta três histórias em paralelo, que adivinhamos que em algum momento se encontrarão: um adolescente que resolve fugir de casa, um evento estranho envolvendo crianças durante a Segunda Guerra Mundial, um homem com inteligência reduzida que conversa com gatos. Não conto mais do que isso para não estragar as surpresas. O que posso adiantar é que, tais como as atuais novelas da Globo, Murakami acaba num instante com um suspense que pensaríamos que levaria o livro inteiro. Quando pensamos que uma informação específica vai desvendar o livro, ela é colocada na mesa e abre dúvidas ainda maiores. Em muitos sentidos, o livro me lembrou o filme A viagem de Chihiro e sua impossibilidade de classificar os elementos como bons ou maus, algo tão fácil em filmes da Disney. Há momentos que o leitor pula da cadeira, sem acreditar no que está lendo. Há, tal como no Caçando Carneiros (e acredito que em todos os livros dele), o fantástico mesclado no dia a dia –  e assume seu papel de fantástico na maior desfaçatez e humor. Quando o livro termina, nos pegamos nostálgicos, apaixonados por pelo menos três personagens, imaginando que vidas levam depois da aventura e temos como nossas as suas músicas preferidas.

Caçando carneiros, de Murakami

O problema de escrever sobre um autor consagrado, especialmente um contemporâneo, é que parece que a gente precisa se posicionar sobre ele. “Amo Murakami, acho um gênio”, ou “Murakami é um lixo, não merece o destaque que recebe”. Eu não poderia fazer nenhuma dessas afirmações depois de ler apenas um livro dele. E, torcidas à parte, não dá pra simplesmente gostar (ou desgostar) de um livro e pronto?

Eu gostei muito de Caçando Carneiros. Achei o começo meio fraco e foi num crescente de interesse. A mania de Murakami de usar metáforas me pareceu muito cansativa, como se ele não conhecesse a fluidez da própria escrita. Dá aquela sensação de – será que vou suportar centenas de páginas de metáforas? (Antes que o leitor pare, ele para). O cenário todo montado, a gente curioso para saber o que vem a seguir e “seu aspecto lembrava asfalto depois que a água da enchente escoa” (p.11), “como se minha mão esbarrasse de repente numa parede invisível que flutua no espaço” (p. 15). Aí você fica sem saber se se detém pensando no que significa ou simplesmente passa por cima. Mas são sempre descrições bonitas e nada óbvias, é preciso reconhecer.

Agora, na cama com uma nova namorada e correndo os dedos por seus cabelos, pensei na baleia por um longo tempo.

No aquário das minhas lembranças, é sempre fim de outono. O vidro do tanque está gelado e eu visto uma malha grossa. Do outro lado da janela panorâmica da sala de exposição, o mar é escuro, cor de chumbo, as incontáveis ondas de espumante crista branca lembrando golas de renda em vestidos de meninas.

– Em que está pensando? – perguntou-me.

– Em algo muito antigo – respondi.

p.33

Como explicar? A história é conduzida de uma maneira que ela modifica o ponto de interesse a cada capítulo. Começa com uma ida ao funeral, depois vai para lembranças, um casamento desfeito, e é como se cada resposta e abrisse caminho para outra pergunta. As informações se acrescem e, ao mesmo tempo, não são suficientes. Eu lia e me perguntava até onde o autor conseguiria ir, que em algum ponto ele não conseguiria levantar questões sem revelar e ia acabar perdendo a mão (leitor metido a escritor é um saco). Mas Murakami consegue sim. O personagem principal, cujo nome nem sabemos, cria identificação com o leitor logo no início pela maneira como confessa sua banalidade. A história segue e, a cada detalhe, a banalidade é abandonada e os acontecimentos se tornam imprevisíveis. É como se o “caçar carneiros”, descoberto pela terça parte do livro, dividisse o romance em dois: na primeira parte um livro sensível, na segunda uma história de detetive bastante imaginativa. Não sei se o estranhamento é causado pela distância cultural ou o quê, sei que Murakami descreve situações que jamais passariam pela minha cabeça. Os personagens têm momentos marcantes, os fatos são engraçados, a narrativa é fluida, a gente fica com vontade de comentar com o sujeito da mesa ao lado. Li por aí que foi com Caçando carneiros que Murakami começou a chamar atenção do mundo. Deixo registrada minha concordância e entusiasmo.