Sexo, pornografia e mulheres

Achei esse vídeo por acaso, curtido por uma amiga no Facebook. A pessoa que curtiu e a substituição do Adão por uma cruz logo nas primeiras cenas, me fazem pensar que ele circule entre religiosos, quem sabe o palestrante responda por alguma crença. Nos comentários do youtube – pois é, quebrei a regra de jamais lê-los – duas visões opostas: uns se queixam dos “fiscais de punheta” e os que concordam com o vídeo citando a religião.

Imagem de Amostra do You Tube

(Eu sei que não vai adiantar nada dizer isso, que serei chamada de fiscal de punheta de qualquer jeito, mas: não pertenço a nenhuma religião, não tenho nada contra masturbação, sexo antes do casamento, experiências sexuais, etc. Sou à favor de toda forma de sexualidade consensual entre indivíduos adultos.)

Já faz alguns anos que linkei aqui um artigo sobre a indústria pornô e que me deixou bastante chocada na época. O título do artigo pergunta: Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade? e ele é uma entrevista com Gail Dines, que publicou uma pesquisa sobre a indústria pornográfica, desde a fundação da Playboy e da Penhouse até a pornografia da era da internet.

As partes que copiei a seguir se parecem muito com os insights do vídeo. Elas falam de uma mudança na sexualidade daqueles que veem pornografia. E que daqui em diante a sexualidade das pessoas vai mudar em função dessas imagens – e não parece ser para melhor:

A internet mudou a indústria. Tornou-a acessível, e barata. Então lembre-se, quando a média de idade de ver pornografia pela primeira vez é 11, quando o menino de 11 anos põe “pornografia” no Google, ele não está olhando para a Playboy de seu pai, ele está olhando para um mundo de crueldade, e um mundo de brutalidade . Então o que eu pergunto no livro é: “Quais são as consequências a longo prazo de criar os meninos com imagens violentas quando você pensa na pornografia como sendo a principal forma de educação sexual em nossa sociedade? [….]

Tem sido motivo de estudos por 30 anos – sobre os homens, principalmente – o que eles acham, e o que eu encontrei em minhas entrevistas, é que quanto mais os homens vêem pornografia, menos eles são capazes de desenvolver relacionamentos íntimos. Também o que é interessante é que eles perdem o interesse em mulheres reais, porque a pornografia é tão hard-core – é o sexo a força da industria – nada menos que aquilo  parece brando e enfadonho. Além disso, os homens acham que devem se comportar como os homens na pornografia, eles acham que o pênis devem ser semelhantes aos dos atores pornô, e eles acham que deveriam ser capazes de realizar atos sexuais por horas como os homens fazem na pornografia. O que eles não percebem é que um monte de homens da pornografia usam Viagra, é por isso que é tão possível … E eles começam a ver as mulheres realmente como objetos. Não como alguém a ter relacionamentos, mas como alguém para se usar para algo. O sexo se torna algo como fazer ódio ao corpo de uma mulher. Eles não fazem amor na pornografia, fazem ódio. [….]

Bem, é muito interessante nós dizermos isso, como alguém que estuda a mídia e como alguém que é progressista, quando estudamos midia de extrema-direita não dizemos que é fantasia. Nós não dizemos, “Quer saber, não se preocupe com Glenn Beck, não se preocupe  com Rush Limbaugh – as pessoas podem distinguir”. Não, nós entendemos que a mídia molda a nossa maneira de pensar. Ela molda a realidade, que molda as nossas percepções do mundo. A pornografia é mais uma forma de mídia. É um gênero específico, que, por sinal, é muito poderoso, pois entrega as mensagens para o cérebro dos homens através do pênis, que é um sistema de entrega extremamente poderoso. Então eu acho que a ideia de que é apenas fantasia não é confirmada, dada a estudos que nós sabemos sobre como a pornografia, e como as imagens em geral, afetam a visão das pessoas de todo o mundo.

A queixa contra fiscais de punheta é claramente uma reclamação no sentido de: não mexam com o meu desejo! O desejo é o que temos de mais íntimo e difícil de negociar. Se fosse tão simples, anos de reprovação teriam conseguido sufocar a homossexualidade. Existe, realmente, algo que ultrapassa a decisão consciente. Gostamos de reservar à nossa sexualidade a liberdade de não ter que responder aos códigos morais comuns. A sexualidade é associada à liberdade; a conduta pacífica e respeitadora no mundo e selvagem entre quatro paredes é como um mundo ideal.

O incômodo dessa pesquisa é perceber que não somos tão livres. Enquanto conscientemente não conseguimos ou abrimos mão de negociar com os nossos desejos, o mercado tem feito isso de maneira bastante eficiente. E – adivinhe – uma das maiores vítimas desse mercado é o corpo feminino.

O que você vê é uma mulher sendo penetrada brutalmente na  vagina, anus e oralmente. Como o que está acontecendo – três homens de uma só vez, quatro homens de uma só vez – ela está sendo chamada vil, nomes de ódio, ela está sendo estapeada, às vezes, seu cabelo é puxado … A própria indústria diz que muitas mulheres têm dificuldade em estar na indústria por mais de três meses. Por quê? Devido à brutalização do corpo. [….]

Além disso, eu entrevistei alguém que trabalhou com o AIM, a organização que cuida da saúde dos artistas pornô, e ele me disse o que acontece com os corpos destas mulheres. Por exemplo, ele disse que uma das grandes coisas são prolapsos anais, onde literalmente seus ânus caem de seu corpo e tem que ser costurados de volta por causa do sexo anal brutal. Ele também falou sobre a gonorréia do olho, comum atualmente – porque você tem algo chamado [do cu para a boca_ ass to mouth] – eles colocam o pênis no ânus, e depois em sua boca sem lavar. Eles estão descobrindo agora que as mulheres estão pegando infecções bacterianas fecais na boca e garganta. [….]

Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?

 

UPDATE: Um artigo mais recente e com foco na adolescência – A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de  garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”

Suas pacientes estavam profundamente envergonhadas por apresentar tais lesões. Elas mentiam  para as mães sobre o assunto e sentiam que não podiam desabafar com mais ninguém, o que só aumentava o sofrimento. Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

Mão naquilo

Eu geralmente me abstenho de discutir um assunto quando ele já é tratado por muita gente e com muita propriedade. É o caso da última polêmica, do caso Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para mim, a foto já era agressiva por si só. Comentários de internet têm a capacidade de nos deprimir em qualquer assunto, e nesse caso não foi diferente. Era brincadeira, ela gostou, quem mandou ir de vestido curto (argumento do próprio Gerald Thomas), o Pânico merecia, Gerald foi um gênio e agiu “fora da caixa”, etc. Eu sou mulher e vi aquela foto como uma mulher, pensei no que seria se um homem que nunca vi na vida, que não desejo, colocasse a mão em mim daquela forma na frente de uma platéia que não me defendesse. Não consigo deixar de achar que ela se sentiu extremamente humilhada. É uma humilhação que talvez apenas outra mulher possa entender.

Como explicar esse pudor a um homem? Eu poderia dizer “imagine se uma velha nojenta…” ou “imagine se um homem…” e não seria a mesma coisa. A relação que um homem tem com o seu sexo, com o seu pênis, é totalmente diferente. Anatômica e culturalmente falando, o pênis sempre foi algo exposto. Ele é mostrado orgulhosamente, ele é medido, ele recebe apelidos, ele é simbolizado em gestos obscenos, ele se confunde com seu próprio dono. Enquanto até a palavra pênis é dita com naturalidade, hesito até em escolher um termo para falar da mulher: xoxota, buceta, vagina? Cada termo tem uma carga, soa de maneira estranha, tende a algo libidinoso. A mulher aprende a se esconder, a não tocar e nem pensar no assunto, a nem saber como ela é embaixo, a corar com qualquer referência a tamanho ou formato. Penso em quantas mulheres têm câncer de colo de útero, uma doença que leva muito tempo para se desenvolver, por causa do tabu de fazer um exame simples como o papanicolau. O que entra, como entra, quando entra – o valor de uma mulher sempre foi medido (hoje menos, esperamos que no futuro menos ainda) pela quantidade de homens que podem ter acesso a sua vagina. E sabemos que é um valor negativo: quanto menos acesso, mais valorosa a mulher é. O maior ícone dessa idéia é a Virgem Maria.

Se ambas mostram mulheres nuas, porque dizemos que a Playboy tem um “nível melhor” do que a Sexy? A revista Sexy é mais escancarada, mais pornográfica, ela faz o que chamamos de “closes ginecológicos”. Com closes vaginais, não é mais possível dizer que um ensaio nu é artístico, porque a vagina é a diferença entre o artístico e o pornográfico, o sugerido e o escancarado. Ou seja, mostrar uma vagina é tão desejado quanto proibido, é de uma sexualidade indisfarçável e por isso mesmo “de baixo nível”. A nudez feminina se faz ainda mais nua quando uma mulher permite o acesso à sua vagina, porque a vagina é a última fronteira da sua sexualidade. Do lado oposto ao da Virgem Maria, que de tão santa é intocada, está a puta, aquela que não tem mais qualquer intimidade, qualquer moralidade, aquela que tem uma vagina pública.

A vagina é o canto mais reservado, ela é de uma intimidade que não há correlação em um homem, porque o homem é público. Pensemos nas dicotomias apontadas por Bourdieu em A dominação masculina: o homem é público, exterior, visível, agressivo; a mulher pertence à esfera do íntimo, privado, invisível, dócil. Quando saem da esfera do privado, a mulher e a sua vagina deixam de pertencer ao papel que lhes é reservado, o que tampouco faz com que sejam reconhecidas como masculinas. Elas se tornam putas, aquelas figuras desprezadas por homens e mulheres. Uma mulher que tem uma vagina que pode ser manipulada em público, sem que ninguém a defenda, é uma mulher sem o menor valor, é uma mulher sem direito à intimidade.

Muitos consideram o ato de Gerald Thomas justo quando pensamos nos abusos que o Programa Pânico têm cometido ao longo dos anos. Pode ser que eles realmente mereçam o troco, mas é uma pena que esse troco seja dado justamente no elo mais fraco do programa: numa Panicat. As Panicats que ganham pouco, que têm fama de prostitutas, que são escolhidas unicamente pela estética. São mulheres que precisam ficar rebolando de biquíni sem abrir a boca, que podem ser humilhadas dentro do próprio programa, que são pressionadas a esculpir o corpo e depois são facilmente demitidas porque não têm carisma ou estão masculinas demais. O mesmo programa que comprou imediatamente uma briga quando Netinho de Paula deu um soco no repórter Vesgo, deu risada e disse que não foi nada demais quando abusam de uma Panicat. Em outras palavras, era apenas uma panicat, uma mulher, uma gostosa que rebola pra gente. Essas coisas me fazem pensar que mulheres e vaginas ainda são, para muitos, apenas coisas a serem violadas num feliz mundo falocêntrico.

Libido

Para Freud, toda libido é sexual. Esse ponto da sua teoria foi contestado por uns discípulos e aceito por outros. Na psicanálise de raiz, o sentimento de prazer estético, o amor platônico, o interesse intelectual e qualquer outra forma de prazer que não envolve sexo seria apenas o desvio dessa libido. O mesmo desvio que nos permitiu a civilização. Por modificar a libido, tiramos o prazer derivado da manipulação dos nossos corpos e dos corpos dos outros, atrasamos a satisfação dos sentidos, aprendemos a sentir prazer sem sexo. Às vezes tão sem sexo – que estaria somente muito bem reprimido – que nem parece que um dia houve sexo ali, e a própria idéia de que lá existe sexo nos parece ofensiva. Quanto mais repressão, mais civilização.

Marcuse pegou a questão da libido freudiana e procurou atualizar o raciocínio. A questão de ser ou não sexual em sua origem é de uma importância menor. O desvio da libido e o atraso da sua satisfação teria atingido, nas sociedades capitalistas modernas, um grau imprevisto. Teríamos reprimido tanto a libido que ela nunca encontra satisfação. A libido, quando reprimida até certo ponto, causa prazer. A tensão a ser liberada se torna maior, e por consequencia a sensação de alívio também. Só que se a tensão nunca é relaxada, ela se torna algo doloroso. A lógica de mercado, com sua disputa e competição infinitas, teria contaminado nossa forma de ser. O resultado disso é uma incapacidade de diminuir a tensão e de libertar a libido. Restringimos o erótico ao sexo, enquanto prazer é muito mais do que isso. Reduzir o prazer sensual (ou físico, ou erótico) a sexo nos tornaria cada vez mais incapazes de vivenciá-lo na forma de beleza, arte, convívio. A mais-repressão teria nos transformado em máquinas que nunca desligam.

Tenho uma teoria pessoal que diz a base de problemas de obesidade mórbida, sexo compulsivo, visão distorcida do próprio corpo, dentre outros, estão nesse fenômeno que Marcuse aponta. A raiz desses males, pra mim, é a incapacidade de ter no seu corpo uma fonte ampla de prazer. Quem me ensinou isso foi a dança e – por que não? – algumas aulas de academia. Existe um conhecimento dentro da pele que não pode ser transmitido em palavras. Um conhecimento rico e amplo, que abre nossa visão, que nos coloca no mundo de maneira que o conhecimento puramente filosófico não é capaz. Esse conhecimento físico só pode ser vivenciado e cultivado de maneiras igualmente físicas. Para os de fora, pode no máximo ser assistido, constatado ou admirado. A incapacidade de colocá-lo por escrito tem feito com que os que se dedicam a ele sejam simplesmente visto como burros. À exceção de algumas profissões – geralmente mal remuneradas – conhecer o próprio corpo é apenas um acessório. A falta de uma cultura letrada é considerada uma vergonha, enquanto a falta de inteligência corporal é apenas uma característica.