A consciência de Zeno

zenoTenho que começar A consciência de Zeno com o prefácio de outro livro (que ainda não li) de Italo Svevo, Senilidade. Nele o autor conta que seu primeiro livro, Uma vida, recebeu uma acolhida positiva de alguns críticos. Já o seu segundo livro, Senilidade, lançado seis anos depois, foi totalmente ignorado pela crítica. Como resultado, “resignei-me diante de um juízo tão unânime (não existe unanimidade mais perfeita que a do silêncio), e por vinte e cinco anos abstive-me de escrever”. Depois Svevo conta que foi o apoio de alguns poucos críticos e amigos, dentre eles James Joyce, que conseguiu trazê-lo de volta ao mundo da literatura. Quando começamos a ler Svevo, é impossível não lamentar que as coisas tenham acontecido dessa forma, pensar nos livros geniais a humanidade não perdeu por causa desses vinte e cinco anos de descrédito. Svevo é tão bom, tão deliciosamente irônico, sua forma de escrever é tão atual que… talvez tenha sido esse seu problema. Senilidade foi publicado pela primeira vez em 1848*.

Prefácio

Sou o médico de quem às vezes se fala neste romance com palavras pouco lisonjeiras. Quem entende de psicanálise sabe como interpretar a antipatia que o paciente me dedica.

Não me ocuparei de psicanálise porque já se fala dela o suficiente neste livro. Devo escusar-me por haver induzido meu paciente a escrever sua autobiografia; os estudiosos de psicanálise torcerão o nariz a tamanha novidade. Mas ele era velho, e eu suponha que com tal evocação o seu passado reflorisse e que a autobiografia se mostrasse um bom prelúdio ao tratamento. Até hoje a ideia me parece boa, pois forneceu-me resultados inesperados, os quais teriam sido ainda melhores se o paciente, no momento crítico, não se tivesse subtraído à cura, furtando-me assim os frutos da longa e paciente análise destas memórias.

Publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento. Parecia tão curioso de si mesmo! Se soubesse quantas surpresas poderiam resultar do comentário de todas as verdades e mentiras que ele aqui acumulou!…

Doutor S.

1848 é o mesmo ano de publicação de A dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Perto de Zeno, a história de uma cortesã apaixonada nada tem de tão ousado. Com exceção do prefácio, A consciência de Zeno é todo na primeira pessoa, numa tentativa de Zeno destrinchar o próprio passado. Já começa aí a ousadia da narrativa, que como rememória não segue um rigor cronológico. Outra questão é o problema de credibilidade que se cria logo no início com o leitor: Zeno se mostra tão mentiroso e exagerado, confessando suas mentiras e nos fazendo entender que podem existir muitas outras, que se é levado a pensar que nada do que está descrito pode ter acontecido daquela forma. O mundo de Zeno gira em torno de algumas poucas figuras – Guido, Ada, Augusta, Carmen – e com nenhuma delas ele é capaz de agir conforme o que pensa. Talvez nem com o leitor. Dele só temos certeza do cinismo. Como se tudo isso não bastasse, o livro tem um grande senso de humor, pela ironia que aparece em quase todos os momentos, pelas passagens onde Zeno diz coisas que para outros seriam impensáveis. Ao mesmo tempo, nenhum desses exageros serve como desculpa ou tornam Zeno um daqueles vilões adoráveis. O leitor não entende, não aprova, lê o livro inteiro se perguntando quem é esse homem e do que ele é capaz, o que o motiva. Quando o livro chega ao fim, há uma certa forma de resposta ou de explicação. E ela não é nem um pouco edificante, ninguém se sacrifica em prol da família burguesa.

Da minha parte, tenho para comigo que ele, Svevo, era um gênio. James Joyce, independente do que escreveu, já mereceria meu respeito apenas por ter lutado para não deixar Svevo morrer no esquecimento.

* ERRATA: Como bem observou Ernani Ssó nos comentários, errei a data. Com isso errei toda comparação posterior com A Dama das Camélias… Deixarei o texto como está. É um livro extraordinário, relevem meu erro e leiam-no.