Escrita e dinheiro, por Ubaldo Ribeiro

Duas razões me fizeram incompetente em matéria de dinheiro. A primeira vem da profissão, pois a opulência não costuma acompanhar as letras. Lembro de um outro escritor, respondendo sobre se livro dá dinheiro. “Dá, sim”, disse ele, “Contanto que não se seja o escritor”. E, de fato, tenho na memória viagens com editores e escritores, aqueles na primeira classe, estes na econômica. Volta e meia, um editor aparecia para ver os escritores. Que inveja da nossa criatividade, da glória, da liberdade do artista – ah, se pudesse estar ali conosco, em vez de aguentar os chatos lá da frente, mas, sabe como é, noblesse oblige, que é que se pode fazer? E voltava entristecido para sua poltrona palacial, seu champanhe e seus menus premiados, deixando-nos com nossa glória, nossa cerveja morna, nossos sanduíches ressequidos e nossas aeromoças tão doces de trato quanto um sargento dos Fuzileiros Navais.

Educação Financeira, p. 43. In: Um brasileiro em Berlim

 

(Caso tenha ficado curioso, o outro motivo é o fato de ser brasileiro.)

Diário do Farol (e Breaking Bad)

Na orelha do Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, da Editora Nova Fronteira diz:

Já consagrado como um dos mais importantes escritores da língua portuguesa, João Ubaldo Ribeiro, mais uma vez, causa impacto e talvez até estupefação. Autor de obras consideradas clássicas em sua própria época, como Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, ele novamente surpreende o leitor com um romance que pode ser tido como fundador, da mesma forma que Viva o povo brasileiro inaugurou um ciclo de livros voltados para a nossa identidade e história comum. Com este Diário do farol, João Ubaldo Ribeiro volta à condição de proclamador. Trata-se do primeiro romance maior da literatura brasileira vinculado estritamente à descrição e contemplação do mal: o mal que nos rodeia e nos atinge, mas preferimos ignorar. Neste sentido, Diário do farol rompe barreiras, preconceitos e noções confortáveis, para nos confrontar com verdades inescapáveis.

E o resume prossegue nesse tom, adiantando que a história é contada em primeira pessoa e mostra o ponto de vista de um psicopata. No fim da orelha, os editores fazem um auto-elogio, dizendo que editoras precisam ser corajosas e não apenas comerciais, e por isso o mérito da editora Nova Fronteira em publicar aquele livro. Li essas informações quando já estava com o livro em casa; acredito que se tivesse lido na biblioteca, teria optado por outro. Pensei logo que o livro me remeteria a sentimentos como os da leitura de Serial Killer, de Ilana Casoy. Nele, conhecemos a vida de psicopatas, e que nos gera um sentimento de medo e desesperança com o ser humano. Pensei, também, no livro que a Érica me sugeriu há poucos dias, chamado Auschwitz, que gera um sentimento de medo e desesperança institucionalizado. Mas era um João Ubaldo, e o livro da coleção Plenos Pecados dedicado à luxúria, A casa dos budas ditosos, também havia sido polêmico e minha alma não se perdeu por causa dele.

Em poucas horas, devorei metade do livro. Ele realmente fala do mal e do ponto de vista de um psicopata. É inacreditável pensar que o livro – e por consequencia a orelha – é apenas de 2002. Aquele choque diante do tema que o resumo oferece me parece tão datado. Meu sentimento ao narrador do livro me lembra muito mais a série Breaking Bad. O início da série cria uma identificação tão grande com o protagonista Walter White, que a partir dela criamos uma empatia que se mantém mesmo por toda série, mesmo ele se afastando cada vez do que criou essa empatia. No episódio piloto vemos um homem inteligente, tímido e com horror a armas, com a vida medíocre dos que sempre foram honestos. Ele tem um filho com problema físico que sofre preconceito, está com problemas com o cartão de crédito, outro filho está a caminho, tem um segundo emprego onde não é respeitado e é humilhado por um aluno riquinho. Quando recebe o diagnóstico de câncer no pulmão, mesmo sem nunca ter sido fumante, parece que a própria natureza está contra ele. E o que ele recebe por sempre ter sido tão correto é a impossibilidade de pagar pelo seu tratamento. A partir daí, começa a série, onde Walter abandona o papel de vítima e resolve fazer anfetaminas para ganhar muito dinheiro.

A descrição que o protagonista faz da sua infância em Diário do Farol tem o mesmo efeito sobre o leitor. As humilhações e as maldades contínuas do seu pai, a solidão e a vontade de se vingar soam fundo. Não tem como não se identificar com o que ele narra e considerar seus êxitos uma forma de vitória. O protagonista se vinga e mata de uma maneira como nunca faríamos, mas quem se importa? Como já discuti em outro texto, nós, os comuns, somos corretos e nos sentimos trouxas por sermos corretos. Sem a certeza de um céu para nos consolar e sem ver a justiça premiar os bons, há muito deixamos de nos identificar com os que sofrem calados. Aqueles que se vingam de verdade acabam realizando o nosso desejo irrealizado de fazer as coisas acontecerem.

Nego Leléu

De vários tipos inesquecíveis de Viva o Povo Brasileiro, Nego Leléu é um dos melhores. Diria que é um dos personagens memoráveis da literatura brasileira, e um dos que eu guardo comigo. Ele consegue ser engraçado e profundo; seu envelhecimento nos mostra nuances cada vez mais ricas, que acabam por arrebatar o leitor. Gosto deste trecho que, mais do que Leléu, exibe a prosa fluida de João Ubaldo Ribeiro. Ele conduz o leitor por expressões e referências que o têm tudo a ver com a época e a geografia de Nego Leléu. Além de ser forte e estimulante. Se você acredita que em um único parágrafo é possível reconhecer um bom autor, entenderá o sucesso do livro:
Mas Nego Leléu se entrega? Entrega não! Sabe como é a baleia que se apelida de Toadeira? É o mais valente ser vivente existente, que recebe pelo flanco arpoadas, que se vê cercado dos inimigos mais mortais que qualquer bicho pode ter, que vê o mar virado num espinheiro fatal e então, levantando o dorso como um cavalo de nobreza, sacudindo a cabeça como um combatente que não se rende, não dá ousadia de bufar, não dá ousadia de gemer, mas segura o ardor de tantos dardos lhe mordendo as costas, manda que seu sangue lhe seja fiel naquela hora e, com um arranco a que nada na terra pode resistir, estraçalha o que lhe vier à frente e leva barco, leva gente, leva corda, leva tudo, num carreirão de espuma e água pelos sete mares, vencendo assim quem quer que pensa que é vencido aquele que vencido não vai ser, pela força do orgulho e da resistência. Eu não sou nada, pensou. Nego Leléu aos poucos foi se virando numa baleia Toadeira, sou um negro safado que nunca ninguém quis, mas eu sou eu e não há esse trabalho que eu queira trabalhar que não trabalhe e esta corda eu puxo, este barco inimigo eu destruo, à topetadas, neste mar eu mergulho, vamos lá, Nego Leléu!
Viva o Povo Brasileiro, p.327

Viva o povo brasileiro

O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal pra pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de côco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia passado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele. Também usaram as sobras para iscas de siri e de peixinho de rio, sendo os bofes e as partes moles o que melhor serve, como caboco logo descobriu.

p. 40
Adorei o livro. Alguns trechos são de um senso de humor indecente. Eu conhecia João Ubaldo pela coleção Plenos Pecados, o livro dedicado à Luxúria e recorde de empréstimo na Biblioteca. Mas faz muito tempo. Quando no início do Viva o Povo apareceram algumas descrições de mulheres sendo pegas à força, pensei se ele não seria um daqueles autores magistrais apenas no ponto de vista masculino – assim como mulheres podem saber apenas escrever do ponto de vista feminino. Mas depois quando ele fala do mesmo assunto, sem meias palavras, do ponto de vista da mulher que foi atacada, ele se mostrou tão sensível e preciso quanto. João Ubaldo Ribeiro descreve com a mesma naturalidade e empatia o caráter violento, o orgulho, a ambição, a falta de escrúpulos, assim como é capaz de nos levar a amar outro personagens, pelo seu idealismo, sua sensibilidade, seu amor, ou a tragicidade do seu destino.
O senso de humor dele também está presente na maneira como alguns personagens se desenrolam, tomando rumos inesperados, negando o que um dia foram, retornando às suas raízes mesmo que as ignorem. Ele mostra o problema da história, por certas coisas se perdem com o tempo, algumas por querer. Equívocos são mantidos e as mentiras úteis são repetidas até se tornarem verdadeiras. Como era de se esperar, no início da colonização os personagens são brutos, violentos, não existe honestidade possível e nem ao menos uma idéia de honestidade. Existem apenas vítimas e os que fazem de tudo para estarem por cima. À medida em que o livro (e o tempo) avança, outras características são necessárias para vencer. Os personagens substituem a violência pela astúcia, pelas influências, pela rede de conhecidos e o pensar antes de agir.
Nesse sentido, Viva o Povo brasileiro me lembra o Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Os personagens mais interessantes de Érico são os do início, que lutam contra uma realidade mais dura e por isso mais heróica: Ana Terra e Capitão Rodrigo. Seus descendentes vão ficando tão civilizados quanto desinteressantes. Isso acontece um pouco no Viva o Povo, embora de maneira mais lenta. Mas as semelhanças entre os dois livros são poucas. A narrativa de Érico é tradicional, enquanto João Ubaldo se permite brincar, ir e voltar no tempo; Érico se compromete com personagens da mesma família, mesmo os sem brilho, enquanto João Ubaldo conta episódios, abandona alguns personagens para nunca mais retornar, enquanto outros merecem aprofundamento. E aquela característica já citada, da capacidade de João Ubaldo se colocar no papel das mulheres, falta claramente em Érico (que fez mea culpa disso em edições posteriores). Em Tempo e o Vento, as esposas se adaptam com tranquilidade à matriarca da família Terra-Cambará; oras, uma mulher aceitar o domínio de outra na esfera doméstica – a única em que eram permitidos jogos de poder às mulheres – nunca é tranquila. Só um homem poderia dizer uma coisa dessas. As mulheres de João Ubaldo se mostram mais ativas e fazem o que podem para serem felizes apesar das convenções.
Em Viva o Povo Brasileiro, vemos que o desprezo das nossas elites pelo povo é um lugar comum. Dos portugueses com os nativos, dos brancos com os negros, dos mestiços com os negros, mestiços esses que fazem de tudo para negar sua ascendência e buscam o clareamento da prole. Por se verem como europeu expatriados, não existe a identificação e nem o desejo de ajudar. O problema da ignorância e pobreza é sempre motivo de queixa, mas eles não acham que fazem parte disso. O povo brasileiro se vê obrigado a buscar uma identidade nacional em meio a esse descaso. Isso faz com que o livro se torne engajado, porque ele olha para séculos de abandono com carinho, e tenta alertar para o futuro. Tanto que seu título um grito de guerra, repetido pelos seus personagens mais valorosos: Viva o povo brasileiro!

O ofício do autor, João Ubaldo Ribeiro

Muitas coisas neste mundo não podem ser descritas, como sabem os que vivem da pena, azafamados entre vocabulários e livros alheios, na perseguição da palavra acertada, da frase mais eloquente, que lhes possam render páginas extras de prosa às custas de alguma maravilha ou portento que julguem do interesse dos leitores, assim aumentando sua produção e o pouco que lhes pagam. Recorrem a comparações, fazem metáforas, fabricam adjetivos, mas tudo acaba por soar pálido e murcho, aquela maravilha ou portento esmaecendo, perdendo a vida e a grandeza, que falta do bom verbo por mais bom não pode suprir, qual seja a de não se estar presente ao indescritível. Nas minudências da intriga e do enredo, amores dificultados, maldades contra inocentes, dilemas dilacerantes, azares do Destino, coincidências enganosas, surpresas bem urdidas, arroubos de paixão e tudo mais que constitui justa matéria dos romances e novelas, nisto sai-se ele menos mal, conforme sua destreza no ofício, sendo esses enredos e intrigas os mesmos desde que o mundo é mundo. Como, porém, descrever um cheiro?

João Ubaldo Ribeiro/ Viva o povo brasileiro