The Crown

Alerta de spoiler: este texto falará livremente sobre fatos de toda primeira temporada de The Crown. Caso não goste de spoiler e prefira descobrir as coisas à medida que assiste a série, abandone já e volte apenas depois que terminar.

A discreta abertura de The Crown me parece resumir, em imagem, aquilo de que a série trata. A abertura começa com o ouro derretido, que adquire formas geométricas estáveis para ser transformado em coroa. A série, sobre a Rainha Elisabeth II, mostra a gradual transformação de uma mulher comum em rainha. Essa transformação é mostrada em dois caminhos complementares: a história linear da vida de Elisabeth pouco tempo antes da coroação, com a morte de seu pai, o rei George VI e os fashbacks da infância de Elisabeth, onde mostra o quanto criação dela foi moldada para a futura possibilidade de usar a coroa após a abdicação do trono por Edward, seu tio mais velho. É também de Edward a fala que melhor resume o conflito entre o transitório e humano frente à coroa:

– Mas há também o outro grande amor da minha vida: a coroa. E proteger essa coroa. E imagino que você esteja numa posição difícil agora, dividida ao meio. Uma metade é irmã, a outra metade é rainha. Uma criatura híbrida, estranha, como uma esfinge ou Gamayum. Como eu sou Ganesha ou o Minotauro. Somos pessoas pela metade, arrancadas das páginas de alguma mitologia bizarra, com dois lados dentro de nós, o humano e a coroa, numa terrível guerra civil, que não tem fim e que deteriora todas as nossas interações humanas, como irmão, marido, irmã, esposa, mãe. Eu entendo a agonia e estou aqui para lhe dizer que ela jamais a deixará. (temporada 01, episódio 10 – Gloriana)

O centro é Elisabeth, mas a Coroa está presente em cada detalhe da vida da família real e tem exigências que não poupam ninguém que entre em contato com ela. Embora Elisabeth tenha se casado com o homem que escolheu, logo nas primeiras cenas descobrimos que, para isso, Philip precisa abrir mão das cidadanias grega e dinamarquesa, se converteu ao anglicanismo e adotou o sobrenome Mountbatten para virar cidadão britânico. Quando Elisabeth se torna rainha, os problema já começam quando ambos precisam abandonar a casa que vivam; Philip deixa de ter uma carreira, tem que se conformar a abrir mão do direito de dar seu sobrenome aos seus filhos – Charles e Ana – e precisou se ajoelhar frente à esposa na sua cerimônia de coroação, fatos que para ele diminuíam sua “virilidade”. O papel cada vez mais acessório e de “cortador de fita” de Philip tem o irritam cada vez mais, e até mesmo seu desejo de aprender a pilotar um avião quase é impedido pelo Parlamento – é estranho saber que Churchil, aquele Churchil, se deu ao trabalho de discutir vivamente o assunto . Mais tarde, quando Philip parece se conformar com a vida de nobre desocupado e passa a viver em meio a festas e falta de explicações, o casamento fica cada dia mais comprometido. Fica sempre a pergunta do quanto isso seria inevitável ou não se eles fossem apenas um casal, e não a rainha e o Duque de Edimburgo.

A série, sem precisar recorrer a sentimentalismos, faz com que o público simpatize cada vez mais com Elisabeth. Quase não a vemos interagir com os filhos, ela máximo sorri ao olhar para eles brincando com o pai ou tutores. Não há nas suas falas nada de apaixonado ou espirituoso, características que parecem estar restritas à sua irmã Margaret. A família inteira parece ser feita de gelo e rancor, como nas picuinhas incansáveis a Edward e a esposa, que nem ao menos é recebida no palácio. Porém, vemos em Elisabeth uma mulher sensata, que procura fazer o seu melhor frente a uma tarefa maior do que qualquer pessoa. A consciência que ela tem de suas próprias limitações chega a ser enternecedora. Ela confessa se sentir burra diante de chefes de estado, e que precisa desviar a conversa para cachorros e cavalos para se sair bem. Sua educação a versou apenas na tarefa de prepará-la para governar, tarefa que exige que ela conheça a constituição e tenha, como maior qualidade, a capacidade de ficar quieta (isso lhe é dito sem a menor ironia). Para sanar suas falhas, ela contrata para si mesma um tutor. Vemos a dificuldade daquela mulher jovem que tem a tarefa de governar em meio a informações muitas vezes incompletas e podendo apelar quase que tão somente ao próprio bom senso. Um dos momentos que simbolizam quando ela está começando a se tornar realmente uma rainha, é quando ela dá uma bronca em Churchil, a quem tanto respeita, tal como uma mãe dando uma bronca.

Mas, ao mesmo tempo que ela é a autoridade máxima por ser uma rainha, as convenções a que Elisabeth está amarrada na tarefa de manter a Coroa, às vezes fazem com que o poder real pareça com poder nenhum. Como instituição, a Coroa precisa sobreviver e sua continuidade está principalmente ligada à perpetuação das regras:

Diálogo de Elisabeth sobre a escolha de seu secretário pessoal:
– Há um modo de fazer as coisas aqui, uma ordem desenvolvida por gerações. E a individualidade, na casa Windsor, qualquer desvio no modo de se fazer as coisas não deve ser encorajado. Isso resulta em catástrofes como a abdicação.
– A abdicação do trono e a escolha do meu secretário não têm ligação entre si.
– Eu discordo. Eu servi o seu tio, como sabe, e é nas pequenas coisas que a podridão começa. Se errar uma vez é fácil errar de novo. Se for individualista uma vez, é mais fácil voltar a ser. (temporada 01, episódio 07 – Scientia Potentia Est)

Elisabeth se mostra uma excelente rainha justamente por sua personalidade prudente e até mesmo desinteressante. Quando Margaret assume alguns compromissos públicos em nome da irmã e passa a ser espontânea e espirituosa nas suas declarações, isso se mostra muito prejudicial e Churchil lhe adverte:

– Vossa Majestade, quando aparece num evento público, em funções oficiais, você não é você mesma.(….) E ninguém quer que seja você, só querem que seja.
– Uma estátua, uma coisa?
– A Coroa. É isso que todos foram ver, não a senhora.Quando é você mesma, estraga a ilusão, quebra a magia. (temporada 01, episódio 08 – Orgulho e Alegria)

Sempre que confrontada entre a necessidade daqueles que a cercavam ou a manutenção do trono da Inglaterra, Elisabeth escolhe o segundo. Como consequência, fica cada vez mais solitária. Saber que até mesmo ela, sempre tão sensata, escolheu mal o marido por ter caído da velha falácia de ser atraída pelo bonitão e não o amigo com quem tinha afinidade, e que desde o primeiro momento apoiou o casamento de Margaret apesar de sua posição pública, fazem com que o público entenda um pouco do peso que é representar uma tradição. Acredito que na segunda temporada, muito mais rainha do que ouro, as atitudes dela se tornem tão “corretas” e desumanas que ela perca a simpatia do expectador. Estou curiosa para saber como Lady Di será retratada. No mais, a série tem se mostrado tão fiel que até o príncipe Charles criança se parece com o original.

Eu sou Malala, com Christina Lamb

De uma maneira ou de outra, a gente sabe que existe uma Malala antes de ler o livro e sabe que foi a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que ela é muçulmana e luta pela educação de meninas. Quem lê o livro quer conhecer essa história e as autoras do livro – a própria Malala e Christina Lamb – parecem ter uma profunda compreensão do que essa menina representa. Eu sou Malala oferece ao leitor uma descrição sincera e ampla, que contempla Malala no contexto da família, dos amigos e da política. De forma inteligente e interessante, Malala é colocada com uma menina por um lado comum, que gosta de arrumar o cabelo e brincar com as amigas, e por outro bastante estimulada por um pai educador, idealista e muito atuante, que oferece a sua filha muito mais do que seria esperado – ao que ela corresponde amplamente, e pai e filha se tornam representantes da mesma luta. O livro nos oferece o ponto de vista paquistanês dos ataques de onze de setembro, o crescimento do Talibã, a ambiguidade interna com os EUA e o que leva uma adolescente a  “merecer” um tiro na cabeça.

Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. O primo de meu pai, Jehan Sher Khan Yousafzai, foi um dos poucos a nos visitar para celebrar meu nascimento e até mesmo nos deu uma boa soma em dinheiro. Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas da descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu “Malala”. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: “Sei que há algo diferente nessa criança”. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas no meu berço, algo reservado somente aos meninos. (p.21-22)

Também eu não queria me render. Mas nos aproximávamos do prazo determinado pelo Talibã para que as meninas deixasse de ir à escola. Como impedir 50 mil meninas de ir à escola em pleno século XXI? Eu não parava de pensar – ou desejar – que algo mudaria e que as escolas permaneceriam abertas. Mas nosso prazo estava se esgotando. Tínhamos determinado que  sinal da Khushal seria o último a parar de tocar. A sra. Maryam até mesmo se casara, para poder ficar no Swat. Sua família havia se mudado para Karachi por causa do conflito e ela não podia morar sozinha. (p. 168)

Todos recitamos surahs do Corão e uma oração especial para proteger nossos queridos lares e nossa querida escola. Então o pai de Safina colocou o pé no acelerador e lá fomos nós, do pequeno mundo de nossas rua, casa e escola rumo ao desconhecido. Não sabíamos se algum dia voltaríamos a nossa cidade. Tínhamos visto fotos de como o Exército acabara com Bajaur, numa operação contra os talibãs, e pensamos que tudo aquilo que conhecíamos seria destruído.

As ruas estavam repletas. Eu nunca as vira tão movimentadas. Havia carros por toda parte, bem como riquixás, carroças puxadas por mulas e caminhões, todos lotados de pessoas com seus pertences. Havia até mesmo motos com famílias inteiras balançando-se sobre elas. Milhares de pessoas caminhavam apenas com a roupa do corpo. Parecia que todo vale estava em fuga. Diz-se que os pachtuns descendem de uma das tribos perdidas de Israel, e meu pai comentou: “É como se fôssemos israelistas fugindo do Egito, só que não temos nenhum Moisés para nos guiar”. Poucas pessoas sabiam para onde ir; a maioria apenas sabia que tinha de partir. Foi o maior êxodo da história pachtum. (p. 188-189)

Numa perspectiva mais literária, eu diria que Malala é um livro sobre perder e reconstruir o próprio lar; a perda de Malala, das outras meninas e dos paquistaneses em geral é tão profunda que é preciso construir um mundo novo, porque o lugar que amavam foi destruído pela violência, ignorância e disputas pelo poder. A história é tocante por ser muito próxima: os Yousafzai são uma família que querem nada mais do que o direito à felicidade e oferecer do melhor aos seus. Ao conhecer o contexto político, vemos os acontecimentos exteriores se avolumarem lá fora enquanto eles, pessoas comuns, nada podem fazer a respeito. Quando a violência se torna generalizada, Malala e os outros são engolidos, sua forma de viver é colocada em risco e preservar o mínimo de dignidade passa a ser um posicionamento político. Vemos as fotos da família no meio do livro, sabemos que agora eles vivem na Inglaterra, e para surpresa e choque etnocêntrico do leitor, sair do campo para ter acesso ao ápice da civilização não foi a melhor coisa que lhes aconteceu. Malala já famosa e ganhadora de prêmios fala do tédio na Inglaterra, de um pai longe do que construiu, de uma mãe sem as amigas, uma escola onde não se sente amada. Há sim conforto e segurança, mas falta a cultura acolhedora, as montanhas e as flores, o pertencimento. Ser inglês ou ocidental não é o mundo ideal, o mundo ideal é um Paquistão mais justo. Como ela mesma conclui no fim do livro: “Eu sou Malala. Meu mundo mudou, eu não.”

O Tambor, de Günter Grass

A primeira parte deste livro é de passar vergonha por gargalhar sozinho em público, foi uma das coisas mais engraçadas que li na minha vida. Só por ela, pela construção de um personagem trancado no hospício e megalômano que conta uma história tão extraordinária sobre si mesmo e a sua família – a avó com saias cor de batata sobrepostas, o avô incendiário, as partidas de skat entre a mãe, o marido e o “pai presuntivo”, os vizinhos, as aventuras sexuais de todos eles – já fariam O Tambor valer a leitura. E que delícia de prosa!

Poderia tê-lo detido com um chamado ou com um rufor do tambor que trazia comigo. Sentia-o debaixo do meu sobretudo. Bastava abrir um botão e ele teria emergido para o ar glacial. Levando as mãos os bolsos do abrigo estaria de posse das baquetas. São Huberto, o caçador, não disparou quando já tinha na mira do tiro aquele cervo singular. Saulo converteu-se em Paulo. Átila deu meia-volta quando o Papa Leão levantou o dedo com o anel. Mas eu disparei, e não me converti e nem dei meia-volta, me mantive caçador, me mantive Oskar, procurando ir até o final: não me desabotoei, não deixei que meu tambor saísse ao ar glacial, não cruzei minhas baquetas sobre a branca e nívea lâmina de lata, nem permiti que a noite de janeiro se convertesse em noite de tambor, mas gritei em silêncio, gritei como gritam talvez as estrelas ou os peixes nas profundezas; gritei primeiro ao céu, para que deixasse cair neve fresca, e logo ao vidro: ao vidro espesso, ao vidro caro, ao vidro barato, ao vidro transparente, ao vidro que dividia em dois mundos, ao vidro místico e virginal; enderecei meu grito ao vidro da vitrine, entre Jan Bronski e o colar, fazendo um corte na medida da mão de Jan, que eu conhecia bem, e deixei que o recorte circular de vidro resvalasse como se fosse uma tampa: como se fosse a porta do céu e do infinito. E Jan não estremeceu, mas deixou que sua mão enluvada emergisse do bolso do abrigo e penetrasse no céu; a luva abandonou o inferno e tirou do céu um colar cujos rubis teriam convindo a todos os anjos, inclusive os decaídos; e fez com que a mão cheia de rubis e de couro voltasse ao bolso; e ele continuava ali, diante da vitrine aberta, ainda que fosse perigoso e já não sangrassem ali os rubis que imporiam a seu olhar ou ao de Parsifal uma direção imutável. (p.155-156)

Mas ele vai avançando nas datas, avisando que aquilo aconteceu em 35, 36, 38… até chegar numa ação que seria trivial se por acaso não fosse 1º de setembro de 39, na Polônia. Chegamos na segunda parte do livro e ele deixa de ser apenas uma brincadeira. Há alguns detalhes do livro que escapam ao leitor não-europeu ou, dito de outra forma, que farão muito mais sentido para os que estão familiarizados com detalhes sobre a Segunda Guerra. O nome dos personagens, por exemplo: Jan Bronski, Alfred Matzerath, Sigsmund Markus, não me diziam nada a respeito de suas origens e mais tarde se tornam importantes dentro da história por serem poloneses, alemães e judeus. Ou quando ele faz referência a cavaleiros atacando tanques como se fossem moinhos de vento – esse episódio, pouco conhecido, é a última carga de cavalaria da história, quando os poloneses tentaram se defender dos tanques alemães a cavalo. A Segunda Guerra foi inovadora no uso da tecnologia e o resultado desse ataque foi o massacre que vocês podem imaginar. Se por um lado o nosso distanciamento temporal e geográfico nos faz perder muitos detalhes, por outro o livro acaba mostrando o que há de cotidiano numa guerra: impacto da entrada no partido na imagem pessoal, amigos que se vêm separados por ideologias, jovens que não são absorvidos pelo sistema, novas relações comerciais, solidariedade forçada pelas circunstâncias, um mundo onde a morte e a reconstrução são tão presentes que se banalizam.

Quando o livro se torna mais ambicioso ao destruir o estranho cotidiano familiar de Oskar, faz ainda mais sentido a escolha do autor ao criar um personagem principal tão singular: de acordo com o próprio Oskar, ele já nasceu psicologicamente maduro e por decisão própria decidiu não crescer para além dos 3 anos de idade. Para que os adultos pudessem ter uma explicação a respeito do seu desenvolvimento – adultos precisam de explicação – ele se atirou escada abaixo quando engatinhava. O descompasso entre a inteligência e o aspecto físico faz com que ele esteja sempre à margem e consiga atuar como adulto ou como criança quando lhe convém. Na sua perversidade, Oskar me lembrou muito O Anão de Pär Lagerkvist, cuja capacidade nunca é totalmente reconhecida por causa de sua condição física e lhe serve de vantagem. E como Oskar é louco – a primeira informação que nos é dada é que ele vai rememorar a vida de dentro do hospício – a fronteira do que é possível se desfaz, e não tem a menor importância que ele toque um tambor o tempo todo (por isso o nome do livro) ou se era realmente verdade que ele quebrava vidros com a voz ou que os adultos à volta dele fossem sexualmente tão exuberantes. Caso não tenha ficado claro em tudo o que escrevi até agora, é preciso que se diga: o livro é delirante, engraçado e até mesmo informativo, mas há sempre uma morbidez de fundo. Talvez não pudesse ser diferente ao se falar desse período histórico. Fui procurar saber um pouco sobre Günter Grass e descobri que ele revelou coisas feias sobre sua participação nas Waffen-SS quando jovem. As pessoas ficaram decepcionadas e no resumo é colocada uma frase de Oskar para explicar a relação do autor com seu passado: “Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança”. Se pensarmos que Oskar tem um pouco de Grass, O Tambor adquire ares de um brilhante expurgo pessoal.

A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa

Eu já tive orgulho besta da nossa brasilidade linguista nos deixar distante do resto da América Latina, a que fala espanhol. Hoje lamento o quanto saímos perdendo. Até as traduções em português lusitano nos são difíceis, então temos que torcer para as nossas editoras fazerem traduções especialmente para nós. Enquanto isso, os mexicanos leem com a maior naturalidade livros publicados na Argentina e por aí vai. Nossa ignorância se estende aos autores latino americanos e sabemos que existiu Borges e olhe lá. Só essa ignorância explica que tão poucos saibam que Mario Vargas Llosa, premiado autor peruano que ganhou o Nobel de literatura de 2010, escreveu um livro excelente sobre a guerra de Canudos no início dos anos 80. Inspirado por Euclides da Cunha, Llosa fez uma extensa pesquisa histórica com documentos e visitou os locais onde aconteceu a guerra. O resultado é um romance vivo, informativo e que consegue nos atingir de uma forma que Euclides da Cunha já não consegue mais. Este trecho – belíssimo – mostra o quanto homem e natureza, que estavam separados n´Os Sertões, se unem no romance de Llosa e mostram um pouco do significado da figura de Antônio Conselheiro às milhares de pessoas que o seguiram:

Dava conselhos ao entardecer, quando os homens voltavam da roça, as mulheres tinham terminado seus afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Falava nos descampados lisos e pedregosos que há em todos os povoados do sertão, no cruzamento das ruas principais, e que poderiam ser chamadas de praças se tivessem bancos, coretos, jardins ou se ainda conservassem os que tiveram um dia e foram destruídos pela seca, pelas pragas, pela negligência. Falava na hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de ficar escuro e estrelado, cintila em flocosas nuvens brancas, cinzentas ou azuladas e se vê lá no alto, sobre a imensidão do mundo, um vasto fogo de artifício. Falava na hora em que se acendem as fogueiras para espantar os insetos e fazer a comida, quando o calor sufocante diminui e sopra uma brisa que deixa as pessoas com mais ânimo para suportar a doença, a fome e os padecimentos da vida.

Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar especialmente para nenhuma das pessoas que o cercava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através da aglomeração de velhos, mulheres, homens e crianças, para algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam, porque eram absolutamente sabidas desde tempos imemoriais e absorvidas junto com o leite materno. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Juízo Final, que podiam acontecer, talvez, antes que o povoado reconstruísse a capela desmoronada. (p. 16-17)

O livro é um calhamaço de 600 páginas e de vez em quando o leitor se vê com a mesma impaciência dos exércitos: Canudos não vai cair nunca? Canudos se tornou um problema justamente por ter demorado a cair. Para nos fazer entender o significado de Canudos para a época e para as pessoas que influenciou, o Guerra do fim do mundo parte de diferentes pontos de vista, tanto de personagens centrais como de outros que surgem apenas em poucos capítulos e nos dão informações pontuais. Do “lado de fora” temos, dentre outros, o Jornalista Míope (cujo nome nunca é revelado e nos faz pensar numa homenagem a Euclides da Cunha), o comunista Galileo Gall, o monarquista Barão de Canabrava. São personagens que enxergam a guerra no seu sentido político e, entre prejuízos pessoais e equívocos, se sentem desafiados por um fenômenos que ultrapassa qualquer lógica. Ao lado do Conselheiro podemos citar: Beatinho, Leão de Natuba, Pajeú, Mãe dos Homens, Antonio Villanova, João Satã. Seu séquito era formado por bandidos e vítimas, religiosos e recém-convertidos, ignorantes e alguns poucos com cultura, alguns nem ao menos acreditavam em tudo o que ele dizia – mas todos eram dotados de grande sinceridade e fizeram de Canudos um projeto de vida. O único personagem cujo ponto de vista nunca conhecemos é do próprio Conselheiro, que termina o livro como um mistério: era um fanático ou um enviado de Deus? Visto como inimigo da República por pregar a volta da Monarquia, ele demonstra a triste confusão da ignorância ao se colocar contra o casamento civil e o sistema métrico decimal e acreditar que o censo tinha por finalidade re-escravizar os negros. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu poder de persuasão, carisma, convicção e capacidade de falar ao coração do seu povo. Mesmo conhecendo a Guerra de Canudos pelos livros de história e por já fazer parte do nosso imaginário, Guerra do fim do mundo consegue resgatar no leitor o sentimento de Euclides da Cunha e de muitos que estiveram envolvidos naquela guerra: a vontade de que fosse diferente, a constatação do absurdo de dizimar um povoado com mais de vinte mil pessoas reunidas pela fé e a vontade de viver melhor.

Desonra, J.M. Coetzee

“Não leia nada, nem o que está na capa do livro”, foi a recomendação do Charlles. Eu deveria me deixar surpreender, tal como eu sempre sonhei em ler Grande Sertão: Veredas, que eu acho que deve ter sido muito mais impactante antes de se tornar série da Globo e todo mundo associar os lindos olhos verdes de Diadorim aos de Bruna Lombardi. Então, tentarei também escrever sem entregar a história. Tem em todos os lugares, a orelha do livro (que li depois), da edição da Companhia das Letras só falta contar as palavras finais e colocar tabela com os personagens e suas motivações. Se quiserem, busquem. Eu vou tentar falar das muitas questões que o livro me levantou e que tornaram a experiência de lê-lo algo único e atordoante. Desonra começa assim:

Para um homem de sua idade, cinquenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudades de mim?” ela pergunta, “Sinto saudades o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser seu pai; só que, tecnicamente, dá pra ser pai aos doze. Ele está na agenda dela faz mais de um ano; ele acha que ela é perfeitamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira passou a ser um oásis de luxe et volupté. (p.7)

Somos apresentados ao professor David Laurie, seu mundo organizado, a racionalidade, a solidão conformada e rotinas de quem já chegou na idade dos casamentos desfeitos. Mas tão rapidamente quanto somos apresentados a isso, as atitudes de David o traem e ele se pega imprudente e sexual demais; o papel que se espera dele, pela sua idade e profissão, não combinam com os seus desejos. A partir daí, é como se o universo fosse ficando cada vez mais complexo e difícil de lidar: um julgamento de cujas acusações nunca temos clareza, murmurinhos que não sabemos quais são e até mesmo as motivações do personagem que até então nos pareciam tendem ao razoável deixam de ser explicitas. Aí o livro muda geograficamente, da cidade para o campo, e pensamos num idílio onde a vida em contato com a natureza cura todas as feridas. Quando parece que o livro trará paz, a porrada fica ainda maior. Antes centrada na figura de Laurie, a história adquire novos personagens – Lucy, a filha de Laurie, seu vizinho africano Petrus, Bev, a amiga que trabalha com cachorros. O que parecia uma busca individual – como encontrar uma harmonia? Em que lugar colocar os próprios desejos? – torna-se socialmente maior por serem Laurie e a filha brancos na Africa do Sul pós-apartheid. No meio de uma leitura vertiginosa são tocadas as relações de parentesco e interculturais, as diferenças entre homens e mulheres, entre sexo e estupro, entre coragem e covardia – até que ponto lutar, até que ponto influenciamos o mundo, somos vistos como quem realmente somos ou apenas símbolos de uma posição social? Atos que a princípio nos parecem criminosos e imperdoáveis se diluem e se confundem; o inimigo pode ser ao mesmo tempo aliado; a crueldade pode se revelar um gesto de amor; a bondade se torna um gesto anônimo e sem importância; o conhecimento se revela inútil. Os temas sexo e opressão se repetem, mas cada vez com cores e aspectos novos. Mesmo a solução final do livro pode ser, ao mesmo tempo, um gesto de profunda aceitação e desprendimento como de crueldade. Não é um livro – ou um mundo – de respostas fáceis.

Carmen Miranda, de Ruy Castro

Em termos de pesquisa, esta é a biografia mais impressionante que eu já li, e olha que sou apaixonada pelo gênero e li muita coisa boa. Ruy Castro se adianta a toda a qualquer curiosidade que o leitor possa ter e cobre todos os aspectos de tudo o que cerca Carmen: ficamos sabendo como era rua da primeiro endereço da família Miranda, o que a mãe de Carmen servia nos almoços, o que se ouvia nas rádios, o que era normal e permitido na época, a graduação formação daquele que seria do estilo Carmen – plataformas, turbante, barriga de fora, acessórios, cores e a alegria esfuziante – os namoros, as rotinas em shows e gravadoras. Da fase americana, ele nos informa dos gostos do público, descreve os locais onde Carmen cantava, opina sobre cada um dos seus filmes, conta fatos da vida de cada uma das muitas estrelas hollywoodianas que passaram pela vida dela, o impacto de Carmen na moda e as exigências que a vida nos EUA lhe impuseram. O resultado é uma qualidade de leitura que nos parece um romance, onde o leitor se vê transportado pra uma época nos seus detalhes mais deliciosos.

Por ser “alegre, bonita e comunicativa”, Caruso promoveu-a da oficina para o balcão, onde ela se tornou sua melhor funcionária, capaz de vender qualquer peça. Diante de uma cliente em dúvida sobre se um determinado chapéu lhe ficava bem, Carmen fazia uma demonstração: sacudia a cascata de cabelos, prendia-os e experimentava o chapéu em si mesma. Como tudo assentava em Carmen, a cliente se via como em um espelho, convencia-se de que ficaria linda e acabava levando o objeto. Certo dia, aconteceu de Carmen estar andando na rua, usando um chapéu de sua própria invenção, e ser abordada por uma mulher que lhe perguntou onde o tinha comprado. Ao saber que ela o havia criado, fez-lhe ali mesmo, na calçada, uma oferta por ele – que Carmen, achando graça, aceitou. (p.24)

Em entrevista pro Roda Viva, Ruy Castro diz que um dos requisitos fundamentais para fazer uma biografia é que o personagem de alguma forma o apaixone. E quanto mais detalhes ele nos revela sobre Carmen, mais apaixonado o leitor fica. Linda, generosa, divertida, inteligente, rápida, apaixonada, parecia ser impossível ficar indiferente ao charme dessa mulher. Dá a impressão de que ela seria a melhor no que quer que fizesse, nem que fosse virar fabricante de chapéus. Sua presença transformava qualquer lugar numa embaixada do Brasil, reunindo o talento em torno de si e transbordando calor. Como profissional, mereceu e trabalhou duro por cada palmo do que conquistou – excelente cantora, podia conhecer a música no próprio estúdio, pouco antes de entrar, e a gravação ficava perfeita. Nos filmes, era conhecida por ser a “garota de um único take” pelo mesmo motivo. Nunca faltava um compromisso, por pior que fosse a logística – seus adereços exigiam organização e espaço para serem transportados – ou seu estado de saúde.

Ali, as paredes do Broadhurst esqueceram-se de que já tinham ecoado os textos de Ibsen, Shaw e O´Neill, e trataram de se adaptar aos novos tempos. Carmen “cantava” com as mãos, os olhos, os quadris, os pés – “O que é que a baiana tem?”, “Touradas em Madrid” e “South American Way”, pela nova ordem – e todo um repertório de meneios, dengos e chamegos que dispensavam tradução. Ninguém entendia uma sílaba do que ela dizia, exceto o verso “Souse american way”, que arrancou as infalíveis gargalhadas. E nem era preciso. Carmen estava falando numa língua que a platéia de Nova York, habituada às grandes estreias, estava farta de entender: a do talento, talvez do gênio. A Broadway já operara aquela química muitas vezes – entre duas cortinas, transformar uma estreante numa deusa. Quase dez minutos depois, o número de Carmen e o primeiro ato de Streets of Paris terminaram e apoteose e consagração. Entre drinques, cigarros e cafés do intervalo, e já vazando para as ruas em volta do teatro, só um assunto interessava: Carmen Miranda. (p.210)

Ela sonhava em casar e ter filhos, mas como resistir aos apelos do mundo que a puxavam cada vez mais alto? Jamais foi esquecida pelos seus grandes amores Mario Cunha, Carlos Alberto da Rocha Faria e Aloysio de Oliveira, mas nenhum deles a assumiu. O dinheiro não parava de entrar, os filmes, shows e convites tornavam sua rotina impossível. Um dos motivos da morte prematura de Carmen foi o fato de jamais ter conhecido a decadência, que a teria dado tempo de parar. Quando sua carreira nos EUA estava começando a decair, a Europa a reacendeu, ávida por encontrar os ídolos dos filmes que viam durante a guerra. As férias e as visitas ao Brasil eram sempre adiadas, assim como a necessidade de cuidar da sua saúde.

Eram quase quinze anos de um processo longo e inexorável. Começara no dia em que uma cápsula para dormir exigira outra para acordar. Tempos depois, a cápsula para dormir exigira outras cápsulas para dormir; e a cápsula para acordar, outras cápsulas para acordar. Um drinque cancelara uma cápsula e exigira outra cápsula. Essa cápsula cancelara o drinque e exigira outros drinques. Em meio à ciranda, as cápsulas e os drinques haviam cancelado uma quantidade de neurônios e, apesar dos recentes esforços de seu médico no Rio, Carmen já não sabia onde ficava a entrada a ou saída do infernal labirinto em que sua vida se convertera. (p.541)

Como outros artistas da sua geração – Marilyn Monroe e Judy Garland, por exemplo – Carmen foi vítima da união de dois fatores: a massacrante indústria do cinema e o abuso de remédios, cujos efeitos se desconheciam na época. De mulher saudável, forte e bem humorada, aos quarenta ela foi convertida a uma pessoa doente, com alterações de humor, crises de paranoia e aspecto envelhecido. O livro é belíssimo até mesmo no desfecho: somos conduzidos até aquela última noite, cheia de planos e o insuspeito fim – exatamente como a morte costuma ser. E o leitor acorda para um dos maiores nomes que a música brasileira já teve, tão presente nas milhões de figuras caricatas e turbantes que até nos esquecemos o porquê.

Amada, de Toni Morrison

Cheguei a esse livro por recomendação do Paraísos de Papel. Toni Morrison é uma escritora pouco conhecida aqui, mas ganhadora do Nobel de Literatura em 1993 e o livro Amada ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção de melhor ficção e foi considerada “a melhor obra da ficção americana dos últimos 25 anos” pelo The New York Times. Só isso já seria motivos suficiente para lê-la, e quero acrescentar outro: é mais uma dessas escritoras incríveis que mostram a força e a originalidade de uma narrativa feminina.

Antes uma introdução meio desagradável: normalmente eu não gosto de nenhum tipo de spoiler e não leio as orelhas e nem as contracapas do livros. Críticas, nem pensar. Mas eu me vi consultando a orelha logo depois do primeiro capítulo, porque não estava entendendo nada. Nunca tive dislexia, mas os nomes da mãe e filha serem curtos e com E (Sethe e Denver) me confundiram o tempo todo. É um grande livro e essa dificuldade passageira faz parte da construção dele e merece ser superada. A história gira em torno de Sethe, uma ex-escrava, que vive com sua filha numa casal mal assombrada. Os personagens que surgem na sua história – Denver, Baby Suggs, Paul D, Halle – têm em comum um passado ligado à escravidão. A pós-escravidão, a solidão e o desamparo, as tragédias pessoais – para eles a normalidade é uma necessidade nem sempre alcançada, ou que repousa numa base muito frágil. Apesar da tentativa generalizada de enterrar o passado, ele ressurge, cobra as consequências e mostra, para o leitor, o sentido mais humano do que é aparentemente inexplicável. É um livro cresce durante a leitura. Apesar da história ser sobre Sethe, sua família e o aparecimento da misteriosa personagem Amada, a grande protagonista é a Escravidão:

Paul D não responde porque ela não esperava, nem queria que ela respondesse, mas ele sabia do que ela estava falando. Ouvir aqueles pombos em Alfred, Georgia, e não ter nem o direito nem a permissão de fruir aquilo porque naquele lugar a neblina, os pombos, a luz do sol, a terra cor de cobre, a lua – tudo pertencia aos homens que tinham armas. Homens pequenos alguns, homens grandes também, todos ele era capaz de quebrar em dois como um graveto se quisesse. Homens que ele sabia que tinham a virilidade era nas armas e nem tinham vergonha de admitir que sem armas até a raposa ria deles. E esses “homens” que faziam até as raposas darem risada podiam, se você deixasse, impedir você de ouvir os pombos ou gostar do luar. Então você se protegia e amava pequeno. Escolhia as menores estrelas do céu para serem suas; deitava com a cabeça virada para ver a amada por cima da beira do fosso antes de dormir. Roubava tímidos olhares dela entre as árvores durante o acorrentamento. Hastes de grama, salamandras, aranhas, pica-paus, besouros, um reino de formigas. Qualquer coisa maior não servia. Uma mulher, um filho, um irmão – amor grande como esses arrebentava com você em Alfred, Georgia. Ele sabia exatamente do que ela estava falando: chegar a um lugar onde você podia amar qualquer coisa que quisesse – sem precisar de permissão para desejar – , bom, ora, isso era liberdade. (p. 220-221)

Esse é o ponto onde a voz feminina faz toda diferença. Muito já se escreveu sobre racismo e escravidão, sua opressão e violência, mas nunca li relatos que trazem essa escravidão tão próxima à carne. A escravidão determinando uma maneira de ser, que pinta o mundo com perspectivas pequenas e cruéis, um encolhimento pessoal que visa a diminuição de um sofrimento que sempre chega. As marcas de chicotadas nas costas, que as tornam insensíveis e desenhadas; a necessidade de não se apegar a ninguém, nem aos filhos, porque eles podem lhe ser tirados; ser visto como um objeto, mesmo quando se pertence a donos benevolentes – e ser brutalizado pelos cruéis. São descrições pungentes de dores tão grandes, dores que não pedem licença e não se preocupam com a medida da justiça. A própria Sethe pergunta: Por que não havia nada que seu cérebro se recuasse? Nenhuma miséria, nenhuma imagem odiosa detestável demais de se aceitar? Uma vez só não poderia dizer não, obrigada? Detestei e não quero mais, não? (p.103). É um livro forte, lindo e triste.

Os advogados contra a ditadura

Eu já ouvi que todos os que foram presos e torturados durante a ditadura “fizeram por merecer”. Sempre me pergunto que diabo de colégios são esses que não falam do golpe de 64 aos alunos, ou que ensinam o assunto de maneira tão ruim que há quem esteja convencido de que nossos presos políticos eram assassinos, terroristas e/ou (ironia das ironias) torturadores – e não apenas (em sua maioria) jovens que ousavam falar ou pensar algo diferente do que o Regime prescrevia. É nesse sentido que vejo muito valor neste documentário que conta a história de advogados perseguidos durante a Ditadura. Ele demonstram que o patrulhamento e a violência eram tais que apenas advogar  e auxiliar as famílias dos que tiveram parentes presos era motivo para também ser perseguido e torturado.

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Dois grandes problemas das minorias

O livro Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade é daquelas referências que todo mundo deveria ter, especialmente aqueles que se identificam e lutam por qualquer minoria. Não apenas por colocar em palavras o que se sente na pele – por que se uma mulher ou um negro ou um gay comete um erro, ele repercute de maneira tão grande? – mas também por trazer insights que podem surpreender até os ativistas. Pelo menos foi isso o que eu senti quando o livro afirma que não é a diferença que define o preconceito, e sim que a eleição da diferença dá vazão a um desejo prévio de excluir. O grupo mais forte cria para si uma ideologia que atribui a si próprio todo carisma e vantagens sociais; aos diferentes são creditadas todas as desvantagens, que mais tarde adquirem status de diferenças étnicas, raciais, sexuais, etc.

Esse argumento, aparentemente tão radical e difícil de provar, surge quando Elias & Scotson tem a oportunidade de estudar o surgimento de dois bairros de trabalhadores num povoado industrial da Inglaterra, denominada (nome fictício) de Winston Parva. De acordo com dados relativos à renda, educação ou ocupação de seus habitantes, aquela seria considerada uma região homogênea. Mas os seus habitantes se viam de forma completamente diferente. Havia um grupo que se via como estabelecido, e encarnava os valores da boa sociedade, enquanto os moradores da outra região eram outsiders e eram estigmatizados com atribuição de delinquência, desorganização, etc. A base para a crença de serem os estabelecidos era sua antiguidade. Como ocuparam aquela região antes, criaram laços sociais que justificavam sua própria visão de superioridade. Os outros, mais recentes, ainda não haviam tido tempo de formar uma rede, e ao chegar já eram rotulados. Na falta de uma rede de apoio mútuo e sem a possibilidade de se defender, o grupo excluído passou a acreditar nessas atribuições negativas. Ou seja, muito mais do que nas diferenças raciais, sexuais ou culturais, o preconceito nos fala de relações de poder. As diferenças são justificativas e não causas. Muitas vezes – alerta o livro – as condições sociais de origem podem ter se modificado e os estereótipos persistem.

O grupo mais forte cria para si uma ampla rede de naturalização dessas relações. No caso das comunidades do livro, a fofoca era uma das principais armas. Imagine o que é possível fazer em grupos maiores e antigos. Não é preciso ir muito longe para lembrar que até a ciência já “explicou” a inferioridade de grupos. O objetivo dessas estratégias é a manutenção da diferença, fixar a distância. O grupo mais forte se protege: qualquer erro cometido por um dos seus membros não repercute ou encontra justificativas. Já o mesmo erro cometido por alguém do grupo outsider respinga em todo grupo e reforça o preconceito. No grupo estabelecido, um jovem que comete um delito é apenas um sujeito isolado, talvez com problemas, que errou. No grupo outsider, ele é o representante de uma coletividade – agiu conforme sua natureza, são todos assim, é o que eles fazem sempre. Isso soa familiar? A regra também vale ao contrário: um comportamento louvável de um indivíduo do grupo mais forte repercute sobre todos e confirma sua superioridade, enquanto uma atitude louvável no grupo mais fraco é uma exceção, um apesar de.

Na minha opinião, esses dois insights – o grupo excluído acreditar nas atribuições negativas do grupo mais forte e a maneira como qualquer atitude negativa de um de seus membros repercute sobre todos – são as maiores dificuldades dos movimentos pelas minorias. A exclusão é criada pelo grupo mais forte e o favorece amplamente; logo, cabe aos grupos excluídos buscarem a contra-estigmatização. Há a dificuldade de se reconhecer como excluído, porque o efeito imediato disso é abraçar desvantagens. O discurso do grupo mais forte é dominante. Esse discurso não é apenas algo que vem de fora – muitas vezes é a maneira como fomos criados, nossos critérios de beleza, nosso julgamento moral, a própria forma como nos relacionamos com o mundo. É uma luta que pode deixar o sujeito temporariamente sem lugar – ele abre mão do valor dominante em troca de valores que talvez ainda não existam. E, como minoria, o sujeito se vê sempre jogado na posição de representante. Se milita, mais ainda. É difícil ser julgado da forma mais rigorosa, ter que ter a conduta mais ilibada, não poder cometer um erro sem que isso confirme todos os julgamentos. É quase uma exigência de santidade: fale, mas não eleve a voz; se indigne, mas dentro da lei; lute, mas nunca se descontrole.