Meu primeiro Borges

Tenho um certo problema com alguns livros, geralmente os muito bons e de autores consagrados: não tenho a menor vontade de escrever sobre eles. De um lado porque não gosto da idéia de bater na mesma tecla, de me juntar à fileira dos muitos elogios. De outro, fico com receio de falar besteira. Na internet tem muita crítica profunda, inteligente e abalizada – e esse número à enésima potência de besteiras. Minha humilde contribuição para uma internet menos pior é tentar não aumentar esse número tão grande. Parafraseando Romário, eu sem publicar nada seria uma poeta.

Desse modo, eu estava determinada a fingir que não terminei o meu primeiro Borges – O aleph. Não era para ser o primeiro. Tenho na minha diminuta (por opção) biblioteca pessoal Ficções, que ensaiei ler algumas vezes. Antes de escrever isso aqui, peguei o livro para ver onde tinha parado e foi no fim do Prefácio. Veja que complicada a obra, nem passei do prefácio. E o prefácio não é nem tão longo. Lembro que esse prefácio me cansou tanto, me deixou tão confusa e tão reverente à obra de Borges que fiquei desestimulada a atacar o livro propriamente dito. Em todos os lugares é assim: análises complicadas e reverentes, elogios rasgados, invejas e comparações onde outros autores sempre saem perdendo quando comparados com Borges. Já que tinha que vestir e me armar com as armas de São Jorge antes de ler um simples livro, deixava sempre para depois.

Encontrar sem querer uma edição novinha na biblioteca me fez decidir enfrentar a fera, e fiquei totalmente encantada pela primeira história do AlephO imortal. Não era possível que tão poucas páginas pudessem conter uma reflexão tão profunda sobre o que significa a morte e o tempo. Terminei O imortal com a impressão de que não precisaria ler mais nada. Aí avancei mais no livro e começaram a aparecer citações escolásticas, lendas, guerras, geografias e detalhes. Resultado: travei. Lembrei dos muitos Borges que citaram no meu caminho, senti aflorar meu complexo de inferioridade. Eu não sou a leitora que deveria ser. Em algum lugar do caminho intelectual a qual eu estava destinada, eu falhei. Sim, eu falhei. Sou experimentada demais pra me deixar seduzir por Cinquenta tons, mas não tenho a avidez e a paciência para ler Ulisses. Gosto de ler, mas também gosto de ver vídeos de gatinhos, acompanhar séries americanas e comer pão com manteiga; se eu começo um livro e a coisa se repete, ou não sei quem está falando, porque e pra onde a coisa está indo, bocejo até lacrimejar e o abandono sem dó. Desde que comecei a abandonar livros, virei abandonadora compulsiva: conquista-me ou abandono-te. Tô nem aí se o livro é famoso.

Confessei ao Milton, meu guru literario-espiritual, que não me sentia culta o suficiente para ler Borges, que ele citava umas coisas e eu não entendi lhufas. Aí o Milton me esclareceu que é assim mesmo, que Borges cita muitas coisas, inventa outras, passa por cultíssimo e nunca sabemos direito o que é verdade ou não. Ahhhh! Então, amigo leitor, aqui está a mensagem essencial deste texto: leia Borges mesmo sem ser culto porque pode ser mentirinha dele. Leia com o mesmo desprendimento de uma criança, que não se importa de conhecer tudo, desde que seja bem contado. E é.

Sobre o livro em si, cada história é um universo. Tem desde momentos deliciosos como “manejava com fluidez e ignorância várias línguas”, como detalhes pitorescos, viagens fantásticas, reflexões profundas sobre o homem, seu sentido e o universo. Achei a narrativa econômica, mas não à maneira de um Dalton Trevisan; é que cada história diz coisas demais num espaço pequeno, coisas que outro autor levaria um livro inteiro para dizer. Finalmente entendi porquê tantos elogios, fiquei pequena diante da genialidade de O aleph. E nada mais direi, porque a minha intenção é justamente querer torná-lo mais próximo.

Cem páginas de Ulisses

Foi unicamente meu amor por Guimarães Rosa que me levou a ler Ulisses. Grande Sertão: Veredas foi um dos livros que li com mais prazer na minha vida. O único inconveniente de ler Guimarães assim que nos aproximamos é a linguagem, que no começo assusta, mas se torna fluida e musical com um pouco mais de persistência. E eu sabia que essa persistência o Charlles tem de sobra. Ele é um grande leitor, mas carregava consigo a teimosia de não ler Guimarães por ter resistência a autores brasileiros. Ao mesmo tempo, eu tinha uma resistência completamente auto-explicativa com relação a idéia de ler Ulisses. Um livro com mais de oitocentas páginas onde quase nada acontece. Famoso por entediar quase todos os que tentam se aproximar dele. Símbolo máximo da literatura que privilegia a forma de acordo com o Paulo Coelho. Usado largamente por intelectuais para se colocar acima dos leitores comuns. Eu jamais teria a iniciativa de ler algo assim normalmente.
Mas tive, por amor ao Rosa. Desafiei publicamente o Charlles a ler Grande Sertão: Veredas, que eu no mesmo instante começaria Ulisses. Em outras palavras, cada um leria um livro que nunca quis ler, mas que era amado pelo outro. Como eu previra, Grande Sertão precisou de poucas páginas para mostrar ao Charlles o quão maravilhoso é. Eu, com Ulisses, comecei tão entediada que precisei encher muito o saco do Milton e fui liberada pelo Charlles de não cumprir minha parte no desafio. Minha resposta foi: lerei até a pagina cem. Darei essa chance, darei cem páginas para ser conquistada. Depois disso, verei o que fazer. Eu nem sabia que o Capítulo Cinco encerra na página 99 na edição que eu peguei, da editora Objetiva e tradução de Bernardina Silveira Pinheiro. Agora que li esses cinco primeiros capítulos estou pronta para dar minhas primeiras impressões.
O livro me desagradou logo nas suas primeiras páginas. Eu senti falta de um como, onde e por que. Nunca havia me sentido uma leitora cartesiana e resistente a novas propostas como Ulisses fez comigo. Eu me lembrei d´O Vermelho e o Negro de Stendhal, que eu tentei ler duas vezes e nas duas desisti pelo mesmo motivo: no Capítulo Um o autor fala da cidadezinha onde a ação acontece, e descreve cada casa e cada família, todos os futuros personagens, como se fosse um passeio pela rua. Achei o recurso tão cansativo que logo após conhecer todo mundo desse jeito eu não queria saber de mais nada. Me parece que há uma evolução na construção de uma narrativa, onde elimina-se cada vez mais essas descrições desnecessárias. Ao invés de quase metade do livro de apresentações, igual Dostoiévski fazia, o leitor conhece o personagem junto com a história. No Ulisses esse corte ao desnecessário é tão grande que tive uma impressão de mutilação, como se ele tivesse cortado demais.
Somos lançados à história. Estão todos conversando, pensando, atuando. Ninguém nos explica qual a forma de narrativa, quais personagens são essenciais, em que momento quem está pensando o quê. As falas dos personagens se misturam, porque não temos tempo de guardar quem é médico, quem ensina, quem vai ao enterro. Acho isso razão mais do que suficiente para fazer o leitor desistir. Não leia como quem lê um romance, tenha paciência, disse o Milton nas nossas conversas sobre Ulisses. Continuei a ler, tentando abstrair o fato de não estar entendendo nada. E descobri que é exatamente isso que o leitor precisa quando lê Ulisses: se deixar levar. É como se o livro não tivesse as páginas iniciais, como se ele cortasse aquela longa narrativa que nos faz entender a dinâmica da história e para ir direto à parte onde já lemos por prazer. A melhor explicação que consigo imaginar é a seguinte: sabe quando já somos tão íntimos e já gostamos tanto de alguém que apenas estar ao lado da pessoa, ou falar sobre qualquer besteira já é prazeroso? A relação que se precisa ter com Ulisses é a mesma. Acompanhe – James Joyce convida – os pensamentos, as idiossincrasias e coisas rotineiras desses personagens por si só. Sem ter pressa de chegar, apenas porque as coisas que eles vivem naquele momento podem ser interessantes.
É tão interessante assim? Estou descrevendo o que é necessário e não dizendo que acontece naturalmente. É um exercício. Depois de um início sofrido, de pelo menos umas cinquenta páginas, comecei a entender qual é a do livro. Do tédio absoluto, me percebi sentindo algum prazer em ler umas passagens. Ainda não tenho certeza – será que isso já é orgasmo? se pergunta a mulher que nunca teve (uso uma metáfora sexual já que o livro parece apontar com persistência para esse caminho). Dizem que depois o livro fica ótimo, hilariante até. Eu nem ao menos consegui decidir se gosto do livro. Terei de ler mais cem páginas para decidir.