Porquê história, por Hobsbawm

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa existência pessoal às gerações passadas – é dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca no fim do milênio. Por esse motivo, porém, eles têm que ser mais do que simples cronistas, memorialistas e compliadores.
A era dos extremos, p. 13

Quando li esse trecho, lembrei imediatamente da discussão sobre porquê saber datas históricas. Se a própria história mudou, se perdeu muito de suas pretensões, por que ainda é importante conhecê-la? Já a idéia do presente contínuo da nossa época, é entendida de maneira menos antipática (e não como a eterna crítica que “os jovens de hoje perderam os valores” que toda geração faz as que lhe são posteriores) se levarmos em conta as discussões de Bauman – a falta de enraizamento e a eterna necessidade de se reconstruir, possibilitadas pela vida on line, dão ao sujeito a sensação de liberdade total sobre quem ele é. E, por consequencia, a ilusão de autonomia sobre o passado.

Fast psicologia

Cena 1 : Coisas que odeio em mim.

Esse programa se propõe a resolver dez problemas em apenas um dia. A californiana Jane se queixa de que ela não consegue esquecer o namorado com quem viveu mais de cinco anos e de quem estava separada há dois. Eles chamam sua melhor amiga para lhe dar apoio e um psicólogo. Diante das câmeras, ela fala da saudades que sente dele e chora. O psicólogo pede para ela escrever no papel todos os seus medos e mágoas com relação a esse assunto. Depois, discursa sobre ela estar começando um novo período na sua vida, simbolizado pela queima do papel onde ela havia descrito seus problemas.

Cena 2: Super Nanny.

A especialista Super Nanny ajuda pais que não conseguem educar seus filhos. As cenas mostram Mary oprimida por seus dois filhos. Ela carrega suas mochilas, apanha deles quando os contraria e se sente extremamente culpada quando coloca qualquer limite. Super Nanny lhe dá uma mochila cheia e as duas saem para caminhar. Chegam ao topo de uma montanha. Quando Mary abre sua mochila, ela está cheia de pedras. Aquelas pedras, Super Nanny lhe diz, representam toda culpa que ela tem carregado inutilmente. Ela é convidada a nomear cada pedra com uma de suas culpas e joga-las fora.

Cena 3: Guro do estilo.

A participante abre seu guarda-roupa a um especialista, que analisam seu tipo físico e estilo para lhe propor um novo visual. Depois de conhecer Sue, o especialista conclui que ela têm um grave problema de auto-estima. Então marcam para ela uma consulta com um psicólogo que atende várias estrelas. Na consulta, ele faz com que ela desfile com uma roupa feita de saco de lixo – “o que pode ser pior do que se vestir de saco de lixo?”. Depois a mostra a vários espelhos de imagem deformada, que simbolizam a maneira como os outros a vêem. Por fim, diante do espelho normal, ela conclui que o melhor é ser ela mesma.

A psicologia, como ciência, nasceu sob influência do pensamento filosófico europeu. Para muitos o marco está em Descartes, que ao dividir a res cogitans da res extensa, ou seja, a parte psíquica da física, iniciou uma forma de ver o indivíduo e estudá-lo. A psicologia estaria separada da biologia e outras ciências materiais por se debruçar sobre aquilo que se manifesta no físico e possui suas próprias origens e leis – para tanto, merece um método específico de estudo. Wundt em 1873 ele publicou o livro Fundamentos da Psicologia Física e é considerado o pai da psicologia. Ele criou em 1879 o primeiro laboratório de psicologia. Como é possível perceber, a psicologia experimental ainda dialogava muito com experimentos fisiológicos. Idéias hoje associadas à psicologia como inconsciente, repressão e libido surgiram graças a Freud. Em 1895, no Estudos Sobre a Histeria, Freud procura minimizar o discurso físico em torno da histeria para privilegiar a dimensão psicológica.

O tratamento psicológico, quando pensado em função do inconsciente e traumas infantis, é bastante dispendioso. A preocupação com o tempo e a cura não foi uma prioridade no nascimento da disciplina. A psiquiatria nunca teve um histórico de curas, apenas de controle. A psicanálise também não se propõe a curar. Na tipologia da psicanálise, o sujeito normal é um neurótico. O neurótico é aquele que entende a adere às regras sociais, mesmo que isso lhe cause sofrimento. A repressão da libido é entendida como condição básica da civilização. A única coisa que a psicanálise pode propor aos seus pacientes é o ajustamente social e alívio de alguns sintomas. Com Jung, o paciente terapeutizado se propõe a fazer um mergulho tão profundo no seu inconsciente que atinge o inconsciente da própria humanidade. Reich, outro discipulo eminente de Freud, propunha uma verdadeira revolução sexual: a neurose invidividual, fruto de uma repressão sexual, não poderia encontrar sua plena manifestação numa sociedade puritana e repressora. Por isso, a libertação da indivíduo necessariamente passaria pela libertação da própria sociedade.

Nos Estados Unidos surgiu uma outra maneira de entender a psicologia, muito mais prática e direta. Lá surgiu a psicologia comportamental, também chamada de behaviorismo. O behaviorismo metodológico de Watson (1878-1958) se propunha a abandonar os processos cognitivos e se limitar ao comportamento observável. Skinner (1904-1990) levou o método comportamental a outro patamar, ao propor que através do comportamento observável é possível conhecer e modificar a dimensão psíquica. Para tanto era preciso fazer uma análise comportamental, ter objetivos claros, levar em conta possível condicionamentos e propor modificações ambientais. Isso tornou possível a criação de terapias mais rápidas. Embora criticado pelo seu mecanicismo e por ignorar a questão da liberdade pessoal, o behaviorismo se mostrou muito eficaz em tratamentos como os de fobias, distúrbios de sexualidade, necessidades educativas especiais, entre outros.

O que ninguém poderia prever é até onde a idéia da rapidez e simplificação poderia nos levar. O behaviorismo se livrou do inconsciente e essa nova modalidade de terapia se livrou do condicionamento. Restou apenas o comportamento. Em programas de TV, palestras motivacionais e qualquer evento que dure algumas horas, é possível alguém usar algum objeto como metáfora – papel para simbolizar as dificuldades, pedras transformadas em culpa, espelho e roupa em auto-imagem – e propor com isso uma mudança de vida. Pela popularidade do método, não duvido que isso possa causar uma sensação imediata de alívio. Acho que se as questões de uma pessoa fossem simples como carregar pedras, ela mesma já teria dado conta de resolver o problema. Essa simplificação extremada não possui nenhuma base consistente; ela pode ser resultado da solicitação crescente que a psicologia sofre da sociedade. E certamente contribuirá para a desvalorização da psicologia.

Uma história íntima da humanidade

O livro me foi indicado por uma historiadora, a Nikelen. Além do mais, o título do livro usa a palavra história. Então nada mais natural do que procurá-lo como um livro de história. Mas na biblioteca ele estava classificado como Antropologia Social (e existe uma antropologia que não seja social?). Pior ainda foi quando procurei um link para cita-lo neste post e ele aparece como psicologia. A confusão, na verdade, é compreensível. O primeiro capítulo, sobre liberdade, foi quase como ler auto-ajuda para mim. Auto-ajuda num sentido bom, claro.

Capítulo 1: Como os seres humanos continuam a perder as esperanças, e como novos encontros, e óculos novos, as renovam.

O Uma história íntima da humanidade se confunde com antropologia, com psicologia e com uma certa auto-ajuda porque ele aborda temas próximos e de uma maneira muito pessoal. A cada capítulo, ele conta a história de alguém. São histórias verdadeiras, de mulheres (na introdução o autor justifica essa escolha) que refletem sobre as escolhas que fazem e que rumo deram às suas vidas. Dentro de cada uma dessas histórias o autor destaca uma questão e mostra o quanto ela diz respeito a todos nós. Ele mostra que as questões daquelas mulheres não são inéditas, que as maneiras de entender certos fenômenos mudou de enfoque e de importância ao longo do tempo. Ou seja, o autor fala do próximo e do distante, do particular e do comum.
O medo tem sido quase sempre mais poderoso do que o desejo de liberdade. Contudo, o imperdor Maurício, de Bizâncio (582-602), descobriu uma excessão. Ficou perplexo com três eslavos que havia capturado e que não portavam armas. Levavem somente guitarras e cítaras e vagabundeavam cantando as alegrias da liberdade, de estar em campos abertos gozando as brisas frescas. eles lhe disseram: “É normal que pessoas estranhas à guerra se devotem à música com fervor”. Suas canções versavam sobre o livre-arbítrio, e eles eram conhecidos como pessoas de vontade libre. Em 1700 ainda havia gente assim quando Pedro o Grande decretou-lhe a condenação: todos deviam fazer parte de um Estado legal, com deveres preestabelecidos. Mas 150 anos depois, Tara Sevlenko, um servo ucraniano alforriado, cantava poemas na mesma linha, lamentando que ” a liberdade esteja adormecida por ordem do czar bêbado”, e insistindo em que a esperança podia ser encontrada na natureza:
Ouça o que diz o mar
Interrogue as montanhas negras.
Havia escravidão, antes de tudo, porque os que queriam ficar sozinhos não se afastavam do convívio dos que apreciavam a violência. Os violentos têm sido vitoriosos ao longo da história porque administravam o medo com que cada um de nós nasce.
O objetivo do livro, ao fazer recortes tão originais, é ambicioso: mostrar que as coisas não são como devem ser, e sim formadas por muitas escolhas. Escolhas forjadas pelos nossos antepassados, que nos deram uma maneira de olhar a questão. Mas também escolhas da nossa própria geração, que lança ela mesma uma contribuição à maneira de olhar os fenômenos. O autor procura retirar do leitor o sentimento de determinação; conhecer a nossa história, ao invés de nos mostrar um curso de progresso inevitável, aumenta a capacidade crítica. “Quero demonstrar como, hoje em dia, é possível aos indivíduos formarem opinião nova de sua própria crônica pessoal e de todo o registro da crueldade humana, seus equívocos e alegrias. Para se ter visão nova do futuro, sempre foi necessário, antes, adquirir uma visão nova do passado” (p.7)

História sem régua

Minha sogra era professora primária e era dia 26 de abril quando estavamos almoçando lá. Ela perguntou à neta, de 14 anos, que data importante era aquela. 26 de abril? Eu sabia que o descobrimento do Brasil era 22 de abril, e pra existir um 26 de abril, concluí que aquela era a data da celebração da primeira missa. A sobrinha do Luiz não fez todos esses cálculos, e começou a chutar datas aleatórias – “Dia da independência do Brasil? Dia da descolonização do Brasil?” Descolonização? Minha sogra ficava doida. Contou que era o dia da primeira missa e perguntou quem a havia rezado. Outra negativa. Todos os presentes – eu, o Luiz, minha cunhada e meu sogro – sabiam as respostas. Depois o Luiz me explicou que a mãe dele sempre fica louca da vida em perceber que a neta é muito ruim em datas.

Eu não soube o que pensar. Não sei o quão importante é lembrar das datas, se faz mesmo diferença saber que foi em 1888 que foi assinada a Lei Áurea e outros tantos números que tenho guardados na minha cabeça. Acho que todos já recebemos um e-mail dizendo que há anos atrás as questões eram mais rigorosas, que o aluno de hoje mal precisa pensar para responder uma prova. Desse ponto de vista, o fato de não lembrar das datas seria o indício de algo maior, de que os alunos de hoje aprendem menos do que o básico. A impressão que eu tenho é de que certas discussões acadêmicas acabam chegando de maneira estranha – talvez o termo certo seja empobrecida – às salas de aula. Hoje a História, na academia, tem procurado abandonar o modelo cronológico que a dominou durante séculos, o que mesmo que me foi ensinado: o da história progressiva, um grande modelo explicativo da humanidade. Aquela história que estudava as Eras, que se preocupava em dizer se foi a Revolução Francesa ou a Primeira Guerra Mundial que nos fez deixar de ser Modernos para nos tornarmos Contemporâneos. Para esse modelo, era essencial conhecer as datas.

Filhos dessa auto-crítica histórica estão abordagens muito interessantes, que trazem uma maneira nova de olhar o que já parecia explicado, ou que lançam questões inovadoras sobre o passado. Ao invés da história dos grandes estadistas, hoje brotam livros que falam das pessoas comuns, de como viviam e pensavam aqueles cujos nomes ninguém nunca se interessou em saber. Nem todo recorte precisa ser feito por países, reinados ou guerras; podemos nos perguntar da concepção de morte, amor, higiene, infância e tudo o que faz/fez parte das nossas vidas. É uma história que nos torna mais próximos dos que nem conhecemos, que nos mostra que mentalidades ainda resistem, o que mudou, o que é radicalmente diferente da maneira como gostamos de nos entender. Meu amor pela história se renova quando leio livros assim. Quando falamos em mudanças de mentalidade, a data se torna uma questão menor. Podemos acompanhar o movimento e dizer quando ele parece ter se estabelecido, mas não é possível afirmar quando, onde e nem porquê.

Não me arrisco a dizer se essa nova geração não sabe a data da Proclamação da República (15 de novembro) mas sabe o que ela significa, ou se nem é importante saber o que é Proclamação. Sei que aos olhos mais cronológicos, é como se a história estivesse se desfazendo.

Alimentação perfeita

Cresci em meio a livros de alimentação natural e homeopatia, e minha mãe sempre se esforçou para seguir o que esses livros pregavam. Mas era muito difícil. Se por um lado as marmitas de comida macrobiótica que ela trazia determinaram o meu paladar para sempre, por outro éramos crianças e todas as crianças estão atentas às novidades das bolachas, dos chocolates, dos salgadinhos. Ela tentava achar um meio termo, se recusando a comprar Tang e dando preferência ao chocolate no lugar da bala. A intenção era ser naturalista, mas pra isso ela precisava de um tempo, dinheiro e pesquisa impossíveis para uma mulher que passava o dia inteiro fora.

Se por um lado minha mãe não conseguiu a alimentação perfeita, eu tive a oportunidade de conhecer quem conseguiu essa proeza. Era uma família formada por um casal de uma filha. Não conheci o pai, que passava quase todo o tempo na chacarazinha que eles tinham. Eu desconfiei de qualquer coisa quando a filha, que era uma pessoa muito sociável, se recusou a ir a um comes & bebes de confraternização. O convívio com a família e muitos sucos de bambu depois, me fizeram descobrir que ela e a mãe conseguiam realmente se alimentar de modo “perfeito”, do modo que todos os livros de comida natural pregam. Elas eram totalmente vegetarianas e cortaram o açúcar de suas vidas. As coisas que elas comiam vinham de diferentes origens: da chácara, da hortinha no apartamento, de feiras de orgânicos e, por último, da sessão de hortifruti do supermercado perto de casa. E era apenas isso e produtos de limpeza que elas compravam lá. Tudo o que elas comiam era feito em casa e integral; graças ao talento culinário da mãe, tudo era muito gostoso.

Ao mesmo tempo, foram elas que me fizeram perceber porque minha mãe nunca conseguiu ter a alimentação natural perfeita, do mesmo modo que eu não consigo. Se nós lemos Sugar Blues e acreditamos no poder dos alimentos, o que nos falta? A família de alimentação perfeita a tinha tão perfeita que elas nunca comiam fora de casa. Seus critérios alimentares eram rigorosíssimos. A filha se viu em sérios problemas quando começou a namorar e foi conhecer a família dele. Para agradá-la, sabendo que ela não bebe refrigerante ou sucos de caixa, decidiram lhe oferecer um chá. Compraram matte leão. Mas pra quem é realmente naturalista algo que vem adoçado, cafeinado e numa garrafa pet não pode nem ser chamado de chá. Ela não aguentou beber e foi pega no flagra quando despejava o conteúdo do copo na pia da cozinha…

Por outro lado, conheço quem se despreocupe completamente com essas questões. Eu mesma fiz isso, quando casei. Adotamos aqui em casa o mesmo esquema que o Luiz estava acostumado na casa dos pais dele: geladeira sempre cheia de refrigerante, comida congelada, bolachas recheadas, muitas idas à praças de alimentação. Mais tarde, tivemos que lutar para emagrecer e eu me revelei uma grande viciada em coca-cola. A mesma coca-cola que um amigo do Luiz (cada dia mais gordo e com problemas de colesterol) toma de café-da-manhã, porque “espremer uma laranja pra fazer suco dá muito trabalho e perde muito tempo”. Na falta de tempo e de habilidade para fazer uma boa comida natural, pagamos caro pra comer regularmente num restaurante vegetariano. Dá pra dizer que temos uma alimentação mais saudável do que a média. Vejo os resultados disso quando minha cunhada, que é mais nova do que o Luiz, teve que retirar pedras da vesícula e parece muito mais velha.

Por isso que eu gostei muito quando a Sonia Hirsch, na sua entrevista, falou da alimentação possível, a alimentação que conjuga o que faz bem com o que todo mundo come. Porque a comida é muito mais do que um simples combustível que nos anima. Ela está nas confraternizações entre amigos, no lanche da tarde com as visitas, nos almoços para conhecer os pais, no cafezinho com os colegas de trabalho, nos jantares de negócios. O que comemos fala da época que nós vivemos, e com quem comemos fala sobre as nossas relações . Não acho que devemos nos submeter apenas à nossa época de maneira acrítica, em matéria de comida ou em qualquer outra. Ao mesmo tempo, não conseguimos estar de todo fora dela.

Uma opinião e uma história sobre arte

Os cânones artísticos estão continuamente mudando, mas na nossa época quase todas as formas de arte entraram na regra de não ter regra. É possível misturar várias referências, sem a necessidade de ser fiel a um estilo, local ou época. Não existe mais a preocupação de representar a realidade objetiva, que está cada vez mais fácil de ser capturada por celulares, filmes, videos caseiros. O artista tem liberdade total, de usar todas as formas, meios e materiais para dizer o que quer dizer. Isso, que à primeira vista parece tornar as coisas mais fáceis, levou a arte a outros desafios. Sem ter em nada pra se apoiar, cabe ao artista a decisão de cada etapa – terá nome, terá cor, terá rosto? O resultado imediato dessa aparente democracia é muita coisa que só precisa de cara de pau para se declarar arte. Coisas que não têm significado e que reivindicam um significado posterior; ou coisas que possuem apenas significado, cuja apresentação não diz absolutamente nada ao outro. Por isso muitos simplesmente desistiram de desfrutar da arte, de ir a exposições, e dizem que não entendem e não gostam. Ter feito parte dessa tentativa – a que muitos chamados de ser artista – me fez compreender que muita coisa é simplesmente ruim mesmo. Que chamar o público de burro não deixa de ser uma forma de se proteger. Pouca coisa do que está sendo produzida hoje conseguirá romper a barreira da bobagem e dirá alguma coisa ao futuro.

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O atelier funcionava de terça a sexta, em horário comercial. Por causa disso, a frequencia das pessoas era limitada àqueles que podiam pagar sem trabalhar o dia inteiro. Havia aposentados, donas de casa, pessoas que vínculos artísticos ou simplesmente recém-surtados sem saber o que fazer da vida (meu caso). Dentre essas pessoas com vários perfis, a que tinha mais dinheiro era uma senhora a quem chamarei de B.Michelin. O marido dela era muito rico, vivia viajando e a filha dele já era adulta. Sem maiores obrigações na vida, B. Michelin decidiu colocar a sua sensibilidade artística em objetos coloridos, femininos e de cores vibrantes, tais como ela mesma.
Ela não era muito boa na escultura propriamente dita, na realidade. Esculpir é um trabalho pesado. Ela não tinha noção de desenho ou de anatomia, e pra piorar tinha graves problemas de coluna. Havia, no atelier, um funcionário treinado pelo nosso professor durante anos. Esse funcionário conhecia todos os segredos da escultura e, por causa disso, fazia toda parte pesada das encomendas que nosso professor recebia. Foi o professor mesmo que nos disse, falando sobre a história da escultura, que os grandes escultores do passado não faziam tudo sozinhos. Que seria humanamente impossível produzir aqueles mármores maravilhosos da Antiguidade Clássica se não tivessem muitos escravos à disposição. Baseada nessas informações, B. Michelin se despreocupou com a parte pesada do trabalho. Ela idealizava peças e pagava o funcionário para fazer.
Um dia ela nos contou que havia contratado uma Crítica para avaliar o trabalho dela. Ela ia pagar quase mil reais (e isso foi há uns dez anos). Achamos que ela estava fazendo papel de trouxa. A Crítica foi no apartamento (no Batel, um apartamento por andar, 400m² de área privativa) de B.Michelin, e “gritava a cada peça”, achando tudo lindo e maravilhoso. Ela classificou o trabalho como Art Noveau Pop, informação essa que foi adotada para todo sempre. Dias depois, apareceu uma coluna de página inteira no Caderno de Cultura da Gazeta do Povo, descrevendo B. Michelin com a mais nova revelação artística da cidade. Quando B. Michelin participou de duas exposições de designers como destaque, uma com o prazo de inscrição já vencido, começamos a desconfiar que os trouxas éramos nós.
Na versão original desse texto, a história terminava contando que com a troca de governo essa Crítica acabou caindo, e o investimento de B. Michelin não alcançou todas as suas possibilidades. Mas aí pesquisei o site da artista, depois de tantos anos, e vi que ela tem participado de exposições em São Paulo, Londres e Nova York. Caro leitor, a trouxa sempre fui eu.

Joana D´arc de Luc Besson

Comecei a gostar de filmes de época quando vi Ligações Perigosas. O filme me impressionou tanto que revi incontáveis vezes de li o livro umas duas ou três vezes. Minha impressão foi tão boa que esperava encontrar em outros filmes de pessoas com perucas brancas e vestidões o mesmo estranhamento dos diferentes costumes, em meio a uma boa trama. Não preciso dizer que quase tudo que vi depois foi uma decepção. E a cada ano que passa, a decepção tem sido maior: detesto ver os valores e costumes próprios da nossa época transpostos para outra. Muda o cenário, muda o figurino, mas os personagens agem e pensam como se estivessem na era da internet. Tem gente que não liga, acha que é liberdade poética, etc. Eu não gosto, considero apenas um filme ruim.

Nunca esqueci da dor no bolso que senti por ter visto Joana D´arc de Luc Besson no cinema. É um filme que não merece nem Sessão da Tarde. Em uma só cena, logo no início do filme, já pude perceber que seriam longos (e cheios de indignação) os minutos sentada naquela poltrona. O filme começa com a pequena Joana vendo a família ser dizimada e vai viver com parentes. Na cena em questão, o casal a coloca sozinha no quarto e conversa discretamente sobre o evento – só faltou usarem a palavra “traumático” – que ela viveu. Medievais que conviviam com a fome, a morte e a violência de maneira muito mais próxima, com baixa perspectiva de vida, que destrinchavam animais à mesa, achando brutal uma menina ver a morte de perto? (Ok, não era qualquer coisa, mas não tinha a dimensão que teria hoje, numa época em que a maioria das pessoas nunca vestiu um cadáver). Medievais achando que uma criança deve ser preservada, como se naquela época Freud já tivesse dito que nossa personalidade é formada na primeira infância, que tudo o que acontece naquela época pude gerar consequencias no futuro a que chamamos de traumas? Medievais oferecendo o privilégio de um quarto a… alias, como é que eles tinham quarto pra oferecer?

Ainda sobre Joana D´arc, é difícil encontrar alguém hoje em dia que não veja nessa história de ouvir vozes um sintoma puro e simples de esquizofrenia. E dá pra perceber que Luc Besson pensa exatamente assim. Em todos os momentos do filme, vemos Joana (vivida pela péssima Milla Jovovich) com os olhos esbugalhados, enquanto os outros a olham com suspeita, com cara de “nossa, que mulher louca”. O Dustin Hofman aparece num papel de consciência e pergunta a ela coisas que uma pessoa racional perguntaria. O filme dá a entender que o único motivo dela ter recebido apoio foi conveniencia, manobra política. Se todos a olhavam como louca, quem acreditava nela e a considerava inspiradora? No filme não aparece um. Quem vê o filme não se dá conta que a Igreja Católica estava no seu ápice enquanto influência cultural, que quem não era católico estava desgraçado no mundo, que as pessoas acreditavam piamente em milagres. Homens medievais não eram racionais, não no sentido que entendemos hoje. E sem entender isso, toda história de Joana D´arc não faz sentido. Ou seja, o filme inteiro é uma baboseira sem sentido.