Economia brasileira – a história contada por quem a fez

Já que estamos todos tão loucos com a eleição, preocupados com quem possa salvar o país, sugiro esta série excelente sobre a Economia Brasileira. Se é para decidir e acusar, brigar com os amigos e se decepcionar com as escolhas políticas, façamos tudo isso com conhecimento. Nada do que está acontecendo no Brasil surgiu ontem ou nos últimos dez anos. Vamos conhecer a nossa história, entender a maneira como o nosso país foi formado, o que a crise tem a ver com isso e a partir daí debater, agora num nível melhor.

A série parece bobinha, começando por aquela parte da história que todos nós conhecemos, e aos poucos vai dando insights muito interessantes. Veja mesmo!

Obrigada pela indicação, Chicuta!

Tio Tungstênio, de Oliver Sacks

Oliver Sacks é um médico que foi se tornando escritor e se tornando celebridade. Por não ter começado no mundo literário com a intenção de ser realmente escritor, a trajetória dos livros dele segue uma direção atípica. Embora sempre interessante, os livros dele começam mais técnicos e se libertam cada vez mais; começam falando de outros e depois revelam a biografia. Como acontece com qualquer autor, há livros melhores do que outros, mas no geral dá pra pegar sem medo porque são sempre bem escritos. Se me pedissem uma recomendação, eu diria que Enxaqueca e A Mente Assombrada são péssimos começos por serem muito técnicos, e que Diários de Oaxaca é totalmente fora da curva. Para amar Sacks é preciso lê-lo em ação: comecem com O homem que confundiu sua mulher com um chapéu ou Um antropólogo em marte. Tio Tungstênio, para mim, é meio como um Carl Sagan: leve até aquela criança inteligente e solitária que ama ciência – mesmo que essa criança ainda exista apenas dentro de si.

Por mais fraco que fosse o nosso olfato em comparação com o dos cães – nossa cachorra, Greta, conseguia detectar suas comidas favoritas se abríssemos uma lata no outro extremo da casa -, ainda assim os humanos pareciam possuir um analisador químico no mínimo tão refinado quanto os olhos ou os ouvidos. Não parecia existir uma ordem simples, como a escala de tons musicais ou cores do espectro, mas mesmo assim nosso nariz era admirável porque fazia categorizações que correspondiam, de algum modo, à estrutura básica das moléculas químicas. Todos os halogênios, embora diferentes, tinham odores característicos de halogênio. O clorofórmio cheirava exatamente como o bromofórmio, e tinha um cheiro bem parecido – mas não idêntico ao do tetracloreto de carbono (que era vendido como líquido para lavagem a seco chamado Thawpit). A maioria dos estéres tinha cheiro de fruta; os alcoóis – pelo menos os mais simples – tinham cheiros “alcoólicos” semelhantes, e o mesmo valia para aldeídos e as cetonas.

(Erros e surpresas certamente podiam ocorrer; tio Dave contou-me queo fosgênio, cloreto de carbonila, o terrível gás venenoso usado na Primeira Guerra Mundial, em vez de anunciar-se perigoso emitindo um cheiro característico dos halogênios, tinha um enganoso odor de feno recém-cortado. Esse aroma adocicado e rústico, recendendo aos campos de feno da infância, foi a última sensação que tiveram os soldados envenenados por fosfeno antes de morrer)

8. Fedores e explosões/ Posição 1204 de 4826

 

Para quem cresceu com a imagem do Dr. Sacks como o médico doce de Tempo de Despertar e sua incrível empatia evidenciada nos livros que tratam de casos clínicos, quando ele revela um pouco da vida sempre nos pega um pouco de surpresa. No Mente Assombrada descobrimos que Dr. Sacks já se submeteu a muitas experiências com drogas, até se tornar viciado nelas. No Diário de Oaxaca, sabemos que ele é o tímido que se afasta do grupo para escrever e que ama samambaias. Com o Tio Tungstênio, ele vai ainda mais para trás e fala do seus antecedências familiares: o avô que estimulou o intelecto dos filhos, homens e mulheres; o papel da sua família na popularização das lâmpadas elétricas; a cultura reinante numa casa próspera de um casal de médicos; a chocante perda da idílio quando se afasta dos pais na época da guerra e vai para um colégio interno de crianças judias; a difícil reconstrução de si mesmo e o papel da ciência na sua vida. Sacks reconstrói seu interesse e nos leva à história do desenvolvimento da química, a biografia dos seus pioneiros, o desenvolvimento de princípios e objetos que hoje nos parecem tão “naturais” como se tivessem surgido do ar. Rico de deliciosa cultura enciclopédica, é um livro que consegue ser ao mesmo tempo científico e humano, histórico e biográfico. Recomendo.

As rãs, de Mo Yan

Ao longo da leitura de As Rãs, pensei muito em que palavras usaria para descrever o livro. Pensei muito porque realmente quero recomendar este livro, que li como mera curiosidade para conhecer um escritor chinês que ganhou um prêmio Nobel. Uma das palavras que me veio à mente, e que nunca vi usada em literatura, é naif. De acordo com o Wikipedia:

A Arte Naïf é uma classificação que designa artistas auto-didatas que inventam um jeito pessoal de expressar suas emoções.(….) A palavra naïf é um termo francês que significa ingênuo ou inocente; portanto, a “arte naïf” é todo produto artístico de natureza pueril que demonstra uma criatividade autêntica baseada na simplificação de elementos decorativos a níveis brutos, espontâneos, puros, coloridos.

O livro passa a impressão, que tem a ver com a história pessoal do autor (a biografia é desinteressante, já adianto), de ter sido escrito por alguém que não veio de um meio literário e sim cheio de narrativas orais; o livro seria apenas apenas a última etapa do processo, de uma história que já foi contada e enriquecida de detalhes a cada audiência. Há algo de espontâneo e direto no livro, como se fosse uma reunião dos causos mais interessantes da vizinhança. A sensação ao ler o livro é esta: nos reunimos com os amigos e parentes e eles nos contam as últimas novidades, em detalhes deliciosos. Some isso às diferenças culturais, expressões impensáveis dentro da nossa própria língua, costumes diferentes, as mudanças radicais da Revolução Cultural. As Rãs é tão emocionante e surpreendente como se fosse um grande Casos de Família por escrito.

Professor, tínhamos em nossa aldeia um costume bem antigo de batizar as crianças com o nome de partes do corpo humano, como Chen Nariz, Zhao Olho, Wu Intestino, Sun Ombro… Nunca procurei saber a origem dessa prática, talvez tenha surgido por acreditarem que um nome humilde daria vida longa, ou pelo fato de as mães considerarem o filho parte da própria carne. Esse é um costume que caiu um desuso. Os pais de hoje não querem mais dar nomes estranhos aos filhos. As crianças da aldeia agora recebem nomes sofisticados de personagens de novelas de Hong Kong, de Taiwan ou Coreia. Quem tinha nome à maneira antiga, na maioria dos casos, acabou optando por outro mais elegante. Naturalmente, há aqueles que mantiveram o original, como o Chen Orelha e o Chen Sobrancelha.

Chen Nariz – pai de Chen Orelha e Chen Sobrancelha – foi meu colega de escola primária e meu amigo de juventude. Entramos na escola primária de Dayanglan no outono de 1960. As memórias mais marcantes que tenho daquela época de fome são, em grande parte, relacionadas à comida. Por exemplo, a história de quando comi carvão. Muitos pensam que é invenção minha, mas juro por minha tia que tudo aquilo aconteceu de fato, eu não inventei nada. (Parte I. capítulo 1)

O protagonista, Corre Corre, é como um dos muitos camponeses de uma pequena vila na China. Ele é como os que o cercam; Corre Corre não faz a menor questão de esconder suas fraquezas, que muitas vezes se propõe a ser melhor e não consegue, que vai no fluxo e acaba por decidir pelo que lhe é mais cômodo, o que o torna um personagem muito simpático. Seu ponto de contato com um mundo diferente é a sua tia, uma mulher idealista, teimosa e forte, que se torna a obstetra da vila e mais tarde representante do Governo. A vida dele e de toda vila é modificada quando inicia a Revolução Cultural, que traz novos valores e perspectivas. A tia dele acaba sendo o ponto de contato de políticas distantes do Partido Comunista e a realidade do povo comum. A delícia do livro é oferecer a visão micro do que é decidido no macro, como o povo reage a decisões políticas que num momento vão de encontro aos seus desejos e em outro os contrariam. O mesmo partido que no início estimulava a concepção, depois adota a política do Filho Único e coloca à força DIU, faz laqueaduras e interrompe sem escrúpulos gravidezes de sete meses. O processo não foi nada tranquilo, como nos faz parecer as distantes estatísticas. A tia mantém, por toda vida, a mesma atitude de fervor aos ideais do partido, e vai ao céu e ao inferno por isso. Mais do que a história de Corre Corre e sua tia, o livro conta a história da vila inteira, é um registro sobre a Revolução Cultural. O livro me fez lembrar das linhas de conhecimento, que quando tendem para a sociedade esquecem do indivíduo e vice-versa. Mo Yan consegue mostrar muito bem essa relação. Vemos como camponeses, pobres e ignorantes em muitos aspectos, dotados de relações e saberes tradicionais, manejam com inteligência os meios para tentar fazer as situações irem a seu favor. Temos o macro, com o partido, as políticas, o presidente Mao; em meio a isso, pessoas que se apaixonam, se vingam, mudam de ideia, se divertem, protagonizam barracos e, principalmente, procuram seu caminho.

A balada de Bob Dylan, por Daniel Mark Epstein

Antes de falar da biografia, sou obrigada a falar do meu contexto, que determinou minha busca por ela e minha maneira de lê-la. Acredito que outras pessoas tenham uma história parecida.

Eu não sei inglês. Com os anos até aprendi a me virar, mas nunca fiz curso e não sou fluente. Na minha infância e adolescência, nos anos 80, não havia google e conseguir tradução de música não era instantâneo como hoje. Pra saber o que uma música dizia, eu tinha duas alternativas: a tradução que vinha na contracapa da revista Querida ou a do locutor do rádio, perto da meia noite, que recitava de maneira sexy frase por frase. Então, Bob Dylan, com sua voz analasada e longas frases incompreensíveis, nunca me atraiu. Ao longo da vida, aqui e ali, conheci fãs dele, aprendi a identificar alguns dos seus hits, meu ídolo português Miguel Araújo adora e Dylan ganhou um controvertido Nobel de literatura. Foi crescendo em mim a sensação de que havia ali uma importante referência que empobrecia meu conhecimento musical por estar alheia. Mas o que realmente me levou a Dylan foi Leonard Cohen, que é tão grande e repete, com a maior naturalidade, que se ele é o número 1, Dylan é o número 0, por estar fora de qualquer escala. Este seria o momento da vida que eu deveria acionar um fã de Dylan e passar com ele uma tarde inteira sentada no chão, cercada de LPs, enquanto ele me mostra suas preferidas e me explica cada fase e a revolução que cada música representa. Na ausência de tal pessoa, o jeito foi apelar para o lelivros.love e procurar uma biografia.

Foram os Deuses Protetores dos Ignorantes da Música que me fizeram baixar justo A balada de Bob Dylan: um retrato musical, de Daniel Mark Epstein. Ela era tudo o que eu precisava. Epstein é esse fã apaixonado que acompanhou a carreira de Dylan, pega na mão do leitor e o conduz à sua mesma paixão. Ele estava lá desde o começo, no histórico show de 1963, em Washington, como uma das pessoas mais jovens da platéia. E já ali a gente se pergunta: como é que um menino de 22 anos já tem tanto a dizer e com tanta qualidade?

Eu mencionei o fato de que esta canção, talvez mais do que as outras, me surpreendeu, pois mal podia acreditar que aquele jovem na minha frente a tivesse escrito. Eu não consigo me lembrar agora quando ouvi pela primeira vez “Boots of Spanish Leather” (como “Sweet Betsy from Pike”  ou “I´ve Been Worked on the Railroad”) apesar de estar quase certo que não foi de seus lábios.

Ela havia sido publicada na edição de verão da Sign Out!, em 1963, mas eu não a li imediatamente. Desde que Dylan começou a tocar a canção no início daquele ano, ela havia se espalhado de modo viral de mão em mão e de ouvido a ouvido, como uma balada do séc XIX. Devia haver uns vinte cantores folk como Gil Turner e Carol Hedin movendo-se de cidade em cidade e cantando “Boots of Spanish Leather”, identificando ou não sua fonte. Não havia uma linha na letra que a identificasse como contemporânea; muitos versos soavam atemporais, como pedras gastas e polidas por séculos de água correndo por cima delas. Os amantes da balada, seu compromisso e seu desejo, eram tão autênticos como qualquer fato ou ficção – ao menos desde que os amantes tinham como poder escolher seu destino. Em resumo, a canção soava como se estivesse por aí há gerações, pois tinha todas as qualidades de uma canção que duraria para sempre.

Colado no corpo do violão de Dylan estava um pedaço de papel com uma lista de músicas. Olhando para a lista, em certo momento, ele comentou que havia escrito algumas centenas de canções. Não mencionou isso com orgulho, e sim como se fosse uma riqueza embaraçosa; às vezes, admitiu, não conseguia se lembrar de todas as palavras. “Boots of Spanish Leather” provocou a necessária mudança de humor de drama para romance. Neste momento, Dylan se atrapalhou de modo cômico com o suporte da gaita. A iluminação do palco nunca variava, mas ainda assim o músico sinalizou uma mudança de clima tão forte como se atmosfera tivesse mudado de azul para dourado. (1.Lisner auditorium, 14 de dezembro de 1963)

O livro é dividido em quatro partes, cada uma tendo como base um show histórico de Dylan: Washington D.C. 1963, Madison Square Garden 1974, Tanglewood 1997 e Aberdeen 2009. É uma leitura que avança devagar, porque é irresistível querer ouvir cada música para entender o que está descrito e ter sua própria impressão. Se o leitor tiver tempo e curiosidade, com o pretexto de acompanhar as influências de Dylan, também conhecerá folk, rock e toda cultura que dialogou com Dylan – e, acreditem, foram muitos diálogos. No meio disso, as histórias lendárias ou não, cultivadas pelo próprio Dylan ou não, e uma tentativa de entender a mistura única de um cantor que nunca foi o mais bonito, nem a melhor voz, nem o melhor instrumentista, nem a melhor presença de palco, mas que marcou para sempre a história da música – e até da literatura, de acordo com o Nobel. De alguém que partiu do zero, não apenas sem gostar das músicas como com uma certa resistência, já me flagrei doida pra chegar em casa e tocar uma certa música, aquela, uma bem comprida do Dylan. Acho que o livro cumpriu seu papel.

Sapiens e Homo deus, Yuval Noah Harari

Na ciência – e quem sabe na vida – as perguntas costumam ser muito mais importantes do que as respostas. Para quem leu o Guia dos Mochileiros das Galáxias, a ideia é representada pelo número 42. Numa visão estritamente pessoal, posso dizer que livros menos ambiciosos costumam dar mais certo do que os que se propõem a muito. Basta tentar ler manuais que resumem todas as escolas de psicologia ou filosofia, ou que tentam contar a história do Brasil para vestibulandos em pouco mais de cem páginas. Na prática, é um apanhado de dados que falam muito pouco a quem já não tem conhecimento prévio do assunto. Por isso a minha suspeita quando soube que Yuval Harari se propunha a escrever uma história da humanidade. Aí, logo nas primeiras linhas de Sapiens: uma breve história da humanidade, ele deixa o leitor sem fôlego ao ir do maior para o menor quando fala do campo de estudos da física, química, biologia e história. O que torna o seu livro excelente e único é sua proposta, a pergunta: qual caminho tornou o Homo sapiens a espécie dominante da Terra?

Harari retoma o conceito de espécie – por isso o nome Sapiens – ao falar de humano, e isso é parte fundamental da sua abordagem. Ele relembra que houveram outros Homoaustralopithecos, neanderthais, soloensis, erectus -, que Homos coexistiram e que o sapiens ser a única espécie não é, por si só, sinônimo de ser melhor. Ao retomar as diversas escolhas feitas pelo Homo sapiens, Harari fala de suas vantagens e desvantagens, relativiza o que nos parecia um caminho inevitável e até mesmo desperta uma certa nostalgia de quando éramos caçadores-coletores, estes sim muito mais saudáveis e harmônicos com o meio em que viviam. Já adiantando o raciocínio dos livros, o caminho do Homo sapiens que Harari descreve é de um crescente descolamento da natureza, que faz com quem o sapiens nem ao mesmo se reconhece mais como um animal. E a maneira como o sapiens olha para si mesmo (o livro fala muito de ilusões intersubjetivas)  acaba interferindo em todo ecossistema.

O surgimento da ciência e da indústria modernas trouxe consigo a revolução seguinte entre homens e animais. Durante a Revolução Agrícola, a humanidade silenciou animais e plantas e transformou a grande ópera animista num diálogo entre o homem e os deuses. No decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou-se em um one man show. O gênero humano estava sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser. (Homo deus/ 2. O antropoceno – Quinhentos anos de solidão)

O livro Sapiens se propõe a descrever as três grandes revoluções do Homo sapiens: Cognitiva, Agrícola e Científica. Quando Harari trata das duas primeiras evoluções, muito antigas e quase desprovidas de história – no sentido de registro – o livro une uma série de dados de maneira primorosa, insights originais e aquela sensação de que suas explicações são completas, simples e “puras”, que não há outra maneira de explicar o passado. O primata se levanta, usa as mãos, altera a postura de uma coluna que não estava adaptada, diminui o espaço para a saída de bebês que nascem prematuros. E a imaturidade dos bebês fazem com que não saiam como cerâmica prontas do forno e sim como vidros – maleáveis, adaptáveis, mais cultura do que biologia. Para o que não há explicação razoável, como a escolha pela agricultura ou constante dominância do sexo masculino sobre o feminino, Harari levanta várias hipóteses sem escolher nenhuma, para deixar claro que não há explicação satisfatória comprovada. Quando se apela para explicações que partem de fósseis e instrumentos de pedra, há uma tendência a explicações biologicistas e um grande desprezo intelectual pelos nossos antepassados. Como historiador, ele passa bastante longe disso:

Como podemos diferenciar aquilo que é biologicamente determinado daquilo que as pessoas tentam justificar por meio de mitos biológicos? Um bom princípio básico é “a biologia permite, a cultura proíbe”. A biologia está disposta a tolerar um leque muito amplo de possibilidades. É a cultura que obriga as pessoas a concretizar algumas possibilidades e proíbe outras. A biologia permite que as mulheres tenham filhos – algumas culturas obrigam as mulheres a concretizar essa possibilidades. A biologia permite que homens pratiquem sexo uns com os outros – algumas culturas os proíbem de concretizar essa possibilidade.

A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, de uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também, natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido que a velocidade da luz, ou que os elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros. (Sapiens: uma breve história da humanidade/ 7. Sobrecarga de memória – Ele e ela)

Quando fala da Revolução Científica, por ela ter apenas quinhentos anos, Harari começa a desenvolver seu raciocínio e Homo deus: uma breve história do amanhã é uma consequência clara das discussões finais de Sapiens. Quando chega no homem atual, o autor começa a bater e com força. Superadas os três grandes flagelos da espécie – fome, pestes e guerra – a agenda humana se debruça sobre novos objetivos, que são a busca pela felicidade, imortalidade e divindade. Mas, retomando ao seu argumento inicial, Harari relembra que se conceber como superior aos animais, às plantas e ao resto do planeta não torna isto verdade. Que o homem tem agido como uma criança irresponsável, fechado os olhos para o sofrimento que causa (num trecho de Sapiens ele diz que, ao contrário de outras ideologias que matam por ódio, o capitalismo mata por indiferença) aos animais, e que o mesmo argumento de justificar sua violência por superioridade pode se voltar contra ele quando o sapiens se tornar obsoleto. A descrição que Harari faz das capacidades dos animais e o sofrimento intenso a que são submetidos apenas para nossa satisfação à mesa, levam à conclusão que o veganismo é o mínimo que se pode fazer para ajudar. Ele mesmo é vegano.

Só que o isolamento do sapiens, conforme Harari projeta, tende a uma radicalização tal que passará a ser até dentro da espécie. O avanço da tecnologia capaz de prolongar a vida humana e aumentar nossa capacidade com o uso de inteligências artificiais não é estendido a todos. Enquanto uns serão amortais, outros não terão função dentro do sistema e serão descartados. Só que quando o livro fala do perigo de um Homo deus que se priva e se aproveita dos seus irmãos sapiens, não consigo deixar de pensar que o autor vem de um país muito mais igualitário. O que ele vê num o futuro me parece bastante aqui e agora, senão pelo avanço da tecnologia, pela pura e simples diferença no acesso à cultura. As diferenças de classes no Brasil são tão gritantes que duas pessoas que nunca se viram, trancadas durante poucos minutos numa mesma sala, já são capazes de adivinhar com uma grande probabilidade acerca as origens uma da outra. Nossas diferenças de classe são mais sofisticadas do que uma mera diferença racial – elas invadem o tipo físico, as roupas, a maneira de gesticular, de se portar, de olhar. A linguagem falada é diferente e escrita ainda mais. Criamos tantos e tão sofisticados códigos que o indivíduo não consegue, conscientemente, dominar todos – com isso a mobilidade social se torna cada vez mais difícil. E é essa falta de domínio dos códigos padronizados pela elite cultural e econômica que serve de justificativa para a manutenção de privilégios; os outros são burros, não sabem votar, são manipulados, precisam ser protegidos de si mesmos, não precisam de quase nada.

Ao mesmo tempo que demonstra o quão fenomenal o que conseguimos como espécie, as projeções que Harari faz estão muito mais para distopias. Ele alerta que quando fala na busca por eternidade, felicidade e divindade está apontando tendências, o que não quer dizer que as aprova. Sua ambição é, tal como aconteceu com o marxismo, que a própria leitura dos seus livros influencie o futuro e faça com que ele não aconteça da forma prevista. Se levarmos em conta que os livros são best sellers mundiais e lidos por gente como Barack Obama e Mark Zuckberg, quem sabe seja possível.

Judas, Amós Oz

Um ex-estudante sem perspectivas que, para conversar com um velho, recebe teto, comida e um pequeno salário de uma mulher mais velha que quase nunca aparece. A ação do livro se passa quase toda na casa, na água-furtada que o rapaz está instalado, no cômodo onde conversa com o velho, na cozinha onde se serve de sopas e sanduíches. E com tão poucos elementos, Amós Oz escreve um livro apaixonante, transforma o encontro dos três personagens naqueles momentos preciosos definidores da vida e que de antemão sabemos que não pode durar. Judas é o nome do livro porque é sobre a visão de Jesus para os judeus a pesquisa que Shmuel desenvolvia antes de largar os estudos. Através de Jesus ele chega a Judas, e com Judas os judeus, e com os judeus a formação do Estado de Israel, e com o Estado de Israel a vida do velho e da mulher, o preço que cada um deles pagou e o resultado dos seus sonhos desfeitos. No final, Judas nos parece uma metáfora de todos os personagens – contraditórios, condenados e, se olharmos mais de perto, talvez os únicos que se mantiveram fiéis.

Quando o mundo novo sair vitorioso, quando os seres-humanos forem todos honestos e simples e produtivos e fortes e iguais e eretos, com certeza será abolido por lei o direito de existência de pessoas distorcidas como eu, que são do grupo dos que comem e nada fazem e ainda enfeiam tudo com todo tipo de graçolas e brincadeiras sem fim. [16.]

É difícil descrever a maneira como Amós Oz domina a escrita, como ele chega ao ponto com poucas palavras, como consegue ser rápido ou se estender e transportar o leitor com uma facilidade espantosa. A sua capacidade de descrever as pessoas é uma das melhores que eu já li. Não apenas as descrições físicas, como os cabelos revoltos de Shmuel, a profundidade da fenda entre a boca e o nariz de Atalia, o rosto talhado em pedra de Wald, mas também na escolha do detalhe, que para uns é a maneira de andar, em outros no tipo de expressão que repete, num terceiro a forma como segura os objetos. Oz coloca a pessoa na nossa frente, e nos sentimos lá, com frio na umidade dos cômodos simples onde um homem velho, ranzinza e muito culto fala sem parar. Há também, em Oz, uma distância entre a decisão e a ação que fica bastante realista para o leitor e é muito difícil descrever em prosa; tal como na vida real, a decisão fica misturada aos sentimentos, outros pensamentos, o que está acontecendo no entorno, à ação de outros personagens. A decisão não se forma na mente e sai como uma flecha, ao contrário – seus personagens se envolvem e se perdem, não tem propósito definido, apenas necessidade de se sentirem bem e uma vaga ideia de como conseguir isso. Às vezes parece que nem vão conseguir. Para conseguir, rompem laços ou nem deixam que eles se formem, vão embora sem dizer adeus, declaram o que sentem muito mais com gestos do que com palavras. O leitor é tomado por um grande sentimento de doçura e nem sabe direito de onde ela vem.

Shmuel sentiu que tinha de despertar o interesse dela, entretê-la, mas a visão da ruela deserta sobre a qual pairavam varais de secar roupa e varandas vazias, e que um lampião solitário iluminava com uma luz turva, lhe provocou uma sensação opressiva e ele não encontrou palavras. Apertou de encontro às costelas o braço que ela cruzara com o seu, como a lhe prometer que tudo ainda estava em aberto. Ele agora sabia que ela o tinha sob seu domínio e que podia levá-lo a fazer quase tudo o que lhe pedisse. Mas não sabia como começar a conversa que no íntimo ele já mantinha com ela há semanas. [21.]

Afora tudo o que eu citei, a discussão sobre Judas Iscariotes, os judeus e o Estado de Israel já valeriam a leitura. Há um paralelo evidente entre a figura de Judas e o pai de Atalia, um politico envolvido na criação do Estado de Israel e que se opõe a seus pares com relação a criação do Estado e o conflito com os árabes. O Judas que Shmuel resgata, ao contrário do que ficou marcado na história cristã, é o mais fervoroso dos discípulos de Jesus, o único que não suporta viver num mundo sem ele, o que o levou a ser conhecido no lugar de ser apenas mais um andarilho milagreiro da sua época. Em ambos – o discípulo e o político – vemos que por detrás da traição pode haver a dedicação mais idealista e extremada, um ato de coragem muito maior do que aquele que renega três vezes ou que vota com a maioria. Nos passeios pela cidade, nas perspectivas que se apresentam a um Shmuel sem dinheiro e, principalmente, nas histórias pessoais do velho e Atalia, vemos o que é estar num país que, ao mesmo tempo que é a concretização de um sonho, vive uma guerra infinita. A guerra, Israel e ser judeu cobram preços individuais, às vezes muito altos.

A Aia e Eu

Por Bruno do Amaral*

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Seguem alguns spoilers.

Em 1985, a autora canadense Margaret Atwood publicou o livro O Conto da Aia, tradução livre para o título original The Handmaid´s Tale (há um trocadilho com rabo que se perde na tradução). Era um futuro distópico um tanto inimaginável na época, quando parecia haver um caminho sem volta na conquista dos direitos para mulheres. Hoje vemos que essas conquistas estão tão ameaçadas quanto na obra. Como homem, em pleno 2017, eu ainda preciso lutar um bocado para interpretar os acontecimentos da história não apenas como possíveis, mas também, até com certa probabilidade na sociedade atual. Penso que para mulheres isso seja notícia velha.

Me atraiu no livro como os personagens são tridimensionais, mas fica claro para mim como o “ser homem” é totalmente diferente naquele universo. Mesmo os mentores que resultaram no regime de atrocidades contra mulheres podem mostrar lados interessantes, charmosos e até atraentes. Mas ainda são homens, e por isso têm uma agenda que invariavelmente faz uso de uma covarde imposição de subserviência.
Mas o trecho a seguir explica que há mais nisso do que se presume um olhar masculino:

Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem, como uma mulher. É difícil resistir, creia-me. Mas lembre-se de que o perdão também é um poder. Suplicar por ele é um poder, e recusá-lo ou concedê-lo é um poder, talvez de todos o maior.

Acho que a Offred lutava sem ter plena consciência. A insistência dela em existir já poderia ser uma afronta. Ela estava no sistema, mas apenas para garantir sua existência. Até a oportunidade.

Como homem, em pleno século 21, eu me sinto envergonhado. Não só pelo que os outros homens fazem, mas por entender como funcionam e se justificam. Eu já fiz coisas como o Luke, o marido da personagem principal, que tentou ser paternalista e egoísta (dizer “temos um ao outro” é mais fácil quando não é você que perde a liberdade) na hora que a esposa viu que havia perdido a habilidade de movimentar sua conta corrente.

A história deixa claro: os homens não apenas são desnecessários, eles se esforçam para se tornar cada vez mais babacas. Isso está incrustado no nosso subconsciente, acontece não apenas nos feminicídios (palavra que o Google acha que não existe, alias), mas nas interrupções da fala de uma mulher. Ou no mansplanning. Ler O Conto da Aia foi como me ver no espelho e me descobrir um vilão, e não o mocinho que tantas histórias de Hollywood me fizeram acreditar que sou.

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A série The Handmaid’s Tale foi produzida neste ano de 2017 para o serviço de streaming norte-americano Hulu. Achei que complementa bem o livro, embora sinta falta do tempo dedicado à mãe da personagem principal (aqui enfim nomeada por June e maravilhosamente interpretada pela atriz Elisabeth Moss e nomeada ao Emmy de melhor atriz). Vale a pena por tudo, mas cito especificamente a excelente/nauseante história da Ofglen (Alexis Bledel, em papel que também lhe garantiu nomeação ao Emmy como atriz coadjuvante), presa por “crime contra o gênero” e sentenciada a uma mutilação.

É importante ressaltar meu contexto: minha mãe me criou sozinha com mais dois irmãos no Recife. Enquanto nos criava, nos anos 80, ela lutava para ter dois empregos e completar o curso de assistência social na UFPE – o TCC dela foi sobre o papel feminino e a assistência em famílias com crianças e adolescentes. Sim, ela sempre teve algum posicionamento mais feminista, mas não ficamos imunes ao machismo inerente da cultura da sociedade nordestina na época. Contribuíamos quase nada ou nada nas tarefas domésticas, coisa que até hoje eu tento reparar com ela. Tivemos grande parte de nossa criação em frente a uma TV machista que objetificava mulheres desde abertura de novelas até programas dominicais. Mais tarde, adolescente, era tido como normal beijar mulheres a força no Carnaval – nunca fiz isso e felizmente foi logo abolido no final dos anos 90, começo dos anos 2000, mas fui conivente porque condenei nenhum amigo que tenha feito na época.

Ou seja, mesmo que eu não me achasse machista, eu era. Estou tentando recuperar o tempo perdido. Mais de 30 anos depois, Margaret Atwood me ajuda com isso. Assistir ao seriado me deixou mal. Mal posso esperar pela segunda temporada.

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* Bruno do Amaral é jornalista do mundo de Telecom. Recifense radicado em São Paulo e multiculturalmente falido em música e cinema.

Inveja e escolaridade na Série Napolitana, Elena Ferrante

Spoilers: sim, tem. Até o terceiro livro.

Até agora, julho de 2017, a Série Napolitana, é formada pelos seguintes livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida.

Vou me sentir produzindo um post caça níqueis, daqueles que colocam algo polêmico só para provocar a ira das pessoas, mas quem leu os livros sabe que eu tenho razão: a série napolitana é a história de uma amizade, sim, mas de uma amizade baseada em inveja e rivalidade mútuas, principalmente da parte da protagonista Lenu com relação à sua amiga Lila. Lenu diz logo no começo do primeiro livro, com todas as letras, que se aproximar de Lila foi a forma como ela conseguiu lidar com a inveja, ela se conformou com o papel secundário numa competição que estava destinada a perder. Por um lado, a inveja é explicável pelo fato de Lila ser acima da média. A facilidade de aprendizagem e as análises que faz do que lhe cai em mãos mostram que Lila tinha um QI elevado; como pessoa, é independente, corajosa, intensa, verdadeira, criativa, apta a quaisquer atividades físicas. Para completar o quadro, como se já tivesse qualidades o suficiente, quando se torna uma mulher, Lila fica linda. Outro motivo, que para mim é um dos grandes atrativos da história, é perceber que o Destino, num sadismo brincalhão, misturou os sonhos de ambas e fez com que cada visse a outra obter com facilidade o que desejava para si: a que ama estudar e se destaca por suas ideias não pode prosseguir os estudos; a romântica que adora crianças se vê sozinha por muito mais tempo do que gostaria.

Talvez por isso, ao contrário da maioria dos leitores da série, tenho no primeiro o meu livro preferido. Gosto de quando está tudo começando, quando elas são crianças com dramas pequenos num bairro violento. Gosto de torcer pela Lila menina destemida, que vence competição, que estuda sozinha e supera o conteúdo do colégio, enfrenta os meninos e parece ser capaz de qualquer coisa. Era óbvio que ela estava destinada a perder, que por mais que lesse jamais conseguiria suprir a falta de uma educação formal. Lila dizer a Lenu que ela é a sua amiga genial, que deve estudar pelas duas, foi como um plot twist pra mim. O primeiro livro tem pra mim o valor utópico do antes: antes de escolaridade, antes de papéis de gênero, antes das diferenças econômicas , enfim, antes dos papéis sociais as esmagassem – porque era apenas uma questão de tempo até que esmagassem. Se a proibição de estudar já não fosse o suficiente, ficou claro que o que aguardava Lila não era tão bom quanto ela prometia quando criança quando ela começa a chamar atenção dos homens. Excesso de beleza e inteligência numa mulher é quase como maldição rogada por bruxa. Vista como troféu pelos homens ricos do bairro e possível saída para melhorar de vida pela família, Lila se casa cedo e mal.

“Vamos, me ajude, ou vou me atrasar.”

Jamais a havia visto nua, me envergonhei. Hoje, posso dizer que foi a vergonha de pousar com prazer o olhar sobre seu corpo, de ser a testemunha participante de sua beleza de dezesseis anos poucas horas antes de que Stefano a tocasse, a penetrasse, a deformasse, talvez, engravidando-a. Naquele momento foi apenas uma tumultuosa sensação de um inconveniente necessário, uma situação em que não se pode virar o rosto para o outro lado, não se pode afastar a mão sem dar a reconhecer o próprio desconcerto, sem o declarar justo ao se retrair, sem portanto entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem está nos perturbando, sem exprimir precisamente com a recusa a violenta expressão que nos abala, de modo que você se obrigar a continuar ali, a deixar o olhar sobre os ombros de menino, sobre os seios de mamilos crispados, sobre os quadris estreitos e as nádegas rijas, sobre o sexo escuríssimo, sobre as pernas compridas, sobre os joelhos tenros, sobre os tornozelos arredondados, sobre os pés elegantes; e você finge como se não fosse nada, quando na verdade tudo está em ato, presente, ali no quarto pobre e um tanto escuro, a mobília miserável ao redor, sobre o piso irregular e manchado de água, e o coração se agita, e suas veias se inflamam.

A amiga genial/ A história do sapato, 57.

O primeiro livro da série é essencial para se apegar aos personagens, que são sempre os mesmos, como se as mudanças fossem apenas uma troca de cadeiras, onde quem ontem era vizinho, amanhã é namorado e depois se torna cunhado. O bairro, uma periferia napolitana, é mais um personagem: a vizinha que enlouquece quando se apaixona pelo marido de outra, o agiota temido por todos, a briga de fogos de artifício, os pequenos comerciantes, etc. O bairro é o berço, amado e detestado, lugar de onde se quer fugir e não se consegue, origem do dialeto que eles falam sabendo que os define e empobrece diante do (idioma) italiano. Num meio ignorante, Lenu à princípio não percebe o que a educação pode fazer por ela e sente que a vida de estudante lhe deixa em suspenso enquanto todos à sua volta estão trabalhando e casando. Mas o caminho que se abre diante dela, diferente de todos à sua volta, transforma Lenu numa arrivista e é de grande sensibilidade a maneira como ela descreve as diferenças culturais e a superação exigente de quem tenta migrar para uma classe acima daquela de onde nasceu:

Estava entre os que se esforçavam dia e noite, que obtinham ótimos resultados, que eram até tratados com simpatia e estima, mas que nunca sustentariam com postura adequada a alta qualidade daqueles estudos. Eu sempre teria medo: medo de dizer uma frase errada, de usar um tom excessivo, de estar vestida inadequadamente, de revelar sentimentos mesquinhos, de não ter pensamentos interessantes.

História do novo sobrenome/ Juventude, 106.

Entre os seus, todos que encontram Lila se dão conta de seu magnetismo, e em qualquer tarefa que se proponha – desenhar sapatos, administrar uma loja – tem um toque especial. Mas sempre numa escala pequena, doméstica, porque o mundo desprovido de educação acessível à Lila é pequeno. Por mais que se torne capaz de revolucionar e dar a volta por cima, a falta da educação formal torna Lila sempre uma pessoa “e se”.

A sinceridade é um ponto chave na série, uma sinceridade que não poupa nem a própria narradora. Ela nos mostra uma violência sem fim da periferia napolitana – que resolve os assuntos com surras e mortes, que leva uma criança a ser jogada pela janela pelo seu próprio pai, que faz com que apanhar do marido seja tão comum a ponto de ser demonstração de ombridade. Ela nos fala de um machismo profundo, arraigado em homens e mulheres, onde a própria Lila que era capaz de enfrentar um homem com o dobro do tamanho dela aceite com naturalidade ser violentada e espancada pelo marido; ou nos episódios que Lenu é bolinada por homens mais velhos, apenas porque a situação se mostrou propícia para eles. Principalmente, o livro é claro no tratamento da inveja, nos momentos que Lenu está sempre se comparando com Lila como se – nas palavras da própria Lenu – a vida de ambas fossem os dois pratos de uma balança e que para uma estar por cima a outra precisa estar por baixo. Na maior parte do tempo, Lenu se queixa dos sucessos de Lila, que está bem enquanto ela está mal; aí, quando Lenu está bem, ela vai ter com Lila ou vê algo de Lila e imediatamente se descobre não tão bem assim, porque o que Lila tem é mais intenso, ou superior, ou até mesmo é a base do aparente sucesso de Lenu. O momento mais forte desse processo, para mim, é o final do segundo livro, quando Lenu ao invés de ficar feliz com o seu primeiro romance, o compara com uma história que Lila escreveu na infância. Aí ela decide procurar Lila, que está numa situação de pobreza e subemprego assustadora. Ao interromper o trabalho da amiga com as mãos machucadas num ambiente totalmente insalubre, Lenu só consegue dizer: “Aconteceu uma coisa maravilhosa, escrevi um livro!”. E como se tudo aquilo não fosse suficiente, ao perceber que Lila se desfaz do tal livro de infância assim que fica sozinha, Lenu se reduz de novo à sua inveja – que Lila sim entendia das coisas, era superior a tudo aquilo, etc.

Há momentos que o leitor se pergunta se Lila é tão interessante ou é tudo fruto de uma mente paranoicamente invejosa. Como quando o marido de Lenu diz que achou Lila uma pessoa horrível, e ela começa a achar que ele falou aquilo para se defender do fascínio que sentiu. Quando finalmente consegue dormir com Nino, lá vai a outra perguntar se o desempenho na cama era melhor do que o da amiga. A vida adulta faz com que cada uma siga sua vida e o contato entre elas – e a consequente comparação  – perde cada vez mais o sentido. Lila passa a ser uma amiga de telefonemas esporádicos e notícias distantes. Quando Lenu passa a ter o foco da história mais para si, somos obrigados a dar razão ao que ela disse o tempo todo, ao que todos os personagens diziam: Lila é muito mais interessante, mostra mais Lila porque isto está muito comum.

The Crown

Alerta de spoiler: este texto falará livremente sobre fatos de toda primeira temporada de The Crown. Caso não goste de spoiler e prefira descobrir as coisas à medida que assiste a série, abandone já e volte apenas depois que terminar.

A discreta abertura de The Crown me parece resumir, em imagem, aquilo de que a série trata. A abertura começa com o ouro derretido, que adquire formas geométricas estáveis para ser transformado em coroa. A série, sobre a Rainha Elisabeth II, mostra a gradual transformação de uma mulher comum em rainha. Essa transformação é mostrada em dois caminhos complementares: a história linear da vida de Elisabeth pouco tempo antes da coroação, com a morte de seu pai, o rei George VI e os fashbacks da infância de Elisabeth, onde mostra o quanto criação dela foi moldada para a futura possibilidade de usar a coroa após a abdicação do trono por Edward, seu tio mais velho. É também de Edward a fala que melhor resume o conflito entre o transitório e humano frente à coroa:

– Mas há também o outro grande amor da minha vida: a coroa. E proteger essa coroa. E imagino que você esteja numa posição difícil agora, dividida ao meio. Uma metade é irmã, a outra metade é rainha. Uma criatura híbrida, estranha, como uma esfinge ou Gamayum. Como eu sou Ganesha ou o Minotauro. Somos pessoas pela metade, arrancadas das páginas de alguma mitologia bizarra, com dois lados dentro de nós, o humano e a coroa, numa terrível guerra civil, que não tem fim e que deteriora todas as nossas interações humanas, como irmão, marido, irmã, esposa, mãe. Eu entendo a agonia e estou aqui para lhe dizer que ela jamais a deixará. (temporada 01, episódio 10 – Gloriana)

O centro é Elisabeth, mas a Coroa está presente em cada detalhe da vida da família real e tem exigências que não poupam ninguém que entre em contato com ela. Embora Elisabeth tenha se casado com o homem que escolheu, logo nas primeiras cenas descobrimos que, para isso, Philip precisa abrir mão das cidadanias grega e dinamarquesa, se converteu ao anglicanismo e adotou o sobrenome Mountbatten para virar cidadão britânico. Quando Elisabeth se torna rainha, os problema já começam quando ambos precisam abandonar a casa que vivam; Philip deixa de ter uma carreira, tem que se conformar a abrir mão do direito de dar seu sobrenome aos seus filhos – Charles e Ana – e precisou se ajoelhar frente à esposa na sua cerimônia de coroação, fatos que para ele diminuíam sua “virilidade”. O papel cada vez mais acessório e de “cortador de fita” de Philip tem o irritam cada vez mais, e até mesmo seu desejo de aprender a pilotar um avião quase é impedido pelo Parlamento – é estranho saber que Churchil, aquele Churchil, se deu ao trabalho de discutir vivamente o assunto . Mais tarde, quando Philip parece se conformar com a vida de nobre desocupado e passa a viver em meio a festas e falta de explicações, o casamento fica cada dia mais comprometido. Fica sempre a pergunta do quanto isso seria inevitável ou não se eles fossem apenas um casal, e não a rainha e o Duque de Edimburgo.

A série, sem precisar recorrer a sentimentalismos, faz com que o público simpatize cada vez mais com Elisabeth. Quase não a vemos interagir com os filhos, ela máximo sorri ao olhar para eles brincando com o pai ou tutores. Não há nas suas falas nada de apaixonado ou espirituoso, características que parecem estar restritas à sua irmã Margaret. A família inteira parece ser feita de gelo e rancor, como nas picuinhas incansáveis a Edward e a esposa, que nem ao menos é recebida no palácio. Porém, vemos em Elisabeth uma mulher sensata, que procura fazer o seu melhor frente a uma tarefa maior do que qualquer pessoa. A consciência que ela tem de suas próprias limitações chega a ser enternecedora. Ela confessa se sentir burra diante de chefes de estado, e que precisa desviar a conversa para cachorros e cavalos para se sair bem. Sua educação a versou apenas na tarefa de prepará-la para governar, tarefa que exige que ela conheça a constituição e tenha, como maior qualidade, a capacidade de ficar quieta (isso lhe é dito sem a menor ironia). Para sanar suas falhas, ela contrata para si mesma um tutor. Vemos a dificuldade daquela mulher jovem que tem a tarefa de governar em meio a informações muitas vezes incompletas e podendo apelar quase que tão somente ao próprio bom senso. Um dos momentos que simbolizam quando ela está começando a se tornar realmente uma rainha, é quando ela dá uma bronca em Churchil, a quem tanto respeita, tal como uma mãe dando uma bronca.

Mas, ao mesmo tempo que ela é a autoridade máxima por ser uma rainha, as convenções a que Elisabeth está amarrada na tarefa de manter a Coroa, às vezes fazem com que o poder real pareça com poder nenhum. Como instituição, a Coroa precisa sobreviver e sua continuidade está principalmente ligada à perpetuação das regras:

Diálogo de Elisabeth sobre a escolha de seu secretário pessoal:
– Há um modo de fazer as coisas aqui, uma ordem desenvolvida por gerações. E a individualidade, na casa Windsor, qualquer desvio no modo de se fazer as coisas não deve ser encorajado. Isso resulta em catástrofes como a abdicação.
– A abdicação do trono e a escolha do meu secretário não têm ligação entre si.
– Eu discordo. Eu servi o seu tio, como sabe, e é nas pequenas coisas que a podridão começa. Se errar uma vez é fácil errar de novo. Se for individualista uma vez, é mais fácil voltar a ser. (temporada 01, episódio 07 – Scientia Potentia Est)

Elisabeth se mostra uma excelente rainha justamente por sua personalidade prudente e até mesmo desinteressante. Quando Margaret assume alguns compromissos públicos em nome da irmã e passa a ser espontânea e espirituosa nas suas declarações, isso se mostra muito prejudicial e Churchil lhe adverte:

– Vossa Majestade, quando aparece num evento público, em funções oficiais, você não é você mesma.(….) E ninguém quer que seja você, só querem que seja.
– Uma estátua, uma coisa?
– A Coroa. É isso que todos foram ver, não a senhora.Quando é você mesma, estraga a ilusão, quebra a magia. (temporada 01, episódio 08 – Orgulho e Alegria)

Sempre que confrontada entre a necessidade daqueles que a cercavam ou a manutenção do trono da Inglaterra, Elisabeth escolhe o segundo. Como consequência, fica cada vez mais solitária. Saber que até mesmo ela, sempre tão sensata, escolheu mal o marido por ter caído da velha falácia de ser atraída pelo bonitão e não o amigo com quem tinha afinidade, e que desde o primeiro momento apoiou o casamento de Margaret apesar de sua posição pública, fazem com que o público entenda um pouco do peso que é representar uma tradição. Acredito que na segunda temporada, muito mais rainha do que ouro, as atitudes dela se tornem tão “corretas” e desumanas que ela perca a simpatia do expectador. Estou curiosa para saber como Lady Di será retratada. No mais, a série tem se mostrado tão fiel que até o príncipe Charles criança se parece com o original.