Chatô: o rei do Brasil

As mais de setecentas páginas do livro Chatô: o rei do Brasil são assustadoras. Como pode ser interessante um livro tão extenso sobre um personagem da qual ninguém é fã, que não tem nenhum carisma ou da qual não ouvimos falar nos dias de hoje? Lembro do estrondoso sucesso que o livro fez na época da sua publicação, há quase vinte anos, e da tentativa cercada de suspeitas de suborno e desvios de dinheiro (nada mais chatobrianesco do que isso) do filme Chatô que nunca foi lançado. Depois de uma semana devorando suas páginas, posso afirmar: o livro é delicioso e mereceu cada uma das suas críticas entusiasmadas.

Com o correr do tempo, chegou a hora de enviar o filho à escola. No começo de 1898, como já tivesse quase 6 anos, os pais o matricularam em uma escola pública do bairro. Cuidadosamente recomendado para a professora como uma criança nervosa e problemática, Chateaubriand nem chegou a completar a primeira semana de aula. Poucos dias após o início do curso, um bedel do grupo escolar veio trazê-lo de volta à mãe. Vítima de deboches e brincadeiras dos colegas, ele simplesmente desistiu de falar o que quer que fosse dentro da classe. De gago ele estava se transformando em mudo. Traumatizados com o sofrimento do filho, Francisco José e Maria Carmem procuraram outras escolas, contrataram sucessivas professoras particulares que tentavam alfabetizar o garoto em casa, mas nada deu certo. Ele tomava pânico na presença de estranhos e, além de não pronunciar uma só palavra, punha-se a chorar.

p. 35

O primeiro grande mérito do livro é, sem dúvida, a escolha de seu protagonista. Polêmico, Chateaubriand conseguiu construir do nada um império de comunicação, que compreendia os jornais, revistas e rádios mais influentes de sua época. Ele é o responsável pela implementação da TV no Brasil, pela criação do MASP e esteve por trás dos movimentos mais importantes da história política brasileira. Era um homem que tinha intimidade com o poder, temido por banqueiros e presidentes. Em nome dele leis foram modificadas e reputações destruídas; o contato com Chateaubriand poderia colocar qualquer um no topo – o que não impedia a pessoa de ser retirada de lá, pouco tempo depois, sob ofensas do próprio Chateaubriand. O autor não tenta responder à questão se era um louco, um gênio ou um visionário. E até o fim do livro não é possível responder isso.

Ao entrar em São Joaquim, Chateaubriand resolveu bater na primeira porta amiga que lhe apareceu pela frente: a farmácia de Hilário Braer, o aliancista pra quem ele deveria trazer uma carta de Rupp – como a dos Palma, também incinerada em Bom Retiro. Andando com as pernas abertas para evitar que uma coxa encostasse na outra, o que provocava uma sensação muito dolorosa, amarrou um cavalo no poste e apresentou-se ao farmacêutico. Descreveu com detalhes as adversidades e provações que experimentara desde a decolagem do Junkers no Rio de Janeiro, quantos dias antes? Fez as contas: apenas três dias, que mais pareciam três semanas de sofrimentos. Falou de Rupp, da barreira de soldados na estrada, do corte do fio do telégrafo, das cartas para os Palma e para ele queimadas na casa de Gerôncio Thibes, da morte inesperada de Jango Matos. O catarinense descendente de alemães ouvia tudo aquilo tomado por uma desconfiança mineira. A história era rocambolesca demais para ser verdadeira.

p.239-240

Somente um grande escritor para tornar os inúmeros fatos da vida de Chateaubriand numa narrativa coerente e muito interessante. Se Fernando de Morais não leu cada um dos 11870 artigos que Chateaubriand publicou, chegou muito perto. Apesar de longo, o livro não possui uma única passagem gratuita, e muito menos mal documentada. Como nos bons romances, o livro consegue criar suspenses, faz personagens ressurgirem, pontua grandes eventos com fatos pitorescos. Sem perceber, vamos descobrindo os bastidores da história do Brasil, ficamos a par do surgimento de grandes nomes da política e da cultura brasileira, ao mesmo tempo que descobrimos as idiossincrasias do comportamento de Chateaubriand. O mesmo homem que era implacável com os filhos e com os inimigos, tinha um apetite sexual incontrolável e nada criterioso, falava um inglês “fluente e ininteligivel” e insistia em sagrar as pessoas a quem admirava como Cavaleiro da Ordem do Jagunço.

Por fim chegou o 2 de junho, dia da coroação e do maior problema que Chateaubriand iria enfrentar naquela agitada temporada: acomedido de uma infecção na próstata, ele era obrigado a urinar a cada meia hora (Paulo Albuquerque, seu médico no Rio, chegara a aconselhá-lo a desistir da aventura londrina, pois se sabia que a cerimônia de coroação duraria cinco horas, sem interrupções). Mas o jornalista já havia planejado em segredo a solução: vestiu um grosso sobretudo sobre a casaca, e com uma gilete abriu dois talhos nos forros do casaco de lã. Pediu ao bar do hotel duas garrafas vazias de Coca-cola e enfiou uma em casa bolso do capote. Às oito da manhã, conforme mandava o protocolo, dirigiu-se à Abadia de Westminster.

p.542

Considero esse livro essencial pra qualquer um da área de história e de jornalismo. Depois do livro, fica-se com a sensação de que nada visto na TV ou publicado é verdade. Ironicamente, o jornalista Chateuabriand é a maior prova que se pode ter contra o poder do jornalismo. Percebemos que a imprensa não precisa ter o menor compromisso com os fatos – suas bases são outras, seus interesses são outros. O livro pode ser lido como um forte alerta sobre o poder dos meios de comunicação.

No começo de 1967, quando faltavam quinze dias para transferir o governo para o Marechal Costa e Silva, o ainda presidente Castelo Branco baixou o decreto-lei nº236, que parecia redigido de encomenda para confirmar as suspeitas de Chateaubriand de que de fato tudo não passara de uma conjura para destruí-lo. No artigo 12 do decreto, Castelo limitou a cinco o número de estações de televisão que poderiam pertencer ao mesmo grupo privado (três estações regionais e duas nacionais). Naquela data começava a desmoronar a rede Associada de televisão, cujo prestígio e poder seriam ocupados, anos depois, pela mesma Rede Globo de Televisão. Assis Chateaubriand perdia sua primeira grande batalha. Que talvez fosse a última de sua vida.
p. 674

Calma, tá tudo bem agora

Há algumas semanas, eu assisti uma reportagem especial, não sei de qual emissora. Não importa, realmente, em que emissora foi, porque essas reportagens especiais seguem um roteiro muito parecido. Essa era sobre exploração sexual de crianças. Ele mostrava estrangeiros que vinham ao Brasil para dormir com as meninas, falava da pobreza, das drogas, das doenças, da infância abandonada e que algumas eram levadas pelos próprios pais a se prostituirem. Tinha imagens chocantes de meninas em boates, depoimentos dolorosos de crianças que mesmo antes de chegarem aos dezoito anos já tinham visto, vivido e sido exploradas de todas as maneiras. Uma reportagem de conteúdo pesado, que causava angústia ao nos colocar a par de um problema tão grande, que existe em todos os lugares e simplesmente não é visto.

Aí, no fim da reportagem, eles colocaram instituições exemplares que cuidam dessas meninas. Mostravam as pequenas X e Y, que pela primeira vez em muitos anos eram tratadas com dignidade e não viviam mais nas ruas. E assim, depois de todo mal estar, eles colocaram algo positivo para que os telespectadores não fossem dormir mal. Calma, tá tudo bem agora. Mas não está. Se for parar pra pensar, aquelas instituições não resolvem os problemas relativos à prostituição infantil: o número delas é insuficiente, o índice de recuperação é pequeno, os danos causados a essas crianças são muito grandes e quando falamos em perspectivas, são sempre perspectivas muito limitadas, de sair da prostituição para entrar na pobreza e no subemprego. A questão é que não paramos pra pensar, apenas nos sentimos aliviados. As reportagens que mostram a realidade nua e crua têm essa tendência, ou essa regra, de sempre terminarem bem, mostrando um problema e sua solução. Mesmo que seja uma solução muito insuficiente.

A ficção conhece há muito tempo e se utiliza do recurso de escolher bem como encerrar. Nas novelas, nos romances, os anos a fio de injustiça vividos pelos mocinhos são apagados no momento em que tudo acaba bem no final. Há obras que precisam ser totalmente repensadas, porque o final nos abre perspectivas novas para tudo o que havia acontecido antes. Lembro de filmes de terror, que não terminam nunca; eles nos oferecem um final feliz falso e logo depois plantam a dúvida – a mãozinha do assassino saindo da terra – que nada mais é do que um aviso de que haverá uma continuação. Existem as narrativas circulares, em que no fim da história nos vemos no começo, ou num recomeço. Na música, existem intervalos entre notas que dão a idéia de tensão, assim como existem os que dão idéia de finalização; tais intervalos dão colorido às frases. As músicas costumam ter um auge melódico pouco antes de acabar. Na dança, as coisas terminam em pose. Onde quer que se olhe, a maneira de terminar é uma comunicação com o público, que a partir dali deve reagir – com aplausos ou com silêncio.

Se a maneira de terminar indica que experiência o público deve levar, podemos concluir que o as reportagens chocantes nunca querem prolongar o desconforto que elas mesmas causaram. É um choque de mentirinha. O público deve ficar temporarimente abalado, mas que a TV não seja culpada de dores na consciência e insônia de ninguém. Após conhecer uma realidade difícil, que o espectador se tranquilize com a idéia de que alguém – que sem dúvida não é ele – já está providenciando solução para o problema. Se o sentimento de desconforto persistir, ele pode procurar a instituição que apareceu na reportagem e fazer uma doação.

O que aconteceria se as coisas fossem apresentadas sem solução? Se ao invés de mostrar instituições salvadoras, a reportagem terminasse com meninas que se prostituem desde a infância, usam drogas e não tem perspectiva para o futuro? Eu não sei. Quem estivesse vendo aquela reportagem ficaria angustiado, e teria que procurar sozinho uma maneira de digerir o que viu. Não há como prever que efeito teria- poderia ser totalmente inócuo, ou o espectador poderia encontrar uma solução muito mais interessante do que normalmente se propõe. Eu acho que o inesperado, não oferecer soluções fáceis, é uma experiência muito mais adulta e que vale a pena ser testada.