O castelo dos destinos cruzados, de Italo Calvino

O tarô, aquele jogo de cartas comumente usado para ler a sorte ou o destino das pessoas é, por si só, bastante interessante. Ele é dividido em Arcanos Maiores e Arcanos Menores. Os Arcanos Menores possuem os mesmos quatro naipes do baralho que se usa normalmente, com o acréscimo do Cavaleiro (ou seja, cada naipe tem Valete e Cavaleiro). Os Arcanos Maiores são vinte e duas cartas, que são numerados do um (O Mago) ao vinte e um (O Mundo), mais a carta do Louco que não tem número. O tarô mais antigo e mais conhecido é o de Marselha, mas há tarôs de tudo o que se possa imaginar: de anjos, de ciganos, de bruxas, de celtas, de desenhistas ou místicos famosos, como o caso do tarô de Crownley (aquele que aparece na capa de Sgt Peppers), etc. A leitura do tarô é uma narrativa, onde cabe àquele que lê as cartas juntar o significado daquelas que o consulente tirou (ou que apareceram para ele) e ser capaz de montar uma história coerente.

Assim sendo, acho muito interessante que Italo Calvino tenha se proposto a fazer um livro inteiro como se fosse a leitura de tarô. Seu argumento começa com um jantar, onde as figuras estão presentes e por uma estranha magia não conseguem falar. A única maneira dos comensais contarem suas histórias é pegar as cartas e com elas tentar remontar o que lhes aconteceu. Quem faz leitura de tarô entende que cada naipe, cada arcano e cada carta possui um significado tradicional, que tem a ver com o desenho das figuras mas que também as ultrapassa. Calvino deixa essa tradição de lado e tenta se deixa levar livremente pela impressão que cada carta lhe causa no momento: na Força, ele vê a violência de um homem batendo num leão com uma clava; no dez de paus, pensa numa densa floresta.

A figura do Rei de Espadas, que tentava transmitir num único retrato seu passado belicoso e seu melancólico presente, foi por ele aproximada da margem esquerda do quadrado, na altura do Dez de Espadas. E de repente nossos olhos foram como que cegados pela nuvem de pó das batalhas, ouvimos o som das trompas, já as lançam voam aos pedaços, já nos beiços dos cavalos que se atropelavam se confundiam as babas iridescentes, já as espadas ora de corte ora de lâmina batiam ora sobre o corte ora sobre a lâmina de outras espadas, e onde um círculo de inimigos vivos saltava sobre as selas e ao apeares já não encontravam os cavalos mas a tumba, lá no meio desse círculo estava o paladino Rolando que revolteava nos ares a sua Durindana. Nós o reconhecemos, era bem ele que nos contava a sua história, feita de tormentos e tormentas, comprimindo o pesado dedo de ferro sobre cada carta.

p.47-48

Mas o tarô, que se mostrou um desafio e um começo tão interessante, que acaba atrapalhando a fluidez do livro. Conheço muitos fãs de Calvino (eu entre eles) e pessoas que leem tarô, e em nenhum dos dois grupos esse livro é marcante. Primeiro, porque a necessidade constante de citar cartas que não estão presentes é cansativo. Calvino não diz em qual dos mundos tarôs ele se baseou para escrever o livro, só sei que não foi o de Marselha ou os mais conhecidos. Então a impressão pessoal que aquele tarô específico lhe causou pode não ser a mesma que outros causam. Ele se atém em detalhes de vestimentas, em objetos que as figuras seguram, na forma como as coisas estão dispostas, e em cada tarô isso está de uma forma diferente. E mesmo para aqueles que conhecem o tarô profundamente, ter que ficar puxando pela memória a figura de cada carta é cansativo. Acredito que todas as edições desse livro tenham a reprodução das cartas ao lado das histórias, mas mesmo assim não é suficiente.

Outro problema é que ele mesmo não consegue ser tão original, e tem tendência a usar sempre as mesmas cartas e dar a elas quase sempre as mesmas leituras – A Força é sempre violência, os Cavaleiros são sempre cavaleiros, as espadas remetem à batalhas. Aí, uma leitura que era para ser totalmente nova e original, se torna tão presa e repetitiva como uma leitura de cartas tradicional… Depois de algum tempo, as histórias se tornam mais do mesmo. Talvez o livro funcionasse melhor se as tivesse em menor número, ou se certas cartas fossem vistas de maneira mais simbólica, ou que simplesmente o argumento inicial fosse abandonado. Não sei dizer. Só sei que, pela primeira vez, um livro de Italo Calvino pareceu não funcionar pra mim.

Fotografia ou o fascínio da imagem, por Italo Calvino

amores dificeisQuando A aventura de um fotógrafo, do livro Os Amores Difíceis de Italo Calvino foi escrito, ainda era preciso revelar um filme para se obter uma foto. Quem viveu essa época sabe a distância enorme que é fotografar com filme, esperar para ver seu resultado e pagar por cada foto, do que vivemos hoje, com imagens fáceis e imediatas em qualquer aparelho. Isso causou um enorme impacto sobre o que é fotografar. Outro fenômeno, ainda mais recente, é o compartilhamento das fotos em redes sociais. Agora não é mais preciso sentar com um amigo e lhe mostrar suas fotos – as fotos dos outros nos chegam instantaneamente, independente da nossa vontade, através de links e atualizações de perfil. Das fotos raras, em preto e branco, que reuniam toda família para um único registro de toda uma vida, hoje vivemos uma overdose de fotos, onde até o almoço de alguém merece virar imagem e informação.

Por isso que esta citação me parece tão interessante. As fotos não estavam tão presentes e Italo já fazia esse tipo de análise sobre o impacto delas nas vidas das pessoas. É uma verdadeira profecia.

– Porque, uma vez que você começou – perorava -, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está fazendo castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto está chorando porque o castelo desmoronou, e depois enquanto a ama o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de concha. É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: “Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!”, e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo à loucura.

A aventura de um fotógrafo, p.54

Era uma vez

Prometi pra mim mesma que pararia de falar de Ítalo Calvino aqui, mas é curtinho. Terminei o Fábulas Italianas e que experiência maravilhosa que foi. Melhor ainda só ouví-lo na infância, sendo contado pela própria mãe, como uma amiga fez com os filhos. Algumas fábulas são parecidas com outras coisas que já ouvimos por aí, com contos dos Irmãos Grimm, mas nem por isso elas perdem a sua graça. Depois de ler várias, a gente começa a notar certos padrões e isso é muito interessante. Como a punição de “vestir uma camisola de piche e atearem fogo” ou ser jogado do alto de uma torre. Fadas e diabos se parecem muito, ora fazendo o bem e ora prejudicando, mas ambos também podem ser ludibriados. Portas odeiam ranger, e são capazes de salvar a vida daqueles que se deram ao trabalho de lhe passar óleo. São Pedro aparece em algumas histórias com a parte boba e ambiciosa de Jesus, que faria todo tipo de milagres por aí. É de se pensar também a constância do filho caçula, sempre o especial, o que destoa. Mesmo quando bons, às vezes a simples presença deles atrai desgraça, e eles precisam se afastar de casa. Quando se afastam de casa, as pessoas encontram experiências fantásticas, são punidas ou favorecidas, encontram riquezas que às vezes perdem. E voltam. Mesmo quando injustiçados, eles querem os seus e os beneficiam também. Podemos pegar por outro viés, do pai que se casa de novo, e a madrasta não suporta a filha do antigo casamento. Ou até gostava, mas quando é para receber um benefício, se mostra capaz de tudo para que esse benefício vá para o seu sangue. Quando lindas donzelas e princesas são substituídas pela irmã feia ou a empregada, os reis casam com elas do mesmo jeito porque “palavra de rei não volta atrás”. São sempre nas relações consaguineas ou de casamento que estão as maiores traições, as invejas, os feitiços, os assassinatos. Há histórias em que a pessoa comete um único erro e é punida tão duramente, enquanto outras erram continuamente, fazem sempre a mesma besteira, e são beneficiadas com novas chances. Existem os que mentem tanto que acabam tornando a mentira realidade. E tem o humor. Eu gargalhei com os preguiçosos, com a caixa mágica que distribui pancadas. Ler esse livro é redescobrir outra moralidade, muito menos rígida, mais próxima da realidade do que o politicamente correto.

Ler era mais simples

Posso dizer que ano passado me converti ao calvinismo – não o calvinismo religião, e sim que passei a ser fã de Ítalo Calvino. Depois das Cosmicômicas e Cidades Invisíveis decidi deixar o blog em paz e parar de escrever sempre sobre ele – o que não significa que deixei de ler. Li Barão entre as árvores, Visconde partido ao meio e estou nas Fábulas Italianas. Teria pouco a dizer sobre esses livros sem ser repetitiva: que Ítalo Calvino é genial, que cada livro dele é um deleite, que sua imaginação parece não ter limites e que tudo é muito dinâmico e prazeroso. A leitura dele me faz sentir algo que há muito não sentia, que é o entusiasmo e a certeza de que o próximo livro será bom. Porque ser leitor não é fácil. A cada livro que eu termino um problema se inicia.

Eu lembro a maravilha que era na minha época de Coleção Vagalume, quando todos os livros valiam a pena. Uns valiam mais do que outros, mas eu sempre os terminava. O que me chamava atenção eram as histórias. Se eram imaginativas, o livro era bom. Mesmo quando ruins, quaisquer livros valiam a pena e garantiam muitas horas de privacidade e de prazer. Isso sem falar do conforto de uma série inteira para vasculhar e não ter que me preocupar de não ter o que ler. Eu pensava que leria a série toda e foi justamente quando seus livros não me agradaram mais é que o problema começou: qual o meu próximo livro? Passei a precisar vasculhar estantes, ir atrás de obras e autores clássicos, descobrir gêneros, estar atenta à indicações e tantos outros segredos para farejar um bom livro que uso até hoje.

Ao contrário da maioria, não condeno que lê Paulo Coelho ou os tons de cinza. Acho que é a semelhante à condenação que antigamente havia com quem lia quadrinhos. Hoje há todo uma cultura HQ e alguns quadrinhos são verdadeiras obras de arte; quando eu era pequena, entendia-se que quem lia quadrinho nunca conseguia evoluir como leitor, que aquilo era subcultura. Bobagem, coisa de quem não acredita no prazer de ler. Tem até a história de um amigo, que tinha um pai que era contra histórias em quadrinhos. Então quando a gente começa a citar Recruta Zero, Turma da Mônica, Tio Patinhas, Riquinho e outros, ele não sabe de nada. O que meu amigo leu na infância foi A vida dos grandes estadistas, isso sim leitura que forma o caráter de uma criança.

Italo Calvino me dá essa segurança do livro bom. Esse recurso de gostar de um autor e ler tudo dele nem sempre funciona. Depois do Insustentável leveza do ser, achei que me tornaria fã do Milan Kundera. Li mais uns dois livros dele, também bem escritos, mas nada marcante. Também tentei seguir Isabel Allende, por causa do indiscutível Casa dos Espíritos. Ela realmente sabe contar histórias, mas ler dois livros seguidos sobre a família dela (O plano infinito e Paula) me deixou meio decepcionada e me perguntei se não era melhor ela abandonar essa prática de publicar um livro por ano. E por aí vai. No geral, não suporto ler muitos livros seguidos do mesmo autor. Começa a ficar repetitivo e perdemos a dimensão da sua grandeza. Por isso eu deixei um pouco de lado alguns grandes autores, cuja obra ainda quero devorar – Capote, Faulkner, Garcia Marquez, Bellow, Woolf – apenas para retomá-los sem a interferência da obra anterior.

Ler demais nos torna gourmets, nos torna chatos, nos torna exigentes. É a diferença entre provar um doce pela primeira vez e já conhecer todos os doces do mundo. Se um dia meu critério foi que a história fosse imaginativa, hoje quero personagens bens construídos, narrativa coerente, estilo próprio, ritmo, imprevisibilidade, contexto histórico… Pra piorar, além de ler, eu escrevo. Não o suficiente pra ter escrito qualquer coisa que sobreviva à sua postagem, mas o suficiente para apontar o dedo para a lua e achar que posso alguma coisa. Fico feliz em ter o Ítalo Calvino para saciar um pouco o meu vício. Ele resolveu o meu problema, por enquanto.

As cidades invisíveis

Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção que qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territórios que conquistamos, à melancolia e ao alívio de saber que em breve desistiremos de conhecê-los e compreendê-los, uma sensação de vazio que surge ao calar da noite (….)

p. 9

Minha leitura foi mudando ao longo do Cidades Invisíveis. O fio condutor do livro são as histórias de Marco Polo a Kublai Khan, como se fosse uma espécie de Mil e uma noites. Seguem cidades de nomes femininos e lindas descrições, cinestésicas, imaginativas e coloridas daquela maneira bastante peculiar de Italo Calvino. É impossível guardar todas as descrições e tudo é tão lírico que nesse instante me pareceu que estava lendo um livro de poesias, que como tal deve ser lido entre grandes pausas para ser melhor saboreado. As descrições podem ser lidas somente pela sua lindeza, como um exercício estético. Só que num certo momento, entre uma cidade e outra e as discussões de Marco Polo e Kublai Khan, as cidades parecem mostrar algo a mais:

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus, ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma certa entrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta pergunta, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar seu futuro?

p.30-31

Tal como Kublai Khan, começamos a ver nas descrições de Marco Polo algo mais do que ele simplesmente diz. As cidades parecem indicar outras coisas. Mais: em meio às descrições fantásticas, encontramos nossa próprias cidades, nossas relações, nossa vida. Nos fios que os habitantes de uma traçam entre todos com quem se relacionam e depois mal conseguem se mover; na cidade que joga tanto lixo que ele se tornará maior do que ela; naquela que é cheia de novidades para forasteiros e tediosa para os que nela vivem; nas cidades que não podem ser conhecidas, naquelas da qual jamais se sai. Nesse instante (que é do leitor e não do livro) tudo se torna todo metafórico e até mesmo os títulos dos capítulos (memória, desejo, símbolos, delgadas, olhos, céu, contínuas, ocultas) parecem querer dizer alguma coisa.

Evitem dizer que algumas vezes cidades diferentes sucedem-se no mesmo solo e com o mesmo nome, nascem e morrem sem se conhecer, incomunicáveis entre si. Ás vezes, os nomes dos habitantes permanecem iguais, e o sotaque das vozes, e até mesmo os traços dos rostos; mas os deuses que vivem com os nomes e nos solos foram embora sem avisar e em seus lugares acomodaram-se deuses estranhos. É inútil querer saber se estes são melhores do que os antigos, dado que não existe nenhuma relação entre eles, da mesma forma que os velhos cartões-postais não representam a Maurília do passado mas uma outra cidade que por acaso também se chamava Maurília.

p.32-33

É daqueles livros que nos fazem querer adivinhar o autor, como se ele andasse por aí soltando rimas no ar. Tudo parece fluido e muito espontaneo, o que só atesta o trabalho meticuloso que há por detrás. O leitor busca fascinado os sentidos ocultos, imagina cidades de contos de fadas, experimenta outras formas de organizar sociedades. Se sair das Cidades Invisíveis mais sábio, tanto melhor.

As cosmicômicas

A melhor maneira de chegar até um autor é pelo olhar de um leitor completamente apaixonado por ele. Foi com a indicação segura de quem leu tudo de Italo Calvino que eu cheguei a Cosmicômicas. O primeiro adjetivo que me vem para descrevê-lo é Infantil, na melhor concepção da palavra. Ele me lembra aquelas associações fantásticas e imaginação sem limites das crianças. Suas descrições são cinestésicas, inéditas, apaixonantes. Lê-las nos conscientiza de quanto a imaginação adulta é limitada, como nossas metáforas passam por categorias pré-definidas e previsíveis. Cada crônica começa com uma descrição científica que remota às origens do universo ou da vida na terra. O que ele faz a partir daí é um encantamento:

Agora certamente vão me perguntar que diabo andávamos fazendo na Lua, e eu lhes explico. Íamos recolher o leite, com uma grande concha e um alguidar. O leite lunar era muito denso, uma espécie de ricota. Formava-se nos interstícios entre uma escama e outra pela fermentação de diversos corpos e substâncias de proveniência terrestre, que se desprendiam dos prados, das florestas e das lagos que o satélite sobrevoava. Era composto especialmente de: sumos vegetais, girinos de rãs, betume, lentilhas, mel de abelhas, cristais de amido, ovas de esturjão, bolores, pólens, substâncias gelatinosas, vermes, resinas, pimenta, sal mineral, materiais de combustão. Bastava afundar a concha sob as escamas que recobriam o solo encrostado da Lua para retirá-la cheia daquela preciosa papa.

A distância da lua, p. 10

Para Qfwfq, protagonista de quase todas as histórias, o afastamento da lua, a volta do sol, a divisão entre a noite e o dia e até mesmo a formação de átomos de hidrogênio são mais do que explicações. Ele estava lá, ele viveu. Algumas vezes foi um participante desavisado, noutras provocou ou acelerou o processo, enquanto se apaixonava, brincava, caía. As relações que ele estabelece enquanto vive as origens do universo sim, são familiares. Nenhuma história se parece com a outra, que cada vez parte de um pressuposto diferente: como seria ter tudo num único ponto antes dele explodir o formar todo o universo? Como se relacionar com um mundo sem cores? O que é ser um ser antes das formas existirem?

Mas, visto que não tinha forma, me sentia dentro de todas as formas possíveis, e de todos os gestos e caretas e das possibilidades de fazer rumores, mesmo inconvenientes. Em suma, não tinham limites meus pensamentos, que nem eram pensamentos porque não tinha cérebro que os pudesse pensar, e cada célula pensava por conta própria todo o pensável tudo de uma vez, não por meio de imagens, que não as tínhamos à disposição fossem de que gênero fossem, mas simplesmente daquele modo indeterminado de nos sentirmos ali que não excluía nenhum outro modo de nos sentirmos ali.

A espiral, p.142

Algumas histórias partem de abstrações tão grandes que são difíceis de imaginar, como a família Ao nascer do dia ou os Jogos sem fim com átomos. Outras ficam próximas ao falar de amor, seja ele Sem cores ou de seres que começam a sair dos oceanos, como em O tio aquático. Os dinossauros consegue criar um convívio entre dinossauros e humanos e Os anos-luz é extremamente engraçado. E todas são inesquecíveis. Italo Calvino consegue levar o fantástico a lugares que o realismo-fantástico jamais sonhou. As Cosmicômicas é livro pra ter para sempre e que não pode ser comparado a nenhum outro.