Mão naquilo

Eu geralmente me abstenho de discutir um assunto quando ele já é tratado por muita gente e com muita propriedade. É o caso da última polêmica, do caso Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para mim, a foto já era agressiva por si só. Comentários de internet têm a capacidade de nos deprimir em qualquer assunto, e nesse caso não foi diferente. Era brincadeira, ela gostou, quem mandou ir de vestido curto (argumento do próprio Gerald Thomas), o Pânico merecia, Gerald foi um gênio e agiu “fora da caixa”, etc. Eu sou mulher e vi aquela foto como uma mulher, pensei no que seria se um homem que nunca vi na vida, que não desejo, colocasse a mão em mim daquela forma na frente de uma platéia que não me defendesse. Não consigo deixar de achar que ela se sentiu extremamente humilhada. É uma humilhação que talvez apenas outra mulher possa entender.

Como explicar esse pudor a um homem? Eu poderia dizer “imagine se uma velha nojenta…” ou “imagine se um homem…” e não seria a mesma coisa. A relação que um homem tem com o seu sexo, com o seu pênis, é totalmente diferente. Anatômica e culturalmente falando, o pênis sempre foi algo exposto. Ele é mostrado orgulhosamente, ele é medido, ele recebe apelidos, ele é simbolizado em gestos obscenos, ele se confunde com seu próprio dono. Enquanto até a palavra pênis é dita com naturalidade, hesito até em escolher um termo para falar da mulher: xoxota, buceta, vagina? Cada termo tem uma carga, soa de maneira estranha, tende a algo libidinoso. A mulher aprende a se esconder, a não tocar e nem pensar no assunto, a nem saber como ela é embaixo, a corar com qualquer referência a tamanho ou formato. Penso em quantas mulheres têm câncer de colo de útero, uma doença que leva muito tempo para se desenvolver, por causa do tabu de fazer um exame simples como o papanicolau. O que entra, como entra, quando entra – o valor de uma mulher sempre foi medido (hoje menos, esperamos que no futuro menos ainda) pela quantidade de homens que podem ter acesso a sua vagina. E sabemos que é um valor negativo: quanto menos acesso, mais valorosa a mulher é. O maior ícone dessa idéia é a Virgem Maria.

Se ambas mostram mulheres nuas, porque dizemos que a Playboy tem um “nível melhor” do que a Sexy? A revista Sexy é mais escancarada, mais pornográfica, ela faz o que chamamos de “closes ginecológicos”. Com closes vaginais, não é mais possível dizer que um ensaio nu é artístico, porque a vagina é a diferença entre o artístico e o pornográfico, o sugerido e o escancarado. Ou seja, mostrar uma vagina é tão desejado quanto proibido, é de uma sexualidade indisfarçável e por isso mesmo “de baixo nível”. A nudez feminina se faz ainda mais nua quando uma mulher permite o acesso à sua vagina, porque a vagina é a última fronteira da sua sexualidade. Do lado oposto ao da Virgem Maria, que de tão santa é intocada, está a puta, aquela que não tem mais qualquer intimidade, qualquer moralidade, aquela que tem uma vagina pública.

A vagina é o canto mais reservado, ela é de uma intimidade que não há correlação em um homem, porque o homem é público. Pensemos nas dicotomias apontadas por Bourdieu em A dominação masculina: o homem é público, exterior, visível, agressivo; a mulher pertence à esfera do íntimo, privado, invisível, dócil. Quando saem da esfera do privado, a mulher e a sua vagina deixam de pertencer ao papel que lhes é reservado, o que tampouco faz com que sejam reconhecidas como masculinas. Elas se tornam putas, aquelas figuras desprezadas por homens e mulheres. Uma mulher que tem uma vagina que pode ser manipulada em público, sem que ninguém a defenda, é uma mulher sem o menor valor, é uma mulher sem direito à intimidade.

Muitos consideram o ato de Gerald Thomas justo quando pensamos nos abusos que o Programa Pânico têm cometido ao longo dos anos. Pode ser que eles realmente mereçam o troco, mas é uma pena que esse troco seja dado justamente no elo mais fraco do programa: numa Panicat. As Panicats que ganham pouco, que têm fama de prostitutas, que são escolhidas unicamente pela estética. São mulheres que precisam ficar rebolando de biquíni sem abrir a boca, que podem ser humilhadas dentro do próprio programa, que são pressionadas a esculpir o corpo e depois são facilmente demitidas porque não têm carisma ou estão masculinas demais. O mesmo programa que comprou imediatamente uma briga quando Netinho de Paula deu um soco no repórter Vesgo, deu risada e disse que não foi nada demais quando abusam de uma Panicat. Em outras palavras, era apenas uma panicat, uma mulher, uma gostosa que rebola pra gente. Essas coisas me fazem pensar que mulheres e vaginas ainda são, para muitos, apenas coisas a serem violadas num feliz mundo falocêntrico.

Uma história íntima da humanidade

O livro me foi indicado por uma historiadora, a Nikelen. Além do mais, o título do livro usa a palavra história. Então nada mais natural do que procurá-lo como um livro de história. Mas na biblioteca ele estava classificado como Antropologia Social (e existe uma antropologia que não seja social?). Pior ainda foi quando procurei um link para cita-lo neste post e ele aparece como psicologia. A confusão, na verdade, é compreensível. O primeiro capítulo, sobre liberdade, foi quase como ler auto-ajuda para mim. Auto-ajuda num sentido bom, claro.

Capítulo 1: Como os seres humanos continuam a perder as esperanças, e como novos encontros, e óculos novos, as renovam.

O Uma história íntima da humanidade se confunde com antropologia, com psicologia e com uma certa auto-ajuda porque ele aborda temas próximos e de uma maneira muito pessoal. A cada capítulo, ele conta a história de alguém. São histórias verdadeiras, de mulheres (na introdução o autor justifica essa escolha) que refletem sobre as escolhas que fazem e que rumo deram às suas vidas. Dentro de cada uma dessas histórias o autor destaca uma questão e mostra o quanto ela diz respeito a todos nós. Ele mostra que as questões daquelas mulheres não são inéditas, que as maneiras de entender certos fenômenos mudou de enfoque e de importância ao longo do tempo. Ou seja, o autor fala do próximo e do distante, do particular e do comum.
O medo tem sido quase sempre mais poderoso do que o desejo de liberdade. Contudo, o imperdor Maurício, de Bizâncio (582-602), descobriu uma excessão. Ficou perplexo com três eslavos que havia capturado e que não portavam armas. Levavem somente guitarras e cítaras e vagabundeavam cantando as alegrias da liberdade, de estar em campos abertos gozando as brisas frescas. eles lhe disseram: “É normal que pessoas estranhas à guerra se devotem à música com fervor”. Suas canções versavam sobre o livre-arbítrio, e eles eram conhecidos como pessoas de vontade libre. Em 1700 ainda havia gente assim quando Pedro o Grande decretou-lhe a condenação: todos deviam fazer parte de um Estado legal, com deveres preestabelecidos. Mas 150 anos depois, Tara Sevlenko, um servo ucraniano alforriado, cantava poemas na mesma linha, lamentando que ” a liberdade esteja adormecida por ordem do czar bêbado”, e insistindo em que a esperança podia ser encontrada na natureza:
Ouça o que diz o mar
Interrogue as montanhas negras.
Havia escravidão, antes de tudo, porque os que queriam ficar sozinhos não se afastavam do convívio dos que apreciavam a violência. Os violentos têm sido vitoriosos ao longo da história porque administravam o medo com que cada um de nós nasce.
O objetivo do livro, ao fazer recortes tão originais, é ambicioso: mostrar que as coisas não são como devem ser, e sim formadas por muitas escolhas. Escolhas forjadas pelos nossos antepassados, que nos deram uma maneira de olhar a questão. Mas também escolhas da nossa própria geração, que lança ela mesma uma contribuição à maneira de olhar os fenômenos. O autor procura retirar do leitor o sentimento de determinação; conhecer a nossa história, ao invés de nos mostrar um curso de progresso inevitável, aumenta a capacidade crítica. “Quero demonstrar como, hoje em dia, é possível aos indivíduos formarem opinião nova de sua própria crônica pessoal e de todo o registro da crueldade humana, seus equívocos e alegrias. Para se ter visão nova do futuro, sempre foi necessário, antes, adquirir uma visão nova do passado” (p.7)